(pt) anarkismo.net: Análise política da semana: o Brasil a caminho de um golpe institucional e o avanço da agenda neoconservadora by BrunoL

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Terça-Feira, 29 de Março de 2016 - 11:21:27 CEST


O vazamento das gravações de Lula e cia. e o arranjo de forças intra-aparelho de Estado 
---- Antes de lerem estas palavras, peço aos amig  s daqui que lembrem que quem escreve 
está à esquerda do governo, é crítico do mesmo e jamais militou em partido eleitoral e 
menos ainda assumiu cargo de confiança ou em comissão. Ou seja, não busquem ver governismo 
onde não há. Como trata-se de disputa de facções e projetos políticos e, estritamente, não 
estou vinculado a nenhum destes, fico bem à vontade para tecer os comentários. ---- Luiz 
Inácio pode tanto sair preso, como pode terminar tudo em um processo de impeachment, como 
também – em proporção menor – terminar sendo eleito ou indicando quem sucederá Dilma em 2018.

Após ouvir as gravações divulgadas entre Lula e aliados, incluindo a conversa com a 
presidente Dilma, me veio na memória um episódio semelhante durante a década de '90. Não 
quero parecer Poliana, mas entendo que o teor das conversas está no mesmo patamar ou ainda 
menor do que os grampos realizados durante o Leilão do Sistema Telebrás, onde foram 
capturadas conversas pouco republicanas entre Luiz Carlos Mendonça de Barros – então 
ministro das Comunicações – e o presidente Fernando Henrique Cardoso. O processo 
decorrente terminou nulo. Em 2009, “Mendonção” foi absolvido pela Justiça Federal das 
denúncias de improbidade administrativa. As conversas entre Lula, Jacques Wagner, a de 
Luiz Inácio com o presidente da CUT nacional, Vagner Freitas e os curtos diálogos com a 
própria Dilma, me pareceram do mesmo teor. O agravante agora não foram as conversas em si, 
mas sim a maneira como foram difundidas, como que obedecendo um tempo político perfeito de 
contra resposta da indicação de Lula para a Casa Civil.

Quanto ao conteúdo, embora assuste os leigos na política, mas, de fato, é algo corriqueiro 
em um ambiente como o nosso. Lula fora nomeado para a Casa Civil tanto para salvar a sua 
carreira política como para jogar, na forma mais arriscada possível, tentando manter o 
partido de governo – no mínimo – até o final do mandato e agora, quem sabe, tentando 
concorrer em 2018. A contra-resposta foi um prolongamento da linha de ação iniciada com a 
condução coercitiva do ex-presidente e neste sentido, reconheço que o cientista político 
Alberto Carlos Almeida acerta na análise (da condução).

Entendo que estamos diante de um conjunto de medidas de tipo estrutura policial e jurídica 
com autonomia relativa, quase agindo por conta própria e, tecnicamente, tentando ficar 
dentro da lei. A conversa entre Dilma e Lula é proporcional aos ataques recebidos. Pode 
ser pouco republicana, mas é algo presumível e previsível. O que a todos surpreendeu foi a 
divulgação das gravações de Lula – todas inicialmente autorizadas pela Justiça, embora com 
abuso de autoridade da parte de Moro – e, pelo visto, dentro de uma interpretação bem 
flexível tanto da lei como da ética na política republicana. O juiz Sérgio Moro virou o 
fio, Gilmar Mendes e a Globo também, assim como a nova-velha direita ideológica.

Definitivamente, em escala midiática e sem participação das forças armadas ou algum poder 
moderador-interventor de tipo militar, o momento lembra o de 1954 em todos os aspectos. Se 
Lula recuar, acabou sua carreira política e o governo federal. Se tentar ser empossado no 
cargo no limite da legalidade e escape do impeachment, o governo pode sobreviver e até 
renascer do limbo em 2018. Luiz Inácio pode tanto sair preso, como pode terminar tudo em 
um processo de impeachment, como também – em proporção menor – terminar sendo eleito ou 
indicando quem sucederá Dilma em 2018. O cenário está totalmente aberto, e o projeto do 
pacto de classes e aliança capital-trabalho, definitivamente, foi para a tumba.

O reboquismo e a nova direita neoliberal

Quanto à posição de quem está na rua como lacerdistas: ou a direita mobilizada eleva os 
níveis de protesto, realizando atos de violência e "vandalismo" (ao menos na Esplanada e 
em frente ao Palácio do Planalto), intensificando algum grau de conflito também em São 
Paulo (capital e Grande São Paulo), ou não vão gerar a comoção de irracionalidade e 
sentido de "justiça" que tanto gostam de proclamar. Isso é o que faz a direita esquálida 
venezuelana, protestos violentos denominados por lá de guarimba e aqui de "vandalismo". 
Como a TFP estilo fashion week não se dispõe ao risco físico, o frenesi de indignação não 
deve ultrapassar os limites da gritaria, a não ser em São Paulo e em Brasília, justamente 
pelo recrutamento da pobreza de direita, a começar por gangues neofascistas.

