(pt) anarkismo.net: A crise política e possíveis caminhos e descaminhos da democracia brasileira by BrunoL
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Quinta-Feira, 5 de Maio de 2016 - 11:06:22 CEST
Introdução ---- O Brasil vive um momento bastante interessante do ponto de vista analítico
e desesperador para quem deseja transformar a sociedade brasileira do ponto de vista
igualitário. Seria uma ilusão não observar que estamos diante de um golpe de Estado
consumado dentro dos ritos formais de nosso arcabouço jurídico-institucional. Como vem
sendo afirmado a partir de dois pensadores contemporâneos bastante lúcidos na crítica por
esquerda – Vladimir Safatle – e por centro-esquerda – caso do hoje fundamental, Jessé
Souza – o momento aponta o final do pacto de Golbery do Couto e Silva da abertura política
e a meta estratégica é terminar a tarefa dos acordos de regulação social e os direitos
avançados na Constituição de 1988. Para tanto, podemos passar pela aventura da direita (a
que estava no governo até duas semanas atrás) e a da proponente do impeachment (a que
estava na oposição formal), de um golpe com frágeis bases jurídicas e a derrota histórica
para o processo de conciliação de classes, base do lulismo como estrutura de governo,
pacto este que já fora operacionalizado por José Dirceu e executado pela hoje presidente
Dilma Rousseff, quando a mesma substitui ao primeiro na pasta da Casa Civil, garante a
consecução das obras do PAC e com isso assegura a reeleição de Lula em 2006.
Esta não é a democracia, é a enganação ilusória com nome de democracia. A democracia nasce
da liberdade política e a reivindicação dos direitos coletivos, na forma de movimentos
massivos e com plena democracia interna.
Findo o pacto da abertura e desmantelado o aparelho político do reformismo – o PT em sua
etapa de fim da hegemonia no pensamento à esquerda no Brasil – abrem-se avenidas de
possibilidades por todos os lados e caminhos. Dentre estes, constam os caminhos e
descaminhos da democracia realmente existente – esta, oligárquica, empresarial,
parlamentar, como estrutura jurídico-política do capitalismo liberal-periférico nacional –
e a que podemos vir a construir, com elementos de democracia direta como etapas de
acumulação de forças por partes importantes do povo organizado.
Assim, trago nas palavras que seguem, curtas reflexões de horizontes de possibilidades que
abrem-se hoje para quem está organizado e com condições de influenciar camadas importantes
de nossa população.
Nos caminhos da Democracia Participativa, temos uma chance real
Estou convencido da real possibilidade de propor e garantir, pela via da pressão e
mecanismos de força popular – mobilização massiva e direta – Emendas Constitucionais onde
seriam obrigatórios Plebiscitos para modificação de alguns temas, como por exemplo, o
marco das terceirizações, da remarcação de terras indígenas, quilombolas e reservas dos
biomas, ou mesmo o marco de exploração do Pré-Sal.
É impressionante a condição efetiva dessa, e, copiando diretamente do portal do Congresso,
datado de 09 de abril de 2013, consta como um resumo do projeto de reforma política –
escrito por um parlamentar do PT, Henrique Fontana (RS) – algo que o próprio PT ajudou a
engavetar. Vejamos este fragmento do texto:
“A proposta prevê a possibilidade de apresentação de emendas à Constituição por iniciativa
popular (inexistente atualmente). Para isso, será necessária a coleta da assinatura de ao
menos 1,5 milhão de eleitores. Para apresentar projeto de lei, o número mínimo de
assinaturas passará a ser de 500 mil eleitores – hoje a exigência é de mais de 1 milhão
(1% de eleitores).”
Assim, derivado desta proposta oficial, podemos pensar em uma PEC dos Plebiscitos e outra
da Legislação Infraconstitucional, onde poderíamos criar dois poderes de veto através da
participação popular direta. Para tal, teríamos de aprovar este projeto no Congresso, na
base do vai ou racha, e isso pode ser uma agenda positiva para os 180 dias de governo
tampão e ilegítimo de Michel Temer que vem por aí. Se a proposta de coleta de assinaturas
for de tipo eletrônica – e se eu não me engano isso constaria no texto complementar da
proposta original – logo aí estariam os elementos básicos de aumentar o envolvimento das
pessoas e coletivos atomizados – ainda que apenas na rede ou de forma difusa – e,
logicamente alimentadas pelas forças organizadas tomando as ruas, literalmente.
Reforço que isso não é delírio e é menos especulativo do que qualquer outra saída que
reforce a posição dos intermediários profissionais, oportunistas de plantão e partidos de
tipo burguês. Esta reflexão apareceu em uma série de debates coletivos que venho
participando – tanto no marco orgânico, como midiático e acadêmico – e que com certeza tem
como seguir adiante.
