(pt) Coletivo Anarquista Bandeira Negra [cabn] CAB - Nota sobre a saída da construção do Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV-SC)

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Segunda-Feira, 30 de Abril de 2018 - 07:45:22 CEST


O Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV) é um instrumento de formação política do 
movimento estudantil e da classe trabalhadora que existe em Santa Catarina desde 2006, 
assim como em outros Estados do Brasil desde os anos 1990. Essa atividade busca realizar o 
diálogo entre as lutas do campo e da cidade e fortalecer o horizonte para um outro modelo 
agrário. ---- Desde sua primeira edição em Santa Catarina, mais de trezentas pessoas 
puderam se afetar e, dessa forma, se somar às lutas no campo e nas cidades. O movimento 
estudantil da UFSC e outros movimentos da cidade se fortalecem em militantes a cada edição 
do estágio. Hoje, temos ex-estagiários participando de sindicatos, frentes de luta e 
várias organizações políticas da cidade, pessoas que conheceram de perto a realidade dos 
movimentos camponeses e suas lutas. Nos últimos anos, a maioria das pessoas que passou 
pelo EIV participou de lutas sociais como a resistência à EBSERH, as mobilizações e 
ocupações frente ao corte de verba da educação, as lutas por permanência estudantil e as 
mobilizações frente à precarização dos serviços públicos. Além disso, o estágio cumpre o 
papel fundamental de disputar verba e estrutura da universidade para projetos de extensão 
que sejam úteis e que façam aliança com os movimentos populares, dando visibilidade e 
força às suas pautas.

O Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CABN), por meio desta nota, busca compartilhar um 
pouco sobre nosso histórico de construção do EIV-SC, a perspectiva do anarquismo 
especifista na luta camponesa, nossa avaliação da atual situação do estágio em Santa 
Catarina e nossa saída da Comissão Político-Pedagógica (CPP).

Anarquismo na luta camponesa e no EIV-SC

O campo libertário, onde incluímos toda a militância inspirada pelo anarquismo, pelo 
autonomismo e demais correntes socialistas anti-estatistas, construiu o EIV-SC desde suas 
primeiras edições ao lado de diversas organizações políticas, entidades estudantis e 
militantes independentes. São mais de dez anos de dedicação libertária de diferentes 
companheiras e companheiros a essa ferramenta de luta junto aos movimentos do campo. O 
próprio site do EIV-SC está hospedado no portal libertar.org, um projeto de tecnologia 
para movimentos sociais produzido por militantes libertários.

As lutas camponesas não são estranhas ao anarquismo, muito pelo contrário. Há momentos 
revolucionários ou insurrecionais do campesinato que ocupam lugar de destaque na história 
de nossa ideologia, como a Revolução Mexicana de 1910, a Revolução Ucraniana de 1917 a 
1921 ou a Revolução na Manchúria de 1929 a 1932. Três exemplos de revoluções camponesas 
onde a ideologia anarquista exerceu papel hegemônico. Ao contrário de alguns setores da 
esquerda, que chegam a considerar o campesinato atrasado, inexistente ou mesmo 
reacionário, o anarquismo sempre considerou que as trabalhadoras e trabalhadores do campo 
pudessem se constituir em sujeito revolucionário.

Essa interpretação não é apenas um resgate histórico, mas faz parte do cotidiano da 
atuação política de nossa corrente, o anarquismo especifista, que existe há mais de 20 
anos no país e se organiza atualmente na Coordenação Anarquista Brasileira (CAB). É por 
esse motivo que a CAB atua hoje junto aos movimentos da Via Campesina em várias regiões do 
país, com militantes acampados, assentados, em assessorias técnicas, principalmente nas 
bases, mas também em direções do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do 
Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), além de atuação na Comissão Pastoral da Terra 
(CPT). Ainda que não fosse de nossa organização, aproveitamos esse panorama para lembrar 
do companheiro Eduardo Torres, trabalhador, anarquista e acampado do MST em Araquari (SC) 
até o final do ano passado, quando foi morto em uma situação até hoje inexplicada.