Quanto à posição da centro ex-esquerda, que ainda está na base do governo e bastante 
acuada, o caminho também é estreito. A exemplo das entidades de base da Frente Brasil 
Popular, Povo sem Medo e outros aglomerados de setores sociais dentro do guarda-chuva do 
governo, falta uma plataforma de reivindicações que tenha possibilidade de convencimento. 
Sinceramente, não vejo capacidade de convocatória de quem não está nas alas governistas, a 
não ser que, por milagre e pensamento mágico (tal como o proferido pelo presidente 
nacional da CUT, Vagner Freitas), ocorra uma evidente guinada à esquerda vinda do Palácio 
do Planalto.

A esquerda restante deve ficar muito atenta para não fazer coro com a nova-velha direita, 
sem com isso reforçar a proposta governista. Depois de mais de 13 anos de traições sem 
fim, fica quase impossível crer em qualquer tipo de “guinada à esquerda”, a não ser que 
ocorra alguma pouco provável reviravolta na direção dos movimentos da Via Campesina e 
afins. Marcar a posição de ser contra o golpe e ficar distante e sem reboquismo, embora 
mantenha a radicalidade lúcida, mesmo formando o discurso mais coerente, de fato necessita 
um trabalho de convencimento contra o relógio e de superação ao sectarismo e a atomização 
dos setores populares.

Infelizmente, o terreno pantanoso é fértil para bobagens. A direita ideológica avança na 
base do artifício da desinformação e das manobras midiáticas. Nada vem por acaso e apenas 
por talento da reação. O pacto de classes e o peleguismo afastaram quem crê e pratica luta 
popular.
No momento, ou a base do governo ganha tempo no Judiciário (como na decisão de Teori 
Zavascki a favor de passar o impedimento de Lula para o STF) e anula parcialmente a agenda 
do Congresso, ou terá de correr e muito. O insulamento da esfera política profissional 
também aposta corrida contra a ampliação da Lava Jato, cuja lista real de propinoduto 
atinge a literalmente todos os partidos, com exceção das legendas eleitorais de esquerda 
não governista (como o PSOL). A única saída para o PT é arrancar 171 votos mais um e 
segurar-se no governo a qualquer custo. Acompanhando as decisões e os acórdãos de líderes 
no Senado, o Planalto está disposto a entregar tudo ou quase-tudo! Já a posição por 
esquerda, o caminho a ser traçado é longo e lembra o dilema do bêbado e o equilibrista: 
estar contra a direita ideológica, mas sem defender o governo da ex-esquerda que padece.

Fechamento: uma proposta de análise e definições de pontos-chave, a partir da posição do 
analista

1- Minhas análises não substituem a posição coletiva da esquerda libertária e sim são 
produzidas a partir destas;

2 - Temos um golpe a caminho (articulado e com algum grau de coordenação), mas o governo é 
indefensável; logo, não se trata de ver o circo pegar fogo, mas entender e denunciar o que 
está ocorrendo sem aderir a nenhuma base governista;

3 - Se a esquerda social ainda tem base, deveria pressionar o governo e não prestar apoio 
incondicional sem colocar nada em troca, a não ser que a esquerda social tenha virado 
liberal-democrática;

4 - Tem dedo (pata) da agenda da embaixada dos EUA sim (sem paranoia);

5 - A caracterização de "República de Curitiba" comparando-a com a "República do Galeão" 
também está correta, não importando se quem disse isso foi Lula ou não;

6 - O impeachment, se vier - e talvez venha - vai implicar em um blocão de consenso tipo 
rolo compressor do governo de coalizão. Se isto ocorrer quem vai entrar na negociação 
somos NÓS: vão entrar no jogo os direitos históricos e todos devem ser estraçalhados;

7 - Caracterizar não é aderir: Vargas era de direita e nacionalista, foi derrubado em 1954 
por um golpe de direita e entreguista; agora é mais ou menos assim, infelizmente, para 
desgraça da esquerda;

8 - Jorge Viana (senador do PT pelo Acre) acertou, quem mais se beneficiou dos 8 anos do 
governo Lula estão cuspindo no prato - não são os 44 milhões de beneficiados de políticas 
sociais e sim os agentes econômicos que operaram estas políticas;

9 - A elite brasileira não é sequer nacionalista e não adianta a choradeira de pelego, o 
que adianta é pressão, é definir como golpe e enredo de ópera bufa;

10 - Se há esquerda neste país que não está no governo (e há), seria necessário uma 
unidade de ação, urgente, para definir o momento e não ficar de espectador entre 
neovarguistas e os entreguistas vira-latas de sempre.

11 - Se o governo durar até 2018 vai colocar em negociação os direitos coletivos, ou 
patrimônio da maioria, como o PLS 131 do Pré-Sal. Se o governo cair, aí os neoliberais e 
neoconservadores vêm com tudo e vão acelerar todas as agendas que são anti-populares, como 
a PEC 215, o PL 4330, o já citado PLS 131 e cia. Guarda alta e sem reboquismo, mas 
denunciando a agenda estratégica da direita que perdeu na urna e agora quer rasgar nossos 
direitos.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29186


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