(pt) A alternativa anarquista em Cuba By A.N.A. Por Bill Weinberg

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Terça-Feira, 2 de Janeiro de 2018 - 07:27:25 CET


Um antigo centro comunitário que recebia o cenário do rock moderno está sendo ocupado por 
ativistas, aparentemente ignorado pelas autoridades. A alguns quarteirões de distância, 
fazendas urbanas são áreas verdes e prósperas na paisagem, produzindo frutas e verduras 
para a comunidade. ---- Oakland? Detroit? Lower East Side de Manhattan? ---- Não. Esta é 
Havana. ---- Em abril deste ano, voltei a Cuba pela primeira vez em 24 anos com a missão 
de analisar a alternativa ecológica da ilha e como havia se desenvolvido desde o fim do 
Período Especial, como foi chamado na linguagem oficial do governo, que havia começado em 
1989. ---- Encontrei uma ilha transformada desde aqueles tempos de crise. Enquanto alguns 
elementos do modelo ecológico haviam sobrevivido, outros haviam sido abandonados. Mas a 
viagem fez com que eu presenciasse outra alternativa - uma rede anarquista emergente, 
buscando promover ideias antiautoritárias enquanto a ditadura, cautelosamente, começava a 
se instaurar.

Cuba tornou-se um experimento vivo para a humanidade em um futuro pós-petróleo, depois do 
colapso da União Soviética ter significado o fim do petróleo subsidiado. Isso quebrou a 
economia, dando início ao Período Especial, e foi um grande incentivo aos modelos 
autossuficientes e ecológicos - bicicletas como meios de transporte, fazendas urbanas em 
Havana, agricultura orgânica no campo.

E foi no meio dessa crise, em 1993, que visitei Havana para uma conferência sobre 
bicicletas como meios de transporte urbano. Foi quando vi o início dos jardins e fazendas 
comunitários que estavam surgindo em terrenos baldios pela cidade.

Uma geração depois, Cuba está subsidiando petróleo da Venezuela, abrindo sua economia para 
o capital privado e torcendo pelo fim do embargo dos EUA. E as alternativas ecológicas 
sobreviveram?

Ao andar pelo centro de Havana ficou evidente que as bicicletas quase não estavam sendo 
utilizadas. Quando estive lá, em 1993, elas haviam ultrapassado o número de carros nas 
ruas. Agora não havia quase nenhuma, a não ser pelos bicitáxis que levavam turistas pelo 
trânsito de carros. Conversei com planejadores urbanos do governo e eles admitiram que as 
ciclovias haviam sido abandonadas com a volta do petróleo.

Também ficou claro que uma espécie de gentrificação está se estabelecendo em Havana Velha 
- muito do capital estrangeiro está entrando no setor do turismo, com o aumento de bares 
sofisticados, galerias e restaurantes.

No entanto, fiquei sabendo que a agricultura urbana, que emergiu espontaneamente durante o 
Período Especial como uma medida de proteção, foi aceita pela burocracia e ainda está 
bastante forte.

Para ver essas fazendas urbanas, fui de táxi até Vedado, o distrito sofisticado mais 
verde, mais extenso e em tempos pré-revolucionários ao oeste de Centro Havana. A Praça da 
Revolução é o centro de Vedado, o coração do poder administrativo de Cuba. É para onde o 
icônico rosto de Che Guevara está olhando, da parede do Ministério do Interior.

A apenas alguns quarteirões de distância dessa praça infértil e cara, projetos 
habitacionais encontram-se lado a lado às mansões gastas da burguesia que há muito se 
foram, agora habitadas por moradores da classe trabalhadora. Em uma dessas ruas, visitei 
Isbel Díaz Torres, outrora professor de literatura e um dos dissidentes da esquerda de 
Cuba. Sua rede, o Observatório Crítico Cubano, foi fundada em 2006, depois do poder ser 
transferido de Fidel a Raul Castro, para criar uma voz anticapitalista e anti-imperialista 
declarada por maior liberdade.

Díaz se considera um anarquista e vive como se esperaria de um - em uma construção 
desabitada, ou o mais próximo disso que vai encontrar em Havana. Ao passarmos pelas 
colunas de entrada da antiga casa e cruzarmos o jardim interior, Díaz me contou a história 
dela.

- Nos anos 90, esta era a Catedral do Heavy Metal - lembrou-se com um sorriso. Durante o 
Período Especial, a construção foi usada como uma casa de cultura - um centro comunitário 
sancionado pelo governo -, conhecida como Pátio de Maria. Mas seu cenário do rock moderno 
saiu um pouco de controle e, em 2003, o governo precisou fechá-lo. Provavelmente por conta 
de um grupo de metaleiros, a apenas alguns quarteirões da Praça da Revolução.

O espaço ficou desocupado por um tempo, mas após os furacões devastadores de 2008, os 
habitantes que tiveram suas casas destruídas ou danificadas se abrigaram lá - e foram 
permitidos a ficar, sua residência não oficial, mas aceitável. Díaz e seu namorado estavam 
entre essas pessoas, dividindo um pequeno apartamento nos fundos do quintal.

