(pt) [Espanha]Nem Angelina Jolie nem Penélope Cruz: ela era Asia Ramazan Antar, comandante das YPJ By A.N.A. Por Nathalia Benavides

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Quinta-Feira, 22 de Setembro de 2016 - 08:22:16 CEST


Nem Angelina Jolie nem Penélope Cruz, ELA ERA ASIA RAMAZAM ANTAR, COMANDANTE DAS YPJ, as 
milícias de autodefesa curdo-sírias que estão combatendo não apenas contra o 
autoproclamado Estado Islâmico e contra os estados assassinos de Erdogan e Al-Assad, senão 
que fazem parte ao mesmo tempo de um processo revolucionário conduzido pelas mulheres. 
---- Uma revolução em todos o aspectos da vida, não apenas na primeira linha de batalha. 
---- Não são uma novidade as forçadas comparações físicas que a imprensa ocidental 
instalou desde que se conheceu a imagem desta combatente curda. Mas a indignação se renova 
cada vez que a partir da notícia de sua morte[em 30 de agosto], estas notas se replicam 
aos montes, inclusive por "simpatizantes" que mais além de suas boas intenções, não 
puderam compreender a profundidade desta disputa. Desrespeitosos, mas coerentes com o 
olhar patriarcal que tudo contamina e tudo apodrece, fazendo dos corpos uma ferramenta 
poderosa para esvaziar a razão de nossas lutas.

Asia Ramazan Antar era parte dessa revolução e continuará sendo, porque como dizem os 
curdos, "os mártires não morrem".

Tomo as palavras de Dilard Dirik, ativista no Movimento de Mulheres do Curdistão, para 
falar dela e de tantas mulheres que DECIDIRAM lutar até morrer se necessário for, para 
alcançar a liberdade:

"Nossos pontos de vista filosóficos nos fizeram mulheres conscientes do fato de que só 
podemos viver resistindo. Nossa revolução vai muito além dessa guerra. Para ter êxito, é 
de vital importância saber para o que se luta".

"A resistência das mulheres curdas opera sem hierarquia ou dominação e faz parte de algo 
maior: a transformação social e a liberação das Instituições poderosas do mundo que operam 
através da estrutura do Estado, o mesmo que finalmente tem o monopólio sobre a tomada de 
decisões, sobre a economia e sobre o uso da força. O mesmo que nos diz que a violência que 
hoje prevalece é a razão pela qual o Estado necessita proteger-nos contra nós mesmos. O 
mesmo que determina que as comunidades que decidem defender-se contra a injusti&c cedil;a, 
devem ser criminalizadas."

Nos últimos dois anos, o mundo foi testemunho da resistência histórica da cidade curda 
chamada Kobane (em Rojava, Curdistão sírio) onde essas mulheres, de uma comunidade 
esquecida, se converteram nos inimigos mais ferozes do grupo autodenominado Estado 
Islâmico, cuja única ideologia está baseada na destruição de todas as culturas, 
comunidades, línguas e cores do Oriente Médio, alterando o convencional entendimento sobre 
o uso da força e a guerra.

Não foi porque os homens estavam protegendo as mulheres ou um estado protegendo a seus 
"sujeitos", que Kobane se inscreverá na história da resistência da humanidade, senão 
porque homens e mulheres sorridentes converteram seus corpos e suas ideias na frente de 
batalha ideológica no qual o grupo Estado Islâmico e sua visão do mundo violador se derrubou.

E foi especialmente no Oriente Médio, onde já não é suficiente para as mulheres "condenar 
a violência" porque a violência se converteu em um fator tão constante em nossas vidas, 
ali onde nossa condição de "vitimas" percebida ou construída se utiliza como justificação 
pelos imperialistas para lançar guerras em nossas comunidades.

O ascenso do grupo Estado Islâmico mostrou os desastres que a plena dependência dos homens 
e dos exércitos dos estados trazem: nada mais que femicídios.

Frente a isto, necessita-se um mecanismo de autodefesa radical.

A conduta de guerra do movimento de liberação curdo se baseia no conceito de "legitima 
defesa" e inclui o estabelecimento de mecanismos sociais e políticos de base para proteger 
a sociedade mais além da simples defesa física.

...Isto só pode alcançar-se em uma sociedade que está politizada, conscientes de si mesma 
e ativa, enquanto que internaliza a ética do amor na comunidade - incluindo valores 
fundamentais como o compromisso com a liberação da mulher, no lugar de depender da lei 
imposta pelo Estado capitalista e seu aparato policial.

O que converteu ao Curdistão no lugar de peregrinação para as mulheres e os movimentos 
antisistemas de todo o mundo é esta postura ideológica que defende a vida, frente a um 
exército da morte.

As forças de defesa em Rojava dão mostra de como a autodefesa pode funcionar sem 
hierarquias, controle e dominação: em meio da guerra, as Unidades de Defesa Populares ou 
YPG e suas brigadas de mulheres, as YPJ, assim como as unidades de segurança interna, 
Asayish, se centram na educação ideológica baseada na igualdade de gênero.

As Academias educam aos combatente para que possam entender que eles não são uma força de 
vingança e que a mobilização atual é apenas uma necessidade devido à guerra.

As academias Asayish trabalham na construção de uma comunidade em que as Asayish não devem 
levar armas, apostando em mediar verbalmente nos conflitos nos bairros, com o objetivo 
último da abolição das forças de segurança curdas por completo, mediante a construção de 
uma "sociedade ético-política" que possa resolver seus próprios problemas. Rechaçam a 
etiqueta de polícia, porque ao invés de servir ao estado, servem às pessoas, e antes que 
nada, porque são pessoas.

...Para as mulheres, a defesa própria é mais que uma questão de vida ou morte.

Não é uma coincidência que os primeiros exércitos permanentes tinham surgido a partir do 
aumento da acumulação de riqueza, o qual também marcou a institucionalização do 
patriarcado e os predecessores do estado. O Estado-nação afirma insidiosamente sua 
existência mediante a elaboração das fronteiras entre as comunidades, a criação da 
paranoia e a xenofobia onde se há produzido os mosaicos de culturas durante séculos. 
Portanto, se estamos comprometidos com a defesa da sociedade, devemos abordar também 
filosoficamente todos os ataques contra a sociedade, já que os sistemas de dominação e 
hierarquia se estabelecem primeiramente em seus pensamentos.

Dualismos como homem-mulher, estado-sociedade, humano-natureza têm como objetivo 
representar as relações hierárquicas como naturais.

A defesa própria, acompanhada pelo pensamento revolucionário, tem o potencial de gerar uma 
mudança social radical. A Revolução de Rojava com seu modelo de "Confederalismo 
democrático", segundo o proposto por Abdullah Öcalan, é um brilhante exemplo do poder do povo.

...A autodefesa deste modo não só deve lutar ‘contra', mas também ‘para' algo, sobretudo 
no Oriente Médio, onde todas as formas de violência se realizam em uma escala 
insuportável. Portanto, a autodefesa é a intenção radical ao dissociar o poder do sistema 
militarista patriarcal - e as mulheres devem ser a vanguarda militante de autodefesa no 
marco da auto-determinação - o que é mais belo ainda, simplesmente, de uma vida em liberdade.

Talvez alguém, depois de saber sobre isso, deixe de comparar vergonhosamente esta mulher 
com personagens inventados pela indústria de hollywood que nem em suas melhores ficções 
poderão nos convencer que se parecem.

Fonte: https://rojavaazadimadrid.wordpress.com/2016/09/11/ni-angelina-jolie-ni-penelope-cruz/

Tradução > KaliMar


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