(pt) Federação Anarquista do Rio de Janeiro FARJ [BAB] - Apontamentos feministas na perspectiva do anarquismo organizado - Federação Anarquista de Rosário (FAR)

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Quinta-Feira, 2 de Agosto de 2018 - 06:44:17 CEST


Nota sobre Feminismo no Jornal "Voluntad nº3" (jornal da Federação Anarquista de Rosário) 
---- Parece apropriado para nós, nesta edição especial, no momento que marca o XXXI 
Encontro Nacional de Mulheres (Argentina) reforçar alguns aspectos fundamentais sobre o 
lugar da luta feminista no contexto de nossa proposta política anarquista à partir de um 
sentido amplo e integral. ---- Localizando-nos então, no marco de uma análise sobre o 
sistema de dominação capitalista atual, que se constrói com base na teoria da 
interdependência das esferas política-jurídica-militar, econômica, ideológica-cultural. 
Nesse sentido, entendemos que as relações de poder estão presentes em todas as relações 
sociais, impregnando a sociedade de maneira capilar, e desta maneira o poder penetra nas 
relações cotidianas e nas vidas de todos/as nós.

Não acreditamos que seja uma questão de "acrescentar" o feminismo como algo mais, já que 
seria uma declamação vazia e oportunista. Mas pelo contrário, consideramos que a luta 
contra a opressão machista é de primeira ordem para um projeto que busca a ruptura 
revolucionária contra o sistema de dominação. Nesse sentido, ao considerar esse tipo de 
dominação implica não apenas abordar as problemáticas que surgem a partir dela, mas também 
modifica a maneira como entendemos e enfrentamos outros tipos de opressão.

Em primeiro lugar, entendemos o feminismo - no nosso caso, o anarco-feminismo - como uma 
práxis, em construção permanente. Assim, consideramos que a luta feminista é altamente 
valiosa, seja pela sua manifestação em lutas concretas como na intensa busca por quadros 
teórico-conceituais que permitam analisar a opressão.

Achamos pertinente deixar claro que valorizamos as diferentes contribuições teóricas que 
diferentes correntes do feminismo elaboraram. Por exemplo, as feministas da igualdade 
levantaram a necessidade de estabelecer direitos universais como pessoas, 
independentemente do sexo. Ou como a teoria queer, nos adverte a nunca baixar nossa guarda 
sobre os mecanismos de dominação que inclusive interferem na criação de conceitos como 
patriarcado ou gênero (ou sexo), viciados pela lógica dicotômica (masculino / feminino), 
impossibilitando ou reprimindo a existência de outras formas de experimentar a sexualidade 
e a construção de identidades.

No entanto, apesar de reconhecer as contribuições realizadas de grande ajuda para a 
militância cotidiana, devemos distanciar-nos de outras propostas de certas correntes, o 
que nos leva a falar sobre anarco-feminismo como uma parte intrínseca do nosso projeto. 
Muitos destas propostas, em termos políticos-programáticos tendem a institucionalização da 
luta feminista; levando às propostas de igualdade como um acesso igualitário ao mecanismo 
de dominação (querer ter mulheres presidentas, empresárias, legisladoras, líderes, etc.); 
o que evidencia um claro "esquecimento" do restante das múltiplas formas de dominação que 
atravessam a complexa realidade que configura a luta da classe oprimida pela libertação. 
Negamos qualquer estratégia de institucionalização estatal de nossa luta, já que não só 
não podemos entender o patriarcado sem o Estado e vice-versa, mas também cotidianamente 
experimentamos como o Estado exerce o poder de dominação machista de maneira material e 
simbólica (disciplinamento corporal e identitário, vitimização das mulheres, proxenetismo, 
etc). Em outros casos, nos afastamos de posturas que levam à inação ou a negação da 
capacidade de transformação, como se toda ação organizada possível fosse o resultado em 
última instância do sistema de dominação que nos deixa ser funcionais a ele.

Nossa proposta é a de criar e fortalecer o poder popular autogerido, através da 
organização, consolidação e superação da fragmentação do campo popular. É no marco das 
organizações populares, que a classe oprimida se constrói em sua resistência à dominação, 
onde encontramos o sustento da luta feminista. E nós insistimos, não agregando termos 
inclusivos e proclamações, mas lutando e refletindo em um código feminista.

Entendendo então que a resposta é organizada e popular, para nós, o conceito de 
patriarcado - e gênero - são necessários e estratégicos, o que nos leva a ressignificá-lo, 
com todos os cuidados que isso exige para deixar de lado a sua lateral totalizadora e 
dicotomizadora. Assim, acreditamos que o patriarcado é o conjunto de mecanismos que de 
maneira sistêmica, condiciona o modo de organização social, e onde, por um lado, baseado 
num sistema sexo-gênero, se estabelecem relações assimétricas de poder à favor dos machos 
e, por outro lado, se produz o estabelecimento da heteronormatividade, através da 
repressão da homossexualidade.

O valor do conceito do patriarcado, como forma de nomear o invisibilizado e de evidenciar 
seu caráter sistêmico; assim como o valor do conceito de gênero para pôr em relevo a 
construção cultural que sustenta esse tipo de opressão e, portanto, suscetível de 
transformação, ganha uma dimensão programática, à partir da qual se pode articular uma 
série de reivindicações, por parte dos movimentos populares, em torno dos efeitos ou 
expressões que a opressão machista tem nas diferentes esferas do âmbito social.

Desta forma, à partir da luta contra a violência machista e homofóbica, pelo direito ao 
aborto, pelo acesso à saúde sexual e reprodutiva, contra a discriminação salarial para as 
mulheres, pela democratização das tarefas domésticas e do cuidado; não só nos permite 
avançar, mas ao mesmo tempo consolida uma força antagônica a força dominante, mas também 
permite ir aprofundando e revelando os mecanismos que impedem e limitam a capacidade de 
decidir sobre nossas vidas e nossos corpos.

