(pt) anarkismo.net: A recessão, os coveiros e o avanço da Nova Direita by BrunoL

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Terça-Feira, 8 de Março de 2016 - 08:31:16 CET


"A pregação do austericídio dentro e fora do segundo governo Dilma Rousseff, a fala 
permanente dos coveiros do caos e o ambiente político forçosamente complicado está levando 
ao governo atual a fazer as piores escolhas, todo o tempo", destaca Bruno Lima Rocha, 
professor de ciência política e de relações internacionais. ---- Segundo ele, "estamos 
diante de um momento crítico, onde as forças populares estão realmente sem uma base sólida 
por onde arrancar e ainda pendentes do canto da sereia do eleitoralismo - por dentro e por 
esquerda do governo -; enquanto o governo Dilma em sua segunda edição é uma soma estranha 
de um grupo de confiança com aspirações próprias dentro do partido - como Miguel Rossetto 
e Jaques Wagner - além de uma subordinação à base oligárquica do governo, comandada por 
Renan Calheiros e Sérgio Cabral Filho, ambos à frente do PMDB que se impõe em escala 
nacional".

Eis o artigo.

Se há um programa de televisão que considero operar como motor de propaganda da Nova 
Direita é o Globo News Painel. A edição de sábado, 27 de fevereiro, materializou-se como 
autêntico "brain storm" do impeachment ou da queda do segundo governo Dilma.

Ao contrário da maioria dos analistas, desta vez não vou me ater aos importantes 
acontecimentos no âmbito policial, jurídico, político e midiático decorrentes da Operação 
Lava Jato e também da Operação Zelotes. Considero ambas as operações muito relevantes e 
essenciais para analisar a conjuntura política, assim como o papel do Supremo (STF) diante 
dos agentes políticos de envergadura nacional. Mas, nas linhas que seguem, me atenho a 
três dimensões concatenadas: o papel da mídia privada tanto na difusão do neoliberalismo 
vulgar como “coveira” da economia, a presença da Nova Direita na América Latina como um 
fenômeno social e a aproximação cada vez maior do atual governo às teses da direita 
opositora dos latino-americanos.

Os coveiros de sempre, a Nova Direita e o governo que se rendeu de vez

Se há um programa de televisão que considero operar como motor de propaganda da Nova 
Direita é o Globo News Painel. A edição de sábado, 27 de fevereiro, materializou-se como 
autêntico "brain storm" do impeachment ou da queda do segundo governo Dilma. É impossível 
defender este governo, mas reconheço que o PT tem alguma “sorte”, pois seus detratores são 
tão horrorosos que complica para a maioria dos receptores acreditarem nesta gente. A 
ladainha passa até por Luiz Felipe Pondé (o próprio, o filósofo da Folha de São Paulo, uma 
espécie de Danilo Gentili com verniz intelectual); outros componentes são um porta-voz 
oficioso do mercado (Alexandre Schwartsman) e um professor titular de Direito da USP, José 
Eduardo Faria, que apontou o caminho da institucionalidade para "salvarem o país".

Programas assim são um recado e deveria interromper a permanente síndrome de Estocolmo. 
Não adianta o Planalto acenar bandeira branca para o Serra e a Chevron, a UDN pós-moderna 
não desiste nunca. Como houve a comparação com o período pré-1964, estamos diante do 
fantasma do antigo PSD, logo vale lembrar o papelão de JK antes do golpe de 1º de abril. O 
interessante desta crise é ver a direita neoliberal cortar na própria carne, citando além 
das empreiteiras até o Grupo Gerdau, criminalizando o capital nacional que cometera o 
pecado do pacto lulista.

Ao longo dos 45 minutos (contidos neste link) confesso que vi de tudo. Em uma passagem, 
Pondé sugere uma reaproximação entre Eduardo Cunha (o próprio que está perdendo as 
vantagens com o acionar do STF) e Michel Temer para superar a crise política e fazer andar 
o impeachment! Antes o professor do Insper disse que bastaria escutar o consenso dos 
"economistas" - dos neoliberais, obviamente - e o problema da economia estaria resolvido, 
já que a crise é "política".

