(pt) anarkismo.net: As oligarquias da mundialização financeirizada esgotam a pouca democracia do sistema capitalista by BrunoL

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Domingo, 10 de Dezembro de 2017 - 07:03:18 CET


"Junk Economics", o "lixo da economia propaladora do neoliberalismo vulgar", ou 
simplesmente a "perigosa propaganda do ultraliberalismo financeiro". ---- O texto que 
segue é um exercício que me dispus a fazer e, ao mesmo tempo, um breve aporte teórico para 
a pesquisa a qual me envolvo e está em andamento (portanto a bilbiografia de referência 
está na sequência do texto). Abordo abaixo duas correlações evidentes, aliás, nada 
originais, embora absurdamente ignoradas pelos meios de comunicação hegemônicos e, justiça 
seja feita, em escala mundo. Trata-se de correlacionar obviedades da boa e viva economia 
política com as estupidezes, a perigosa propaganda da "Junk Economics", o "lixo da 
economia propaladora do neoliberalismo vulgar", ou simplesmente a "perigosa propaganda do 
ultraliberalismo financeiro". Trata-se de um conjunto de mentiras afirmações absurdas, 
cuja meta permanente é esgotar o pouco de democracia - direitos coletivos conquistados à 
unha - existente no capitalismo mundializado em sua etapa financeira.

