(pt) liga rj: Discurso Sobre a Servidão Voluntária

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Sexta-Feira, 15 de Junho de 2018 - 06:56:00 CEST


Étienne de La Boétie  (excertos) ---- "Uma única desculpa terá Ulisses e é a necessidade 
que teve de recorrer a tais palavras para apaziguar as tropas amotinadas, adaptando 
(julgo) o discurso às circunstâncias mais do que à verdade. Vistas bem as coisas, não há 
infelicidade maior do que estar sujeito a um chefe; nunca se pode confiar na bondade dele 
e só dele depende o ser mau quando assim lhe aprouver. ---- Quero para já, se possível, 
esclarecer tão-somente o fato de tantos homens, tantas vilas, cidades e nações suportarem 
às vezes um tirano que não tem outro poder de prejudicá-los enquanto eles quiserem 
suportá-lo; que só lhes pode fazer mal enquanto eles preferem agüentá-lo a contrariá-lo. 
Digno de espanto, se bem que muito comum, e tão doloroso quanto impressionante, é ver 
milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do chicote, esmagados não por 
uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só 
homem cujo poder não deveria assustálos, visto que é um só, e cujas qualidades não 
deveriam respeitar porque os trata de maneira desumana e cruelmente.

Tal é a fraqueza humana: temos frequentemente de nos curvar perante a força, somos 
obrigados a contemporizar, não podemos ser sempre os mais fortes.

Está na nossa natureza o deixarmos que os deveres da amizade ocupem boa parte da nossa 
vida. É justo amarmos a virtude, estimarmos as boas ações, ficarmos gratos aos que fazem o 
bem, renunciarmos a certas comodidades para melhor honrarmos e favorecermos aqueles a quem 
amamos e que o merecem. Assim também, quando os habitantes de um país encontram uma 
personagem notável que dê provas de ter sido previdente a governálos, arrojado a 
defendê-los e cuidadoso a guiá-los, passam a obedecer-lhe em tudo e a conceder-lhe certas 
prerrogativas; é uma prática reprovável, porque vão acabar por afastá-lo da prática do bem 
e empurrá-lo para o mal. Mas em tais casos julga-se que poderá vir sempre bem e nunca mal 
de quem um dia nos fez bem.

Mas o que vem a ser isto, afinal? Que nome se deve dar a esta desgraça? Que vício, que 
triste vício é este: um número infinito de pessoas não a obedecer, mas a servir, não 
governadas mas tiranizadas, sem bens, sem pais, sem vida a que possam chamar sua? Suportar 
a pilhagem, as luxúrias, as crueldades, não de um exército, não de uma horda de bárbaros, 
contra os quais dariam o sangue e a vida, mas de um só?

É estranho que dois, três ou quatro se deixem esmagar por um só, mas é possível; poderão 
dar a desculpa de lhes ter faltado o ânimo. Mas quando vemos cem ou mil submissos a um só, 
não podemos dizer que não querem ou que não se atrevem a desafiá-lo. Como não é covardia, 
poderá ser desprezo, poderá ser desdém? Quando vemos não já cem, não já mil homens, mas 
cem países, mil cidades e um milhão de homens submeterem-se a um só, todos eles servos e 
escravos, mesmo os mais favorecidos, que nome é que isto merece? Covardia?

A covardia não vai tão longe, da mesma forma que a valentia também tem os seus limites: um 
só não escala uma fortaleza, não defronta um exército, não conquista um reino.

São, pois, os povos que se deixam oprimir, que tudo fazem para serem esmagados, pois 
deixariam de ser no dia em que deixassem de servir. É o povo que se escraviza, que se 
decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de 
liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios. 
Se fosse difícil recuperar a liberdade perdida, eu não insistiria mais; haverá coisa que o 
homem deva desejar com mais ardor do que o retorno à sua condição natural, deixar, 
digamos, a condição de alimária e voltar a ser homem? Mas não é essa ousadia o que eu 
exijo dele; limito-me a não lhe permitir que ele prefira não sei que segurança a uma vida 
livre. Que mais é preciso para possuir a liberdade do que simplesmente desejá-la?

