(pt) Impressões de um anarquista cubano no Reino Unido. De Bristol a Edimburgo (Parte III)

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Domingo, 13 de Março de 2016 - 16:14:24 CET


[Terceira parte do diário da viagem que fez o anarquista cubano, Marcelo Salinas, pelo 
Reino Unido falando da situação na ilha, do movimento libertário e recolhendo fundos para 
o seu projeto do Centro Social Libertário de Havana.] ---- Por _Marcelo “Liberato” 
Salinas_ ---- Numa manhã muito nublada dos últimos dias de Outubro, saí da casa dos compas 
de Bristol rumo a Edimburgo. Felizmente a C. conduziu-me num pequeno carro até à estação 
de trens e, pelo caminho conversamos sobre o encontro da noite anterior e de outros temas 
que ficaram pendentes. Apesar do difícil que me foi, ao início, entender o seu inglês – 
muito marcado pela gíria e pelos tons comuns da linguagem do quotidiano daquele lugar – 
dois dias depois, já a entendia muito melhor e podia sentir a qualidade de pessoa que 
tinha pela frente e compreender que ela é um dos pilares afetivos do grupo da Federação 
Anarquista de Bristol.

Havia pouco tempo para alongar a inevitável despedida e pedi a C. que
transmitisse as mais calorosas saudações aos companheiros. Abraçamo-nos
fervorosamente e dirigi-me à linha em que tomaria o trem para Edimburgo,
na Escócia.

Recordo a viagem como longa e devem ter passado umas 7 horas. Cheguei à
noite a Edimburgo e daí fiz uma pequena viagem de 35 minutos até
Stirling, uma antiga vila medieval da Escócia, onde calorosamente me
recebeu D., companheira da Federação Anarquista da cidade. Ela estava
muito feliz por receber um companheiro Cubano. Na sua casa conversamos,
também com a sua mãe, durante muito tempo, que era uma militante
veterana, admiradora desde a juventude da obra social da revolução cubana
e que se mostrou muito atenta às minhas explicações sobre a evolução
da realidade atual na ilha.

Foi uma conversa envolvente em muitos sentidos, para ambas as partes. A
elas, permitiu-lhes conhecer em primeira mão o que fazemos os poucos
companheiros anarquistas de um país como Cuba. A mim, tornou-me possível
reconhecer, entre outras coisas, como a dura experiência de uma
companheira atingida por uma complexa doença psico-motora a fez abrir-lhe
portas para uma percepção antiautoritária da sua realidade. Realidade
esta na qual vive uma trama afetada direta e indiretamente, gerida pelo
grande fator do bem estar criado pelo estado e pelo seu corpo médico
oficial, para que ela consuma certos medicamentos, que o seu corpo sente
que alteram os mecanismos de autorregulação que ela criou.

Falar, demoradamente com a D. e com a sua mãe recordou-me, constantemente
a M, outro saudoso companheiro nosso em Espanha, atingido por uma
bipolaridade com a qual sentiu, desde o profundo do seu ser, a necessidade
de enfrentar e procurar alternativas liberatórias a uma sociedade que,
quando se dá ao luxo de organizar os aclamados sistemas de saúde
pública, mostra aos seus doentes, em geral, e aos doentes mentais, em
particular os dados mais autoritários, hipócritas e aditivos ao sistema,
obrigando-os a tratamentos médicos que atuam para destruir a dignidade das
pessoas.

Estas são algumas das pegadas sobreviventes do espírito das workhouses,
ou simplesmente instituições, centros estatais de reclusão correcional
altamente centralizados, criados pelo Estado britânico no contexto da
chamada revolução industrial, inicialmente para as pessoas pobres
desempregadas, os chamados “mendigos robustos” e logo de seguida,
ampliados a todos aqueles com pouca disponibilidade para integrar-se na
nova ordem moderna. Estabelecimentos que, com a sua nefasta história,
enchem capítulos inteiros de literatura produzida neste país.

Essa experiência das workhouses, ou Instituições foram vividas em carne
e osso na sua infância no East End de Londres, pelo grande Charlie
Chaplin, o seu irmão Sidney e a sua mãe, nos finais do séc. XIX. Estes
centros de caridade oficial, no meio de um contexto de miséria industrial
e brutalidade popular, primeiro no asilo de Lambeth, depois na escola
Hanvell Orfanage School e depois no Norwood, são lugares que, nas suas
memórias, Chaplin recorda como locais com pretensões educativas de
tremenda disciplina, onde as crianças sofriam castigos corporais (que
podiam mesmo levá-los à enfermaria) envoltos num denso ambiente de azar,
solidão e isolamento.