04 de dezembro de 2017, Bruno Lima Rocha

O texto que segue é um exercício que me dispus a fazer e, ao mesmo tempo, um breve aporte 
teórico para a pesquisa a qual me envolvo e está em andamento (portanto a bilbiografia de 
referência está na sequência do texto). Abordo abaixo duas correlações evidentes, aliás, 
nada originais, embora absurdamente ignoradas pelos meios de comunicação hegemônicos e, 
justiça seja feita, em escala mundo. Trata-se de correlacionar obviedades da boa e viva 
economia política com as estupidezes, a perigosa propaganda da "Junk Economics", o "lixo 
da economia propaladora do neoliberalismo vulgar", ou simplesmente a "perigosa propaganda 
do ultraliberalismo financeiro". Trata-se de um conjunto de mentiras afirmações absurdas, 
cuja meta permanente é esgotar o pouco de democracia - direitos coletivos conquistados à 
unha - existente no capitalismo mundializado em sua etapa financeira.
Para afirmar este óbvio pouco dito não levei mais de meia hora. O fiz como teste, apenas 
coletando algumas referências vivas das ciências econômicas brasileiras - justo a parcela 
que não se vendeu para os bancos e logo não fala pelo tal do "mercado" - e cruzando com 
minhas pesquisas anteriores. A verificação se deu, e rápido, como posso afirmar que 
qualquer estudante de ciências humanas, se exposto a um semestre de pesquisa na área, fica 
apta (ou apto) a rebater qualquer baboseira do gênero neoliberal vulgar, apesar do mesmo 
pacote de sandices mal intencionadas ser reproduzido em nível acadêmico e midiático em 
escala global.
Comecemos pela caracterização da mescla de estupidez com extração de mais valia social 
coletiva verificada na "recuperação pós-bolha de 2008/2009" e seguida da expansão 
incontrolada de operações conhecidas como shadow banking (com o perdão da redundância, 
derivadas das transações com derivativos e outros instrumentos de apostas e manipulação 
especulativa). A definição mais apropriada que encontramos e admitida como válida para 
definir o mundo - e, especificamente, o ocidente - do eixo anglo-saxão e da Europa 
unificada (somadas suas áreas de influência direta e indireta, mesmo que sob influência 
concorrente com as Potências Eurasiáticas), se baseia em Belluzzo e Galípolo (2017):
"Ainda hoje", nos tempos da recuperação raquítica, a expansão da liquidez financia a 
aquisição de ativos já existentes, como a recompra das próprias ações ou o aumento de 
recursos líquidos, a fim de acumular ativos financeiros e reforçar balanços, em vez de 
financiar a aquisição de bens e serviços. Novas bolhas de ativos.
A riqueza agregada é o estoque de direitos de propriedade e títulos de dívida gerados ao 
logo de vários ciclos de criação de valor. A renda nacional é o fluxo de renda criado pelo 
investimento em nova capacidade produtiva e no consumo das famílias, o próprio valor em 
movimento.
As injeções de liquidez concebidas para evitar a deflação do valor dos ativos já 
acumulados não estimularam a criação de valor em movimento, mas incitaram e excitaram a 
conservação e a valorização da riqueza na sua forma mais estéril, abstrata.
Em contraposição à aquisição de máquinas e equipamentos, a valorização desses ativos não 
carrega qualquer expectativa de geração de novo valor, de emprego de trabalho vivo. O que 
era uma forma de evitar a destruição da riqueza velha provoca a esclerose do impulso à 
criação de riqueza nova."
A situação está mais feia do que aparenta, apesar de toda a espetacularização do 
cotidiano. A fase do capitalismo global monopolista-financeiro, vinculada à globalização 
da produção e à sistematização do rentismo imperial, gerou uma oligarquia financeira e um 
retorno à riqueza dinástica, principalmente nas nações centrais, confrontando de forma 
cada vez mais generalizada (mas também altamente segmentada) com a classe trabalhadora em 
todo o mundo. Logo, "[...]a fração líder da classe capitalista nos países centrais agora 
consiste no que poderíamos chamar de rentistas globais, dependente do crescimento do 
capital global de monopólio e finanças e sua crescente concentração e centralização", de 
acordo com Thomas apud Foster (2015).
A reprodução deste novo sistema imperialista, como Amin apud Foster explica no Capitalismo 
na Era da Globalização (2015), "baseia-se na perpetuação de cinco monopólios: (1) 
monopólio tecnológico; (2) controle financeiro de mercados mundiais; (3) acesso 
monopolístico aos recursos naturais do planeta; (4) monopólios de mídia e comunicação; e 
(5) monopólios sobre armas de destruição em massa".
Assim, temos a nova verificação de um conceito evidente. Há uma dinâmica de portas 
giratórias em escala mundo, sendo que muitas vezes a "elite nacional financeira" se torna 
transnacional, sendo operadora de confiança dos especuladores do eixo NYC-Londres, ou 
associada, ou também como internacionalizando e financeirizando grupos outrora nacionais 
(na prática, transnacionais na projeção e ‘nacionais' nas relações políticas de privilégio 
na barreira à entrada, operando dentro do lócus de poder político-técnico-jurídico de 
interesse). Vale observar como temos a reedição do conceito de elites orgânicas, conforme 
Dreifuss (1986, p. 24):
"Ao constituir-se como tal, a elite orgânica se diferencia do conjunto das classes 
dominantes e mesmo dos interesses representados do bloco de poder do qual faz parte, 
lidera e viabiliza, operando assim como fator de poder num nível especificamente 
‘político' (obs: estas segundas aspas são minhas). Embora organicamente vinculada ao seu 
universo sócio-econômico-cultural, esta diferenciação é imprescindível para uma 
intervenção política eficaz e eficiente, na medida em que a classe dominante é una na sua 
diversidade de unidade de acumulação competitivas - seja no nível da composição de 
capital, no plano da produção setorial ou no universo dos grupos econômicos - às quais 
correspondem essencialmente percepções e atitudes corporativas ou de solidariedade (e não 
atitudes ‘políticas') expressas em associações, sindicatos e federações de classe".
Adaptando ou reatualizando o conceito de Dreifuss (1986) em escala transnacional, 
observamos a existência de elites orgânicas em distintas escalas, tanto domésticas - em 
espaços decisórios de Estados relevantes no Sistema Internacional, - como nas TNCs e em 
organismos multilaterais do SI. No mundo "ocidental" ou além das potências eurasiáticas de 
China, Índia e Rússia (nesta escala econômica) ou China, Rússia e Índia (na escala militar 
e tecnológica), são as oligarquias financeiras - e, especificamente, a oligarquia 
financeira e também a financeirizada dos EUA - que detém a centralidade nas portas giratórias.
A pesquisa que segue vem sendo difundida pelo professor Ladislau Dowbor (dowbor.org, do 
PPG da PUC-SP), a qual modestamente me somo como seguidor e reconheço-o como maior 
referência brasileira viva na área. A cadeia de controle de corporações transnacionais 
(TNCs) afeta o mercado em escala global assim como a estabilidade financeira. Uma pesquisa 
combinada produzida pelo ETH (Suíça) expôs a arquitetura de cada proprietário de cadeia 
internacional, mas também a rede de controladores de cada uma destas cadeias. Apenas nesta 
forma de pesquisa combinada, apostando mais em relevo descritivo do que hipóteses 
consolidadas é que se chegou à conclusão objetiva de que havia, em 2011, 43.060 TNCs - 
partindo da base de dados da OCDE . Deste total, 737 conglomerados de grande concentração, 
os chamados tops holders, comandam mais de 80% de todas as cadeias transnacionais de valor 
e controle acionário, conforme Vitali, Glattfelder e Battiston (2011).
E para onde vai parte considerável dos recursos obtidos por esta brutal concentração de 
capital e de poder decisório? Justamente para Paraísos Fiscais ou Jurisdições Especiais, 
uma rede de economia paralela e segredo como forma de evasão de divisas. Vale lembrar que 
tais "jurisdições" obedecem - em sua imensa maioria - a soberanias de potências mundiais, 
incluindo os "paraísos onshore" dos EUA, o conjunto de ilhas como territórios britânicos 
associados e os antigos enclaves europeus (Hong Kong e Macau) devolvidos para a China 
confucionista. Segundo Stiglitz e Pieth (2017):
"Os paraísos fiscais permitem aos criminosos usufruir dos frutos de seu mau comportamento 
e, por isso, persistirem. E os paraísos fiscais tornam virtualmente impossível penetrar na 
rede de maus atores. Quando descobrimos quem é o dono de uma conta bancária na qual foram 
depositados fundos ilícitos, verificamos tratar-se de uma empresa registrada em outro 
paraíso fiscal e tanto agentes da lei quanto jornalistas investigativos se veem diante de 
um beco sem saída".
Apontando conclusões
Como é sabido, a violação sistemática de soberanias relativas e o emprego da evasão fiscal 
e emissão irregular de recursos para jurisdições especiais, opera como uma forma de 
acumulação privada e corporativa em escala mundial. O emprego é global, as cadeias de 
transferência e a centralização decisória - extremamente concentradas - atingem em escala 
global, mas os sistemas de governança e instituições de regulação não o são. Logo, em 
escala doméstica, o que se percebe são os limites da democracia de massas, ou como define 
Dowbor (2017) como "o fim do capitalismo democrático". Dentro desta constante violação de 
soberania e democracia limitada, a autoridade monetária e as autarquias financeiras fazem 
parte da lista de capturas, dos alvos prioritários do capital transnacional. Ainda de 
acordo com Dowbor (2017), os próprios banqueiros são os responsáveis pelas regras que os 
regem, de maneira que mesmo com um sistema de finanças universal, o manejo dos bancos 
primários é nacional.
"Não é o fim do capitalismo, mas o fim do capitalismo democrático. Antes eles precisavam 
de milhares de pessoas, hoje a regra mudou e são as próprias corporações quem decidem o 
que pode e o que não. Isso porque o sistema financeiro é global e o controle dos bancos 
centrais são nacionais". (Dowbor, 2017).
Assim, é urgente conhecer o inimigo, interpretá-lo, decifrar seus movimentos e combater 
severamente o conjunto de mentiras sistemáticas que após infinitamente repetidas, terminam 
por legitimá-lo.
Bruno Lima Rocha é professor de relações internacionais e de ciência política. 
(www.estrategiaeanalise.com.br para textos e áudios / www.estrategiaeanaliseblog.com para 
entrevistas e vídeos / blimarocha  gmail.com para E-mail e Facebook)

