(pt) Negros, Selvagens e Anarquistas (ca)

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Domingo, 19 de Junho de 2016 - 10:41:27 CEST


Anarquista Rádio de Berlim apresenta o projeto "Sem Fronteiras" de vídeo coletivo "South 
Black" ---- 'Sem Fronteiras, luta social em todo o mundo "(Sem Fronteiras, as lutas 
sociais em todo o mundo) é o nome de uma série web que revela as experiências de 
organização social e de resistência anti-capitalista, com um foco especial sobre as 
práticas anti-autoritários dentro dos movimentos sociais em territórios diferentes ao 
redor do mundo. A primeira temporada da série teve a colaboração do anarquista Rádio de 
Berlim, os grupos locais da Federação Anarquista Rosa Negra (EUA) e o centro social 
anarquista Casa Volnitza (Santiago de Chile). ---- 1. Negro e Anarquista ---- Negro, 
anarquista, anarquista e negro. São sinônimos alternados, sinônimos do terrível. Durante 
séculos, ambos os substantivos têm recolhido todos os atributos do negativo, do demoníaco, 
do perverso, da maldade.

Poderosos, políticos, proprietários, sacerdotes, proprietários de terras, intelectuais, 
filósofos, ricos. Todos têm utilizado um ou outro termo para designar os perigos da 
ausência de ordem. De que ordem? Da sua, por suposto. A pessoa negra e a anarquista, 
especialmente em toda a extensão americana, têm crescido como sujeitos de alteridade, o 
perigo a vigiar.

Do Alasca à Terra do Fogo, negros e anarquistas têm sido vilipendiados, marcados, 
linchados, julgados pelo estado, fuzilados pelos exércitos de todas as matizes políticas. 
Marcados com o estigma do negativo.

Mas talvez se devesse perguntar primeiro ante a estes substantivos: O que é negro? O que é 
anarquista? Estas perguntas aparentemente claras hoje em dia, científicas, estudadas, não 
o eram há apenas algumas dezenas de anos. Sob nossa concepção de políticas identitárias, 
de auto-atribuição, diríamos que negro ou anarquista são aquelas pessoas que se consideram 
como tais. Mas e ontem? Coloquemos um exemplo: Eu, cujos antecedentes familiares vem 
diretamente do Brasil, com uma avó descendente de brancos e negros, seria, sob a 
legislação de Louisiana, negro e por isso submetido a mais brutal segregação e menosprezo. 
Durante toda a minha vida teria sido considerado cidadão de segunda categoria. Não olhem 
minha cor de pele, nem minha fortuna ou cultura. Sob este regime democrático teria sido 
segregado, condenado a viver em bairros inferiores, sem direito a entrar em boas 
universidades, sem acesso possível aos melhores trabalhos. De fato qualquer negro 
estadunidense carecia até meados do século XX dos mais elementares direitos. Aqueles que 
exultantes proclamavam a república das liberdades estadunidenses para meio mundo, incluso 
Porto Rico e Cuba, tinham sua população submetida.

Quem é negro? Negro é quem o estado diz que é negro.

Ao ler o dicionário, o que é negro?:

“Enegrecido, inclinado para o preto. • Niger, gra, grum. Cic. Negro , de cor negra , 
obscuro. E Hor. Sombrio, opaco, escuro. || Juv. Mau, danoso, prejudicial. || Tib. Azarado, 
de mal agouro, infeliz. || Es- tac. Triste /lamentável. Niger est. Cic. É um mal.”

“Noi, s.m Negro; a cor negra. Negro: se diz do escravo negro nos trabalhos das colônias, 
com relação ao trabalhador branco, e livre; mas tomado absolutamente como negro africano, 
se diz negre. Não conhecer as letras, não saber ler Vender du noir: vender fumo.”

Negro é a força de trabalho submissa, regulada. Negro é a substância da biopolítica. Negro 
é quem o estado diz que é negro. Leiam a Racial Integrity Act, ativa no século XX – não é 
uma legislação nazista, é estadunidense – ou o artigo primeiro do capítulo terceiro do 
Código de legislação para o governo moral, político e econômico dos negros da ilha espanhola.

