(pt) anarkismo.net: Estamos sob ameaça fascista? by BrunoL

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Quinta-Feira, 5 de Abril de 2018 - 06:59:13 CEST


O tema é preocupante e agora deixou de ser uma especulação para entrar no campo das 
probabilidades. ---- O tema é preocupante e agora deixou de ser uma especulação para 
entrar no campo das probabilidades. Para o fascismo avançar, de forma "clássica", seria 
preciso uma estrutura organizada, um partido organizado de fato, algo que nem sequer o Dr. 
Enéas Carneiro arriscou organizar. Massificar a extrema-direita - por uma vertente de 
verniz nacionalista-conservador ou mais alinhada com a "linha chilena" - não é tarefa 
fácil e menos ainda controlável. Na ausência de um partido fascista, não tendo nem sequer 
uma legenda eleitoral nitidamente identificada com as duas vertentes listadas acima, 
passamos para uma segunda caracterização.

O tema é preocupante e agora deixou de ser uma especulação para entrar no campo das 
probabilidades. Para o fascismo avançar, de forma "clássica", seria preciso uma estrutura 
organizada, um partido organizado de fato, algo que nem sequer o Dr. Enéas Carneiro 
arriscou organizar. Massificar a extrema-direita - por uma vertente de verniz 
nacionalista-conservador ou mais alinhada com a "linha chilena" - não é tarefa fácil e 
menos ainda controlável. Na ausência de um partido fascista, não tendo nem sequer uma 
legenda eleitoral nitidamente identificada com as duas vertentes listadas acima, passamos 
para uma segunda caracterização.
O Brasil vive um clima fascista nas redes sociais e que vai ao encontro de dois fenômenos 
permanentes na estrutura social das classes sociais oprimidas no país. As duas estruturas 
abaixo incidem sobre a democracia brasileira (liberal, indireta, mas tensionada por uma 
Constituição Cidadã e o reconhecimento de direitos de 4a geração) e foram catalisadas pela 
força difusora do ódio e da imbecilidade através de dois expoentes desta demência 
coletiva. O deputado federal pelo Rio de Janeiro e pré-candidato à Presidência, Jair 
Bolsonaro (PSC/RJ) e o incansável difusor de teses conservadoras e estapafúrdias na rede, 
o astrólogo Olavo de Carvalho. Estes dois personagens acima seriam apenas ridículas 
caricaturas (pelo critério de razoabilidade) caso não tivessem sendo propaladas através da 
internet massificada no Brasil e indo ao encontro de duas instituições sociais - difusas, 
mas perenes - como as citadas abaixo.
Primeiro, o dia a dia da maior parte de nossa população, em especial das maiorias urbanas 
e periféricas (vivendo nas 30 Regiões Metropolitanas) é atravessado pela violência 
estatal, o controle estendido das facções oriundas do domínio do sistema prisional e da 
precariedade nos direitos civis. Isso cria um clima fascistoide, onde transitam com vigor 
as lógicas como "bandido bom é bandido morto". Mais à frente, em outras publicações, vamos 
debater (novamente) o carcomido modelo policial brasileiro.
A segunda permanência na estrutura social brasileira é o crescimento vertiginoso do 
neopentecostalismo. Estas "igrejas" de formato empresarial captam liquidez financeira (com 
doações desproporcionais a renda dos fieis e em espécie) e adesão nas bases da sociedade e 
não são unificadas, concorrendo entre si. Mas, estas "igrejas" acabam tendo alguns 
expoentes midiáticos como o "bispo" Edir Macedo (e seu sobrinho prefeito do Rio de Janeiro 
pelo PRB, Marcelo Crivella, PRB/RJ); o pastor e deputado federal por São Paulo Marco 
Feliciano (do Avivamento, um ramo da Assembleia de Deus e com mandato pelo PSC/SP) e o 
melhor polemista de todos e também o mais agressivo, líder da ala majoritária da 
Assembleia de Deus no Brasil, o pastor e psicólogo Silas Malafaia.