Ou seja, basta que se juntem meia dúzia de Chicago Boys e Beijing vai escutar seus 
conselhos e subir o preço da soja e do minério de ferro! Obviamente que estes Chicago Boys 
também venderiam tudo, já que não "precisamos do Estado interventor no capitalismo 
semiperiférico".....quanta bobagem na forma de perigosa propaganda.

Em outro momento, William Waack - sempre ele - abre o bloco perguntando e também afirmando 
a campanha da reeleição de Dilma como uma "campanha criminosa". Mas, se os financiadores e 
doadores são os mesmos, logo, toda a campanha - ao menos no segundo turno - seria 
criminosa para ambas as chapas, correto?

Para fechar a crítica, Alexandre Schwartsman - economista que trabalhou no Banco Central 
durante a gestão do tucano Henrique Meirelles e governo Lula - disse que "o Banco Central 
está absolutamente manietado, porque não houve o aumento da taxa de juros, apesar do 
alarde e do anúncio de que haveria o aumento"....Depois desta pérola, William Waack - 
sempre ele - agradeceu as "observações técnicas do economista".

A Nova Direita é a receptora difusa da propaganda neoliberal

Obviamente programas como este, embora sejam quase incompreensíveis para mais de dois 
terços dos brasileiros, têm efeitos ideológicos e propagandísticos imediatos. A Nova 
Direita aproveita-se de mensagens como estas. Um bom debate para travarmos entre todos os 
setores da esquerda latino-americana. Existe sim uma nova direita, individualista, 
mesquinha, ideológica e cibernética, sem debates de falsa consciência ou qualquer 
determinismo tolo de tipo marxiano vulgar.

Dados difundidos pelo economista uruguaio Raúl Zibechi trazem essa dimensão e apontam para 
uma perspectiva sombria: quem se forma na expansão do ensino superior não segue estudando 
por conta e tem medo de se socializar em espaços públicos com as maiorias; os espaços 
públicos já não socializam necessariamente, se confundem com exclusão, com quem não pode 
pagar pelo "private", pelo "top". Ou seja, a dimensão ideológica é muito mais presente do 
que a vã filosofia com ares de "ciência econômica" que vem sendo propalada pelas viúvas do 
Muro ou por quem faz coro com a dinastia Castro de uma ilha que outrora chegou a flertar 
com um Poder Popular pluripartidário (entre 1959 e 1962).

No Brasil temos mais de 44 milhões de pessoas flutuando neste sentido, obtiveram melhorias 
materiais (todos nós tivemos, inclusive o inimigo, a começar pelos bancos), houve expansão 
da capacidade de absorver a massa de pessoas que vinha do subemprego estrutural e estamos 
diante de uma eterna reconversão pós-fordista, onde a maioria trabalha e estuda e estuda e 
trabalha e o pensamento crítico dá lugar para novas formas de adestramento de adequação de 
mão de obra (na acumulação flexível, incluindo este que aqui escreve sem parar e atende a 
estudantes online o tempo todo....).

Zibechi costuma ser meio controverso, mas dessa vez o uruguaio acertou um golaço na 
análise embora eu entenda que estamos diante de um enorme abismo ideológico pós-Consenso 
de Washington. Sim, os anos '90 não acabaram e a segunda metade dos anos 2010 pode ser a 
terceira década perdida da América Latina ('80, '90 e agora com o esgotamento dos governos 
de centro-esquerda não classistas....).

A recessão que se avizinha e os coveiros de sempre

A economia brasileira fechou o ano de 2015 com uma retração do PIB com menos 3,8%. Venho 
afirmando o óbvio em distintas dimensões. Creio que é consenso até entre a esquerda 
restante da base do governo que o país se inclinou em demasiado para uma expansão do 
consumo, a acomodação de forças, as garantias das margens de lucros de empresas 
permissionárias e concessionárias e, para o jogo duro no Sistema Internacional, primarizou 
a economia brasileira.

