(pt) Bandeira Negra: "Mensagem do Movimento das Mulheres do Curdistão: vamos transformar o século XXI na era da liberdade das mulheres!

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Segunda-Feira, 12 de Março de 2018 - 10:19:19 CET


O Movimento das Mulheres do Curdistão (Komalên Jinên Kurdistan - KJK) emitiu uma 
declaração para o Dia Internacional da Mulher. Confira na íntegra: ---- Das montanhas do 
Curdistão, as terras onde a sociedade se desenvolveu com a liderança das mulheres, 
cumprimentamos à todas com nossa grande liberdade, paixão, ambição e luta inquebrável. Dos 
distritos de Rojava às florestas da América do Sul, das ruas da Europa às planícies da 
África, dos vales do Oriente Médio às praças da América do Norte, das montanhas da Ásia 
aos planaltos da Austrália; Com o nosso amor - que não conhece fronteiras - e com os 
nossos sentimentos mais revolucionários abraçamos todas as mulheres que lutam pela 
liberdade e igualdade. ---- Na ocasião do dia 8 de março de 2018, Dia Internacional da 
Luta das Mulheres, lembramos de todas que deram suas vidas na busca pela liberdade, na 
resistência contra a escravidão, na exploração e na ocupação. De Rosa Luxemburgo à Sakine 
Cansiz de Kittur Rani Chennamma à Berta Caceres, de Ella Baker à Henan Raqqa, de Djamila 
Bouhired da Palestina Sana'a Mehaidli à Nadia Anjuman, estamos sempre gratas às guerreiras 
imortais na luta de libertação das mulheres. Sua luz rompe a escuridão que nos impuseram; 
no caminho que elas iluminaram diante de nós, marchamos para a liberdade. Conjuntamente 
lutamos (com e assim como) as que foram assassinadas no decurso da ordem patriarcal de 
cinco mil anos, por meio de todos os tipos de violência masculina, guerras, terror do 
estado, ocupações colonialistas, poderes religiosos mascarados, grupos masculinos, maridos 
e os chamados amantes. É essa memória que aumenta a nossa determinação inabalável de 
acabar com o feminicídio, que é a guerra mais longa do mundo.
Caras Mulheres, Companheiras, Irmãs,
Estamos em meio a um processo histórico no qual o sistema patriarcal, enquanto parte da 
civilização estatista contemporânea atravessa uma profunda crise estrutural. Como 
mulheres, devemos diagnosticar as causas e consequências dessa crise sistêmica e 
estabelecer análises sólidas para o desenvolvimento de perspectivas que acelerem nossa 
luta. Porque, assim como essa crise estrutural se constitui em uma grande ameaça para as 
mulheres no mundo, esta situação também oferece oportunidades para a garantia de nossa 
liberdade e, essas oportunidades só podem vir uma vez por século. Nós até dizemos: podemos 
transformar o século XXI na era da libertação das mulheres! Isso não é um sonho ou uma 
utopia. É uma realidade, mas para torná-la real, devemos criar um programa para de libertação.
Primeiro devemos entender completamente as contradições e os atributos fundamentais da 
época em que vivemos. Quais são as possibilidades e os riscos desses elementos citados na 
perspectiva da libertação das mulheres? Que tipo de responsabilidades devemos assumir a 
este respeito, como organizações de mulheres e movimentos globais?
O sistema mundial entrou no século atual em uma crise profunda nomeando termos tais como o 
"Nova Ordem Mundial".
Na busca de se reorganizar - como alternativa para saída da crise - a modernidade 
capitalista primeiramente tentou aplicar esta nova ordem no Oriente Médio sob o nome de "O 
Grande Projeto do Oriente Médio". Recordamos o processo que começou com as intervenções no 
Afeganistão e no Iraque, continuou com a Primavera Árabe no norte da África e se 
intensificou nos últimos anos na Síria, no Iraque e na "Terceira Guerra Mundial" no 
Curdistão. Enquanto os regimes do Estado-nação no Oriente Médio - criados pelos estados 
ocidentais há cem anos para reproduzir permanentemente o caos e a crise - tentam proteger 
o status quo, as potências estrangeiras tentam dividir a região entre elas novamente.
Chamar o período atual que o Oriente Médio vive de "Terceira Guerra Mundial" não é apenas 
uma tentativa de enfatizar a participação de poderes internacionais. É mais do que isso, 
pois claramente a reconstrução da modernidade capitalista no Oriente Médio terá 
consequências em uma escala global. De fato, o sistema mundial contemporâneo ou a 
modernidade capitalista não é um fenômeno dos últimos 500 anos, sua semente se enraizou na 
forma do primeiro estado há 5 mil anos na Mesopotâmia e, desde então, sofreu diferentes 
transformações para se manter até hoje.