“E sendo necessário para este efeito fazer antes de todas as coisas uma divisão oportuna 
de suas raças ou gerações para as classes e censos em que devam se distribuir, e para a 
justa regulação dos direitos civis, conceito e graduação que devem ter na ordem pública e 
nos ministérios e ofícios a que segundo suas diversas classes devam se destinar, 
dividiremos sua população. Primeiramente em negros escravos e livres, e estes em negros, e 
mulatos ou pardos. A saber, filhos de branco e negro legitimamente casados, que será a 
primeira geração, e segundo grau com respeito a pardo, de cujo matrimônio com pessoa 
branca resultará no terceiro grau, chamando-se os filhos terciários: quartenários os 
destes com uma pessoa branca; mestiços os netos de pessoa também branca, e filhos de 
mestiços os bisnetos que estão no sexto grau de geração legítima, e deverão ser vistos por 
brancos, se em nenhuma delas houver sido interrompida a ordem predefinida (em cujo caso, 
retrocederá a geração, segundo a qualidade da pessoa que a inverter), sendo justo que a 
sociedade cuja população e benefício contribuíram com seus serviços os recompense e 
premie, elevando-os alguma vez à hierarquia de sua principal esfera; na qual terá ainda o 
maior interesse sendo apreciável por tão recomendável estímulo a miserável condição dos 
escravos”.

Negro é o incivilizado, é o sujeito a catequizar. Imbecil que há que se educar. A criança 
boba a ensinar. Negro é uma raça subalterna. Um povo idiota e atrasado. Negro é como dizem 
Tocqueville ou o ex-presidente brasileiro Manuel Deodoro Fonseca, um povo que se 
extinguirá na América pelo mero atuar do progresso.

E o anarquista? Leiam os escritos dos padres fundadores de todas as nações americanas. 
Releiam Bolívar, Santander. Todos eles conjuram a anarquia como o pior dos demônios. 
Anarquista é o inimigo da liberdade, por que esta é a ordem, a ordem de privilégio dos 
dominadores, entendemos:

“Considere-se, legisladores, que a energia na força pública é a salvaguarda da fraqueza 
individual, a ameaça que aterra o injusto, e a esperança da sociedade. Considere-se, que a 
corrupção dos povos nasce da indulgência dos tribunais e da impunidade dos delitos. Veja, 
que sem força não há virtude; e sem virtude perece a República. Veja, enfim, que a 
anarquia destrói a liberdade, e que a unidade conserva a ordem. Legisladores! Em nome da 
Colômbia os rogo com orações infinitas, que nos dê, à imagem da Providência que 
representam, como árbitros de nossos destinos, para o povo, para o Exército, para o juiz, 
e para o magistrado: Leis inexoráveis!!! ”Veja que sem força não há virtude; e sem virtude 
perece a República. Veja, enfim, que a anarquia destrói a liberdade e que a unidade 
conserva a ordem”. Simón Bolivar

Voltemos ao dicionário:

Anarquista, m: Partidário da anarquia, instigador de distúrbios e tumultos. Anarquia, 
Estado sem chefe, sem cabeça, sem governo. Grande desordem, confusão de poderes.

Ou no dicionário de simbolismos:

“Anarquia Pode ser representada sob a figura de uma mulher cuja atitude manifeste o furor, 
com os olhos tapados com uma venda, os cabelos e vestidos desordenados, e pisando com os 
pés no livro da lei, colocado sobre um feixe de varas símbolo da união. Com uma mão a 
Anarquia deve empunhar um punhal, e com a outra uma tocha acesa, aludindo aos temores que 
ela causa. Um centro destroçado e um jugo quebrado acabam de caracterizá-la. No fundo do 
quadro pode ser representado um combate entre cidadãos, cujas lanças e armas extravagantes 
indiquem as insurreições populares; vendo-se ao fundo uma cidade incendiada”.

Negra e Anarquista, substância de maldade, de desordem. Substância dócil, redutível. 
Negros e anarquistas se encontram sob o regime terrível do colonialismo junto a índios 
irredutíveis, selvagens.

