(pt) anarkismo.net: A dualidade do segundo governo Dilma e do partido de governo em 2016 by BrunoL

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Sábado, 5 de Março de 2016 - 14:48:46 CET


O ano de 2016 traz uma marca do segundo governo de Dilma, agora tentando de fato governar. 
Vai transitar pela dualidade. Agradará parcialmente a própria base que salvara nas ruas 
sua pouca legitimidade e, ao mesmo tempo, fará o possível para assegurar a Federação 
Brasileira dos Bancos (Febraban) como a corporação empresarial de sustentação do lulismo 
em fase declinante. Vejamos alguns exemplos. ---- O fato é que o pacto de classes do 
lulismo está se quebrando e temos espaços escancarados à esquerda do PT para, no mínimo, 
aumentar o poder de pressão sobre os ataques constantes contra o direito adquirido pelas 
maiorias. ---- Chigago Boy do Bradesco volta ao ninho da metrópole – é o VIRALATISMO 
MUNDIALIZADO ---- O doutor em economia por Chicago, Joaquim Levy, não cumpriu quarentena 
alguma retornando para a capital do Império. Como foi amplamente difundido, vai assumir o 
cargo de diretor financeiro (CFO) do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID, órgão 
do Banco Mundial), sediado em Washington D.C., capital política dos EUA e por enquanto 
ainda do mundo. Como todos sabem, Levy é o exemplo das portas giratórias, pois já 
trabalhou para o BIRD (Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento, 
entidade financeira do Grupo Banco Mundial) e para o próprio Fundo Monetário Internacional 
(FMI), além de haver exercido cargos de alto escalão em governos nacionais e sub-nacionais 
e ter sido alto executivo dos que mais faturam com o rentismo, a exemplo do próprio Bradesco.

Repito a obviedade. Se isso não é colonialismo interno, é o que? Como também venho 
repetindo, Fernando Henrique Cardoso (FHC), sim, ele mesmo, tinha razão, só que em 1967. 
Quando já era senador da república, ele próprio – Fernando Henrique – materializava o 
exemplo de como a dependência é estrutural e estruturante na deformação das mentalidades e 
na adesão às teses do poder externo. Ouso comparar com uma espécie de Maldição do Malinche 
em escala nacional. O termo mais repetido neste período de “venezuelização” da direita 
política e ideológica brasileira é o Viralatismo. Sim, os tomadores de decisão, altos 
executivos, especialistas consultados pelos grupos de mídia e fonte de consulta para o 
boletim Focus (um quisto do mercado financeiro dentro do aparelho de Estado) atuam como 
auxiliares da colônia, como sendo interventores externos ou assimilados africanos da 
ocupação lusa na África.

Joaquim Levy não foi uma exceção, mas sim a regra segundo os padrões dos dois governos de 
Lula. Luiz Inácio, o ex-sindicalista que segundo o próprio nunca havia sido de esquerda, 
comprometeu a batuta da autoridade monetária nas mãos de Henrique Meirelles. Na virada do 
ano e passando o sufoco do salve-se quem puder do impeachment – ainda não totalmente 
superado – Nelson Barbosa pode ser a tampa da panela de pressão, implantando uma política 
econômica que dê um cale a boca na base do governo e não desagrade estruturalmente os 
tubarões do mercado financeiro.

A relevante luta contra o sistema financeiro, o equívoco da busca por aliança com o agente 
econômico brasileiro e hegemonia grosseira através da mídia

Conter a fúria e a sanha dos bancos é uma das formas contemporâneas de luta de classes. De 
nada adianta aumentar a carga tributária sobre o andar de cima se estes recursos forem 
para a caixa comum para bater meta de superávit. Os três maiores bancos privados atuando 
aqui manipulam abertamente a taxa do dólar, garantem maioria no Copom e determinam a base 
para o maior faturamento bancário do planeta. Insisto, combater os ganhos astronômicos do 
capital financeiro e diminuir o custo da dívida na relação dívida PIB – chegando a 70 por 
cento desde a retomada da alta da Selic em 2013 – é uma forma direta de luta de classes. 
Óbvio que o governismo da ex-esquerda vai tentar inverter isso para um alinhamento com os 
cartéis nacionais e a tucanada vai justificar a entrada de mais capital volátil como 
“solução”. Nenhuma destas “soluções” aponta saída para as maiorias.

Na luta política feita debaixo para cima, aumentar as margens de manobra de um povo forte 
é diminuir os espaços de quase autogoverno do agente econômico que quer os recursos 
coletivos através do Estado para eles e somente para eles. Daí estas propostas assassinas 
de reduções de programas sociais ou a canalhice de afirmar que o salário faz pressão 
inflacionária e onera o rombo do Estado. Como sempre, assim que o salário mínimo passou 
para R$ 880,00, a emissora líder, Rede Globo, através do Jornal Nacional, se superou em 
desinformação estrutural.