Refletindo as democracias realmente existentes
Tem circulado pela internet uma série de gráficos do perfil dos representantes no
Congresso Nacional, com ênfase para a atual legislatura da Câmara dos Deputados. Insisto e
qualquer coleta de dados e informações oficiais comprovam, isto não é novidade, é o padrão
da política brasileira tanto como o perfil da democracia indireta de massas em todos os
países do mundo. Há uma maior ou menor ênfase, mas este é o padrão. Quem está representado
no Parlamento e no primeiro e segundo escalões do Poder Executivo e no caso da Europa, das
instituições da Comunidade Europeia, formam uma espécie de Estado-Maior do capital e da
dominação em todos os níveis, com maior ênfase no sistema financeiro e certo controle
midiático.
É preciso disputar o conceito ou os conceitos de democracia, em todas as arenas. Ou seja,
esta é a oligarquia em forma de “democracia” indireta, e não a DEMOCRACIA, onde o poder de
mando do povo, ultrapassa o direito burguês e podemos fazer da liberdade política uma
ferramenta para a transformação e não ao contrário, um brete de gado em pé caminhando para
a próxima ilusão a cada ciclo de 10 ou 15 anos. Esta não é a democracia, é a enganação
ilusória com nome de democracia. A democracia nasce da liberdade política e a
reivindicação dos direitos coletivos, na forma de movimentos massivos e com plena
democracia interna. Enquanto reproduzirmos caciquismos dentro das instituições sociais de
base e lutas coletivas, vamos continuar jogando com as armas do inimigo. Como quase
sempre, Mkhail Bakunin de novo tinha razão: a liberdade do outro eleva a minha ao
infinito, desde que na forma coletiva.
Ou seja, para assegurar as plenas liberdades individuais – como os direitos de liberdade
de culto, de gênero, de identidade, de credo religioso, de opinião e manifestação – é
preciso reforçar uma base igualitária no sentido da distribuição justa de renda e poder.
Para tal, a acumulação de forças sempre ocorre em períodos de crises e saídas coletivas.
Assim, modestamente aponto a possibilidade de não retroalimentar mais ilusões em 2018 e
menos ainda no tragicômico pleito que virá em outubro de 2016.
A aposta é de risco, mas a dimensão da utopia como lugar a ser construído implica nisso.
Através de uma profunda crítica, mas também autocrítica por esquerda, está totalmente
aberta a via da construção da democracia de um povo forte e organizado, afirmando ensaios
de instituições igualitárias por em cima e em contraposição às instituições de classe e
autoritárias, cuja cara mais visível e desprezível se encontra no alto comando do
empresariado e na política profissional, a começar pelo Congresso. O passo inicial ou
mesmo que deveria estar ocorrendo é a unificação de pautas e lutas para além da defesa da
legalidade como se percebe. Pode ser o começo concreto a defesa dos direitos a partir do
mandato tampão de Michel Temer e nos 180 dias iniciais.
Uma reflexão após participar do 14o Encontro Estadual das CEBs
Este último item traz uma reflexão rápida. Na sexta feira 22 de abril fui convidado a
falar junto ao advogado e militante Jaques Alfonsin no 14o Encontro Estadual das CEBs,
Comunidades Eclesiais de Base, realizado em Farroupilha (RS). Confesso minha grata e
permanente surpresa. Para quem vem da militância dos anos 80 ver a base ainda viva da
Teologia da Libertação é sempre emocionante. Beiravam as mil pessoas no pavilhão do Parque
em Farroupilha quando tive a oportunidade de fazer tanto a análise do golpe com nome de
Impeachment como a crítica por esquerda ao lulismo e ainda afirmar que voto em Zumbi e
Sepé e considero a democracia indireta uma fraude política.
Ao contrário do que se possa imaginar as críticas foram muito bem recebidas, dando margem
para ajudar numa reflexão bem na ponta esquerda da política. É nítida a possibilidade de
remontar o tecido social mobilizado passando bem longe das ilusões eleitorais. Pensando em
voz alta, compartilhei – novamente – a hipótese de uma emenda constitucional com elementos
de democracia direta onde constasse a possibilidade de tentar propor plebiscitos e
referendos além de projetos de lei, incluindo legislação infraconstitucional – como a do
Capítulo 5 da Constituição que deveria reger a Comunicação Social. Esta seria uma meta
possível e não alimentaria mais ilusões com essa democracia indireta e golpista e
reforçaria o poder de convocatória e mobilização popular.
É uma hipótese razoável e com capacidade de gerar unidade na esquerda passando bem longe
dos acordos policlassistas do hoje moribundo pacto lulista. Para reforçar a reflexão,
coloco aqui de forma sintética uma das conclusões compartilhadas por mais de mil pessoas,
todas organizadas em suas comunidades:
– O sistema capitalista se alimenta e sustenta pelas relações de dominação, exploração,
competição e exclusão.
– O Estado é uma superestrutura política, econômica e social criada pelos donos do capital
para controlar os conflitos sociais e garantir a liberdade na propriedade privada.
Logo, há um longo, duro, tortuoso, mas frutífero caminho a percorrer.
Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.
site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis riseup.net
facebook: blimarocha gmail.com
http://www.anarkismo.net/article/29263
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