Não é casual que esta mesma zona da East End londrina fosse o cenário
dos terríveis crimes do, ainda anônimo, Jack o estripador que tomava por
vítimas as prostitutas pobres desta zona. Não seria esse anônimo
sujeito, uma das atormentadas crianças que viveram nessas
instituições…?

Face a todo esse mundo de violência e envelhecimento da vida individual e
coletiva, a obediência, a rotina, ou a submissão foram alguns dos
princípios que promoveram essas instituições fechadas que,
paulatinamente foram replicadas por todos os estados com pretensões
modernizadoras e que converteram as instituições supostamente abertas
como as escolas, a administração pública, as empresas, as famílias
patriarcais e assumiram os mesmos princípios das workhouses. Criando
assim, um ambiente propício para o que o Dr. Russel Barton definiu como
“neurose institucional”, contra a qual os nossos companheiros D. e M.
combatem diariamente… e, também por isso, são anarquistas.

II.

Depois do longo diálogo noturno com D. e com a sua mãe, na manhã
seguinte dirigimo-nos de trem para Edimburgo, para nos encontrarmos com os
compas da federação dessa cidade. Ali, na Livraria Scottish Radical,
receberam-nos cordialmente três companheiras que estavam nesse dia a
cuidar do espaço. Poucas horas ali, mas com variadíssimas e
inesquecíveis conversas naquele espaço pequeno que serve como ponto de
encontro de uma rede associativa diversa.

Como parte dessa rede, ali também conheci a experiência de trabalho da
Edimbourg Coalition Againt Poverty (Coligação Anti-Pobreza de Edimburgo)
que no mesmo local da livraria, tinha uma cooperativa de consumo de
produtos orgânicos locais e também de produtos importados de Chiapas, no
norte da Guatemala, ou da Colômbia e que permitiam também a comunicação
direta de experiências de todo o tipo, de ambos lados do mundo.

Por volta do meio-dia a D. e o R., outro importante companheiro de
Edimburgo, acompanharam-me pela cidade para eu comprar um cartão para
ligar à minha família em Cuba, o que serviu para conhecer de perto a
personalidade da famosa urbe escocesa, nas margens do rio Forth. Uma
metrópole com um grande número de construções históricas e
patrimoniais que lhe permitiu obter, em 1995 (na parte da cidade velha e da
nova) a condição de Patrimônio da Humanidade. Atualmente, é o centro
econômico mais dinâmico da Escócia que é um lugar de referência do
capital financeiro, de universidades históricas de projeção
internacional, várias modalidades de turismo, bem como da histórica
indústria da cerveja e álcool, como é o caso do emblemático Whiskey
escocês.

Este é o conteúdo material que em boa medida revitalizou o nacionalismo
escocês, tema que claro surgiu nas conversas com D. e com R., enquanto
percorríamos a cidade. Especialmente R. mergulhou neste fenômeno de
massas e da forma como este se converteu numa desculpa para todas as
questões problemáticas que atingem a sociedade. De tal forma que,
qualquer enunciado crítico nesse contexto é respondido com o tópico
dominante: a independência do Reino Unido, vista como solução para todas
as perguntas, o que fez com que haja um decréscimo considerável da cena
radical e antiautoritária, em particular nesta região.

Perto do início do anoitecer fomos à Leftist Book Fair da cidade que
estava perto da Scottish Radical Library. Comparando esta com a Anarquist
Book Fair de Londres, esta era obviamente mais pequena e menos animada,
sendo que também se encontrava na sua reta final, embora ainda tenha tido
a oportunidade de assistir a uma interessantíssima sessão de diálogo
aberto sobre a história do fascismo, as suas expressões extra europeias e
a atualidade do assunto no Reino Unido e na Europa. Não desperdicei a
oportunidade para intervir e falar sobre o desconhecido partido fascista
cubano ABC, tão ignorado como sendo influente na política cubana, depois
de 1934, com o seu “Manifesto a Cuba”, redigido por Jorge Mañach,
Joaquín Martínez Sáenz e José F. Martí, filho do herói nacional José
Martí. Com a sua indumentaria verde azeitona, o seu culto a juventude, à
nacionalização do estado e às concentrações de massas, até à mítica
do guerrilheiro urbano, às ações direta armadas… tudo isto muito
influente nos grupos universitários que começaram a luta armada contra a
tirania de Fulgencio Batista, nos anos 50 e que hoje em dia formam parte da
elite do poder de Cuba…

