(pt) anarkismo.net: No rastro da nova-velha direita e o giro reacionário do senso comum brasileiro – 1 by BrunoL

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Terça-Feira, 31 de Maio de 2016 - 12:51:30 CEST


Introdução ---- Neste primeiro artigo para o Comitê em Defesa da Democracia a ser 
publicado no Jornal Já e redistribuído através das redes alternativas, inicio uma breve 
série tentando mapear a nova (velha) direita. O objetivo deste e dos textos que seguem é 
tentar identificar a origem contemporânea do giro reacionário do senso comum brasileiro e 
suas similitudes com o conservadorismo dos EUA, e, por consequência, a transferência do 
léxico, do glossário e das identidades políticas gestadas no interior do sistema político 
do Império. Entendo que, se identificarmos os focos domésticos e internacionais do 
pensamento conservador, reacionário, ultraliberal e com laços neofascistas, estaremos 
aptos a tentar estancar o que venho afirmando como “fedor de linha chilena” tendo vasto 
crescimento no Brasil.

Estes dois operadores político-religiosos de matriz econômica se aproximam de um programa 
ultraliberal, com as viúvas e viúvos da ditadura e um culto ao revanchismo da linha dura 
diante da transição negociada comandada por Ernesto Geisel e Golbery Coutot

A ascensão do reacionarismo nos últimos dez anos: a aliança entre neopentecostais e a 
extrema direita militar e policial

O Brasil vive um momento de ascensão de ideias conservadoras, a maior parte destas 
transitando pelo ultraliberalismo, podendo ser rastreada esta linha como equivalente às da 
direita do Partido Republicano (ou seja, a extrema direita de corte neoliberal) e 
combinadas com o pensamento conservador, ou do pacto neoconservador. Este que se avoluma 
nos EUA a partir da vitória de Richard Nixon em 1968, reforçada com a Doutrina Reagan e a 
desregulação financeira – primeiramente em 1973 e depois, ao longo dos anos ’80 do século 
XX – e por fim, ganhando dimensões absurdas, durante o primeiro mandato do governo 
democrata de Bill Clinton (1993-2000). A nova direita republicana já constava na convenção 
deste partido quando George H. W. Bush (Bush pai) era considerado, para a constelação 
política conservadora do período, como o menos mentecapto dos pré-candidatos da bolha 
conservadora para a Casa Branca. Da corrida eleitoral no Império, em 1992, passando pela 
famigerada reeleição de Bush Jr. Em 2004, até a nova onda de golpes brancos na América 
Latina temos como identificar a transferência da identidade política estadunidense para 
nosso país.

No Brasil, somos atingidos pela combinação dos neoconservadores no comportamento – uma 
espécie de reação contra a ação afirmativa e os direitos de reconhecimento – e a primazia 
do capital financeiro e a cruzada dos neoliberais contra o pacto keynesiano que atinge o 
Brasil durante o lulismo. Esta soma, bastante explosiva, tem na classe média brasileira, e 
em sua classe média alta, um bastião mobilizado através das redes sociais e que pode ter 
ou não algum contato com o fascismo brasileiro na versão contemporânea.

É como se fosse um jogo com rodadas simultâneas, onde os reacionários no comportamento 
somam viúvas da ditadura e por vezes se encontram nas pautas programáticas de inspiração 
totalitária e obscurantista, como a famigerada “escola sem partido”, ou campanha contra a 
doutrinação nos aparelhos ideológicos de reprodução. Por vezes os ultraliberais se 
encontram, domesticam as “feras” medievais brasileiras, e noutras, de forma autônoma, 
operam como “cavalo de batalha” da agenda neoliberal de desmonte das capacidades de 
intervenção estatal na economia capitalista e na regulação do agente econômico por sobre a 
vida cotidiana.

Podemos identificar os movimentos ultraliberais como as empresas de marketing digital, a 
exemplo da empresa líder, o Movimento Brasil Livre (MBL). Tais instituições privadas 
respondem ao agendamento da Fundação Koch (charleskochfoundation.org) e da Rede Atlas 
(atlasnetwork.org) e demandam um texto específico, ainda nesta série. Já quanto ao 
neofascismo brasileiro, este é manifesto pelo líder caricato embora perigoso, deputado 
federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e sua aliança com as estruturas do pastor Everaldo 
(Assembleia de Deus em Madureira) e o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP,que comanda 
uma matriz autônoma e dono da rede de franquias da fé, o Ministério Tempo de Avivamento). 
Estes dois operadores político-religiosos de matriz econômica (no mercado da exploração da 
fé) se aproximam, afirmo, perigosamente, de um programa ultraliberal (vinculando seu 
programa ao do Tea Party), com as viúvas e viúvos da ditadura – tendo a bandeira do 
reconhecimento dos torturadores e repressores como “heróis nacionais” – e um culto ao 
revanchismo da linha dura diante da transição negociada comandada por Ernesto Geisel e 
Golbery do Couto e Silva.