Como pode alguém, por falta de querer, perder um bem que deveria ser resgatado a preço de 
sangue? Um bem que, uma vez perdido, torna, para as pessoas honradas, a vida aborrecida e 
a morte salutar? Veja-se como, ateado por pequena fagulha, acende-se o fogo, que cresce 
cada vez mais e, quanto mais lenha encontra, tanta mais consome; e como, sem se lhe 
despejar água, deixando apenas de lhe fornecer lenha a consumir, a si próprio se consome, 
perde a forma e deixa de ser fogo. Assim são os tiranos: quanto mais eles roubam, 
saqueiam, exigem, quanto mais arruínam e destroem, quanto mais se lhes der e mais serviços 
se lhes prestarem, mais eles se fortalecem e se robustecem até aniquilarem e destruírem 
tudo. Se nada se lhes der, se não se lhe obedecer, eles, sem ser preciso luta ou combate, 
acabarão por ficar nus, pobres e sem nada; da mesma forma que a raiz, sem umidade e 
alimento, se torna ramo seco e morto.

Não importa verdadeiramente discutir se a liberdade é natural, provado que esteja ser a 
escravidão uma ofensa para quem a sofre e uma injúria à natureza que em tudo quanto faz é 
razoável.

Todas as coisas que têm sentimento sentem a dor da sujeição e suspiram pela liberdade; as 
alimárias, feitas para servirem o homem não são capazes de se habituar à servidão sem 
protestarem desejos contrários. A que azar, pois, se deverá que o homem, livre por 
natureza, tenha perdido a memória da sua condição e o desejo de a ela regressar?

Quando Xerxes se aparelhava para conquistar a Grécia, mandou embaixadores às cidades 
gregas, a pedir-lhes água e terra. A Esparta e Atenas não os enviou, porque os enviados de 
seu pai, Dario que lá tinha ido fazer igual pedido, tinham-nos os espartanos e atenienses 
lançado em covas e outros em poços, dizendo-lhes que tirassem terra e água à vontade e que 
fossem levá-la a seu príncipe. Nenhum daqueles povos tolerava que, sequer por palavras, 
alguém lhes tocasse na liberdade.

Há países em que o Sol aparece de modo diverso daquele a que estamos habituados: depois de 
brilhar durante seis meses seguidos, deixa-os ficar mergulhados na escuridão, nunca os 
visitando no meio do ano; se os que nasceram durante essa longa noite nunca tivessem 
ouvido falar do dia, seria de espantar que eles se habituassem às trevas em que nasceram e 
nunca desejassem a luz?

Nunca se lastima o que não se conhece, só se tem desgosto depois de ter gozado o prazer, 
depois de se ter conhecido o bem e se recordar a alegria passada. É natural no homem o ser 
livre e o querer sê-lo; mas está igualmente na sua natureza ficar com certos hábitos que a 
educação lhe dá. Diga-se, pois, que acaba por ser natural tudo o que o homem obtém pela 
educação e pelo costume; mas da essência da sua natureza é o que lhe vem da mesma natureza 
pura e não alterada; assim, a primeira razão da servidão voluntária é o hábito: provam-no 
os cavalos sem rabo que no princípio mordem o freio e acabam depois por brincar com ele; e 
os mesmos que se rebelavam contra a sela acabam por aceitar a albarda e usam muito ufanos 
e vaidosos os arreios que os apertam.

Com a perda da liberdade, perde-se imediatamente a valentia. As pessoas escravizadas não 
mostram no combate qualquer ousadia ou intrepidez. Vão para o castigo como que manietadas 
e entorpecidas, como quem vai cumprir uma obrigação. E não sentem arder no coração o fogo 
da liberdade que faz desprezar o perigo e dá ganas de comprar com a morte, ao lado dos 
companheiros, a honra da glória.

Os tiranos o sabem e, à vista deste vício, tudo fazem para piorá-lo. Mas esse estratagema 
com que os tiranos humilham os súditos está, mais do que em qualquer outro lado, 
explicitado no que Ciro fez aos lídios, depois de se ter apoderado de Sardes, capital da 
Lídia, quando aprisionou o riquíssimo rei Creso e o levou cativo. Trouxeramlhe a notícia 
de que os de Sardes se tinham revoltado. Ter-lhe-ia sido fácil dominá-los. Não desejando 
saquear uma tão bela cidade nem querendo destacar para lá um exército que a vigiasse, 
recorreu a um outro expediente. Fundou nela bordéis, tabernas e jogos públicos e publicou 
um decreto que obrigava os habitantes a freqüentá-los. Tão bons resultados teve esta 
guarnição que foi desnecessário daí em diante levantar a espada contra os lídios. Os 
desgraçados divertiram-se a inventar toda a casta de jogos, de tal forma que a palavra 
latina usada para significar "passatempos" é a palavra "ludi", que vem de "Lydi", lídios.

