(pt) [Espanha] Ser antissistema não é mais o que era By A.N.A.

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Domingo, 22 de Abril de 2018 - 07:57:16 CEST


"Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você" - Nietzsche ---- 
Antissistema siamo tutti. Anos atrás, o auge da dissidência consistia em declarar-se 
"antissistema", que era o mesmo que se opor a todo Deus. Nem os radicais nem os 
esquerdistas tinham uma pátina tão subversiva. O verdadeiramente refratário, o 
enfurecimento quimicamente puro, estava naquele universo militante que rejeitava de cara o 
status quo. Todo o resto pertencia à órbita do convencional, banal e conservador. Embora 
na época das taxonomias ideológicas, no subconsciente, o antissistema ainda estivesse 
localizado como uma categoria de extremismo esquerdista. ---- Agora tudo o que explodiu 
como resultado da crise da dívida e as receitas austericidas aplicadas como um corta fogo 
unilateral por parte dos governos da zona do euro. Nem direita nem esquerda, nem acima nem 
abaixo, somente dentro e com ou fora e contra. Não há mais possibilidades. As últimas 
eleições na Itália ratificaram a ruptura epistemológica no epicentro da União Europeia 
(UE). Como aconteceu antes na França com a ascensão da Frente Nacional (FN) e na Alemanha 
com a Alternativa para a Alemanha (AfD).

Os fogos de artifícios do Movimento 5 Estrelas (M5E) de Luigi Di Maio e a Liga Norte de 
Matteo Salvini, são a expressão viva de que o antissistema já não tem uma única 
denominação de origem. Entre outras coisas, ou talvez por causa disso, porque o seu 
surgimento não é devido ao processo de decantação ideológica, mas uma transformação 
sociológica. É uma rebelião contra os politicamente corretos e suas subsidiárias 
midiáticas e demoscópicas. Uma expressão de saciedade diante da realpolitik executada 
pelos líderes da UE que se fizeram de surdos aos problemas das pessoas que eles alegavam 
representar. Até ontem um grupo de eleitores e contribuintes complacentes sem dúvida. O 
bizarro Donald Trump é o mais recente ajudante VIP deste anti-establishment vintage.

Obviamente, quando esses poderes viram suas posições em perigo diante de um ataque tão 
súbito, eles correram para classificá-los com pragas. Populistas é o termo moderno usado 
para tentar uma marginalização lexicográfica que contém o tsunami. Expressão recorrente a 
partir do momento em que os novos acrônimos são certamente abraçados pelos setores mais 
populares da cidadania. Além disso, as bases dessas formações políticas emergentes vêm, na 
maioria dos casos, das classes trabalhadoras. Da passagem de apoiadores e antigos 
seguidores dos partidos comunistas, caso da França e Itália e seus irmãos de fé na antiga 
República Democrática Alemã (RDA). Parece que, por ironias da vida, os epígonos do 
nacional-socialismo e seus gêmeos do socialismo em um só país confluíram para um ponto 
cego de um novo e catártico compromisso histórico. As massas são imprevisíveis. No livro 
"O 18 Brumário" de Louis Bonaparte Marx denunciou como "a luta de classes na França criou 
circunstâncias e condições que permitiram um personagem medíocre e grotesco representar o 
papel de herói".

Exagero? Pessimismo antropológico? Tudo depende da posição do observador no momento, mas o 
marcador experiente é adverso aos antissistemas gauchistas (internacionalistas), que 
correm o risco da duplicidade com sua nêmese ao compartilhar idêntica socialização 
eurocêntrica e antiglobalização. O único expoente dessa tendência que tocou o poder, a 
Aliança da Esquerda Radical (Syriza) na Grécia, não só está legislando as medidas 
econômicas e sociais mais draconianas que nunca se viu no lugar que inventou a democracia, 
mas, para liderar o governo, pactuou com os Gregos Independentes. Uma formação que como 
disse o ex-ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, "nas questões sociais e relações 
internacionais adotava postulados mais típicos da extrema-direita, que escorria 
ultranacionalismo, um racismo velado, sexismo e homofobia profunda" (Comporte-se como 
adultos). E há o risco de que o exemplo seja definido se o M5E formar um governo na Itália 
com os aspirantes fascistas da Liga Norte.

