(pt) Coletivo Anarquista Bandeira Negra: [CAB] Opinião Anarquista - Em defesa dos Povos Originários e das Comunidades Camponesas! Pelo direito à Terra e ao Território!
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Sexta-Feira, 4 de Novembro de 2016 - 17:05:08 CET
Para começo de conversa... ---- Massacres nos campos fazem parte de uma política de
extermínio dos povos originários que passa também pela institucionalidade burguesa com o
estabelecimento de seus padrões de ser, pensar e agir. A negação da identidade de povos
originários através do discurso institucional da "pureza indígena ou quilombola",
veiculado amplamente pela mídia burguesa, traduz o objetivo principal: a negação da terra
e do território para esses povos. Nesta linha de raciocínio, se não existem "indígenas ou
quilombolas puros" não há porque garantir seus territórios. Lembramos que o reconhecimento
indígena ou quilombola passa pela autodeterminação destes povos, cabendo a
institucionalidade tão somente garantir a demarcação de suas terras e a aplicação de
políticas públicas de qualidade e que atendam a especificidade da população indígena e
quilombola.
Por outro lado, vemos a paralisia da reforma agrária para sem terras, camponeses e
camponesas, que é agravada no governo PT/PMDB. Resultado do aprofundamento do
neoliberalismo no campo, assistimos o sucateamento e consequente desmonte de órgãos
importantes para essa política: é o caso do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e
do INCRA. Paralelamente, são tocadas medidas que aceleram a chamada municipalização da
reforma agrária no Governo Temer. Consistindo basicamente na transferência de competência
da reforma para as prefeituras. Temos, então, duas consequências para agricultura
camponesa no Brasil. Uma é os assentamentos se degladiarem pelos parcos recursos que as
prefeituras têm para esse tipo de atividade, sem contar o uso político que estas
provavelmente farão. E outra é o rompimento com a unidade nacional, grande trunfo de
movimentos camponeses como o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST) e
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), na luta pela reforma agrária. Já que agora os
Acampamentos e Assentamentos vão reivindicar das prefeituras e não mais do Governo Federal.
Seja pelos povos originários ou pelos camponeses a realidade do campo brasileiro não está
fácil e pelo que parece tende a ficar pior. Vejamos...
Demarcação das Terras e o reconhecimento do Território Indígena e Quilombola.
A demarcação de terras indígenas e quilombolas seguem sendo ameaçada pela Proposta de
Emenda Constitucional (PEC) 215/2000, que modifica o procedimento de demarcação destas
terras trazido pela constituição federal e viola direitos adquiridos pelos povos originários.
Atualmente, depois de todo o procedimento administrativo, a demarcação da Terra Indígena
deve ser homologada pelo executivo federal (Presidência da República). Com a PEC 215, esta
competência é transferida para o Congresso Nacional. Isto significa que a demarcação das
terras indígenas ficará nas mãos da bancada ruralista, latifundiários, senhores do
agronegócio, os mesmos que promovem o extermínio de nossos povos no campo, os mesmos
conservadores que veiculam o discurso de negação de identidade indígena e quilombola.
Além disso, a PEC amordaça os direitos dos povos originários quando define que o dia 5 de
outubro de 1988, data em que a Constituição foi promulgada, como "marco temporal" para
definir o que são as terras permanentemente ocupadas por indígenas. Isso quer dizer que as
etnias que não ocupavam suas terras em 1988 não terão direito à demarcação. O que não leva
em conta as etnias que foram expulsas e dispersas de suas terras por conta de conflitos
fundiários e não conseguiram retornar (ou estão tentando retornar).
A PEC 215/2000 foi aprovada na comissão especial da demarcação das terras indígenas na
Câmara dos Deputados, no ano passado, mesmo com protestos e pressão do movimento indígena,
por 21 votos a zero. A votação é simbólica, pois são nessas "mãos" que a demarcação das
terras dos povos originários ficará. Na prática, a aprovação da PEC paralisaria a
demarcação ou a ampliação dos territórios, deixando o espaço livre - literalmente - para a
exploração hidrelétrica, a mineração, a especulação imobiliária e o agronegócio.
É urgente nossa organização e luta contra a aprovação da PEC 215 e em defesa da demarcação
de terra dos povos originários. Terra demarcada é vida garantida! O próximo passo é a
votação no Plenário da Câmara, onde precisa ser aprovada por três quintos dos deputados,
em dois turnos. Se aprovado, o texto segue para a votação em dois turnos no Senado.
Propostas de Emenda à Constituição não passam pela presidência da república. Sabemos que
apenas com a pressão e organização popular pode-se desfazer esta ameaça.
