(pt) [Itália] Confira a entrevista com o anarquista romano Massimo Serini: "Tento seguir o fio de ideias e práticas antiautoritárias" By A.N.A. (en)

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Quarta-Feira, 15 de Agosto de 2018 - 06:13:31 CEST


Massimo Serini, também conhecido como Alfredo, é um anarquista romano, e concedeu 
entrevista por e-mail à ANA. Ele viveu desde 1996 até 2016 na República Dominicana, onde 
fez parte do Centro Social Cibao Libertario em Santiago de los Caballeros e de outras 
iniciativas libertárias. Atualmente mora em Roma, capital da Itália. Nesta entrevista ele 
falou um pouco sobre o panorama anarquista atual em Roma. Confira a seguir. ---- Agência 
de Notícias Anarquistas > Como começou seu envolvimento com a anarquia, ou anarquismo? 
---- Massimo Serini (Alfredo) < Desde que tenho memória sempre fui atraído pelas ideias e 
práticas anarquistas; mesmo antes de conhecer a palavra anarquia. Percebendo minha 
sensibilidade contra as desigualdades sociais e minha rebelião contra o comando 
institucional e as regras da "tradição" do meu entorno, foi um pensador bedel, socialista 
e livre pensador de minha escola primária na pequena cidade do Sul da Itália, onde morava, 
que me revelou: "... olha, você é um ‘anarquista'. Há pessoas muito próximas a você que se 
dizem assim. Existe até um semanário, "Umanitá Nova", que expressa essas atitudes há 
anos". Eu acho que não tinha mais que 11 anos. Desde então me senti menos sozinho e menos 
"louco"...

ANA > Roma é uma cidade com forte tradição anarquista?

Massimo < Muito recentemente houve investigações notáveis de históricos libertários sobre 
o anarquismo em Roma. Referem-se principalmente a três períodos: antes da ditadura 
fascista (final de 1800-1922), durante a ditadura (1922-1945) e o imediato pós-guerra 
(1946-1968). Nestes estudos tornam à luz a figura de lutadores, perseguidos, pensadores, e 
se recuperam a memória de lutas, obras, grupos e coletivos do passado, o que pode, sim, 
permitir falar de uma tradição anarquista na cidade.

Mas foi a partir de 1969 que também o movimento romano teve um grande florescimento, 
empurrado não apenas, como aconteceu em todo o mundo, pela consequência de uma tomada 
geral de consciência libertária capitaneada pelo movimento de "1968", mas também porque o 
evento mais grave, conhecido como "La Strage di Stato" ("Estrago do Estado"), um atentado 
sangrento ocorrido em Milão, que foi falsamente atribuído aos anarquistas, e sacudiu toda 
a península italiana, levando muitos a mostrar solidariedade e simpatizar com os 
anarquistas até aderindo aos seus ideais.

O vínculo entre o movimento anarquista romano, residual, do "pós-guerra" e o improvisado e 
florescente, do "pós-68" foi, sem dúvida, encarnado por um casal: "Aldo e Anna" (Eraldo 
Rossi e Maria Anna Pietroni). Os dois, que vieram da experiência da luta de resistência ao 
fascismo, também marcaram a geração sucessiva de anarquistas, os "pós-sessantottinos" e 
tornaram-se figuras míticas de referência para todos os militantes anarquistas em Roma, 
por sua capacidade organizacional, sua disponibilidade, seu compromisso incansável e 
abnegado e também como responsáveis pro tempore de escrever semanalmente o Umanità Nova, 
que estava atravessando nestes períodos tão turbulentos, um momento de grande difusão.

Infelizmente, Aldo e Anna, com pouco mais de 50 anos, morreram em um acidente de trânsito 
em abril de 1975, deixando uma lacuna enorme, especialmente entre os jovens que haviam se 
aproximado do movimento nos últimos anos.

ANA > Você participa da Biblioteca L'Idea de Roma, poderia falar um pouco sobre ela?

Massimo < Embora eu não seja diretamente um membro deste projeto, eu o conheço muito bem e 
participo frequentemente das iniciativas e atividades promovidas pela mesma Biblioteca.