Essas duas presenças (violência policial e para-policial e neopentecostalismo conservador) 
e as consequentes compreensões de fenômenos como violência estatal, economia do crime, 
postura predatória e individualismo levam a um ódio entre os debaixo e o apoio consequente 
a práticas ilegais de repressão, chegando a apoiarem execuções extra judiciais.
O encontro é explosivo, pois a propaganda absurda do clã político dos Bolsonaro encontra 
eco na pregação do ódio por Marco Feliciano e dos giros cada vez mais à direita política, 
ideológica e eurocêntrica de Silas Malafaia. Ao mesmo tempo, esta mensagem ganha impacto 
nas camadas populares e entre operadores das Polícias Militares - que em geral não 
questionam o modelo da instituição - e defendem as práticas de violência excessiva, 
diuturnamente praticadas. É uma soma explosiva quando há vazio político, criminalização 
tanto dos intermediários profissionais (em geral oligarcas comprometidos consigo mesmos, 
vide o Congresso do golpe) como do empresariado familiar brasileiro (dilacerado após a 
Lava-Jato). Como a centro-esquerda após 13 anos de governo nacional com aprovação popular 
recorde não criou uma nova base social permanente, estamos diante do abismo ideológico a 
ser conquistado. Já soou o gongo.
2013, Venezuelização e os pregadores do ódio
Se formos recapitular os episódios brasileiros desde 2013, ficou evidente algo. Os 
governos lulistas (PT como partido de governo, PC do B como força aliada principal e a 
composição de pacto de classes) não criaram uma força social para servir como base para 
além do eleitoral. Daí a surpresa que todas e todos tivemos com a adesão massiva em 2013 - 
muito antes de junho, me refiro, por exemplo, à vitória do direito coletivo arrancado a 
unha em Porto Alegre ainda em maio daquele ano - e reorientação dos grupos de TV sobre o 
Junho. Recordo que os carros das equipes de televisão estavam sendo incendiados por quem 
ocupava a rua protestando contra o aumento das passagens e os repórteres trabalhando sem 
canopla, ou seja, sem identificação das emissoras. Em seguidos episódios, os editoriais 
foram modificados e as coberturas alteradas para louvar os "bons protestos" (sugiro 
conferir os trabalhos dos jovens jornalistas gaúchos Pedro Kessler e Anderson Huber).
A outra "surpresa" veio na sequência, com a incrível capacidade da excrescência dar a cara 
na rua, no processo conhecido em 2014 e em 2015 como a "venezuelização da política 
brasileira". Ainda no final de 2014 já havia atos na Avenida Paulista com 20 mil 
alucinados convocados por pastores e o clã Bolsonaro contestando os resultados eleitorais. 
Isso concomitante à maturação da nova geração de neoliberais militantes, cujo expoente 
máximo é a empresa que atende pela sigla de MBL e sua incrível capacidade técnica de criar 
fatos políticos a partir de factoides digitais e a decorrente perseguição de seus alvos e 
desafetos.
Hoje, aqueles e aquelas que conhecem um pouco da nova direita cibernética brasileira 
(operando no Brasil seria o melhor termo) veem que há uma tendência à separação entre 
"liberais" x "conservadores", respectivamente estando os primeiros sob os holofotes do MBL 
e os segundos sob a liderança de Bolsonaro. As teses podem se aproximar, já que têm 
inimigos comuns, motivações semelhantes, a mesma incidência de valores e simbologia da 
política neoconservadora dos EUA e uma enorme munição de gerar fatos controversos e "fake 
news" através das redes sociais.
A soma destes setores é desproporcional à sua capacidade de convocatória pela internet. 
Mas tal como as fake news, alguém, alguns, pensam parecido e emitiram tais enunciados para 
um robô, empresa ou algoritmo cruzar e propagar. Ou seja, atrás desta fumaça, há fogo. Não 
apenas há fogo como há uma dimensão autorizativa de propagar o ódio, de virar o fio, algo 
que as maiores empresas de comunicação, a começar pela própria Globo, resolveram colocar 
um pé no freio - ao menos na rede aberta e em formadores de opinião conservadora - após os 
assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes.
