(pt) CAB, LUTAS, PUBLICAÇÕES -- TERRORISMO DE ESTADO EM CURITIBA - 07/12/2018

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Terça-Feira, 18 de Dezembro de 2018 - 07:34:45 CET


O dia 07 de dezembro de 2018 será lembrado como um dos dias mais tristes e revoltantes da 
história de Curitiba e da luta por moradia no Brasil. ---- A ocupação urbana 29 de Março 
foi completamente destruída devido a um incêndio, que segundo o relato dos moradores, foi 
causado pela Polícia Militar do Paraná. Além do fogo alastrado, ocorreram, pelo menos, 
duas execuções no local, vários desaparecidos e um número ainda desconhecido de mortos. 
---- Luta por Moradia na Região - Ocupações urbanas recentes na Cidade Industrial de 
Curitiba (CIC) ---- A região que foi atingida pelo incêndio é um local de muita luta por 
moradia e vida digna na cidade. Em uma área da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), bairro 
da capital paranaense, estão localizadas quatro ocupações recentes, onde, somadas, abrigam 
mais de mil famílias.

As ocupações Nova Primavera (ocupada em 2012), 29 de Março (ocupada em 2015), Tiradentes 
(ocupada em 2015) e Dona Cida (ocupada em 2016) foram organizadas pelo Movimento Popular 
por Moradia (MPM)/Movimento dos Trabalhadores Sem Teto do Paraná (MTST).

Ao longo desses anos foram feitas diversas manifestações de rua, reuniões com o Poder 
Público, atividades e saraus. Desde então, a Prefeitura Municipal de Curitiba e a 
Companhia de Habitação Popular de Curitiba (COHAB-CT) nunca deram resposta à altura das 
reivindicações do povo.

Neste fatídico dia 07 de dezembro, uma destas comunidades, a 29 de Março, foi 
completamente devastada. Mais de 300 famílias perderam suas casas, animais de estimação, 
móveis, alimentos, roupas e pertences.

Dentre essas famílias, estendemos grande solidariedade às famílias haitianas, que além de 
sofrerem com a dificuldade básica de comunicação por conta de seu idioma de origem, têm 
sofrido intensamente com o racismo e a xenofobia no Brasil. Não é incomum que essas 
pessoas, ainda que qualificadas, só consigam se inserir no mercado de trabalho em ofícios 
desgastantes, recebendo salários de miséria, não tendo moradia digna e condições de vida 
adequadas.

Terrorismo de Estado na Comunidade 29 de Março
Os moradores contam que um policial militar havia sido morto pela região e que a polícia 
desconfiava que o responsável seria um morador da comunidade. A partir de tal suspeita, a 
Polícia Militar do Paraná declarou guerra à todas as comunidades ao redor, em especial à 
29 de Março.

Durante o dia e noite de 07 de dezembro, policiais militares, sem identificação e com os 
rostos cobertos, arrombaram e invadiram as casas da vila buscando informações sobre o 
paradeiro do suspeito. Relatos de muitos moradores afirmam que os policiais torturaram, 
agrediram e espancaram homens, mulheres e crianças, utilizando sacolas, facas e armas. 
Além disso, pessoas foram mortas e muitos tiros foram desferidos contra moradores.

Foi por volta das dez horas da noite que o fogo foi ateado em algumas casas da Comunidade 
29 de Março. Logo o fogo se alastrou e tomou conta de tudo. O Corpo de Bombeiros do Paraná 
demorou por volta de uma hora para chegar ao local e a Polícia Militar tentou dificultar 
sua ação, de modo que as centenas de casas da comunidade acabaram por ser totalmente 
destruídas.

Relatos e detalhes em: "O Horror que a Polícia causou em Curitiba"

Centenas de famílias perderam tudo o que tinham. Inúmeros cães morreram carbonizados. 
Muitas pessoas desaparecidas. Possivelmente outras mortes serão confirmadas.