Propostas que contribuímos dentro da CPP

Nesses caminhos junto à Comissão Político-Pedagógica (CPP), o coletivo responsável pela 
organização anual do estágio, nós do CABN trouxemos e contribuímos com algumas propostas 
que consideramos importantes para o EIV. Já em 2012, propusemos que o estágio avançasse de 
um instrumento do movimento estudantil para um instrumento da classe trabalhadora, 
pensando em formas de acessar e acolher jovens trabalhadores fora das Universidades. Na 
nossa interpretação, o EIV já foi utilizado como uma forma de terceirizar a formação 
política que as organizações deveriam promover para sua militância e, ao mesmo tempo, foi 
tratado como um espaço cujo principal objetivo era recrutar militantes. Nós defendemos o 
princípio de que o EIV deveria formar novas e novos militantes, então apoiamos a 
participação de pessoas de diferentes áreas, pessoas novas na militância e o equilíbrio na 
participação de jovens de organizações políticas, sem privilegiar grupos. Também 
defendemos o princípio de que só constrói a CPP quem é da Via Campesina ou quem já fez o 
estágio anteriormente, uma das formas de evitar que grupos tragam muitas pessoas apenas 
para votar nas decisões mais importantes ou que passem por cima do acúmulo de construção 
ao longo dos anos.

Além das tarefas cotidianas de construção do estágio, no último período trouxemos 
propostas específicas. Buscamos avançar na horizontalidade da organização e momento do 
estágio, incluindo a autogestão como um princípio e como tema de formações da CPP junto ao 
estudo do Método do Instituto Josué de Castro. Para superar a separação entre a atividade 
intelectual - excessiva durante o estágio - e a atividade corporal, contribuímos para 
continuidade das oficinas do Teatro do Oprimido, que se somaram ao debate fundamental 
sobre o papel da mística. Ajudamos a repensar o espaço da discussão feminista e defendemos 
a inclusão da discussão étnico-racial, que havia sido secundarizada por muito tempo no 
estágio. Propusemos avançar no debate sobre América Latina, incluindo um espaço de análise 
de conjuntura latinoamericana, e buscamos contemplar no debate sobre a questão agrária o 
acúmulo trazido por outros povos do continente, como as lutas independentes dos 
zapatistas, dos mapuche, da resistência às megaobras e ao neodesenvolvimentismo.

Contribuímos para a aproximação do EIV com outros movimentos da luta pela terra também 
negligenciados no espaço universitário e na cidade, o movimento indígena e quilombola. 
Começamos essa aproximação em 2016, quando tivemos contato com os Kaingang de Abelardo 
Luz, aldeia que fica a menos de 10 km do assentamento que recebeu o estágio, onde 
realizamos uma formação sobre a luta por território desse povo, seus conflitos, conquistas 
e cultura. No ano seguinte, fizemos a aproximação e a vivência com o povo Guarani, em 
Araquari (SC), próximo ao assentamento do MST, facilitando pontes de solidariedade entre 
as(os) indígenas e as(os) companheiras(os) acampadas(os)e assentadas(os) na região. Com 
esses contatos, buscamos ampliar os temas que fazem parte da formação dos estagiários, 
incluindo outras formas de organização e luta pela terra, fortalecendo estas pautas nos 
movimentos estudantis e urbanos como parte do avanço para o projeto agrário popular e para 
a luta antirracista e anticolonial.

Gostaríamos de ressaltar que, mesmo com algumas propostas pensadas na nossa organização, 
os percursos desse período não são mérito nosso, são resultado de uma construção coletiva 
entre a CPP, onde a militância independente teve papel fundamental, pois geralmente 
compunha a maioria das pessoas na construção cotidiana, debates, formações e na divisão 
das tarefas.