“Não tardaram os selvagens que haviam permanecido na promiscuidade de bens e de mulheres, 
e na anarquia que era sua consequência, em refugiar-se em aliados dos fortes, nas alturas 
em que as primeiras famílias haviam se reunido sob o governo dos pais de família”

Povos selvagens são aqueles que rechaçam a propriedade, aqueles que rechaçam a delimitação 
da terra, dividir e submeter ao critério produtivo e racional dos colonos. Recordemos a 
sentença do juiz Marshall, nos Estados Unidos. Nela fica claro que os povos selvagens, os 
povos que não se apropriam da terra, os povos nômades que vagam pelo mundo, não tem mais 
direito sobre a terra que pisam, embora tenham estado por gerações, e o colono 
recém-chegado os expulsa dela. Recordemos de Sarmiento, recordemos toda a campanha do 
Deserto, seu discurso genocida: Ali não há ninguém, embora houvesse, por que já havia 
planejado de antemão seu extermínio:

“…o deserto a rodeia por todas as partes, e se insinua nas entranhas; a solidão, o 
despovoado, sem uma habitação humana, são, pelo geral, os limites inquestionáveis entre 
umas e outras províncias”.

Na literatura da época, republicana, formal, racional e científica fica clara a mensagem; 
É preferível o despotismo assassino e a liberdade dos selvagens:

“Sabemos que muitos imperadores romanos tenham sido os mais horrorosos tiranos, e que 
compadeciam em derramar o sangue de seus vassalos, pois bem mais vítimas caem em um ano na 
Nova Zelândia e em outros países selvagens pela anarquia em que vivem, que caíram 
proporcionalmente em dez anos em todo aquele dilatado império”.

Como não iriam nossos pais fundadores condenar a anarquia e a ausência de propriedade dos 
selvagens, sendo os crioulos como eram uma quadrilha de escravistas criminosos organizados 
para acumular capital? Como não iam temer toda essa investida da “pardocracia”, que assim 
a chamou Bolívar em sua carta a Santander, quando eles mesmos eram da classe que gozava do 
privilégio racial, do privilégio de classe? Recordamos das palavras de Miranda, ante ao 
temor de um novo Haiti de dimensões continentais:

“Não queira deus que estes bonitos países tenham a sorte de Santo Domingo, teatro de 
sangue e crimes sobre o pretexto de estabelecer a liberdade; antes valeria que ficassem um 
século mais abaixo da opressão bárbara e imbecil da Espanha”.

Porém seria injusto dizer que nossos pais eram racistas. Certamente o eram, porém com 
limites. Os de seu próprio benefício. Aos selvagens, negros e anarquistas, havia que 
matá-los… Porém só um pouco, o suficiente para tê-los situados fora da linha do ser, fora 
da linha de privilégio. A estratégia de poder foi bem clara, construir categorizações, 
construir identidades subalternáveis, subjetiveis, úteis à hierarquização do modelo 
colonial capitalista. Aos que entravam dentro dessa linha de subjetividade que estão fora 
de serem expulsos do privilégio, não se os condenava por toda a eternidade não. A 
civilização branca, ilustrada, racional, patriarcal, a civilização escravista das luzes, 
lhes propunha a salvação, a redenção racial, ideológica e cultural. E o fez por meio dos 
cárceres, fábricas, plantações e reformatórios. O fez por meio de guetos, espaços para 
negros, reduções de índios, como em campos de concentrações.

Esses eram os lugares para civilizar esses insolentes vagabundos. Tanto faz se fosse 
abaixo de um contrato de escravidão, do patronato, ou nos modernos cárceres 
norte-americanos. O negro, o selvagem, o anarquista, deverá trabalhar sob à ameaça 
coerciva do estado dos brancos, do estado de privilégio. Essa é a única razão de sua 
existência: estar submetidos.

Os negros podem melhorar, sempre que estejam sob a tutela dos brancos, dos ricos:

“A força só ordena e civiliza os povos selvagens, e a força só ordena e organiza os povos 
de uma cultura adiantada, desquiciados pela anarquia e as más paixões”.

