(pt) Nosso feminismo será classista e de base, ou não será!

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Sábado, 12 de Março de 2016 - 14:32:03 CET


Opinião das mulheres anarquistas da FAG lido na ocasião do Ato Político Anarquista 
celebrativo ao 8 de março, dia Internacional da mulher trabalhadora. ---- Por ocasião do 8 
de Março, data importante para as mulheres de todos os povos do mundo, nós, mulheres da 
Federação Anarquista Gaúcha, convidamos a todas e todos, no dia de hoje, a se somar nesta 
modesta, porém convicta opinião de luta contra as mais diversas opressões, especialmente 
contra as violências que decorrem das ideias machistas e patriarcais. Nossa presente 
contribuição não pretende ser totalizante nem abarcar toda a diversidade de opressões que 
sofrem os diferentes grupos dentro do que definimos por “mulher”, porém, uma coisa 
queremos demarcar: nossa luta e nossa vida se dedica às mulheres do povo, às mulheres 
oprimidas, pois delas nascemos, delas somos parte e por elas estamos dispostas a viver e 
morrer. Assim, conscientes de nossa insuficiência, queremos apresentar alguns debates e 
construções que temos feito na medida em que o protagonismo feminino vem aumentando a cada 
dia em nossa Organização e em nossas Frentes de Luta.

Sabemos que a situação social e política das mulheres no país é muito dificil, ainda mais 
para as mulheres pobres e negras das periferias de todo o Brasil. Vivemos momentos de 
ataques graves à dignidade das mulheres compostos por medidas de leis e questões culturais 
que reforçam a mentalidade machista de que a mulher é um sujeito social menos respeitável 
e que sua condição na sociedade ainda é a de ser responsável pelas tarefas domésticas, mão 
de obra mais barata e um corpo passivel das mais cruéis agressões em nome da “honra” 
masculina.

Queremos, nas linhas que seguem, trazer alguns apontamentos sobre a condição das mulheres 
oprimidas, aquelas que são trabalhadoras, desempregadas, negras, indígenas, mulheres do 
povo. Nesse sentido, esta carta de opinião tem como objetivo fundamental nos impulsionar 
para uma das mais importantes lutas que precisamos fazer: a luta contra o capitalismo, que 
tem como elementos estruturantes o Estado, o patriarcado, o racismo e a opressão de classe.

Nossa posição como mulheres anarquistas, que lutamos diariamente contra todas as formas de 
opressão, vai muito além de um discurso meramente comportamental e ou estético; busca 
entender que dentro das mais variadas opressões de gênero que existem na sociedade as 
mulheres de Baixo são mais atingidas pela ação violenta do Estado-patriarcal. Não é por 
acaso que o maior índice de violências de gênero ocorrem nas periferias e que em termos de 
acesso a direitos básicos, como educação, saúde, creche, moradia, são as pobres e negras 
as menos atendidas.

Nossa luta não se resume a demandas por direitos, porém, entendemos essas demandas como 
uma parte importante de todo um processo de luta, por garantirem, em um primeiro momento, 
dignidade e autonomia para as oprimidas. No entanto, a luta pela libertação das mulheres é 
muito maior do que isso. Nesse sentido, é importante pensar desde um ponto de vista que 
provoque mudanças nas pequenas pequenas coisas, desde a vida diária, no aspecto 
ideológico-cultural, nas microrrelações, se queremos e nos comprometemos a mudar as coisas 
de fato. A ideia de que a mulher hoje está em condições de igualdade com o homem continua 
sendo uma farsa, que mascara toda a violência a que somos submetidas, porque não 
trabalhamos em condições iguais, não somos educadas a buscar nosso valor; ao contrário, é 
muito forte o disciplinamento de nossos corpos, por meios institucionais e culturais, para 
continuarmos sendo as sujeitas-assujeitadas da sociedade, mesmo sendo nós, mulheres, mais 
da metade da população mundial.

Sobre as politicas contrárias as mulheres e a autonomia de seus corpos

Nos últimos meses, vimos com indignação um fortalecimento de discursos contra as mulheres 
por parte dos setores fundamentalistas, assim como são ferozmente propostas, dentro dos 
marcos instituicionais, leis graves que nos atacam vitalmente, além de colaborarem para 
que o pesamento machista seja mantido e incentivado. Dentro dessas medidas, podemos 
destacar algumas leis que tramitam e que infelizmente não ganham mais adversários do que 
nós, as mulheres. São leis como o Estatuto do Nascituro (Projeto de Lei 478/2007), do qual 
destacamos as atrocidades que o Estatuto propõe: aborto como crime hediondo, em qualquer 
caso- inclusive em quando apresenta risco de vida para a mulher- bolsa-estupro, entre 
outros. Por que aprovar uma lei como esta? Para manter o corpo da mulher sob controle, 
obviamente.

