(pt) anarkismo.net: Por uma geoestratégia dos povos by BrunoL

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Segunda-Feira, 14 de Março de 2016 - 10:50:11 CET


Nesta série, iniciada no final de 2015, vamos realizar um esforço ensaístico para 
desenvolver bases teórico-normativas que deem alguma sustentação para o estudo e a 
intervenção nas Relações Internacionais (RI) a partir de uma perspectiva do poder dos 
povos em movimento. Ao afirmar esta perspectiva, imediatamente afirmamos que este ensaio 
assim como o anterior não se destina a projetar o poder dos Estados e menos ainda das 
Transnacionais (TNCs). O tema fundamental do texto que segue é a soberania popular.
À medida que aumenta a interdependência entre países, TNCs, Sistema Financeiro 
mundializado e mercado de câmbio, diminui a capacidade dos países em defender suas 
respectivas moedas e manter padrões razoáveis de vida materialmente estável para seus povos.

Como já afirmado, a soberania dos povos está subordinada, e por vezes até sequestrada, 
pelos poderes constituídos dentro da dimensão territorial dos países soberanos. Em geral, 
nas RI, há uma sobreposição da soberania dos Estados nacionais por em cima da soberania 
das maiorias massivas residentes destes mesmos lugares. A condição de decidir de forma 
soberana de um país tampouco é um valor absoluto. Sabe-se que as economias monetárias e o 
Grande Jogo no Sistema Internacional (SI) subordinam as capacidades estatais e, por 
tabela, diretamente às condições de vida das pessoas residentes na base da pirâmide social 
ali existente.

De forma direta, há soberania relativa dos países sobre seus próprios territórios e uma 
interdependência subordinada da maioria destes mesmos países aos Estados líderes do 
planeta. Também há uma interdependência mais horizontal entre Estados com excedentes de 
poder em distintas escalas, influenciando-os mutuamente. Dentro deste mesmo contexto, um 
Estado no SI projeta seu poder – seus poderes de formas diversas – também pela capacidade 
de influenciar nos ambientes domésticos e regionais dos demais países. A forma mais 
contundente desta presença, para além do poder militar e duro pela própria natureza, é 
através da existência de Transnacionais (TNCs), operando além de suas fronteiras de origem 
em variados ramos e negócios.

À medida que aumenta a interdependência entre países, TNCs, Sistema Financeiro 
mundializado e mercado de câmbio – com sua permanente guerra cambial e mesas manipuladas – 
diminui a capacidade dos países em defender suas respectivas moedas e manter padrões 
razoáveis de vida materialmente estável para seus povos. Progressivamente, as RI observam 
o papel dos Estados como forma de frear a projeção de poder das TNCs dos países do centro 
do capitalismo e para tal desenvolvem suas próprias TNCs como vetores estratégicos de luta 
pela hegemonia parcial ou total em escala planetária. Tal coação se dá de distintas formas.

Uma, mais explícita, é pela presença ostensiva de forças militares ou de ação rápida e 
emprego especial. O uso da força é um recurso regular da política e como tal deve ser 
compreendido, tal como o emprego de espionagem para incidir em ambientes domésticos, 
cenários regionais ou internacionalizados.

Outra forma de coagir a soberania dos povos sequestrada pelos poderes de fato dos Estados, 
e também bastante visível, é através do Sistema Financeiro e sua arquitetura montada como 
uma grande armadilha, onde agências de análise, controladorias, auditagem, arbitragem, 
redes bancárias, paraísos fiscais, circuitos de lavanderias de dinheiro e instituições 
financeiras formais operam de forma coordenada ou pelo menos, concatenada, para garantir o 
máximo de lucro e subordinação das economias nacionais ao apetite voraz do capital 
fictício em suas diversas formas.

Concomitante ao capital financeiro está a disputa – entre os países – por receber 
investimentos de empresas TNCs e o “ouro do capitalismo”, os empreendimentos que gerem 
emprego direto. Ao mesmo tempo em que é relevante a existência de emprego regular, a 
disputa por estes postos de trabalho implica, muitas vezes, em baixar a rede de proteção 
social e desregular as relações assalariadas. Assim, com a pressão da pouca ou nenhuma 
capacidade de organização sindical dos países asiáticos, a mão de obra mal remunerada 
baixa o preço das manufaturas e força a desindustrialização de países que outrora 
convertiam e transformava o que consumiam, tal é o caso de Brasil, México e Argentina.

As armadilhas de subordinação das vontades soberanas das maiorias com direitos políticos 
nos países podem ocorrer de diversas formas. Ao mesmo tempo em que é danoso ancorar a 
balança comercial de um país como o Brasil na exportação de bens primários, mantendo as 
bases de opressão pós-coloniais, transformando nossos biomas e suas riquezas naturais e de 
diversidade em infindáveis plantations de soja e outros grãos, também há o problema 
reverso. Basear a indústria na atração de capitais estrangeiros na forma de TNCs é quase 
sempre também subordinar as leis e acordos internos. Os danos ambientais e a chamada 
guerra fiscal entre os estados brasileiros materializam esta afirmação.

Entendo que tal diagnóstico seja universal, diferenciando-se entre analistas as soluções 
empregadas para a falta de soberania popular. Não vejo esta como idêntica ou 
“naturalmente” subordinada ao marco legal dos Estados. Os países do SI tampouco são 
sociedades igualitárias ou sequer dotadas de um grau razoável de distribuição material e 
justiça social. A Divisão Internacional do Trabalho (DIT) atual continua operando como um 
distribuidor de desigualdades, apesar de que o esforço das elites dirigentes, classes 
dominantes e a nova classe gerencial das TNCs (os alto executivos que se gratificam com os 
bônus e o controle dos movimentos destas corporações) intentem impor sua vontade em todos 
os territórios do planeta.

É tamanha a complexidade do Grande Jogo que fica difícil visualizar saídas de curto prazo 
para além dos cenários concretos, sendo estes domésticos (como por exemplo, o impasse hoje 
vivido pela Venezuela) ou regionais (tal é a luta dos povos do Curdistão pela 
autodeterminação de suas vontades coletivas). O problema é justamente de perspectiva. 
Pois, com a ausência de teoria, logo há inexistência de hipóteses de trabalho e assim, as 
ideias igualitárias e de base libertárias ficam reféns da herança maldita do mundo 
pós-Guerra Fria.

Ao projetar o poder dos povos em seus respectivos territórios, é necessário realizarmos o 
esforço teórico de projeção deste mesmo poder através dos constrangimentos que nossos 
países já sofrem (no caso específico da América Latina), a começar pelas frações de classe 
dominante totalmente alinhada com os países líderes do SI. A soberania popular se expressa 
de diversas formas e o passo inicial para contrabalançar o poder mundial através de uma 
geoestratégia dos povos.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29156


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