Por esta razão defender o projeto político do Confederalismo Democrático como a "Terceira 
Via" contra disputas pela manutenção do status-quo de estados regionais e 
intervencionistas redesenhados por potências estrangeiras, é uma responsabilidade 
fundamental para todas nós e ultrapassa as fronteiras da Síria e do Oriente Médio. O 
sistema de autonomia democrática que atualmente está sendo construído com a liderança das 
mulheres em Rojava, no norte da Síria, em condições de guerra e resistência é o único 
modelo de solução que tem o potencial de pôr fim à crise, ao caos, contradições e 
conflitos que foram reproduzidos sistematicamente na região durante o século passado. Os 
estados-nação criados com as fronteiras traçadas artificialmente após a Primeira Guerra 
Mundial não só não refletiram a composição étnica, cultural, religiosa e social da região, 
mas também visavam arruinar nossa cultura milenar de vida comunitária. Hoje, no norte da 
Síria, pela primeira vez, está sendo construído um sistema baseado na participação igual e 
livre das mulheres e, no pluralismo étnico e religioso com democracia participativa. Como 
alternativa democrática, esse modelo representa uma solução para os problemas obsoletos do 
Oriente Médio, contra os regimes machistas, sexistas, nacionalistas e sectários, 
alimentados pelo sistema global há décadas.
Esta é a razão pela qual o Estado turco, que tem o segundo maior exército da OTAN, lançou 
uma operação contra o cantão de Afrin em Rojava, no norte da Síria, em 20 de janeiro de 
2018, com toda a força. Esta é também a razão pela qual as potências estrangeiras, como os 
Estados Unidos, a Rússia e a UE, não estão obstruindo os ataques militares contra Afrin. 
Isso ocorre porque Afrin está construindo um modelo de sociedade democrática com um núcleo 
de libertação das mulheres. A resistência é a ascensão das mulheres contra a vida 
capitalista moderna. A cidade e as aldeias vizinhas de Afrin resistem ao fascismo, à 
misoginia, ao afastamento da natureza, aos valores culturais e à animosidade entre os 
povos. É claro que não é apenas o estado turco e seus recrutados do estado islâmico, que 
estão enfrentando as Unidades de Defesa de Mulheres e as pessoas em Afrin. Em essência, em 
um pequeno território como Afrin, dois sistemas mundiais, duas ideologias, dois projetos 
futuros colidem em um nível colossal. Enquanto um se baseia na libertação, na ecologia e 
no pluralismo das mulheres, o outro é formado por misoginia, poder masculino, monismo, 
dominação e exploração. Um brilha com todas as cores da vida, enquanto o outro representa 
a escuridão. Portanto, é de vital importância para as mulheres do mundo reivindicar e 
defender a crescente resistência contra o fascismo em Afrin. Porque o que é atacado e o 
que é defendido são valores universais da liberdade das mulheres. Nesta ocasião, como KJK 
(Comunidade das Mulheres do Curdistão) damos as boas-vindas e felicitamos as combatentes 
da liberdade que assumem a liderança da resistência em Afrin, bem como a cidade de Afrin, 
que heroicamente defende suas terras contra os invasores. As mulheres e a unidade 
ganharão. O fascismo perderá!
O processo de revolução em andamento no norte da Síria demonstra esta verdade para todas 
nós: as revoluções reais devem ser as revoluções das mulheres. As tentativas 
revolucionárias que não se baseiam na libertação das mulheres não têm chance de sucesso. A 
razão fundamental para a incapacidade dos movimentos socialistas e revolucionárias do 
século XX alcançarem seus objetivos, apesar de seus inúmeros sacrifícios, dedicação e 
programas fortes, é o fato de não colocarem a libertação das mulheres no centro de suas 
batalhas. A questão da libertação das mulheres não é uma preocupação secundária, mas é a 
base de todas as outras questões. As mulheres são a primeira classe oprimida, escravizada, 
explorada, colonizada e dominada. Todas as outras formas de exploração começam após a 
exploração das mulheres. Por esta razão, liderar uma luta efetiva contra o sistema 
hegemônico só será possível no âmbito de um forte programa de ideologia e libertação, no 
qual as mulheres se organizem de forma independente e desempenhem um papel ativo 
separadamente. Nossa experiência de 30 anos de luta ideológica e prática como Movimento 
Pela Liberdade de Mulheres do Curdistão, nos mostra isto.