Com essas informações não queremos dizer que o cenário de demarcação anda bem. Pelo
contrário, a vagarosidade em relação à demarcação de terras representa uma negação de
existência aos povos originais, além de operar um aumento no número de conflitos no campo.
No Ceará, um dos estados mais conservadores em relação à questão indígena tendo em vista
que a história tradicional negou a presença indígena neste território, são 22 terras
tradicionalmente ocupadas por indígenas, 14 etnias reconhecidas. E apenas um dos 14 povos
reconhecidos está com o procedimento finalizado e dois com áreas demarcadas. E assim
acontece em todo o território nacional: o não reconhecimento da etnia, a não demarcação de
terras e a não proteção de direitos.
Este quadro se agrava com o desmantelamento e sucateamento de órgãos criados para auxiliar
a demarcação de terras e a proteção de direitos indígenas e quilombolas. A exemplo do que
acontece com a FUNAI e o INCRA que sofrem constantemente com o baixo número de servidores,
a falta de concursos públicos para provimento de cargos, o autoritarismo interno e o corte
de investimentos, gerando precarização do trabalho oferecido às políticas indigenistas e
de serviços ao povo quilombola.
Com o atual governo do PMDB vivenciamos um processo acelerado de ataques contra os
direitos indígenas e dos povos originais em favor dos interesses do capital nacional e
internacional, de ruralistas e latifundiários. Mas é importante lembrarmos que o cenário
também é fruto das políticas de direita do governo do PT, que apoiou e foi conivente com a
lógica do agronegócio. Seja estimulando uma cultura empresarial e pragmática para a
construção de uma classe média do campo, seja desmontando as políticas de manutenção da
agricultura camponesa e estagnando a demarcação de terras indígenas e quilombolas. Ou
ainda, com a política neodesenvolvimentista e de rolo compressor com mega obras e
empreendimentos, degradando ambientes, passando por cima de comunidades e expulsando
muitos povos de seus territórios, como o exemplo da usina hidrelétrica de Belo Monte. Em
ambos os governos, PT e PMDB, a violência do Estado se fez, e se faz, presente contra os
povos indígenas e quilombolas.
Políticas Públicas Indigenistas
A saúde indígena atualmente é gerida pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas, que
são de responsabilidade da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). Teoricamente,
estes distritos deveriam ser delimitados por critérios que atendessem à especificidade
indígena de cada local. No entanto, o que acontece, pela falta de planejamento e da
negação identitária, é a disponibilização de políticas públicas de saúde de um único
formato, tanto para terras indígenas que se localizam em lugares úmidos quanto para secos.
Isso gera um atendimento de péssima qualidade, quando há, pois nem todas as terras
indígenas têm Distritos Sanitários! O controle deveria ser feito pelos Conselhos Indígenas
de Saúde com participação direta dos indígenas. No plano da Assistência Social deveriam
ser implantados CRAS (Centros de Referência de Assistência Social) em terras indígenas de
acordo com suas cosmologias. No entanto, o que se percebe é o sucateamento e a
precarização destes órgãos, enquanto chovem notícias de desvio de verba e corrupção por
parte de gestores alheios à luta indígena. Assim, a relação entre os povos indígenas e
esses gestores é tensa, principalmente devido à gestão e à aplicação de recursos.
Em relação à educação indígena, também vivemos uma difícil implantação, devido à falta de
vontade política, pois a classe dominante não aceita a existência indígena, de suas terras
e que suas tradições devam ser respeitadas. Na realidade, vemos um processo de violência
cultural, ou o que chamam de "política de integração indígena", forçando-os à convivência
com não-indígenas, negando as escolas e a educação, modos, ritmos de vida indígena, assim
como a língua materna e seus rituais. Tais políticas acenam claramente para a
intensificação do genocídio e etnocídio instaurados desde a chegada do colonizador.
E a luta pela terra da agricultura familiar e camponesa...
Vemos a completa paralisia da reforma agrária no país. A luta pela terra continua, porém o
Governo Temer é surdo para os movimentos sociais no campo. A redistribuição das terras e a
instalação dos territórios da reforma agrária vêm sofrendo uma nova ofensiva. No lugar de
uma política de reforma agrária ampla, pública, participativa e radical vemos a tentativa
do Governo de privatizar o acesso à terra e transferir a distribuição dos títulos de
domínio de terra do INCRA para as prefeituras. Esse é o novo conteúdo da política
fundiária lançada no dia 22 de outubro.