REFERÊNCIAS

DREIFUSS, René. A Internacional Capitalista. Rio de Janeiro: Editora Espaço e Tempo, 1986.
BELLUZO, Luiz Gonzaga; GALÍPOLO, Gabriel. A crise financeira e a implosão das ignorâncias. 
Revista Carta Capital, São Paulo, 25 ago. 2017. Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2017.
Dowbor, Ladislau; Os vazamentos do dinheiro público. Dowbor blog, 2014. Disponível em: < 
http://dowbor.org/2014/02/os-vazamentos-do-dinheiro-publico-ladislau-dowbor-janeiro-20144p-2.html/ 
 >. Acesso em: 24 out. 2017.
Foster, John Bellamy. The New Imperialism of Globalized Monopoly-Finance Capital. Monthly 
Review, v. 67, n. 3, jul./ago. 2015. Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2017.
STIGLITZ, Joseph E.; PIETH, Mark. Superando a Economia Paralela. São Paulo, 2017. 
Disponível em: . Acesso em: 24 out. 2017.
VITALI, Stefania; GLATTFELDER, James B.; BATTISTON, Stefano. The Network of Global 
Corporate Control. Plos One. 26 out. 2011. Disponível em: . Acesso em 02 nov. 2017.

https://www.anarkismo.net/article/30702


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