Queridas mulheres, queridas companheiras,
Uma vez que a semente do sistema global que deu base à modernidade capitalista reside no 
Oriente Médio, especificamente na Mesopotâmia, a atual crise sistêmica também é mostrada 
de forma mais clara e mais direta nesta região. Mas, como a crise vivida pelo sistema 
mundial capitalista patriarcal é global, não há terra que esteja livre dessa crise, nenhum 
lago, montanha ou rio que não tenha sido tocado, nenhuma sociedade que não tenha sido 
afetada pelas tentativas de dominação. No entanto, as mulheres são as mais afetadas pela 
crise. Isso, por sua vez, está diretamente relacionado ao caráter sexista da modernidade 
capitalista. O sistema está tentando superar sua crise explorando e abusando das mulheres 
ideológica e materialmente de uma maneira ainda mais enérgica.
Na verdade, é assim que tenta garantir sua existência.
Contra as reivindicações comuns, o liberalismo, como uma das ideologias fundamentais do 
Estado-nação, não contribuiu positivamente para a libertação e a igualdade das mulheres. 
Pelo contrário, especialmente na era do liberalismo, o sexismo foi desenvolvido e usado 
como um elemento ideológico. É uma grande mentira que o liberalismo liberte as mulheres. 
De fato, a mercantilização das mulheres em termos de seu corpo, personalidade e alma 
constitui a forma mais perigosa de escravização.
A libertação das mulheres é o poder opositor fundamental ao sistema mundial capitalista 
patriarcal. Todas as formas de poder, hegemonia, exploração, saque, escravidão, violência 
e opressão que o sistema cria, depende do domínio sobre a mulher. A escravidão e a 
propriedade impostas às mulheres, passo a passo, se espalham pela sociedade como um todo. 
Essa é a razão pela qual a luta de libertação das mulheres, de todas as lutas 
antissistemas, tem o maior poder para sacudir os alicerces do sistema hegemônico 
masculino. E, na verdade, é essa dinâmica que revela a crise que o sistema experimenta. 
Como mulheres, devemos ver claramente o poder que possuímos e o efeito que criamos.
Nesse sentido, o aumento maciço de violência e ataques contra mulheres em todo o mundo 
está diretamente relacionado a esta situação de crise e a relação entre o sistema mundial 
capitalista patriarcal e a libertação das mulheres. O sistema sexista, baseado na 
exploração, ataca a mulher, que representa o maior desafio e perigo para seu poder. Na 
verdade, estamos falando de uma guerra sistemática de agressão. A forma desta guerra de 
agressão pode diferir no nível local, mas estamos essencialmente diante de um fenômeno 
universal. Devemos ver as conexões entre estupros na Ásia e violência de gênero nos EUA. 
De forma holística, devemos examinar os assassinatos de mulheres na América Latina, que 
atingiram o nível de massacres, bem como o sequestro e a escravização de mulheres e 
meninas com máscaras de religiosidade na África e no Oriente Médio. Juntas, devemos 
analisar o surgimento dos regimes fascistas e misóginos e o ataque aos avanços alcançados 
pelas mulheres, como resultado do avanço de suas lutas. E temos que estar plenamente 
conscientes do fato de que esta guerra, liderada pelo sistema patriarcal em escala global, 
está tentando sufocar a busca e a luta da libertação das mulheres.
Porque talvez, o sistema dominado pelos homens, nunca tenha sido tão pressionado na 
história da civilização. Suas bases nunca foram abaladas em tal grau. Da mesma forma, da 
perspectiva das mulheres, as condições para assegurar sua libertação nunca foram tão 
maduras. As possibilidades de realizar a segunda grande revolução das mulheres nunca 
chegaram a esta etapa. É por isso que estamos passando por um período histórico. Grandes 
oportunidades estão disponíveis, mas os perigos são de igual tamanho.
Se for esse o caso, o que devemos fazer, se quisermos enfrentar esses perigos e avaliar 
efetivamente as possibilidades de garantir a libertação das mulheres e, por meio disso, a 
libertação de toda a sociedade? Como podemos nos defender contra os ataques crescentes do 
sistema? Nesse sentido, a autodefesa não deve ser entendida como passiva. É necessária uma 
autodefesa ativa. A maior e mais efetiva forma de autodefesa é criar vida livre e 
restringir as veias do sistema dominado pelos homens. Devemos tornar a vida insuportável 
para o sistema e não o contrário. Mas para que isso aconteça, devemos levar nossa luta a 
um nível mais alto. Numa escala global, a luta de libertação das mulheres criou uma base 
sólida em termos teóricos e práticos. Mas agora é a hora de se movimentar.
