(pt) Entre a farsa do pacto social e a tragédia golpista: só a luta de classes decide! by Coordenação Anarquista Brasileira

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Sexta-Feira, 25 de Março de 2016 - 17:25:44 CET


Manifestamos aqui nossa posição, das e dos anarquistas da CAB, diante do agravamento no 
cenário de disputa feroz entre os setores dominantes pela direção do poder político 
nacional. ---- Os expedientes usados pelo juiz Sergio Moro, a Polícia Federal e o MPF, 
combinado com o espetáculo orquestrado pelos oligopólios da comunicação, em especial a 
rede Globo, desde a condução coercitiva de Lula até os grampos vazados em paralelo a sua 
nomeação como ministro, são descritivos de uma luta cada vez mais agressiva pela máquina 
do Estado. ---- A direita opositora ao governo do PT se vale da judicialização da política 
e de toda produção do discurso seletivo e criminalizador da mídia para atuar numa “zona de 
fronteira” dos marcos constitucionais do direito democrático burguês. Em meio a esse 
cenário, têm sido comuns entusiasmadas manifestações oportunistas de setores da esquerda 
anti-governista com pretensões eleitorais em torno da judicialização da política. Ao 
contrário do que sugere estas manifestações, a judicialização da política não guia para a 
esquerda, muito menos para uma “revolução política”. Sugerir isso demonstra o retrocesso 
de expectativas e horizonte estratégico e um esvaziamento de significado que faz do que se 
entende historicamente por “revolução”, uma infantil bravata para ser agitada de forma 
torpe nas redes sociais. O oportunismo que hoje abraça esse espetáculo abre caminho para a 
capitulação de amanhã. Trágicos exemplos que seguiram essa via não nos faltam.

Antes de mais nada, a judicialização da política joga efeitos ideológicos que repercutem 
em ideias e noções conservadoras de uma salvação nacional pelas mãos do poder judiciário, 
da polícia ou das forças armadas. Tanto ceticismo, indiferença, a ascensão de discursos de 
ódio e ressentimento com a política amesquinhada pelos partidos da democracia burguesa são 
o caldo de cultura de um pensamento fantasioso. Uma noção de política que dispensa a 
participação popular e governa pelas técnicas do controle e da ordem. Pode dar asas para a 
imaginação autoritária de onde nascem as criaturas mais infames da política.

É pela via desses artifícios que um golpe branco está em curso. Mas, digamos em linhas 
muito francas para evitar equívocos: este é um tipo de golpe orquestrado por setores da 
direita no congresso, no judiciário, na mídia, nas organizações patronais que tomam 
coragem em cima da situação ridícula e patética em que caíram o PT, as autoridades do 
governo e as burocracias dos movimentos populares que fazem parte de seu arco de 
sustentação. Um PT atirado na vala comum da política burguesa é o álibi perfeito de uma 
ofensiva que vem para castigar os direitos e liquidar recursos e serviços públicos.

O sistema de dominação capitalista não leva a Constituição debaixo do braço para atuar. 
Quando tem oportunidade, ele torce a legalidade, rasga o estado de direito, mexe nas 
regras do jogo pela força e impõe seu poder de fato. Quando a esquerda tentou fazer 
reformismo apoiada nessa estrutura legal, foi, primeiramente, empurrada ao recuo 
organizativo e ideológico para em seguida ser severamente reprimida. A história tem vários 
episódios que contam isso.

Mas esse não é o caso do PT. O Partido dos Trabalhadores, parafraseando Lula, foi 
acovardando seu reformismo desde os anos 80 até chegar ao governo pela eleição de 2002 com 
um programa negociado com as estruturas do poder dominante. Foi um eficiente e deslumbrado 
gestor de turno do capitalismo brasileiro, associado com patrões, banqueiros e ruralistas, 
amigado com uma oligarquia nojenta. O PT atraiu um setor da direita para um pacto de 
classes com prazo de validade e o pior é que se convenceu e segue convencido que pode ser 
parte confiável do sistema das classes dominantes.

O fracasso da colaboração de classes que sonhou o PT e seus governos arrastou junto o 
movimento sindical e popular, tirou a independência de classe na luta da classe 
trabalhadora, dividiu e burocratizou as organizações de resistência. Fez toda uma cultura 
política que produziu um sujeito domesticado pelo poder, que pôs freios e cabrestos na 
luta de classes.

Se esse projeto sempre rezou a cartilha das regras do jogo institucional do Estado 
burguês, no campo popular nunca dispensou a possibilidade de pisotear os mais elementares 
princípios de democracia de base. Fraudes em eleições e assembleias de organizações 
sindicais e estudantis, manobras, agressões e perseguições a correntes e militantes 
dissidentes foram se afirmando como o script por excelência na base dos maiores movimentos 
que dão sustentação ao projeto “democrático-popular”. Nesse sentido, é sintomático notar 
que as burocracias dos movimentos populares a reboque são muito mais enérgicas e 
combativas para defender o governo de turno do que para defender a classe, constantemente 
aviltada por esse mesmo governo e também pelos rebaixados acordos assinados por seus 
sindicatos com as patronais que hoje convocam a liquidação de ambos.