O Estado Policial de Ajuste e a criminalização da pobreza
Caracterizamos o atual momento da conjuntura brasileira como sendo de um "Estado Policial 
de Ajuste", marcado por uma agenda agressiva contra o povo, que escancara o lado mais 
selvagem do sistema capitalista. Caíram as máscaras e mediações que marcaram período 
recente de nossa história. Sempre soubemos, no entanto, que por trás das aparências, 
grande parte da população brasileira vive sob um "Estado de Exceção", convivendo com a 
barbárie gestada dentro da farsa chamada "Estado Democrático de Direito".

Para o povo pobre, negro, morador das periferias, a face do Estado sempre foi a da 
brutalidade. Os direitos básicos (saúde, educação, emprego, saneamento básico, moradia) 
são muito restritos, quando não estão completamente ausentes. Por outro lado, a repressão 
policial se faz muito presente no cotidiano dos moradores, que desde muito cedo convivem 
com as formas institucionalizadas do racismo e da criminalização da pobreza, as quais 
constituem a base da formação ideológica e de atuação das polícias brasileiras.

No caso dos ataques sofridos pelas famílias da Comunidade 29 de Março e das demais 
ocupações da região, tais elementos são bastante nítidos. Aos olhos da Polícia Militar, o 
povo que mora nas ocupações é um inimigo a ser exterminado.

As demais faces do Estado, como o Poder Executivo Municipal e Estadual e os órgãos 
responsáveis pela investigação deste tipo de caso, demonstram ser cúmplices de 
"julgamentos sumários" como este quando se omitem. Assim, trabalhadoras e trabalhadores, 
jovens, crianças e idosos, são condenados à morte como "criminosos", sem qualquer direito 
de defesa.

As ruínas do mito da "cidade modelo"
Foi na década de 1970 que se iniciou um mito brasileiro de que Curitiba seria uma "cidade 
modelo", um exemplo de urbanização, mobilidade e qualidade de vida.

Esse mito foi construído com base não apenas em grande publicidade, como também na enorme 
exclusão da população pobre, que foi sendo "jogada" para as regiões mais distantes do 
centro e mais carentes de serviços públicos.

Essa farsa de um suposto "planejamento democrático" não é uma exclusividade da cidade de 
Curitiba, mas tem na capital paranaense um de seus principais símbolos, repetido em 
discursos de governantes e burocratas.

Em paralelo à propagação dessa mentira, a cidade guarda um histórico de lutas e martírios 
de movimentos sociais e associações de moradores na luta por um terreno, por um lar, por 
moradias dignas. Essas lutas ocorreram e ocorrem em todas as regiões da cidade e tem nas 
ocupações do CIC um de seus maiores exemplos.

Apreensão, Solidariedade e Resistência
Após o incêndio do dia 07 de dezembro, a Polícia Militar, segundo a descrição e 
fotografias feitas por moradores, manteve-se no local e disparou com suas armas letais 
diversas vezes. Moradores da região estão com muito medo de mais "tentativas de vingança" 
e que o horror daquela noite volte a ocorrer.

Apesar de tudo, a luta por moradia e vida digna continua! Inúmeras comunidades, movimentos 
sociais e outras organizações arrecadaram doações de roupas, água, comida, móveis e 
levaram à comunidade. Moradoras e moradores se revezam na organização das doações, no 
acolhimento das pessoas e na reorganização da vida na comunidade, dando grande exemplo de 
resistência e solidariedade. Assim as comunidades se unem cada vez mais.

Sabemos que só o povo organizado é capaz de avançar na luta por condições dignas de vida e 
para a construção de uma sociedade justa, fraterna e igualitária. Um mundo onde todos 
tenham um lar e onde as ameaças e violências do Estado sejam coisas de um passado distante.

A luta continua!

Nem esquecer, nem perdoar!

Toda solidariedade às famílias!

Contra a criminalização da pobreza!

Lutar! Criar Poder Popular!

Pelo fim de toda polícia!

Moradia digna já!

https://anarquismopr.org/2018/12/11/terrorismo-de-estado-em-curitiba-07-12-2018/


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