L'Idea, no bairro de Pigneto, é uma biblioteca autogerida e autofinanciada com mais de 20 
anos de vida. Também mantém um notável arquivo de documentos e textos dos movimentos (não 
apenas anarquistas) de luta e revolucionários dos anos 80 até hoje. Em seu projeto estão 
incluídos, a "distro" de edições anarquistas e a publicação de textos.

ANA > Há outros espaços anarquistas em Roma?

Massimo < Há muitos outros espaços anarquistas em Roma e eu não conheço todos eles (não 
faz muito tempo que voltei a viver nesta cidade após 20 anos de ausência), entre eles:

Uma livraria, "Anomalia", no bairro de San Lorenzo, que também é um importante centro de 
documentação anarquista.

Dois espaços que acomodam grupos politicamente próximos da FAI (Federazione Anarchica 
Italiana), incluindo o "Cafiero", que é o espaço anarquista mais antigo da Capital, na Via 
Vettor Fausto, no bairro de Garbatella, ativo, naquelas instalações, sem interrupção desde 
1946.

Um espaço no bairro Quarticciolo, compartilhado por duas realidades diferentes: a 
Biblioteca Sabot, com sua biblioteca e "distro", ativa na luta anticarcerária, e Anarkivio 
Errico Malatesta, onde são guardados textos e materiais históricos produzidos pelo Grupo 
Malatesta em seu meio século de atividade (1974-2014), além de sua biblioteca.

Um espaço no bairro de La Marranella do coletivo NED, um grupo muito ativo 
territorialmente e nas lutas sociais e anticarcerárias.

Uma meia dúzia de squats (Torre Maura, Bencivenga, Laurentino 38, Ateneo, ZK, Bilancione, 
os três últimos na área da "Costa Romana") com aberta, ou pelo menos substancial 
caracterização ácrata, onde, além da experimentação de um convívio entre indivíduos 
baseado em acordos voluntários e livres, se realizam atividades, iniciativas e lutas sobre 
os vários temas (animalismo, antissexismo, antirracismo, anticarcerário, ambientalismo...).

A Biblioteca BAM (Biblioteca Abusiva Metropolitana), bem enraizada territorialmente, no 
bairro de Centocelle, que é uma realidade "mista", não exclusivamente anarquista, mas com 
conotações anarquistas fortes.

Há muitos outros espaços, não estritamente e declaradamente anarquista, que melhor são 
genericamente libertários (okupas, centros sociais, bar/livrarias, bares, pub...), onde 
ocorrem e se reúnem muitos compas e também se organizam apresentações de livros, 
performances artísticas e peças de teatro, projeções de filmes, eventos e atividades, 
muitas vezes com nuanças anarquistas óbvias, que seria muito difícil tentar listar aqui 
nesta breve entrevista.

ANA > Em Carrara, conhecida como berço do anarquismo italiano, há alguns monumentos em 
homenagem aos militantes anarquistas. Em Roma acontece o mesmo?

Massimo < Posso estar equivocado, mas não me recordo de monumentos em Roma em homenagem de 
militantes anarquistas, como, ao contrário, sim, há, lembro, em outras cidades italianas, 
como Carrara, Livorno, Pisa, Milão, Ancona...

Em Roma o que se encontra, que eu tenha conhecimento, são placas comemorativas raras, como 
a que recorda Errico Malatesta, na fachada da casa onde viveu, ou algumas lápides como uma 
homenagem a Pietro Gori em Civitavecchia.

Algumas placas e lápides comemorativas, durante os anos, foram removidas.

Há uma interessante pesquisa da Biblioteca Franco Serantini di Pisa (BFS) sobre o tema dos 
monumentos em homenagem aos anarquistas na Itália¹.

ANA > No geral, como está o "movimento anarquista" em Roma? Goza de "boa saúde"? Hoje, 
quais principais lutas estão sendo levadas a cabo?

Massimo < Com essa pergunta, entramos diretamente em avaliações e julgamentos 
ultra-pessoais e subjetivos. Para mim, a situação é derivada da descrição dos espaços e 
realidades feitas acima. Em Roma há muitas realidades que fazem referência, mais ou menos 
abertas e explícitas, ao movimento ácrata, mas quase sempre, cada um movendo-se em vários 
terrenos, expressando na prática, tendenciosamente, suas prioridades.