“Creio que os negros são suscetíveis de todas as melhoras morais e intelectuais; porém 
também é evidente que em um estado de servidão se vejam na condição das tribos selvagens, 
tanto em seus hábitos como em seu caráter”.

E se não leem os títulos dos jornais, leiam o que se passa com os negros quando não se 
deixam governar pelos brancos:

A TERRA CASTIGA O HAITI – Violência e anarquia no Haiti.

Centenas de lojas, escritórios e residências foram saqueadas em Porto Príncipe diante da 
impotência policial. Ao menos dois homens foram abatidos a tiros quando foram 
surpreendidos roubando, e outro foi executado por haitianos na rua.

2. História Irredenta

Mas de onde sai essa concepção de que a anarquia, de que o negro, de que o selvagem é a 
realização do mal? Para responder, temos que olhar para trás, não para as concepções e 
propostas científicas do século XIX com sua moral burguesa, mas sim para as experiências 
de vida e de resistência dos povos contrários ao colonialismo.

Sejamos justos, sejamos sinceros. As primeiras independências modernas da América foram 
realizadas por bandidos, por desertores, por piratas, por ladrões, por inimigos da 
propriedade. Não olhem para o Haiti nem para os Estados Unidos. Olhem para o Quilombo de 
Palmares no Brasil, olhem para a Ilha Tortuga. Essas ilhas, geográficas ou metafóricas, 
repletas de bucaneiros, traidores, miseráveis, escravos, párias. Essas ilhas de 
deserdados. Essas ilhas de negros e anarquistas, de inimigos of all mankind. De sujeitos 
culturalizáveis, de povos contra os quais se pode declarar guerra justa.

As leis de fraternidade dos irmãos da costa, da Ilha Tortuga, questionaram a propriedade 
privada e aboliram os privilégios de raça, religião ou classe. Não estavam a sós desde o 
começo. Petern Linenbaught e Markus Rediker traçaram uma brilhante contra-história do 
Atlântico. Uma história narrada das experiências libertárias coletivas das massas anônimas 
resistentes ao colonialismo. Um arquipélago de palenques, comunidades, quilombos. Refúgios 
de negros, de selvagens, de anarquistas.

Um mundo de solidariedades entrelaçadas sob a mesma experiência à submissão, e que só 
puderam ser interrompidas diante da criação artificial de figuras raciais privilegiadas. O 
negro como figura jurídica subalterna foi inexistente no mundo colonial inglês até que as 
crescentes revoltas executadas por escravos negros e servos contratados irlandeses o 
fizeram temer a destruição das colônias. As autoridades coloniais, conscientes da potência 
da aliança comum dos subalternos, foram concedendo determinados privilégios aos “brancos” 
para romper com a solidariedade dos submissos.

Enquanto o Brasil burguês e independente seguia traficando escravos, os cangaceiros, 
comunidades auto-organizadas de bandidos, sem preconceito algum de raça, classe ou 
religião, atacavam os interesses do estado, roubavam os ricos.

O estado da anarquia, esta temível situação, não era nada além do momento rebelde no qual 
os despossuídos se lançavam e cortavam o pescoço de seus dominadores. A anarquia se 
converteu em desqualificador na boca dos “libertadores” como Bolívar. Anarquistas, diziam 
os parlamentares conservadores àqueles que defendiam uma abolição imediata e sem 
concessões. “Anarquia é o que pretendem libertando aos escravos”, diziam os delegados dos 
proprietários de Saint Domingue na Assembleia Nacional Francesa. Anarquista passou a 
definir todo o inimigo do Estado Colonial Escravista.

Negros, selvagens e anarquistas conspiraram juntos, respiraram o mesmo ar de liberdade 
nesse espaço que mediava entre Madrid, Havana e Manila. Libertário foi Fernando Ortiz, 
independentista filipino. Conspirador na “Villa y Corte”. Rebelde em Havana.