Histórico das relações entre a Via Campesina e a Comissão Político-Pedagógica

Acreditamos que o EIV-SC, e particularmente a CPP, deveria estabelecer uma aliança com os 
movimentos da Via Campesina e com as juventudes dos movimentos. Um ponto de apoio capz de 
mandar representação nos espaços de organização e formação dos movimentos, trazer suas 
demandas para a Universidade e para as lutas da cidade, mas também capaz de unidade na 
ação para fortalecer as ocupações de terra e demais táticas de pressão dos movimentos nas 
suas lutas. Porém, na maior parte do tempo, não conseguimos cumprir essa expectativa e 
vontade.

Nos últimos três anos, a CPP enfrentou muitos obstáculos para garantir a manutenção desse 
projeto. As universidades federais sofreram um grande ataque com os cortes de verbas, 
especialmente considerando que os projetos de extensão popular nunca foram uma prioridade. 
Sendo assim, a tarefa de conseguir recursos dentro e fora da universidade foi se tornando 
um desafio cada vez maior para toda a construção, o que dificultou ainda mais a 
articulação com os movimentos camponeses em todo o estado.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) não conseguiu acompanhar a construção 
do estágio de maneira cotidiana durante os últimos anos, ao contrário do que acontecia 
anteriormente, assim como a Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB) não 
esteve presente. Desta forma, a continuidade do estágio dependeu da dedicação de 
organizações e estudantes que não tinham vínculo direto com a Via Campesina, mas que 
haviam realizado o estágio e acreditavam na sua proposta.

Essas pessoas fizeram o estágio acontecer durante esses anos através de pressão na 
Reitoria da UFSC, fazendo formações e reuniões mensais durante todo o ano para pensar as 
demandas e debates do estágio, buscando recursos em sindicatos, organizando eventos e 
outras formas de levantar verba para garantir a existência do EIV, ampliar sua divulgação 
em Santa Catarina e a presença das pautas dos movimentos do campo na Universidade.

Problemas na construção em 2017 e o cancelamento do EIV 2018

Não são recentes os relatos de problemas e desconfortos enfrentados na construção do 
estágio, tanto por organizadas(os) quanto por independentes. Todos os anos, algumas 
divergências e disputas se tornam conflitos, ocasionando prolongamento nas discussões e na 
tomada de decisões. Em nossa avaliação, a construção do EIV é formativa também enquanto um 
exercício de autocrítica, uma capacidade que faz parte da vivência de qualquer militante, 
independente de seu espaço de atuação.

No ano de 2017 começamos a CPP com uma maioria de independentes, a Juventude Comunista 
Avançando (JCA), Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CABN) e a Rede Estudantil Classista e 
Combativa (RECC). Posteriormente, a União da Juventude Comunista (UJC) e a FEAB também 
participaram. Entre 2016 e 2017, as CPPs identificaram algumas posturas por parte da JCA e 
UJC que prejudicavam e desgastavam a realização do estágio, decidindo coletivamente pela 
produção de notas críticas. Como alguns desses problemas foram recorrentes na história do 
EIV, suas publicações foram avaliadas como um registro importante para o aprendizado 
coletivo da CPP e para os futuros estágios.

As notas (aqui e aqui) foram acordadas entre as CPPs inteiras, contemplando a posição de 
muitas militantes independentes que possuem diferentes perspectivas políticas e que, por 
isso, não atuam como um grupo próprio. No entanto, consideramos que alguns setores 
acabaram personalizando ou distorcendo essas críticas que eram coletivas, tratando elas 
como um instrumento de disputa política e criando uma falsa narrativa de perseguição a sua 
organização, um suposto "anticomunismo" e, com isso, deslegitimando a construção do EIV 2018.

Após alguns meses com bastante dificuldade no contato com a Via Campesina, com 
cancelamento de reuniões no interior do Estado e falta de resposta de e-mails, a CPP foi 
informada em meados de dezembro sobre o cancelamento do estágio na edição 
janeiro/fevereiro de 2018, mesmo com um ano inteiro de organização e com o financiamento 
garantido pela universidade. Considerando as demandas urgentes causadas pela desocupação 
do Acampamento Marcelino Chiarello e o histórico de má comunicação entre Via e CPP, o 
horizonte apontado foi a construção de um seminário para discutir os horizontes do estágio.