Se há alguma responsabilização por este conjunto endêmico de ódio social, reproduzindo o 
pior do Brasil em todos os níveis, eu concordo com a tese de Luis Nassif e atribuo a 
campanha dos maiores grupos de mídia contra as tímidas políticas compensatórias do 
lulismo. A começar pela maldita campanha contra as cotas e a ridícula tese do Diretor 
Geral de Jornalismo e Esportes da Globo, Ali Kamel, com seu livro "Não somos racistas" 
(editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2006). Ou então na presença de Reinaldo Azevedo 
com seu blog à frente da Veja (onde trabalhou por doze anos, até maio de 2017) cunhando 
termos como "esquerdopata". Depois de propalado, com a potência que tinha a revista 
semanal dos Civita, o estrago encontra eco nas cloacas da sociedade e se dispersa 
perigosamente.
Para concluir esta breve série, é preciso compreender - interpretar ao menos - efeitos da 
Lava-Jato e do governo Temer sobre esta ameaça. Estamos diante da quebra do pacto de 
classes do lulismo- situação conjuntural que leva a uma derrota estrutural em termos 
econômicos - e do dilacerar da Constituição - esta sim uma derrota estratégica que todo o 
povo vem sofrendo - o país viveu um transe - que já passou - onde todas as piores teses, 
as mais asquerosas e horrendas, entre regressivas e racistas, vieram à tona. A agenda do 
Congresso antes do impeachment do segundo governo Dilma já era terrível e continuou sendo, 
ampliando ao máximo a regressão de direitos.
Outro fator importante é o isolamento societário do governo Temer, auxiliando-se cada vez 
mais em cima do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), do ministro e general Sérgio 
Etchegoyen, nos decretos de GLO (Garantia da Lei e da Ordem, como no Rio, por exemplo) e 
agora na pirotecnia - já fracassada - da Intervenção Federal no Rio de Janeiro (a ressaca 
pós-carnaval de Temer). Este conjunto explosivo, mais as falas perigosas do general - 
agora na reserva - Hamilton Mourão, somado ao impedimento - fático - de Lula concorrer, 
coloca o ex-capitão Jair Bolsonaro com 20% de intenções de voto caso chegue ao segundo 
turno. Por direita, extrema ou lavada, o "mito" se torna a opção "mais viável" para 
tentarem vencer as eleições, e a certeza mais segura de não conseguir governar, 
transformando o país em um caos em todos os níveis.
A situação é bem difícil e traz o elemento incendiário dos assassinatos de Marielle Franco 
e Anderson Gomes (em 14 de março de 2018). Em outras circunstâncias, estes crimes estariam 
atados ao terrível contexto do Rio de Janeiro, com para-militarismo, controle territorial 
e violência recheada de execuções extralegais. Mas, como os assassinatos se deram sob 
Intervenção Federal e nas horas seguintes sofreram uma enxurrada de Fake News e crime 
contra a honra da militante do PSOL, negra, homoafetiva, feminista e cria da Maré, nos 
deparamos diante de um divisor de águas. Antes e depois deste crime. Definição explícita 
de lados, e o flerte do fascismo com alguma chance de exercício de poder - basta observar 
a campanha do Trump e como estes métodos estão se reproduzindo no Brasil - enquanto os 
conglomerados de mídia tentam se desvencilhar do monstro que ajudaram a criar.
Como já disse antes, o gongo já soou para o povo brasileiro. Nenhuma expressão 
fascistoide, seja pela Intervenção Militar, seja na candidatura de Bolsonaro, seja na 
versão de linha chilena e "fascismo de mercado", nada disso pode passar!
Bruno Lima Rocha é cientista político, professor de relações internacionais e de jornalismo
(estrategiaeanalise.com.br / estrategiaeanaliseblog.com / Canal do Telegram 
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