O aborto no Brasil é tratado como um grande tabu e ainda é hegemônica a opinião de que 
isso é um “crime contra a natureza”, mesmo sabendo que milhares de brasileiras fazem 
abortos todos os dias. A hipocrisia é a regra do discurso hegemônico, porque sabemos que 
as que mais morrem por conta de abortos inseguros são mulheres pobres que não encontram 
outras maneiras, a não ser as mais arriscadas, para fazer este procedimento.

As mulheres das classes médias-altas fazem aborto em clínicas seguras, pagam bem, quando 
não viajam para outros paises para fazerem em clínicas luxuosas. No entanto o que se 
coloca nesse debate está para além de um discurso meramente moral: é uma questão de saúde 
e de garantia de vida para as mulheres pobres! Ou se acredita que é uma decisão fácil 
fazer um aborto? Para tomar uma decisão como essa, a mulher entende que não pode cuidar de 
uma vida a mais, por questões econômicas, emocionais, por insegurança, por medo, mas nunca 
por ousadia ou por esporte. Afinal, se não decidimos sobre nossos corpos, sobre o que mais 
decidimos mesmo? Mas, com isso, não se pode esquecer que assim como a mulher tem que ter 
direito para decidir se vai abortar, também deveria ter direito para decidir ter um filho 
em condições de dignidade, sem sofrer com a fome, a violencia obstétrica, a violência 
doméstica dentre tantas outras.

A gravidade do Estatuto do Nascituro está quando afirma que, mesmo que fique grávida do 
homem que a estuprou, a mulher seja obrigada a ter esta gestação, com “auxílio” de uma 
“bolsa macabra” de míseros reais por parte do governo…O estupro é um ato de profundo 
desrespeito à moral e ao corpo da mulher. É uma arma de terror. O estupro é o mecanismo 
mais vil e covarde que o homem encontra pra provar sua força e poder sobre as mulheres e é 
terrivel pensar que o RS seja um dos estados que mais tem os maiores índices de estupro no 
país. O limite entre os assédios de rua até o estupro é muito tênue e é inaceitável as 
hipócritas justificativas que não justificam nada: “roupas inadequadas”, “sozinha em 
espaços públicos”, “se a mulher bebeu é porque quer ser abusada”, “se ela está com raiva é 
porque falta um pênís”, etc…

No Brasil, 850 mil mulheres abortam por ano e a cada dois dias uma mulher pobre morre por 
aborto clandestino. De acordo com algumas pesquisas, mais de 8,7 milhões de brasileiras 
com idade entre 18 e 49 anos já fizeram ao menos um aborto na vida. Destes, 1,1 milhão de 
abortos foram provocados. No Brasil o aborto tem cor e renda sim. No Nordeste, por 
exemplo, o percentual de mulheres sem instrução que fizeram aborto provocado (37% do total 
de abortos) é sete vezes maior que o de mulheres com superior completo (5%).

O mapa de terror contra as mulheres no Brasil chamado Feminicidio

A violência contras as mulheres é corriqueira e aceita como um costume, já que o homem 
tem, moralmente, um status social mais importante que a mulher. As agressões contra as 
mulheres deixam rastros de sangue, medos e traumas desde de sempre, em meninas, jovens e 
mulheres das mais diferentes idades. Os abusos contra crianças não estão deslocados desta 
engenharia machista, de domínio em relação ao sexo feminino e à infância. O Brasil é o 5° 
país no mundo que mais mata mulheres, 3 a cada 5 mulheres declara já ter sido agredida, 
mais de 50% dos casos acontecem dentro de casa, 70% dos casos de violências cometidos 
contra mulheres acontecem semanalmente, mais de 70% destes casos é cometido pelo 
“parceiro” ou “ex parceiro”. Somente em 2013, foram 4.762 assassinatos de mulheres 
registrados no Brasil – ou seja, aproximadamente 13 homicídios femininos diários. Esses 
dados indicam que, diariamente, vivemos uma guerra civil contras as mulheres brasileiras.

