(pt) anarkismo.net: O atentado de Orlando e as opções presidenciais dos EUA by BrunoL

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Domingo, 26 de Junho de 2016 - 16:47:44 CEST


O atentado de Orlando, Florida, realizado na madrugada de domingo, 12 de junho, congrega o 
que de pior temos hoje em termos de ameaça visível para a ideia de democracia de massas. A 
ação terrorista e de crime de ódio aproxima extremos sectários, atiçando tanto uma onda de 
islamofobia assim como visibilidade da homofobia em escala de pavor societário. Também 
caracteriza um momento onde a política interna dos Estados Unidos consegue se mundializar, 
através de redes cibernéticas, efeitos virais e de lealdades ideológicas onde a América 
Latina reproduz, pela via de elites econômicas e midiáticas pautadas pelo viralatismo, as 
piores clivagens da direita republicana, dos ultra liberais e neoconservadores orientados 
pelo crivo religioso.

Embora ataques com armas automáticas sejam um fenômeno regular nos EUA, o atentado contra 
a Pulse, atingindo majoritariamente latino-americanos e descendentes vivendo em Orlando e 
região, foi o pior massacre doméstico desde o 11 de setembro de 2001.

Voltando ao ataque homofóbico e de intenção totalitária, vamos ao relato. Um jovem 
estadunidense de origem afegã, Omar Mir Sediq Matteen, 29 anos, nascido em Nova York 
(NYC), filho de refugiados do território invadido pelos EUA em 2001 e antes ocupado pela 
extinta União Soviética em 1979, ataca uma casa noturna LGBT. O resultado foram 49 mortos 
e 53 feridos; o cidadão que cometeu o ato terrorista, também terminou morto, resultando no 
quinquagésimo óbito na fatídica madrugada. Matteen agiu alegando estar inspirado no Estado 
Islâmico (ISIS) e, obviamente, também simpático a causas conservadoras e abusando do 
direito ao uso de armas pessoais. No meio do tiroteio, o cidadão estadunidense que 
trabalhava como segurança privado, realizou algumas ligações para a polícia, dando ênfase 
maior ao ato, e, simultaneamente, caindo em seguidas contradições. De forma oportunista, 
na manhã seguinte, o ISIS reivindica a ação de tipo lobo solitário, embora o discurso do 
autor do ataque fosse muito, muito contraditório.

O oportunismo de Trump e o jogo de duas caras de Hillary Clinton

O massacre de Orlando polariza ainda mais as eleições presidenciais dos EUA, a serem 
realizadas no mês de novembro, com dois candidatos portando discursos opostos. Hillary 
Clinton, 68 anos, candidata pelo Partido Democrata e contando com o apoio do atual 
presidente Barack Hussein Obama, vai reforçar o debate pela restrição ao porte e compra de 
armas no país. Já Donald Trump, 69 anos, candidato pelo Partido Republicano, vai ter a 
chance de aumentar a marca sectária de sua campanha, apostando na islamofobia e uma 
postura ofensiva contra as ameaças de terrorismo, em especial no nível doméstico.

Vale destacar que Omar Matteen trabalhava como segurança particular, guarda de valores, 
empregado na empresa G4S e com posto fixo. As armas utilizadas no ataque, duas, foram 
compradas legalmente pelo cidadão estadunidense. Menos de 24 horas após o massacre, temos 
um choque de interpretações entre as duas candidaturas. Hillary Clinton alega que o 
bloqueio republicano para a mudança no estatuto legal da compra de armas de uso pessoal 
impede a segurança no território dos EUA, expostos a tiroteios e crimes de ódio e 
intolerância regularmente. Já Donald Trump alega que a administração Obama tem a “mão 
leve” e se nega a endurecer contra o “islã radical”. O ataque na Pulse Nightclub pode 
inclusive, voltar a unificar o discurso do Partido Republicano, que até sexta passada, 
preparava um desembarque massivo da campanha de Trump, liberando suas bases para não 
aderir ou mesmo recomendar o apoio a Hillary.

Embora ataques com armas automáticas sejam um fenômeno regular nos EUA, o atentado contra 
a Pulse, atingindo majoritariamente latino-americanos e descendentes vivendo em Orlando e 
região, foi o pior massacre doméstico desde o 11 de setembro de 2001. Ocorrendo em junho, 
faltando pouco mais de um mês para as convenções nacionais dos dois partidos majoritários 
dos EUA, sem dúvida o ato de terror individual – tipo lobo solitário – radicaliza 
posições, acirra preconceitos e dá fôlego para a insana campanha de Trump. O milionário, 
apresentador e com veia de comediante entra como franco atirador na corrida presidencial e 
caso consiga retirar o elemento de racionalidade dos debates, pode incomodar bastante em 
uma disputa que, hipoteticamente, segundo a maior parte das análises prévias, já estaria 
resolvida em prol de Hillary Clinton mesmo antes do início da campanha majoritária.

A dimensão doméstica das eleições estadunidenses não condiciona o acionar internacional

O jogo de duas caras da ex-secretária de Estado ultrapassa também o senso do ridículo em 
escala internacional. O governo do Democrata Barack Hussein Obama tem duas patas no 
Oriente Médio com vínculos diretos para com o jihadismo sunita. Primeiro, por jamais 
ameaçar sequer punir as monarquias árabes conservadoras, lideradas pela Arábia Saudita, e 
seguidas por Omã, Bahrein, Kuwait, Qatar e EAU. São os emires do petróleo os ordenadores 
de despesa e controladores das redes de inteligência a abastecer os “rebeldes” sunitas na 
Guerra da Síria. Em outras palavras, os EUA e sua vasta rede de espionagem e controle, 
nada fazem para frear a ação da Frente Al Nusra, alimentadas e financiadas por sauditas e 
aliados, não por acaso, também aliados dos EUA no Grande Oriente Médio e Mundo Árabe. Já o 
único país membro da OTAN e de maioria islâmica, a Turquia, corresponde ao segundo maior 
contingente da Aliança e é quem abastece toda a logística do ISIS!

Trata-se de uma farsa absurda associar a candidatura de Hillary Clinton a uma postura 
“humanista e tolerante” no âmbito internacional. Afirmo que não há diferença qualitativa 
entre a gestão da candidata Democrata e a de seu sucerro John Kerry à frente do 
Departamento de Estado no que diz respeito ao padrão de alianças entre a superpotência e 
seus aliados regionais no Oriente Médio e, por consequência, as linhas logísticas do 
jihadismo sunita, tanto da Al Qaeda como de seu concorrente, o ISIS. Logo, a islamofobia 
profanada por Donald Trump, embora ofensiva, não altera a correlação de forças no cenário 
conflagrado, onde quem realmente combate o jihadismo sunita, o PKK e seu guarda-chuva de 
organizações sociais, ainda está sob a rubrica de “terrorista” pelo Departamento de Defesa 
dos Estados Unidos. Se em escala mundial não compreendermos esta hipocrisia estrutu
http://www.anarkismo.net/article/29372


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