(pt) Organização Resistência Libertária (BAB) - Pontes entre o Anarquismo e o Feminismo Por Grupo de Trabalho em Gênero da Organização Resistência Libertária (ORL)

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Quinta-Feira, 24 de Março de 2016 - 13:00:45 CET


“Dentro da sociedade capitalista a mulher é duas vezes escrava: é protegida, a tutelada, a 
“pupila” do homem, criatura domesticada por um senhor cioso e, ao mesmo tempo , é a 
escrava social de uma sociedade baseada no dinheiro e nos privilégios mantidos pela 
autoridade do Estado e pela força armada para defender o poder, o dominismo, o 
industrialismo monetário.” ---- Maria Lacerda de Moura. ---- É difícil precisar uma 
definição de feminismo, pois este termo traduz um processo de lutas que é atravessado por 
influencias de diferentes ideologias, desde concepções liberais-burguesas até distintas 
concepções de socialismo. Inicialmente, podemos estabelecer que o feminismo pretende a 
busca de igualdade política, econômica, social e sexual entre homens e mulheres, pessoas 
cisgeneras ou transgeneras[1]. Portanto, o terreno de contestação (e de afirmação) do 
feminismo são as implicações sociais das construções de gênero e das pessoas e símbolos 
envolvidos nesta construção.

Assim, podemos definir o feminismo como o conjunto entre a teoria e a prática que pretende 
a construção de uma nova sociedade, em que impere a igualdade de gênero. Quanto ao 
anarquismo, entendemo-lo como o objetivo de “transformar a atual sociedade capitalista 
burguesa em uma sociedade que assegure ao trabalhador os produtos de seus esforços, sua 
liberdade, independência, igualdade política e social. Esta outra sociedade será o 
comunismo libertário, no qual a solidariedade social e a individualidade livre acharão sua 
expressão plena, e no qual estas duas ideias se desenvolverão em perfeita harmonia.” 
[Plataforma Dielo-Truda]. Assim, entendemos que o anarquismo se aproxima do feminismo 
porque ambos tocam nas relações de poder instituídos na sociedade, visando destruir o 
poder autoritário e a construir o poder popular, desde baixo e à esquerda, sempre pautado 
nas lutas pela igualdade e contra as opressões, incluindo a igualdade de gênero.

Anarquistas associam o Estado ao poder centralizado, portanto, ao autoritarismo, e 
acreditam não ser possível chegar a uma outra sociedade através de etapas que conservem a 
existência do estado, pois acreditamos, como mostra a historia, que o estado não irá 
definhar depois de algum tempo.Conservá-lo é fortalece-lo e, enquanto ele existir, será 
autor de inúmeras injustiças e não permitirá que floresça a liberdade. Portanto, nós 
anarquistas não acreditamos ser possível a adoção de um meio que conflite com o fim 
pretendido, e desde já buscamos coerência com nossos objetivos finalistas: o socialismo 
libertário. Ainda como anarquistas acreditamos na interdependência estrutural das três 
esferas: política, econômica e social e na interseccionalidade das opressões.

Nós, feministas anarquistas, estamos inseridas nas fileiras das feministas classistas. 
Chamamos de feministas classistas aquelas que reconhecem que a sociedade é dividida em 
classes e identificam a luta de classes como seio da opressão, permanecendo na luta ao 
lado classe explorada.

Para nós, feministas anarquistas, as opressões que as mulheres sofrem surgem e se 
potencializam a partir de diversas esferas: econômica, social, política, étnica, racial e 
de diversidade sexual. Com isso, queremos dizer que além da desigualdade econômica, um 
feminismo anarquista deve compreender a construção das desigualdades de gênero sobre 
diversas interfaces. Aqui, precisamente, diferenciamo-nos do feminismo marxista, 
essencialmente economicista. Para as feministas marxistas, a opressão das mulheres sob o 
capitalismo tem uma base essencialmente econômica, mas para nós, feministas anarquistas, a 
opressão das mulheres no capitalismo não tem uma base essencialmente econômica. É claro 
que fatores de ordem econômica agem na construção das opressões de gênero no capitalismo. 
Basta lembrar o trabalho doméstico da mulher, que não é pago, mas que agrega valor, além 
da jornada de trabalho apropriada diretamente pelo empregador.