Tiveram a capacidade de colocar a fala de um monetarista com diploma de economia, 
atendendo pelo nome de Raul Velloso e este teve a coragem de afirmar que a renegociação da 
dívida dos estados com a União iria aumentar as medidas de austeridade. Isso na mesma 
edição quando houve a cobertura do aumento do salário! Só se esqueceu de dizer, o 
monetarista que é fonte dos mercados financeiros, que o conjunto desta dívida, já paga ao 
menos 26 vezes, incide em cerca de 1,4 por cento do conjunto da dívida da União e disso 
depende os salários e as condições básicas dos serviços públicos estaduais. Assim fica 
fácil construir hegemonia neoclássica na forma de neoliberalismo vulgar. Basta com 
difundir opinião na forma de “notícia” e sem contraditório que os conglomerados midiáticos 
seguem moldando a agenda e consciências manipuláveis tendo por base o senso comum. Os 
tubarões do mercado financeiro, os cartéis nacionais e transnacionais vão sempre contar 
com seus papagaios e os especialistas midiatizados. Seria possível virar este jogo, caso 
houvessem políticas públicas para mídias massivas e sob controle popular. Obviamente que 
nada disso foi feito e o lulismo chafurda brigando contra a mídia incentivadora do golpe 
paraguaio, enquanto o Planalto faz aliança despudorada até com os líderes empresariais do 
neopentecostalismo, a começar pela aliança orgânica com a Igreja Universal e seu controlador!

A profunda dualidade do governo Dilma e o jogo duplo do PT

Mal virou o ano e recomeça a dualidade do governo que está quase se salvando. Dilma vetara 
dentro da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) o reajuste do Bolsa Família de acordo com 
a inflação. Pobreza – Ao mesmo tempo em que a sandice de corte de 30% no programa Bolsa 
Família não é aprovada no Congresso, a peça orçamentária que chega ao Planalto tampouco 
reajusta o ínfimo valor – tão importante para quem está sobre ou abaixo da linha. Com a 
desculpa de combater meta de inflação e bater meta de banqueiro, o Planalto aceita quase 
tudo. Em sendo para garantir ou ampliar a capacidade de compra e mobilização da maioria 
dos brasileiros, a lógica é dar com uma mão e retirar com outra.

Mais ou menos neste mesmo período, o partido de governo propôs, no meio de janeiro, uma 
maior taxação sobre a faixa salarial acima de R$ 40.000,00 e, ao mesmo tempo, se cala 
diante do veto da Presidente para o projeto de auditoria da dívida pública, aprovado no 
Congresso. A taxação das grandes fortunas viria junto da maior tributação sobre a faixa 
salarial de cerca de 5% dos assalariados brasileiros.

Na 5ª dia 14 de janeiro do corrente ano o Diário Oficial publicou o veto da presidente, 
economista e ex-guerrilheira a participação de entidades da sociedade civil, de uma 
suposta – e já não realizável – auditoria da dívida pública dentro do âmbito do Ministério 
da Fazenda, sendo incluída a proposta como emenda no Plano Plurianual (PPA 2016-2019). 
Após passar pelo crivo e funil do Congresso – até para jogar gasolina sobre o Planalto – a 
Presidência simplesmente vetou a medida que poderia servir como a grande mobilização do 
movimento popular por uma causa estratégica e por isso mesmo muito arriscada.

Os compromissos da dívida pública são equivalentes a cerca de 1/6 do Produto Interno Bruto 
(PIB) do país e sua auditagem poderia simplesmente mobilizar a maioria para frear a 
sangria desatada através do espólio do rentismo. Como fora difundido através da internet, 
Dilma pede apoio popular para frear o golpe paraguaio que estava a caminho através de 
conspiração palaciana, e simultaneamente, veta a realização da maior convocatória popular 
para entrar no quisto do sistema financeiro encrustado no aparelho de Estado brasileiro.

Apontando conclusões e o debate devido

Seguindo o princípio do debate não sectário e de forma franca, convido a tod  s para se 
sentirem à vontade para comentar esta proposta, sua viabilidade e as intenções do partido 
de governo diante de seu quarto mandato consecutivo. Particularmente sempre serei 
simpático para a tributação sobre grandes fortunas e altos salários (destes de cargos de 
direção e bonificados) além dos dividendos de acionistas. Mas se a entrada de maior 
receita ficar vinculada aos gastos com o espólio rentista seria uma forma de bater meta de 
superávit, e, ao mesmo tempo, jogar para a torcida. De qualquer maneira, entendo que o 
debate da matriz tributária é urgente e mesmo que sua anunciação por parte do PT pareça 
uma manobra para recuperar a credibilidade junto às bases sociais.

O problema é trocar seis por meia dúzia. O partido de governo se “salva” através de nota 
oficial de Rui Falcão, presidente da legenda de Lula, Delubio, Tarso e José Dirceu, quando 
defende a troca das faixas de tributação. Ao mesmo tempo, se cala e não pune – nunca puniu 
nem Lula ou Dilma – quando tomam uma série de medidas antipopulares. Crise de hegemonia 
por esquerda e reconstrução do tecido social com o imaginário de câmbio e tarefa árdua, 
mas profícua. O fato é que o pacto de classes do lulismo está se quebrando e temos espaços 
escancarados à esquerda do PT (preferencialmente para além da via eleitoral) para, no 
mínimo, aumentar o poder de pressão sobre os ataques constantes contra o direito adquirido 
pelas maiorias. Sem comprometer a luta justa com as impublicáveis negociatas de governo, a 
potência em movimento fica preservada. 2013 e a luta contra o reajuste do transporte que o 
digam.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29127


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