(pt) anarkismo.net: Para refletir: crime histórico e farsa política no México (D.F), parte 1: o apagamento da memória de Ricardo e Enrique Flores Magón, do PLM e do papel estratégico do anarquismo na Revolução Mexicana by BrunoL

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Sexta-Feira, 4 de Março de 2016 - 15:48:23 CET


Introdução: Para refletir. No excelente Museu Nacional de História do México há uma série 
de murais representando a Revolução Mexicana com os sindicatos organizados com bandeiras 
vermelhas e negras além de estandartes do mutualismo. Tem referências soltas a Ricardo 
Flores Magón e seu irmão Enrique, nada de Praxedes Guerrero e em nenhum momento o termo 
anarquista ou anarquismo é citado. Nos murais de Diego Rivera e alguns de seus amigos e 
aliados estalinistas vez por outra incluem uma foice e martelo sendo que o Partido 
Comunista Mexicano (PCM) foi criado após a Revolução. A curadoria do Museu e do INAH – 
Instituto Nacional de Antropologia e História, o órgão gestor – foi cúmplice da mentira da 
historiografia marxista e seus aliados priistas. Nesta curta série de três textos tem para 
todo mundo. Logo, não se empolguem amigos e amigas da 4a Internacional. Na casa museu de 
Trotsky, também sobra inverdade e omissão histórica.
No Museu Nacional de História não havia uma representação ilustrativa dos militantes 
anarquistas citados e tampouco o programa do Partido Liberal Mexicano (PLM).
No Museu Nacional de História não havia uma representação ilustrativa dos militantes 
anarquistas citados e tampouco o programa do Partido Liberal Mexicano (PLM).

Apagando o anarquismo mexicano da memória histórica

Como afirmei no texto anterior, estando no México (apenas no D.F.) sem tarefas políticas 
ou acadêmicas e por um curto espaço de tempo, tive a oportunidade de observar desde um 
ponto de vista distante, o efeito que o crime histórico causa na memória política e, 
somado ao rolo compressor do dia a dia no capitalismo semi-periférico, opera como força 
esmagadora de desmobilização em uma onde os bens simbólicos são tão importantes. Ainda 
quanto a memória e história da política mexicana, o único registro muralista que vi de 
Ricardo e Enrique Flores Magón, e foi justo na estação de metrô que atende pelo nome de 
Revolución Mexicana. Obviamente que a representação não tinha legenda.

No Museu Nacional de História não havia uma representação ilustrativa dos militantes 
anarquistas citados e tampouco o programa do Partido Liberal Mexicano (PLM). Neste 
quesito, há também um proposital desvio de significado. O Partido Liberal Mexicano se 
converte em anarquista já na virada do século XX. Mas ao longo da narrativa histórica do 
museu, que termina com Lázaro Cardenas, há uma confusão entre ideário liberal, ideologia 
da modernização e o tema das terras comunais, cuja preservação e ampliação estavam no 
plano do Exército Libertador do Sul, comandado por Emiliano Zapata.

Também há certa confusão entre o anticlericalismo elogiado pelo mutualismo que dá base 
para as colunas operárias do DF e a representação do cristianismo popular e sincrético das 
guerras camponesas latino-americanas. Quem não tem o mínimo de base histórica não associa 
anarquismo a zapatismo e o papel do PLM e do encontro da Divisão do Norte – comandada por 
Francisco Villa – e o exército do Sul, coordenado por Zapata. Lógico que tampouco não há 
referência quanto à coluna da IWW (Industrial Workers of the World, confederação sindical 
revolucionária de orientação anarquista e baseada nos Estados Unidos) de voluntários 
anarquistas internacionalistas que adentra em Baja California com Joe Hill à frente.

Para completar o crime histórico, a curadoria do Museu, a base historiográfica marxista e 
seus aliados do Partido Revolucionário Institucional (PRI) aceitaram citar que por alguns 
momentos o invasor espanhol e alguns conservadores denominavam as bases das rebeliões 
indígenas na colônia e no século XIX como “comunistas”. A denominação está correta, mas a 
referência nada tem haver com a tradição do comunismo estatista marxista ou comunismo 
libertário como era defendido na Revolução Espanhola. O comunismo que se referem é o mesmo 
dos revolucionários comuneros do Paraguai, organizadores de uma enorme rebelião 
anticolonial no mesmo período missioneiro.

Assim os aliados do priismo trazem um mérito ao reconhecerem a luta indígena e um grande 
estrago e crime histórico ao omitir o anarquismo mexicano e confundir sentidos que levam a 
uma pessoa com menos formação política e base histórica em ver um peso marxista onde o 
mesmo não existe enquanto torna invisível a ideologia de esquerda mais importante na 
primeira revolução social do século XX. A presença do anarquismo foi tamanha que até hoje 
mesmo os sindicatos oficiais do México preservaram as cores vermelho e negra, ainda que 
estes sejam em sua grande maioria parte da máquina de dominação interna.

Isto ocorre em toda a América Latina e não se supera a mentira histórica a não ser 
combatendo-a em todos os níveis.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29131


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