Levando em conta tudo que foi colocado, nos é apresentado o desafio de delinear 
estratégias concretas para que nossa militância social e política promova e fortaleça a 
luta contra o patriarcado como parte configuradora do atual sistema de dominação, 
contextualizada em nosso lugar e tempo.

Primeiramente, se coloca a necessidade de estabelecer, por um lado, mecanismos que 
garantam o tratamento específico das problemáticas próprias das opressões patriarcais, e 
de outro lado, a perspectiva de gênero seja tratada de forma transversal, uma vez que, 
como dito acima, existem expressões em todas as esferas da vida e não há uma ação que seja 
neutra quando se trata desta questão.

Somado ao que foi colocado acima, outro elemento importante a ter em conta é como encarar 
a luta feminista sobre uma tradição de organizações político-sociais desenvolvidas em 
função de certos âmbitos onde a dominação se expressa, e que poderia vir a apresentar 
algumas limitações. Entre os quais se destacam, a setorização[1]e que estas tradições 
muitas vezes contêm lógicas machistas, onde os papéis de gênero marcaram e até hoje 
marcam, em muitos casos, restrições à participação das mulheres.

Apontamos a partir da FAR, fomentar organizações sociais (movimentos sociais, sindicatos, 
grêmios ou centros estudantis, etc.) para que sejam capazes de abraçar a luta feminista, 
não apenas a partir das reivindicações próprias da temática, mas também onde se faça uma 
revisão constante das lógicas machistas que atravessam as próprias organizações.

Desta maneira buscamos evitar em nossa prática uma especialização da luta feminista 
apontando para a reversão da fragmentação existente no campo das lutas sociais, sem gerar 
uma hierarquia de opressão que possa resultar num abandono do trabalho de base e da 
perspectiva de classe.

Entendemos que, como militantes, devemos contribuir para a existência de um equilíbrio 
entre especificidade e transversalidade dentro das organizações das quais fazemos parte. 
Ou seja, que possam existir espaços específicos - traduzidos em mudanças estruturais 
formais ou não das mesmas -, mas que a perspectiva feminista possa atravessar toda a vida 
dessas organizações.

Com o objetivo de sintetizar a proposta deste artigo, acreditamos que existem dois eixos 
articulados que poderiam orientar a tarefa no curto prazo:

Participação. Esse eixo é fundamental para toda a nossa estratégia anarquista, fomentar a 
participação, como a recuperação da capacidade de decidir, como meta e como metodologia 
das organizações populares. Nesse contexto, a dimensão de gênero nos obriga a pensar quais 
são as limitações para a participação das mulheres, ou melhor, de todas as pessoas que não 
se enquadram no estereótipo de homem heterossexual, que o patriarcado reforça 
constantemente. Nesse sentido, não apenas devem ser garantidos mecanismos formais que 
garantam a participação das mulheres, mas também é necessário mostrar e combater os 
dispositivos não formais, invisíveis, de caráter machista, que obstacularizam a 
participação; não apenas em questões relacionadas à luta feminista ou "de mulheres", mas 
em todas as atividades das organizações, buscando desconstruir os papéis atribuídos 
historicamente aos gêneros. Isso requer um acompanhamento ativo dessa promoção com ações 
de formação e reflexão sobre o assunto. Mas, além disso, participar de termos autogeridos, 
implica que elas sejam/sejamos protagonistas. Que nos reconheçamos como sujeitos políticos 
capazes de transformar a realidade e nos transformar.
Neste contexto, retomamos o conceito de vontade de E. Malatesta, como a força "capaz de 
produzir novos efeitos, independente das leis mecânicas da natureza, é um pressuposto 
necessário para aqueles que sustentam que é possível reformar a sociedade" para 
relacioná-lo com a aceitação e celebração de que também somos seres com desejos, e que 
ninguém melhor do que nós mesmas sabemos o que queremos. Foi bem expressa pelas 
companheiras do jornal La Voz de la Mujer:"... decidimos levantar nossa voz no concerto 
social e exigir, dizemos exigir, nossa parcela de prazeres no banquete da vida".

Construção de uma agenda de reivindicações que permita visualizar as problemáticas 
setoriais, como expressões do patriarcado em diferentes esferas, bem como outras mais 
gerais (aborto, violência de gênero, entre outras); procurando ligar os dois níveis para 
desvendar os mecanismos de dominação existentes. Acreditamos que a construção desta agenda 
deve envolver gradualmente todos os membros da organização, tanto em termos de 
delineamentos como a luta nas ruas. Desta forma, pretende-se que as organizações se 
apropriem adequadamente da agenda e atribuam a ela o lugar de importância que acreditamos 
que deveria ter.

[1]Como exemplo, vemos que o trabalho assalariado foi um grande eixo não só ordenador da 
vida, mas também a resistência contra a opressão capitalista através dos sindicatos. Estes 
tem uma agenda própria do setor, onde são aquelas problemáticas de gênero em relação com o 
emprego - como a não discriminação salarial das mulheres - as que são majoritariamente 
adotadas; outras como o direito ao aborto seguem alheias ao mesmo. Algo similar ocorre com 
o movimento estudantil. Em contraposição, existe uma vasta experiência de organizações 
sociais, por exemplo, de tipo territorial, onde existe certa diversidade de problemáticas 
que se abarcam à partir daí; e que as reivindicações feministas podem ser abordadas mais 
amplamente.

Tradução: Federação Anarquista do Rio de Janeiro - FARJ


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