Racismo e violência: homicídio de negras aumenta 54% em 10 anos

A taxa de assassinatos de mulheres negras no Brasil aumentou 54% em dez anos, passando de 
1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. As mulheres negras são mais de 60% das vítimas de 
feminicídio, exatamente porque não contam com assistência adequada e estão mais 
vulneráveis aos abusos das próprias autoridades.Isso só comprova que as mulheres negras 
entre as demais são as que mais sofrem com a gravidade da violência machista, por conta de 
uma sociedade com fortes rasgos racistas e preconceituosos.

O problema do racismo na nossa sociedade afeta as mulheres negras das mais variadas 
formas, porque também o genocídio da juventude negra é sofrimento direto para milhares de 
mães negras. Não é à toa que as filas de hospitais e de presídios estão cheias delas, pois 
seus filhos, irmãos, sobrinhos, enfim, são os mais vulneráveis à violência policial, não 
importando se estão ou não envolvidos em algum ato ilícito. Só o fato de serem negros, 
jovens e pobres já os coloca na linha de tiro diariamente.

No mundo do trabalho, são as negras as mais marginalizadas, e também no ensino superior, 
no acesso à saúde e à moradia digna. O racismo e o machismo são elementos estruturantes na 
sociedade brasileira, são elementos de coerção e desigualdades que precisam urgentemente 
acabar!

O Feminismo vem, ao longo das décadas, tentando englobar todas as mulheres em uma única 
característica em comum: o gênero. Porém, ao supor que todas passam pelos mesmos problemas 
e desejam as mesmas coisas, o Feminismo que não enxerga as especificidades de cada grupo 
feminino acaba atuando sob omissão, muitas vezes deliberada. As necessidades das mulheres 
negras são muito peculiares e sem que seja feita uma profunda análise do racismo 
brasileiro, é impossível atender às urgências do grupo.

A luta das feministas negras é uma batalha contínua. Isso, por si, levanta a importante 
reflexão sobre a representação feminina na mídia, seu espaço no mercado de trabalho, o 
lugar de vítima da violência sexual, o protagonismo da maternidade, entre outros temas, 
pois se há tanto por que as mulheres brancas precisam lutar, é bastante preocupante o fato 
de que as mulheres negras nem sequer conquistaram igualdade quando em comparação com 
outros indivíduos do seu próprio gênero.

Em 2013, a PEC 66 foi aprovada, transformando em lei a reivindicação de empregadas 
domésticas, que há décadas lutavam por direitos trabalhistas. Não por acaso, as mulheres 
negras compõem a maioria de trabalhadoras do lar (61,7%). Porém, a realidade ainda 
permanece distante do desejado. As funcionárias que exigem seus direitos muitas vezes 
acabam despedidas e, sob ameaças e assédio moral, é difícil efetivar a conquista.

Com relação ao aborto, as mulheres negras também integram a parcela de maiores vítimas da 
ilegalidade. Por causa das complicações geradas por abortos clandestinos, as mulheres 
negras morrem em números altíssimos e também estão mais vulneráveis ao indiciamento 
criminal, caso sobrevivam.

A violência obstétrica também é um marco na vida das mães negras e pobres. Negligenciadas 
nas filas do SUS, elas são colocadas em segundo plano para que mulheres brancas – 
consideradas mais frágeis e sensíveis – sejam priorizadas, independente da ordem de chegada.

Resumir pautas e fazer reivindicações genéricas ainda é um vício dos movimentos sociais. 
Nos posicionamos contrárias à homogeinização das lutas, pois a diversidade e a 
heterogeneidade de sujeitos das classes oprimidas é capaz de produzir muito mais união e 
potencial de transformação. Reconhecendo e respeitando as diferenças e características 
subjetivas das mulheres do povo, é possível contemplar as necessidades urgentes de cada 
categoria. A diversidade sexual, as variáveis nas identidades de gênero, de trabalho, de 
moradia, de urbano x rural x floresta, de escolaridade, de raça e etnia, entre outras 
especificidades que compõe o espectro das classes oprimidas estão se transformando em 
abordagens prioritárias que exigem conscientização imediata.