O bom desempenho do agro na balança comercial ocorre apesar dos preços rebaixados das 
commodities. Ou seja, com a nossa deterioração nos termos de troca, estamos plantando mais 
grãos para vender por valor menor, o que já assanha o partido do boi e do latifúndio a 
grilar os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e expandir a fronteira agrícola 
neste "novo cerrado", levando ao esgotamento dos recursos hídricos e o aumento do êxodo rural.

A cova brasileira se dá por uma série de fatores, mas esta é muito mais rasa do que os 
coveiros midiáticos e "especialistas do mercado financeiro" gostariam que fosse. A eterna 
maldição da relação dívida-PIB aumenta na medida em que a taxa da Selic não baixa - ficou 
em 14,25% de novo, através do quase auto-governo do Copom. Enquanto isso, os coveiros 
exigem o aumento permanente da Selic e a liquidação de tudo. Tentam fazer recordar a 
recessão de 1990 e 1992, mas se equivocam, pois este período havia hiperinflação, e em 
2009 o Brasil foi defendido por medidas anticíclicas.

O problema não é a recessão hiperinflacionária, que não vai voltar, mas a recessão com 
inflação com algum grau de controle, como foi o período FHC, em especial a partir da 
fraude da reeleição de 1998, com o estatuto da reeleição durante o mandato de Fernando 
Henrique, através de compra de voto no Congresso. Em 1999, quando chamaram a raposa para 
tomar conta do galinheiro, com Armínio Fraga à frente do Banco Central, o R$ Real foi 
desvalorizado em três pontos perante o dólar, e em 2002 atingiu a relação 4 por 1, a mesma 
que temos agora.

A pregação do austericídio dentro e fora do segundo governo Dilma Rousseff, a fala 
permanente dos coveiros do caos e o ambiente político forçosamente complicado está levando 
ao governo atual a fazer as piores escolhas, todo o tempo. A inflação que tivemos em 2015 
através de preços administrados é algo próximo da traição a confiança do povo, confiança 
esta cada vez menor e seguidamente anunciada como a última bandeira a ser atirada ao piso. 
O caminho da próxima trairagem está na "reforma" da Previdência, a mesma medida parcial 
que Lula tomou em agosto de 2003 e culmina com o racha da então esquerda de seu partido, 
dando a partida definitiva na criação do PSOL.

Estamos diante de um momento crítico, onde as forças populares estão realmente sem uma 
base sólida por onde arrancar e ainda pendentes do canto da sereia do eleitoralismo - por 
dentro e por esquerda do governo -; enquanto o governo Dilma em sua segunda edição é uma 
soma estranha de um grupo de confiança com aspirações próprias dentro do partido - como 
Miguel Rossetto e Jaques Wagner - além de uma subordinação à base oligárquica do governo, 
comandada por Renan Calheiros e Sérgio Cabral Filho, ambos à frente do PMDB que se impõe 
em escala nacional.

Uma possibilidade de reação da base lulista com o próprio à frente é explicitar a punição 
seletiva da Polícia Federal e do Ministério Público, investigando tudo do em torno de Lula 
e Dilma (no meu entender investigações corretas) e nada do em torno de FHC e cia, onde 
abundam evidências e no mínimo situações concretas para notícias-crime. Mesmo apanhando 
todos os dias, o ex-sindicalista que segundo o próprio nunca fora de esquerda, Lula ainda 
é a opção de projeto de poder do partido onde ele é o único ator individual com poder de 
veto e imposição de vontades, ao arrepio da organicidade e à revelia da democracia interna.

Conclusão nada alentadora

Os coveiros estão babando e vendo a possibilidade de atingirem seu alvo estratégico: as 
garantias e direitos coletivos existentes na Constituição de 1988, mas que de fato o 
Estado brasileiro não atende e, no que depender da direita política que não ganhou na 
urna, vai atender cada vez menos. No caso da direita que saiu vitoriosa, é possível que 
Dilma rasgue todo, todo o seu programa e promessas de campanha com o intuito de sobreviver 
politicamente e terminar o mandato.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29148


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