Por outro lado, ativou na sociedade um recalque furioso pelo que não foi, que desperta 
ódios e abre espaço para emergência nas ruas de setores fascistizantes de extrema-direita, 
que, animados por esse mesmo recalque, buscam hoje um linchamento público de tudo aquilo 
que cheire esquerda, fazendo-se valer da vidraça do PT.

Quem quer assumir o governo agora e pisa por cima da carniça do PT são partidos de 
oposição ressentidos por ficarem de fora do controle dessa estrutura de privilégios, mas 
que nunca ficaram de fora do rateio dos recursos públicos e da farra com os patrões sobre 
o orçamento e o patrimônio público. Mas também está o mercado com o sistema financeiro e 
os industriais que ganharam toda sorte de juros, benefícios e privilégios durante os 
melhores dias da narrativa do crescimento econômico. Os agiotas, sonegadores, genocidas do 
povo indígena e negro, que fazem de conta que estão de fora do esquema. Eles cospem no 
prato que comem, engordaram com o PT e agora querem fazer da sua queda o palco de 
imposição do ajuste no grau máximo. Um ajuste que busca rasgar de vez os direitos 
trabalhistas, fazer a cama para os vampiros das patronais que pretendem precarizar ainda 
mais as condições de trabalho, impor o PL das terceirizações, a reforma da previdência, 
manter as falências fraudulentas, atirando os trabalhadores vítimas de acidentes de 
trabalho no olho da rua como se fossem dejetos, demitindo em massa para recontratar em 
condições cada vez mais precárias.

Esse é o golpe que está em processo. Que se vale do PT sócio da corrupção com as 
empreiteiras, avalizador do ajuste, de entrega do pré-sal, autor da lei antiterrorismo, 
das UPPs, da paralização da reforma agrária e da violência contra os povos indígenas e 
quilombolas. Que o toma como patético refém e o execra publicamente para fazer o ajuste 
cortar ainda mais fundo e sangrar sem limites as classes oprimidas.

O curto prazo promete um concerto por cima. Seja como for, vem um governo de coalizão 
agressivo contra os trabalhadores e o povo. Independente do desfecho deste trágico 
espetáculo, o que veremos serão coxinhas e jararacas, cada qual a sua forma, buscando 
fazer valer o ajuste, ainda que com graus de variações distintos. A punhalada está vindo 
de frente pela direita ideológica, mas também pelas costas, aplicada por um governo e 
partido que não deixa de se valer de um discurso emotivo e irracional, que convoca 
mitologias e fetiches em torno de um passado de luta como forma de criar uma cortina de 
fumaça ao seu ajuste e ao seu claro projeto político de centro-direita.

A eterna espera pela “guinada à esquerda” nesses dias se manifesta na defesa intransigente 
de um Lula ministro que não esconde que chega para tentar salvar a aliança com o PMDB e o 
restante da base aliada, leiloando o que pode, com os joelhos dobrados cada vez mais à 
direita. Enquanto a cortina de fumaça midiática agita uma polarização de “torcidas”, as 
mãos se fecham em acordos pelo avanço da privatização das empresas estatais e adequamento 
do aparato repressivo para a maior criminalização do povo que luta.

Somos contra este golpe, porque ele implica um corte mais profundo na carne das classes 
oprimidas e abre caminho para uma correlação de forças ainda mais desfavorável para os de 
baixo. Mas não admitimos negociar nenhum direito para servir como moeda de troca deste 
governo moribundo que cavou sua própria cova ao trair as expectativas dos/as 
trabalhadores/as e ao sancionar a lei antiterrorista em plena crise política. Vamos lutar 
realmente contra esta tentativa de golpe, sem aderir ao reboquismo e ao mesmo tempo sem 
perdoar a pelegada, ao fortalecer uma posição à esquerda, de combate e a partir da 
concepção de que só podemos contar com nós mesmos e com o povo em luta organizado 
construindo seu próprio caminho, contra todo e qualquer golpe historicamente aplicados 
pelas/os de cima contra as/os de baixo.

Nosso lugar nessa dramática e decisiva disputa é fazer valer a independência de classe 
como a real alternativa às classes oprimidas. Uma alternativa de classe que no curto 
prazo, marcado pelo trágico desmantelamento organizativo do tecido social, se traduz na 
mais resoluta solidariedade de classe. Dar disputa ideológica em defesa das lutas que 
surgem desde baixo e aportar toda solidariedade possível; buscar estender e massificar as 
greves, ocupações, atos contra as medidas de austeridade e a carestia para, a partir daí, 
se acumular forças reais para radicalizar a independência de classe, colocando-a como 
efetivo embrião de poder popular, de um forte e solidário punho a se estender dos 
oprimidos em todos os rincões do país e golpear de forma altiva e destemida os patrões, 
governos e também o peleguismo e a traição de classe.

A organizar os diversos setores que compõem a classe trabalhadora, construindo movimentos 
sociais e fortalecendo seu protagonismo popular, pautando sua autonomia e combatividade! 
Apenas o avanço do poder popular será capaz de tanto dar resposta ao avanço da onda 
conservadora que toma o país, quanto resistir aos retrocessos impostos pelo governo.

Uma só classe, uma só luta!

Derrotar a direita golpista e avançar na luta contra o pacto de classes!

Pelo socialismo e pela liberdade!!!

COORDENAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA – CAB

https://anarquismo.noblogs.org/?p=396


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