O caminho para as conquitas por parte das mulheres de Baixo será com organização de base 
ou não será

Somos anarquistas especifistas e por isso entendemos a necessidade de estarmos organizadas 
para poder lutar contra o patrão, Estado e também contras as demais opressões. Sem 
organização de base, democracia direta e com trabalho continuo não teremos êxitos nas 
nossas peleias. Precisamos estar enraizadas no terreno fértil das lutas sociais, semeando 
organização e rebeldia.

O feminismo, do nosso ponto de vista, tem que abandonar os debates isolados dentro das 
universidades, dos divisionismos conceituais, que acabam por fazer discurso apenas no 
aspecto comportamental, sem colocar a questão de classe como um dos elemntos que caminha 
junto na luta das mulheres. Nós também entendemos que a luta das mulheres tem que estar 
alinhada a uma estratégia classista, sem colaboração com os governos e ações de Estado. O 
Estado nunca foi, não é e nunca será aliado das mulheres oprimidas; o Estado-Patriarcal é 
nosso maior inimigo ideológico, por isso que a luta das mulheres tem que estar fortemente 
organizada fora das estruturas governamentais e submersa nas diferentes esferas da vida 
das pessoas, nas suas comunidades, locais de trabalho e estudo, buscando alternativas a 
curto e longo prazo para a auto-organização das mulheres. Isso implica também em pensarmos 
a nossa autodefesa, assim como de nossas comunidades que sofrem diariamente pela violência 
de Estado. Também é importante estarmos unidas para as lutas mais imediatas que são 
fundamentais para as mulheres do povo, como a questão das creches, acesso à saúde, 
trabalho, estudo. Isso tudo construído em uma marco estratégico maior, de construção de 
poder popular, de baixo para cima, que lute pelas mudanças do “hoje e do amanhã”. 
Convocamos as mulheres oprimidas à sua auto organização, sem abandonar os movimentos 
mistos, lutando ombro a ombro, com os companheiros que são convictos de que a mudança 
desta sociedade precisa levar a liberdade da mulher a sério e dentro de um marco 
programático. Nosso feminismo será classista e de base ou não será!

O exemplo das mulheres de Curdas e os desafios da solidariedade internacional

Uma revolução social está em marcha no Curdistão e coloca no cerne da questão política o 
protagonismo das mulheres, com o lema “se as mulheres não forem livres, a sociedade também 
não será” caminha a causa do Confederalismo Democrático. A luta das mulheres Curdas hoje 
também nos inspira, não só por defender o protagonismo das mulheres, mas por pensar uma 
revolução social e um novo projeto de sociedade de baixo para cima, construindo, apesar da 
guerra, uma radical democracia de base e solidariedade entre os povos oprimidos daquela 
região. Hoje, mais do que nunca, são as mulheres curdas que combatem o pensamento 
autoritário, assassino e patriarcal do Estado Islâmico e o genocídio que promove o Estado 
Turco. Porém, mais do que pegar em armas, as companheiras do Curdistão estão armadas de 
ideias: ideias de liberdade, solidariedade e de transformação radical da sociedade. Mais 
do que inspiração, são exemplos de que a mudança é possível em meio ao caos do sistema 
capitalista e patriarcal. Vibramos a cada conquista dos povos em luta no Curdistão, nossa 
solidariedade é mais do que palavra escrita. Também somos daquelas e daqueles que não 
confiam nem um pouco em revoluções que adorem o Estado, por isso, as companheiras Curdas, 
assim como seu povo, tem um lugar especial no coração e na estratégia política das e dos 
anarquistas.

“É aqui e agora que a construção de um novo homem e uma nova mulher se faz necessário, não 
só para pensar o futuro, mas para transformar o importante presente de resistência, pois 
aí sim o futuro diferente será. Com as mais difíceis mudanças, que são aquelas que fazemos 
dentro de cada uma e de cada um de nós… Esta é a prefiguração dos valores Anarquistas e de 
uma sociedade livre da qual estamos dispostas a lutar até o fim. Não o nosso fim, mas o 
fim deste injusto e terrível sistema! Não é só por nós, é por aquelas que já se foram e 
por todas as que virão e que continuarão a luta depois de nós.”

Em memória de todas as lutadoras, em memória de Berta Cácere, militante indígena de 
Honduras assassinada por ter coragem de lutar!

MEXEU COM UMA MEXEU COM TODAS!!!

MULHER, TE ORGANIZA E LUTA!

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2016/03/06/nosso-feminismo-sera-classista-e-de-base-ou-nao-sera/


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