Díaz vê que um processo de apropriação do Estado da cultura alternativa está em andamento. 
Ele observa que embora o rebelde Pátio de Maria tenha sido fechado, um lugar novo e 
oficial, que atrai eventos de metal, o Maxim Rock, foi aberto do outro lado da Praça.

- No começo, o cenário do metal era completamente underground - afirma. - E então criaram 
uma organização. Há uma para o rock, uma para o hip-hop, tudo é controlado.

A agricultura comunitária, aquela outra forma de reivindicar o espaço urbano do Período 
Especial, sobrevive. Embora ainda seja duvidosa. Ao contrário das afirmações oficiais, 
Díaz afirma que os jardins estão sendo abandonados em toda a cidade:

- A perspectiva de cultivar nosso próprio alimento nos terrenos se provou temporária. 
Agora temos o petróleo e os químicos novamente.

Ele conta que dois dos livros sobre jardinagem e autossuficiência doméstica muito 
populares durante o Período Especial - El Libra de La Familia (O Livro da Família) e Por 
Nuestras Propias Esfuerzas (Por Nossos Próprios Esforços), ambos publicados pelo Olive 
Green Editions - foram "quase esquecidos hoje em dia".

É difícil dizer se os huertos familiares - jardins familiares informais, não 
regulamentados pelo sistema administrativo - estão em declínio. As fazendas urbanas 
formais, conhecidas por organopônicos, estão claramente prosperando.

Eu e Díaz caminhamos a alguns quarteirões de sua casa e passamos por grandes lotes com 
fileiras de espinafre, alface, cebolinha, aipo, salsinha, couve-flor. Trabalhadores com 
enxadas cultivavam a terra atrás das cercas, interligadas por videiras ou reforçadas por 
fileiras de cactos.

Um dos organopônicos se chama Quinto Congresso - por conta do Quinto Congresso do Partido 
Comunista Cubano que aconteceu em 1997, o ano em que a fazenda foi inaugurada. Outra se 
chama Plaza, devido à Praça que cobre Vedado.

Os trabalhadores fizeram uma pausa para responder minhas perguntas.

Essas fazendas começaram espontaneamente, embora em geral sob as direções dos burocratas 
que trabalhavam no prédio oficial do governo próximo, para alimentar seus próprios 
trabalhadores durante o Período Especial. Mas logo foram reconhecidas e organizadas como 
coletivos. Elas ainda estão ligadas ao sistema administrativo - por exemplo, vendem os 
produtos para o Conselho do Estado, o maior órgão de poder de Cuba, que tem sua sede perto 
dali.

Mas o mesmo processo pode ser visto aqui: uma iniciativa ascendente espontânea que teve o 
controle do Estado como preço pela sobrevivência.

Isbel Díaz e seus companheiros estão organizando trazer uma voz anarquista aberta ao 
debate crescente sobre o futuro de Cuba. Seis anos atrás, eles fundaram a Oficina 
Libertária Alfredo Lopez para emergir do Observatório Crítico - que recebeu seu nome por 
causa do líder anarcossindicalista assassinado pela ditadura de Gerardo Machado, em 1926.

Através de reuniões feitas nos últimos dois anos em Havana, eles estão avançando nas 
críticas feitas ao que chamam de capitalismo do Estado cubano e estão procurando pelo 
legado da tradição anarquista da ilha.

Cuba teve um movimento trabalhista forte ligado ao anarquismo, especialmente na indústria 
do cigarro, da virada do século através da repressão da era Machado nos anos 20 e 30.

Os últimos remanescentes desse movimento foram extintos nos primeiros anos do regime de 
Castro, quando os dissidentes anarquistas foram presos por "atividades 
contrarrevolucionárias". Foi um presságio da repressão mais geral do regime sobre culturas 
potencialmente dissidentes, com a música afro-cubana sendo discriminada, os Beatles 
banidos e - o mais importante - homossexuais sendo perseguidos e até mesmo internados.

O regime suavizou todos esses aspectos consideravelmente (há até um Parque John Lennon em 
Havana), mas ainda permanece para vermos quanto espaço é tolerado para algo tão 
abertamente de oposição quanto o anarquismo.

A Oficina Libertária Alfredo López está arrecadando fundos para comprar um novo lugar em 
Havana para servir de centro social e biblioteca anarquista - se aproveitando da 
flexibilização do mercado imobiliário.

Eles se afiliaram a uma federação anarquista regional da América Central e Caribe para 
promover ideias e ações antiautoritárias, para tudo que os EUA considerem como seu famoso 
quintal.

Com sua benfeitora do petróleo, a Venezuela, em uma profunda crise atual e com Donald 
Trump divulgando políticas radicais em Cuba que anunciam o retorno à longa 
desestabilização da campanha de Washington, Cuba e região podem estar diante de desafios 
novos e sombrios nos meses e anos que virão.

Pelas sementes que vi em Vedado, está claro que a voz anarquista, pelo menos, estará lá.

> Bill Weinberg escreve para o CounterVortex.org

> Ajude a Oficina Libertária Alfredo López no GoFundMe (apenas euro): gofundme.com/gg2wrcac

Fonte: https://www.fifthestate.org/archive/399-fall-2017/the-anarchist-alternative-in-cuba/

Tradução > Amanda Laet (linkedin.com/in/amanda-laet-8733ba114)

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