Como Movimento para a Libertação da Mulher do Curdistão, estamos envolvidas em uma grande 
luta por mais de 30 anos para aprofundar a Ideologia da Libertação da Mulher, para revelar 
o poder e a consciência da autodefesa das mulheres, para garantir a participação 
igualitária e livre das mulheres na esfera política, superar o sexismo em todas as esferas 
da vida e acelerar a liberdade das mulheres. Neste caminho, sempre entendemos a grande 
importância e o significado de compartilhar nossos resultados e conclusões com todas as 
mulheres do mundo. E agora, com grande entusiasmo, alegria e determinação, para 
transformar o século XXI na era da mulher libertada, a fim de promover a segunda grande 
revolução das mulheres, buscamos cumprir nossa missão como Movimento de Libertação da 
Mulher a nível internacional.
Queridas mulheres.
É absolutamente essencial que nós organizemos a internacionalmente a criação de um sistema 
global livre e igual de mulheres contra o sistema mundial machista, patriarcal e 
capitalista. Uma tática crucial do sistema hegemônico é a divisão. Nosso poder, no 
entanto, deriva da unidade. Sem rejeitar as diferenças entre nós, ao mesmo tempo em que 
protegemos nossas particularidades e cores, não há nada que uma luta de liberdade global 
de mulheres não possa alcançar. Para que isso aconteça, devemos desenvolver alianças 
democráticas das mulheres. Devemos desenvolver formas, métodos e perspectivas adequadas às 
condições, características e necessidades do século XXI. Essencialmente, todas devemos 
desenvolver o programa de libertação das mulheres do século XXI.
Como Movimento de Libertação das Mulheres do Curdistão, devemos o desenvolvimento da nossa 
revolução, como uma revolução feminista, ao nosso líder, Abdullah Öcalan, que, há 19 anos 
foi sequestrado pela conspiração da organização de estado chamada OTAN e ainda hoje é 
refém, em termos historicamente sem precedentes, e em condições de total isolamento na 
Turquia. São as análises do sistema de Öcalan, suas perspectivas de libertação, sua 
transformação pessoal, seus esforços intermináveis para o desenvolvimento do movimento de 
liberdade das mulheres que compõem o poder por trás dessa dinâmica que agora inspira 
pessoas em todo o mundo. Seu confinamento em uma ilha prisão nos últimos 19 anos e seu 
isolamento completo do mundo exterior nos últimos 3 anos, são devidos à influência de suas 
ideias. Mas os pensamentos não podem ser isolados; Espíritos livres não podem ser reféns.
O seguinte trecho das perspectivas de Öcalan, desenvolvido em condições de isolamento na 
prisão, é esclarecedor da perspectiva da universalidade da luta de libertação das mulheres:
"Sem dúvida, a consideração da situação das mulheres é uma dimensão da questão. Mas o que 
é mais importante diz respeito à questão da libertação. Em outras palavras, a solução do 
problema é de grande importância. Costuma-se dizer que o nível de liberdade geral da 
sociedade pode ser medido pela liberdade das mulheres. O que é certo e importante de 
considerar é como esta afirmação pode ser completada. A libertação e a igualdade das 
mulheres não somente determinam a liberdade e a igualdade da sociedade. Para isso, a 
necessária teoria, programa, organização e planos de ação são necessários. Mais importante 
ainda, mostra que não pode haver políticas democráticas sem mulheres e, além disso, de 
fato, a política de classes permanecerá inadequada para o desenvolvimento e proteção da 
paz e da natureza."
Como Movimento de Liberdade da Mulher do Curdistão, por ocasião do 8 de março de 2018, 
pedimos às mulheres do mundo: vamos nos juntar e desenvolver conjuntamente a teoria, o 
programa, a organização e os planos de ação necessários para a libertação das mulheres. 
Com a consciência de que apenas uma luta organizada pode trazer resultados, aumentemos 
nossa organização em todas as esferas da vida. Vamos coletivizar nossa consciência, poder 
de análise, experiências de luta e perspectivas para criar nossas alianças democráticas. 
Não nos separemos umas das outras - vamos nos esforçar juntas. E no curso, vamos 
transformar o século XXI na era da libertação das mulheres! Porque este é exatamente o 
momento certo! É hora da revolução feminista!
Em todo lugar é Afrin, em todos os lugares é resistência!
Viva a luta universal da liberdade das mulheres!
Jin, Jiyan, Azadî!"
8 de março de 2018
Komalên Jinên Kurdistan (KJK)

Via Solidariedade à Resistência Popular Curda


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