Mas, além disso, o mapa insurgente antielites está deixando sem relato um dos dogmas da 
mística revolucionária. O ataque aos cegos não requer mais uma tomada violenta do poder 
por parte de vanguardas iluminadas. Você pode conquistar o palácio de inverno nas costas 
de uma maioria social representativa, e pelas urnas. Inclusive estaríamos até tentados a 
acrescentar isso "democraticamente" se cometêssemos o erro habitual de reduzir a 
democracia ao rito exclusivo do sufrágio. À aprovação dos votos, as hostes xenófobas da FN 
foram para o segundo turno nas eleições francesas; a ultranacionalista Liga Norte 
multiplicou sua capacidade até alcançar o terceiro lugar no escrutínio; e os pós-fascistas 
da Alternativa para a Alemanha tem pesquisas favoráveis que a coloca acima do histórico 
Partido Social-Democrata (SPD). Para os radicais de toda a vida, deve ser muito difícil 
admitir que os inimigos de hoje sempre competem em sua mesma categoria.

Tudo isso aconteceu porque o sistema se tornou um jogo de monopólio onde não há diferença 
real entre governo e oposição, entre a direita e a sediciosa esquerda. Ambos, com cabeças 
trocadas, remam na mesma direção à serviço das grandes potências econômicas e financeiras. 
Um indecente turnismo instituído que a debacle da crise tornou insuportável para milhões 
de pessoas que, sem comer ou beber, pagaram pelos pratos quebrados da plutocracia 
dominante. No entanto, não há um padrão ideológico que unifique aos múltiplos populismos 
em jogo. Como demonstra o fato de que sejam precisamente os dois países que suportaram 
longas ditaduras, Espanha e Portugal, os únicos que foram poupados da peste fascistoide. 
Mas a socialização do protesto deixou de ser patrimônio da esquerda nominal.

Hoje o aggiormento transborda as fronteiras ideológicas. Assim, o setor ultra se define 
como anticapitalista; dispõe de "espaços sociais" okupados onde eles exibem suas propostas 
específicas antissistema (nacionais primeiro) e apoiam a diversidade sexual quebrando os 
moldes de sua tradição homofóbica (a líder da Alternativa para a Alemanha é uma lésbica 
orgulhosa). Pode até mesmo ser uma ligação orgânica entre o lado A do populismo, 
representado pelos xenófobos de extrema-direita, e o lado B, inserido na extrema-esquerda 
comunista, na utilização do aparato de agitprop financiado por Putin e sua nomenklatura. 
As campanhas de desinformação (pós-verdade) das corporações midiáticas, como Rússia Today 
e Sputnik, têm terminais tanto entre os pós-comunistas quanto entre os pós-fascistas. O 
Partido Democracia Nacional e o Movimento Social Republicano (aqui os termos democracia e 
republicano são meros artifícios) compartilham o mesmo patrocinador com os oligarcas do 
Kremlin que tão generosamente financiam a Frente Nacional de Marine Le Pen. Desde a 
anexação militar da Crimeia e o apoio russo à guerra no Leste da Ucrânia, ambos marcam o 
mesmo passo.

Mesmo assim, há uma razão em sua debandada. O húmus que fertiliza tudo tem seu epicentro 
nos custos brutais da crise passada para as vítimas através de reformas estruturais, 
cortes e ajustes, e que foram desvalorizados a golpes de machado liberdades e direitos 
sociais e laborais, deixando à intempérie a cidadania. As descaradas transferências 
diretas de renda do trabalho ao capital e privatização dos serviços públicos, planejadas 
por muitos governos europeus ao som da Troika são a razão de ser do terremoto que rachou o 
mapa político continental. Neste sentido, o caso espanhol, longe de ser um aparte, 
constitui um agravante pela corrupção desenfreada que atravessa o Regime de 78. Como 
evidenciado pela brusca resignação das "classes passivas" fartas de ser, junto com os 
jovens, quem paga pela fanfarronice.

Quando o governo do Partido Popular diz que não há dinheiro para aumentar as pensões de 
acordo com o índice do custo de vida (IPC) e que o Fundo de Reserva da Segurança Social 
(FRSS) está esgotado, apenas reconhece a alocação mafiosa dos recursos públicos, a 
economia de soma zero que pratica (a "expropriação" de rodovias privadas falidas por 760 
milhões de euros é outro indicador de sua condição cleptomaníaca). Esconde-se que muito 
dessa escassez dolosa provem de "socializar" os mais de 40.000 milhões de euros que 
representam a corrupção anual, segundo dados da Comissão Nacional de Mercados e 
Concorrência (CNMC). Uma cifra que deve ser adicionada, agora em uma única partida, aos 
outros 60.600 milhões de resgate do sistema financeiro dado como perdido pelo Banco de 
Espanha (em grande parte por conta da Bankia de Rodrigo Rato e da Catalunya Caixa de 
Narcís Serra, entre os vice-presidentes que andaram no jogo).

Nisso, todos os populismos coincidem: o sistema se fez anti-nós.

Rafael Cid

Fonte: http://rojoynegro.info/sites/ default/files/rojoynegro% 20322%20abril%20.pdf

Tradução > Liberto


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