Entretanto, a tarde em Edimburgo avançava e os transeuntes da cidade
faziam-nos ver que estávamos a 31 de Outubro, noite das bruxas
(Halloween), celebração histórica por estes lados, um sábado… enfim,
toda uma conspiração para que o encontro na Scottish Radical Library e a
apresentação que os compas tinham planejado para eu fazer, tenha tido
pouca assistência.

Mas perto das 20 horas começou a chegar um grupo animado de companheiros
que foram criando um bom ambiente no local e que finalmente ficou tão
animado que levou a uma apresentação minha de 40 minutos, à qual se
seguiu uma sessão de perguntas, comentários e, sobretudo, observações
interessantes de um variado auditório de compas da Grécia, Alemanha (ex
RDA), para além dos locais. O encontro acabou por vontade coletiva dos
presentes cerca das 22h30.

III.

A essa hora saímos para levar D. à estação de trem de Stirling, numa
despedida que sempre levarei no coração. Daí tomamos rumo a uma
cêntrica avenida da cidade, eu e um pequeno grupo composto pelo mais jovem
dos alemães, S., o Grego e R. o meu anfitrião de Edimburgo, com a
declarada intenção de encontrar um bar… Duas rondas de cerveja polaca,
mexicana e local foram o máximo que a nossa carteira permitiu financiar.
Tema que rapidamente tomou conta da conversa e algo que nos meios
antiautoritários se tem vindo a dar atenção: a gentrificação, uma
palavra de origem inglesa com a qual se estão a definir os processo de
remodelação da fisionomia da velha cidade industrial capitalista, com os
seus espaços classisticamente diferenciados, mas também o tecido social
que nos séc, XIX e XX firmemente se podia definir de “bairro
obreiros”.

Nos locais onde antes se podia encontrar significativos níveis de
solidariedade, afinidades populares e usos escassamente mercantilizados do
espaço público e doméstico, quase sempre precarizados, mas acolhedores:
moldados pela convivência de pessoas e famílias em comum situação de
trabalhos assalariados e contra um antagonista externo visível para todos.
Estes locais que hoje estão a ser invadidos por novos interesses que veem
essas áreas da cidade velha industrial um ótimo cenário de novos
investimentos em casas, ou serviços lucrativos para classes altas, ou para
o negócio das indústrias turísticas, expulsando os velhos inquilinos
para zonas e experiências de vida não só mais precárias, como também
isoladas e desarticuladas no espaço da cidade.

Nos meios acadêmicos mais comuns o debate em torno a este tema foi-se
diversificando, mas tentando centrar as atenções nas causas, nas
modalidades e fases deste processo e analisando se as razões deste
processo têm origem nas necessidade de uma nova classe média e de uma
economia de serviços, ou numa oferta de investimentos para mercados
capitalistas, sobre o qual se pode encontrar um bom resumo na Wikipédia
2014.

Para o nosso companheiro grego, D. que partilhava a mesa conosco na
cervejaria em Edimburgo, este assunto da gentrificação, segundo a sua
experiência desde o ponto de vista do movimento anarquista de Atenas é
uma expressão muito concreta da simbiose e da unidade de interesses entre
os estados e os capitais, sejam globais, ou nacionais. Uma vez que os
capitais estão a encontrar um novo espaço de capitalização para os seus
dinheiros, os estados estão a fundar um método prodigioso de
desarticulação dos resíduos ativos de tecido social popular que é,
quase sempre antagonista às formas de dominação existente e aos avanços
da mercantilização da vida quotidiana…

Um dos segredos da contagiosa revolta grega de 2008, para o nosso compa,
residia aqui, num bairro como Exarchia, no centro de Atenas que se
converteu num tecido de sociabilidade que permitiu ativar redes de
confronto com o sistema, mas de confiança entre os vizinhos e onde os
anarquistas conseguiram arriscar-se, décadas antes.

Fonte:
https://observatoriocriticocuba.org/2016/02/22/mis-impresiones-de-la-feria-del-libro-anarquista-de-londres-de-bristol-a-edimburgo-iii-parte/

Tradução > Ophelia

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