No que se refere aos assentamentos já instalados, os agricultores sofrem com terras que
foram impactadas pelas monoculturas ou pastos, encontram e têm que lidar com um solo
compactado decorrente do uso de maquinário pesado e do pisoteamento de gado, com falta de
nutrientes, e contaminado pelo uso de venenos e agroquímicos durante muito tempo. Tudo
isso faz demorar ainda mais o processo de recuperação ambiental para que possam produzir
alimentos saudáveis e conseguir acesso a uma renda digna. Por isso é importante um órgão
que preste os serviços necessários para que eles possam ter as condições de trabalho e
permanência na terra a longo prazo, como assistência técnica e extensão rural, tão
importantes quanto as políticas voltadas para a comercialização, transporte e escoamentos
de alimentos.
Mas hoje, o principal órgão que ajudaria no cumprimento destas demandas, o Ministério do
Desenvolvimento Agrário (MDA), vem sofrendo um processo de precarização e desmonte. Um
órgão que foi fruto de muita luta e organização dos movimentos sociais do campo, que desde
2000 cumpria um papel importante na implementação das (poucas) políticas públicas para a
agricultura familiar e camponesa, mas que também privilegiava mais o agronegócio do que os
povos indígenas, quilombolas, pequenos e pequenas agricultoras e sem terras. E que no
governo Temer deixa de ser ministério e vira Secretaria Especial da Agricultura Familiar e
do Desenvolvimento Agrário. Esta segue sob o braço do Ministério da Casa Civil, comandado
hoje por Eliseu Padilha (PMDB-RS), ministério mais próximo do Presidente da República.
Padilha e Temer (PMDB), alinhados à bancada ruralista, farão o que for necessário para
defender o agronegócio brasileiro, o maior inimigo dos povos do campo, da floresta e mares
e para acabar com as políticas públicas como, PRONAF, PAA, PNAE, PLANAPO etc.
E enquanto a agricultura familiar e camponesa produz cerca de 70% da nossa alimentação do
dia a dia, o agronegócio tem sua produção voltada para poucas culturas, como a soja, o
pinus, a cana-de-açúcar, o café e o dendê, sem falar da pecuária, tudo isso para liderar
as exportações na balança comercial brasileira. No primeiro semestre de 2016, o
agronegócio teve superávit, com as exportações de apenas cinco produtos, ultrapassando as
importações em US$ 38,91 bilhões. Estes produtos são: o complexo da soja, carnes, produtos
florestais, setor sucroalcooleiro e cereais, farinhas e preparações. Segundo o governo,
foi o melhor resultado do agronegócio brasileiro, desde a série histórica iniciada em 1997
. Segundo o IBGE, na Safra de 2016, que correspondeu a 57,6 milhões de hectares de terras
plantadas, o arroz, milho e soja constituem cerca de 87,5% dessa área, ou seja, são em
torno de 50 milhões de hectares para produzir apenas três produtos que serão em sua
maioria exportados! O capital derruba a floresta nativa, expulsa os povos originários e
camponeses destas terras para produzir commodities, mercadorias para a exportação e assim
fazer o Brasil reproduzir ainda mais o papel que sempre cumpriu no cenário
político-econômico internacional, o de explorar e oprimir o seu próprio povo em defesa dos
interesses das grandes potências econômicas imperialistas. Ou mesmo praticar o sub
imperialismo com monoculturas de soja e algodão no continente africano.
A CAB se posicionando no/na front-eira: necessidade de união entre a luta pela terra e a
luta pelo território
A Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) afirma seu compromisso ombro a ombro com a luta
e a organização dos povos originários e camponeses em defesa de seus territórios, de suas
tradições e de políticas públicas que garantam um desenvolvimento de vida saudável.
Reiteramos que do Estado, através de seus poderes (executivo, legislativo e judiciário),
só podemos esperar violências e opressões, que aliadas à exploração capitalista, amordaçam
nossas vidas. Assim, seguiremos firmes em nossas lutas sempre tendo em vista a construção
de uma sociedade mais justa e de espaços de poder popular desde baixo e à esquerda. Para
isso é fundamental a construção de organismos de luta social e movimentos que atuem com
base na autonomia e na democracia direta, onde os sujeitos tenham protagonismo na escolha
e condução das pautas e nas tomadas de decisão. Com luta e organização popular na busca de
um mundo onde caibam muitos mundos, como diriam nossos/as companheiros/as zapatistas!
Contra a PEC 215! Em defesa dos povos originários!
Terra demarcada, vida garantida!
Pelo direito ao Território Autônomo e Horizontal!
http://www.cabn.libertar.org/cab-opiniao-anarquista-em-defesa-dos-povos-originarios-e-das-comunidades-camponesas-pelo-direito-a-terra-e-ao-territorio/
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