Hoje, alguns estão presentes e ativos, especialmente nas lutas sociais, outros mais 
especificamente no mundo do trabalho, outros estão envolvidos em pesquisa histórica do 
anarquismo, outros nas reflexões e consequente difusão do ideal e das práticas 
anarquistas, outros estão em uma perspectiva insurrecional, outros experimentando uma 
convivência baseada em acordos e pactos livres, outros na luta contra a prisão (há também 
ácratas de Roma, ou em Roma, detidos). Sem mencionar todos os outros campos de 
intervenção, ou temas, que cada um escolhe como privilegiados, de acordo com suas análises 
e sensibilidades.

E as trocas e colaborações entre todos não são constantes.

Portanto, parece-me, é um movimento não homogêneo, que enfatiza o que é uma característica 
atual do movimento ácrata em todo o mundo, diversificado e fragmentário. Se isso é 
evidência de boa ou má saúde depende do ponto de vista.

ANA > Há algum projeto anarquista que você destacaria na sua cidade?

Massimo < Pessoalmente, eu não destacaria um projeto particular do anarquismo em Roma, mas 
essa característica apenas mencionada.

ANA > O movimento anarquista romano tem muitas mulheres, é equilibrado, ou é um universo 
predominado por homens?

Massimo < Pelo que pude ver durante os últimos dois anos, desde a minha volta, não há, no 
presente movimento romano, uma diferença óbvia em relação ao sexo, nem como presença 
numérica nem como relevância das contribuições, Quando saí, faz mais de 20 anos, na 
verdade, ainda existia, de fato, uma predominância infeliz, contraditória e "suspeita" de 
figuras masculinas, mas tem, ao longo do tempo, se equilibrado.

ANA > E há rádios livres?

Massimo < Em Roma, existe há 40 anos a Rádio Onda Rossa. É uma emissora do "movimento 
antagonista", no qual, no passado, alguns grupos anarquistas empreenderam programas 
autogestionados.

ANA > E o panorama das publicações anarquistas em papel? Em alguns países, infelizmente, 
percebemos que o meio digital já superou o impresso. E aí?

Massimo < Nesse quesito, o ponto de vista me parece, infelizmente, unívoco: não acho que 
haja atualmente uma publicação (jornal, revista) impressa em Roma.

Por incrível que pareça, não havia percebido isso, até essa pergunta direta da ANA.

O paradoxo é que na Itália e em língua italiana se publicam hoje muitas publicações 
impressas, como diários, revistas, jornais (para não mencionar os "a-periódicos" 
incontáveis), alguns de muitos anos (Umanità Nova, A-Rivista, Seme Anarchico, Sicilia 
Libertaria, Germinal...) e outras mais recente (Il Giorno e le Notti, Vetriolo, 
Negazine...) e talvez isso do anarquismo em língua italiana seja um fenômeno em 
contratendência mundial. É verdade que em outros lugares as publicações estão se tornando 
quase todas digitais...

ANA > A extrema direita também cresce em Roma? Se cresce, quais as razões?

Massimo < Há sinais fortes de crescimento da extrema direita também em Roma; uma cidade 
que, em todo caso, sempre sofreu sua presença e raízes, especialmente em determinados bairros.

As razões para esse crescimento são várias e, acredito, comuns na maioria, para aqueles 
que determinam o mesmo fenômeno em outros lugares. Uma crescente percepção de insegurança, 
real e/ou inculcada, não meramente econômica, que gera e fomenta mitos supremacistas e 
comportamentos atropeladores.

ANA > E como o movimento anarquista se insere nesse contexto?

Massimo < A extrema direita nesta fase, neste momento, não parece ser muito diferente a 
respeito da mesma direita no Poder (o Ministro do Interior[Matteo Salvini]é atualmente um 
cripto-fascista, nem sequer tão crítico). Seu lema é tranquilizar as "pessoas comuns" 
contra o "inimigo", que agora foi individualizado em "invasores": aqueles que fogem de 
suas terras em busca de sobrevivência, desesperados por conflitos, perseguições, miséria, 
fome...