Passarei agora a um ponto que, a meu ver, constitui o segredo e a mola da dominação: o 
apoio e o alicerce da tirania. Quem pensar que as alabardas dos guardas e das sentinelas 
protegem o tirano, está, na minha opinião, muito enganado; usam-nos, creio, mais por 
formalidade e como espantalho do que por lhes merecerem a confiança. Não são as hordas de 
soldados a cavalo, não são as companhias de soldados peões, não são as armas que defendem 
o tirano.

Parece à primeira vista incrível, mas é a verdade. São sempre quatro ou cinco os que estão 
no segredo do tirano, são esses quatro ou cinco que sujeitam o povo à servidão. Sempre foi 
a uma escassa meia dúzia que o tirano deu ouvidos, foram sempre esses os que lograram 
aproximar-se dele ou ser por ele convocados, para serem cúmplices das suas crueldades, 
companheiros dos seus prazeres, alcoviteiros suas lascívias e com ele beneficiários das 
rapinas. Tal é a influência deles sobre o caudilho que o povo tem de sofrer não só a 
maldade dele como também a deles. Essa meia dúzia tem ao seu serviço mais seiscentos que 
procedem com eles como eles procedem com o tirano. Abaixo destes seiscentos há seis mil 
devidamente ensinados a quem confiam ora o governo das províncias ora a administração do 
dinheiro, para que eles ocultem as suas avarezas e crueldades, para serem seus executores 
no momento combinado e praticarem tais malefícios que só à sombra deles podem sobreviver e 
não cair sob a alçada da lei e da justiça. E abaixo de todos estes vêm outros.

É bem conhecida a palavra daquele que, vendo a descoberto o colo da mulher amada, sem a 
qual parecia não poder viver, a acariciou, dizendo: este belo pescoço, logo que eu o 
ordene, pode ser cortado. Por isso é que a maior parte dos antigos tiranos eram geralmente 
mortos pelos seus favoritos, os quais, uma vez conhecida a natureza da tirania, perdiam 
toda a fé na vontade do tirano e desconfiavam do seu poder.

A verdade é que o tirano nunca é amado nem ama. A amizade é uma palavra sagrada, é uma 
coisa santa e só pode existir entre pessoas de bem, só se mantém quando há estima mútua; 
conserva-se não tanto pelos benefícios quanto por uma vida de bondade. O que dá ao amigo a 
certeza de contar com o amigo é o conhecimento que tem da sua integridade, a forma como 
corresponde à sua amizade, o seu bom feitio, a fé e a constância. Não cabe amizade onde há 
crueldade, onde há deslealdade, onde há injustiça. Quando os maus se reúnem, fazem-no para 
conspirar, não para travarem amizade. Apoiam-se uns aos outros, mas temem-se 
reciprocamente. Não são amigos, são cúmplices.

Como pode haver tanta gente que gosta de conviver com os tiranos e que nem um só tenha 
inteligência e ousadia que bastem para lhes dizer o que (no dizer do conto) a raposa 
respondeu ao leão que se fingia doente: "De boa mente entraria no teu covil; mas só vejo 
pegadas de bichos que entram e nenhuma dos que dele tenham saído".

A borboleta que, esperando encontrar algum prazer, se atira ao fogo, vendo-o luzir, acaba 
por ser vítima de uma outra qualidade que o fogo tem: a de tudo queimar (diz o poeta 
lucano). Vamos admitir que os favoritos consigam escapar às mãos daqueles a quem servem. 
Não escaparão do rei que vier depois.

Que tormento, que martírio este, Deus meu: viver dia e noite a pensar em ser agradável a 
alguém e, ao mesmo tempo, temê-lo mais do que a qualquer homem! Que tormento estar sempre 
de olho à espreita, de ouvido a escuta, a espiar de onde virá o golpe, para descobrir 
embustes, examinando sempre as feições dos companheiros, a ver se descobre quem o trai, 
rindo-se para todos, receando-os a todos, não tendo inimigo declarado nem amigo certo!

O povo gosta de acusar dos males que sofre não o tirano, mas os que o aconselham: os 
povos, as nações, toda a gente, incluindo os camponeses e os lavradores, todos sabem os 
nomes deles e os respectivos vícios; sobre eles lançam mil ultrajes, mil vilanias, mil 
maldições. "

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