O capitalismo nos explora duas, três ou quatro vezes mais, quando nos força aos dois 
trabalhos: de produção e o de reprodução. O trabalho de produção está associado à produção 
de mercadorias e serviços, em espaços públicos ou privados[2]. O trabalho de reprodução 
diz respeito tanto à obrigatoriedade da função biológica da reprodução, quanto à função 
socializada de cuidar da casa e dos filhos, assim como satisfazer as necessidades 
masculinas de intimidade e satisfação sexual. Esses trabalhos de reprodução foram 
historicamente ocupados por mulheres. Atualmente, mesmo quando a mulher branca se aparta 
do trabalho de reprodução, ocupando-se exclusivamente do trabalho de produção no 
capitalismo, deixa uma mulher negra nesse posto, mais um sintoma de uma sociedade que 
conjuga capitalismo, machismo e racismo. Sempre é associado à mulher os trabalhos de 
produção e reprodução. Assim, por exemplo, no Brasil as mulheres costumam receber salários 
menores que os dos homens, nos mesmos postos de trabalho, além de serem excluídas de 
certas posições consideradas mais apropriadas ao sexo masculino.

Quando o gênero e a raça se entrelaçam, a opressão toma seu posto mais cruel. A opressão 
da mulher negra pelo Estado e pelo capitalismo adquirem outras formas de expressão. O 
racismo, marca de um país ainda escravocrata, reserva às mulheres negras, mais que às 
brancas, serviços domésticos sem direitos trabalhistas etrabalhos informais. São as 
mulheres negras as mais presentes no sistema penitenciário brasileiro, as que criam 
seus/suas filhos/filhas sozinhas, as mais espancadas pela polícia, as que mais enfrentam 
os senhores de engenho e os capitães-do-mato. São as mulheres negras as que mais sofrem 
com as violências institucionais do Estado, desde as doenças transmitidas por falta de 
saneamento básico nos bairros da periferia, até a ausência de serviços de saúde e educação 
em seus bairros. São as mulheres negras que mais sofrem em revistas íntimas vexatórias nas 
filas dos presídios brasileiros quando vão visitar companheiros e filhos.

As percepções mais recentes têm mostrado, contudo, que às atitudes tradicionais a respeito 
da mulher somam-se outras formas de machismos, nas quais a antipatia a elas dirigida tem 
se expressado de forma simbólica ou indireta. Assim, hoje podemos distinguir entre uma 
forma de machismo antigo (mas ainda presente) e uma forma de machismo percebido 
recentemente. O machismo antigo define-se pelo endosso a papéis de gênero tradicionais, 
tratamento diferencial entre mulheres e homens e estereótipos sobre a menor competência 
feminina; enquanto o machismo percebido recentemente associa-se à negação de que a 
discriminação contra a mulher ainda exista e a um antagonismo contra as atuais lutas da 
mulher por maior inserção nas lutas sociais. O machismo percebido recentemente, portanto, 
baseia-se, também, em sentimentos negativos sobre as mulheres, muito embora eles sejam 
mais encobertos e relacionados a práticas mais contemporâneas.

Partimos da certeza que vivemos em uma sociedade patriarcal que tem em sua gênese a 
propriedade sobre o corpo e a vida das mulheres. Para nós feministas anarquistas, o 
patriarcado só será destruído com a derrubada do capitalismo. Assim, temos uma ponte entre 
o feminismo e o anarquismo, em que ambos contestam as relações de poder advindas de 
construções sociais de gênero, poder econômico, social ou simbólico.

Por isso, para nós o anarquismo não existe sem o comprometimento com a luta feminista.No 
entanto, não é suficiente reconhecer que a anarquia é “um lindo ideal”. É necessário 
querer chegar à anarquia através do combate às opressões que existem hoje, ou ao menos 
guiar esse combate para nos aproximar da anarquia, tratando de atenuar o domínio do 
Estado, do capitalismo e dos privilégios de identidade de gênero, raça, e orientação 
sexual, reivindicando sempre mais liberdade e mais justiça social.

[1] Pessoas trangêneras nascem com um sexo que difere do socialmente vinculado à 
identidade de gênero que elas se reconhecem. Pessoas cisgêneras nascem com um sexo que 
coincide com o socialmente vinculado à identidade de gênero que elas se reconhecem. 
Compreendemos por mulheres as pessoas que se identificam com essa identidade de gênero, 
portanto, mulheres cisgêneras ou transgêneras.

[2] Se analisamos a história da América Latina, não é correto apontar que historicamente 
foi papel apenas do homem executar trabalhos de produção em espaços públicos, sob pena de 
estarmos nos apropriando de um feminismo branco e eurocêntrico. As mulheres negras, 
escravas, sempre executaram trabalhos de produção, nos canaviais e cafezais. As mulheres 
negras nunca foram associadas ao sexo frágil, relegadas apenas ao espaço do lar.

ORL - organização integrante da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

http://resistencialibertaria.org/2016/03/20/pontes-entre-o-anarquismo-e-o-feminismo/


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