Os anarquistas, aqui em Roma, refletem sua situação diversificada: alguns grupos e 
indivíduos participam do "movimento antifa", que reúne muitas realidades diferentes, 
identificados essencialmente com consignas e práticas antifascistas, como um denominador 
comum; outros tentam diretamente com atividades em defesa dos imigrantes e lutando com 
eles contra, por exemplo, o mal afamado CIE (Centro de Identificação e Expulsão) e da 
discriminação das pessoas que são vítimas diárias, outros fazem atividades de 
contrainformação, muito necessária, portanto, considerado o "volume de fogo" que os 
mistificadores institucionais gastam no assunto para consolidar "o medo do inimigo" que 
ganha consenso entre pessoas amedrontadas e os mantém no Poder...

Ultimamente, têm sido apontados alguns "raid" noturnos de tipo fascista contra locais do 
movimento (por exemplo, contra o BAM no bairro de Centocelle), que ainda que não tenham 
passado, até agora, de um nível de bolha, ou espancamentos a portas fechadas, podem 
representar um alarme para futuras atividades mais perigosas por aqueles que se sentem 
publicamente apoiados em seus (des)valores pelos representantes oficiais das instituições.

ANA > Você acredita que uma revolução social nos moldes tradicionais defendida pelos 
anarquistas é ainda possível hoje?

Massimo < Eu não sei se meu ponto de vista particular pode ser interessante. Me defino um 
‘anarco-cético': Eu tento seguir o fio de ideias e práticas antiautoritárias e busco 
compas afins que procuram construir um caminho comum através de pactos e acordos livres, 
para ver onde leva o "fio de Ariadna". Se este é o caminho certo, se levará, 
difundindo-se, a uma revolução "estilo antigo", a um momento insurrecional, ou a uma 
implosão do sistema opressivo aparentemente tão sólido, ou para outro tipo de mudança 
radical, diretamente para um mundo mais justo e libertário, não hierárquico, é uma 
expectativa, uma esperança, mais que uma certeza. Busco, cheio de curiosidade, a hipótese 
que mais me encanta, sem dogmatismos, procurando por "cúmplices" que não tenham muito medo 
às dúvidas...

ANA > Você viveu muito tempo na República Dominicana. Que memória anarquista você tem 
deste território?

Massimo < Essa é uma pergunta muito complexa. Creio que praticamente vi nascer ali (ou 
re-nascer) um movimento anarquista, e minha memória está cheia de recordações, figuras de 
compas, eventos, anedotas, até "escândalos" positivos dos primeiros textos "punk" que 
chegaram à ilha no começo dos anos 90 e começaram a sacudir as consciências juvenis, até o 
Primeiro Congresso da FACC (Federação Anarquista da América Central) em 2015, em Santiago 
de Los Caballeros, promovida por compas dominicanos e cubanos.

Um dia terei de contar essa "história", ainda que esperarei que, com o tempo, se sedimente 
em mim uma maneira mais racional, menos emotiva e sentimental. Durante todo o tempo 
estive, de todo modo, conectado com a lista anarco-latina e um pouco com os compas do El 
Libertario da Venezuela (fizemos também uma versão dominicana do "Bitácora de la Utopía: 
Anarquismo para el Siglo XXI", de Nelson Méndez e Alfredo Vallota) e por essas vias algo 
saiu sobre o que estava passando sobre o (re?)nascente anarquismo dominicano.

Desculpe, Moésio, a extrema síntese acerca de minha experiência libertária de meus 20 anos 
"quisqueyanos" (os últimos vividos em uma espécie de "comuna urbana" em Santiago de Los 
Caballero), mas isso é o máximo que nesse momento me sinto capaz de expressar.

ANA> Alguma mensagem final? Grazie, compa!

Massimo < Saudações a Moésio e a cada compa da ANA. Muitas vezes me acontece saber até o 
que acontece no movimento na Itália através das postagens da ANA, que leio na preciosa e 
insubstituível Anarqlist!

Tradução > Liberto

[1]http://www.arivista.org/riviste/Arivista/400/Documenti%20di%20pietra.pdf

agência de notícias anarquistas-ana


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