Ainda mais obscena é sua liderança ideológica, com o ainda mais caricato e lunático 
astrólogo Olavo de Carvalho. Este pregador virtual, mescla um libelo em defesa da 
“civilização judaico-cristã” para fortalecer ambas as posturas acima narradas – 
neopentecostal e de extrema direita policial militar. A pregação anti-esquerda e 
anti-latinoamericana do “professor” Olavo de Carvalho, produzindo demências por internet a 
partir do estado da Virgínia (EUA), surpreendentemente traz consigo centenas de milhares 
de seguidores. Olavo é em si mesmo a síntese desta perigosa caricatura da nova direita 
brasileira, e sua pregação de “escola sem partido”, onde afirma que a doutrina se diluiu 
no comportamento pregado em sala de aula ao ponto de sequer ser explicitada. Ou seja, se a 
acusação for válida, então o comportamento orientado pela técnica a serviço do mundo do 
trabalho controlado pelo capital, é a única válida. O fascismo social existente nestas 
afirmações está na moral conservadora, na negação do outro (ausência de alteridade), na 
afirmação da norma “ocidental” (judaico-cristã, capitalista, conservador, heteronormativa) 
como valor único e na disposição para gerar o caos para que deste surja um novo sentido de 
ordem.

Uma consequência tangível do revigoramento das viúvas da linha dura

É este tipo de demência, retroalimentada pelos programas policialescos e editoriais 
reacionários de TV aberta – comandados por gente como José Luiz Datena e Raquel Sherazade 
– acaba por ter dois efeitos políticos simultâneos. Um aponta para a redução da maioridade 
penal e uma defesa da violência estatal sem questionar o falido e corrupto modelo de 
polícia brasileiro. O outro foi visto de forma estarrecedora na defesa da intervenção 
militar ou a volta da ditadura. Tais defensores da ditadura afirmam que todo o pensamento 
de esquerda – mesmo o de centro-esquerda -, em última análise, não seria compatível com a 
democracia parlamentar e estaria o tempo todo promovendo a luta ideológica para controlar 
instituições reprodutoras dos aparelhos centrais – como escolas e universidades – e assim 
aplicar uma visão de mundo centrada na luta social e no coletivismo. A direita considera 
isso uma espécie de “totalitarismo” e chega a aceitar a possibilidade de que, na ausência 
de ordem pública, tenhamos uma intervenção militar (o texto constitucional, no seu artigo 
142, tem realmente alguma leitura passível de controvérsia). Neste sentido, ao negar a 
possibilidade de que qualquer pensamento de esquerda possa conviver em democracia 
parlamentar e na concorrência pelo poder do Estado burguês, há similitude na análise dos 
ultraliberais e da extrema direita policial e militar. Daí viria à convergência destas 
duas formas de pensamento na defesa da suposta “escola sem partido” e de absurdos como o 
“ensino neutro das ciências humanas e sociais”. Se observarmos a movimentação dos 
apoiadores de Bolsonaro nos campi da UFRGS, estes afirmam que “a universidade não é um 
espaço para lutar, mas somente para estudar”. Repetem de forma bastante concreta um dos 
lemas da ditadura, “estudante estuda e trabalhador trabalha”, aplicando uma fórmula de 
obediência social cuja única forma de mobilidade seria através da acumulação de capital ou 
na seleção “meritocrática”.

Mesmo observando que não há nenhuma exequibilidade por parte das Forças Armadas em fazer 
nada parecido como intervenção militar constitucional, há um ponto de convergência. O 
governo “interino” - no meu entender, golpista - trouxe o retorno dos militares GSI 
(Gabinete de Segurança Institucional) e o seu comando a cargo do general de exército (da 
ativa, quatro estrelas) Sérgio Westphalen Etchegoyen. Esta medida, além de apontar um 
enlace do presidente golpista Michel Temer com a ala mais reacionária da Força Terrestre 
na ativa, seria uma espécie de acerto de contas com a Comissão da Verdade. Esta fora uma 
tímida comissão e cujo relatório final foi bastante criticado por militantes históricos 
dos direitos humanos. Mesmo assim, ao mencionar o nome do general Leo Guedes Etchegoyen 
como um dos 377 agentes do Estado diretamente responsáveis por crimes contra os direitos 
humanos, atiçou o grito de “revanchismo” por seu filho, general da ativa que ocupava desde 
março de 2015, o importante cargo de chefe do Estado-Maior do Exército.

Ao se manifestar contra a Comissão da Verdade mesmo estando na ativa, o general Etchegoyen 
abrira um perigoso expediente. Sua indicação para o cargo de ministro-chefe do Gabinete de 
Segurança Institucional termina soando como um reforço das viúvas da caserna, 
aproximando-os dos militares da reserva que têm discurso de mágoa em relação ao período 
pós-Anistia.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29323


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