No entanto, os esforços da CPP foram desconsiderados nesse processo. Não recebemos 
resposta aos e-mails enviados com propostas de datas, convites para reunião e proposta de 
cronograma do seminário. As possíveis críticas da Via Campesina ao EIV não foram 
apontadas. Uma reunião para organizar o seminário foi marcada sem conversa prévia com a 
CPP, onde foram convidadas organizações políticas que não fazem parte da Via nem 
construíam o estágio, com o fim de construir uma nova CPP.

Consideramos que houve um boicote da Via Campesina à Comissão Político-Pedagógica 
2017-2018, que representa um grande desrespeito com as(os) militantes que se dedicaram 
durante todo esse período por acreditar nos objetivos e nas conquistas do estágio. Neste 
ano em que a CPT divulgou que as mortes no campo voltaram ao absurdo patamar dos momentos 
mais sinistros da história recente, torna-se ainda mais crítica a perda de uma edição do 
EIV e o desrespeito à política de unidade entre diferentes setores da esquerda que 
caracterizou o EIV-SC em grande parte de sua história, incluindo a última CPP.

Saída do CABN e próximos passos para as lutas no campo e na floresta

Pelos motivos relatados acima é que decidimos pela saída da construção do EIV-SC. 
Rejeitamos a crítica de que nossas divergências seriam por algum tipo de anticomunismo ou 
anti-organizacionismo, concepções totalmente contrárias a nossa ideologia anarquista. O 
anarquismo especifista defende enquanto princípio a organização do povo em seus organismos 
de luta e, também, da militância anarquista em sua organização política, que no nosso caso 
é o Coletivo Anarquista Bandeira Negra e a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB). Temos 
horizonte político no ideal comunista formulado pelas lutas de nossa classe, aquele mundo 
em que todos produzirão quanto podem e todos terão quanto necessitam.

Também ressaltamos que essa saída não está relacionada a alguma divergência fundamental de 
projeto para a realidade do campo no Brasil e América Latina, frente ao projeto defendido 
pela Via Campesina. Esperamos, no atual momento, que os movimentos sociais da Via, em 
particular o MST, MPA, MMC e MAB, avancem cada vez mais em organização, combatividade e 
conquistas. Dentro de nossas humildes forças, seguimos dispostas e dispostos a somar lado 
a lado com o povo camponês de Santa Catarina em suas ações de luta pela terra, pela 
reforma agrária popular, pela agroecologia, contra os transgênicos e agrotóxicos, pela 
educação no campo, pela liberdade de organização e manifestação, pelo socialismo.

Escrevemos esta nota inspirada na boa tradição da crítica e auto-crítica que esperamos 
cultivar dentro das organizações da classe trabalhadora, para evitar que o debate político 
se perca em um pântano de informações desencontradas, boatos ou personalismos. Acreditamos 
que a avaliação e propostas enunciadas aqui fazem parte da experiência e aprendizado 
conjunto de lutadoras e lutadores e que sua discussão pode promover avanços para nosso 
povo. Em particular, esperamos que seja apreciada de forma fraterna pela militância da Via 
Campesina e pela companheirada que vai seguir organizando o EIV-SC. Da nossa parte, 
afirmamos que mantemos abertura e interesse em ouvir e discutir qualquer crítica a nossa 
atuação nesse período, pois sabemos que as contradições fazem parte da trajetória de todas 
e todos que buscam romper as correntes que nos prendem.

Pela reforma agrária popular!

Pelo fim de todas as cercas!

Coletivo Anarquista Bandeira Negra

https://www.cabn.libertar.org/nota-sobre-a-saida-da-construcao-do-estagio-interdisciplinar-de-vivencia-eiv-sc/


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