Anarquistas eram os espanhóis confederados contrários ao regime colonial de Cuba e seu 
negócio escravista criminoso. A burguesia catalã, rica, empreendedora, dona dos interesses 
dos mercados de carne, era até então pouco partidária da independência da Espanha. Esta 
burguesia, como a criolla, defendia o regime de tirania sobre Havana e Porto Rico. Diante 
da burguesia, uma cada vez mais extensa rede de conspiradores, de solidariedades que 
atravessavam fronteiras, a questionava. Já então se falava do perigo latino, da Itália até 
Nova Iorque, de Buenos Aires ao México, os burgueses apontavam a esses demônios:

“Muitos outros crimes, menores, mas não menos atrozes, foram cometidos por anarquistas 
latinos, em todos os… hoje em dia, não obstante a perfeição da sua organização policial, 
tremem de terror diante destes mesmos anarquistas selvagens.”

Anarquistas, negros e selvagens eram os inimigos do poder colonial.

3. O século XX

O século XX traz consigo a fratura da solidariedade e da diversidade. O governo do 
privilégio racial foi a norma em toda a América. Desde a Argentina até o Canadá, as 
classes operárias “brancas” foram privilegiadas. O discurso biologicista pegou fundo e a 
hierarquização racial, inclusive em realidades “mestiças” como a mexicana, foi uma norma. 
Norma até mesmo escrita como nos Estados Unidos, onde a segregação racial chegou a seus 
extremos no primeiro quarto de século.

Boa parte do anarquismo doutrinal operário caiu também presa pelos ditames ocidentalistas, 
presa pela enunciação científica e doutrinária relacionada ao desenvolvimentismo. Como 
ideologia estabelecida, chegou a converter-se em mais um elemento do privilégio branco, 
que era o de poder conceder-se o luxo de rechaçar a tudo. Um anarquismo sem força, sem 
potência, um anarquismo moralista e civilizador, que questionava também todo feminismo que 
não fosse o seu, branco ocidental. Anarquismo que criticava toda dimensão espiritual que 
não fosse ateia. Um anarquismo colonial.

Mas por trás do discurso geral, por trás do discurso de estado, por trás do discurso das 
democracias raciais seguiam pulsando os espíritos libertários irredentos a toda 
hierarquização que fosse racial, que fosse de classe, que fosse de cultura ou de gênero.

Esse discurso de aliança libertária se fez presente em muitos marxismos não ortodoxos dos 
anos 60. Pensemos na frutífera aliança que vinculou diferentes movimentos brancos dos 
Estados Unidos junto com os Black Panthers. A luta operária transversal no Brasil. As 
alianças de grupos anticolonialistas franceses com seus irmãos argelinos. A Facção do 
Exército vermelho e sua relação com a luta palestina. E já longe de toda essa cena que 
conhecemos, as lutas de bairros marginais. Os “Up Against the Wall Motherfuckers” de Nova 
York, os motoristas negros de Oakland; os legendários Dragões da Baía leste. No Brasil, em 
torno da arte, mas ultrapassando-a, surgia o Teatro Experimental Negro. Um grupo que 
reivindicou a afrodescendência e a projetou politicamente por meio de publicações como 
Quilombo. O negro era belo, o negro era rebelde.

Por sua vez, o anarquismo sofreu uma profunda revisão quanto teve seu amoroso encontro com 
o indigenismo. Já havia tido algumas experiências anteriores com Magón, e intelectualmente 
com Artaud. Juntos se engajaram numa viagem ecologista, questionadora do antropocentrismo 
e que, do mesmo modo, recuperava tradições.

Algumas destas tendências anarquistas-indigenistas acabaram sob a forma new wave, um 
hippismo redutível pelo capital. Mas a grande maioria vinha crescendo intelectualmente, 
alimentando uma visão crítica do papel do anarquismo, do papel das massas nos processos de 
emancipação e nas lutas coloniais. O encontro entre o anarquismo e as lutas de povos 
originários levou a discussão confrontadora do privilégio racial a um novo plano, onde nem 
tudo se reduz à luta pelos direitos civis, mas vai mais além. O encontro de toda uma 
constelação de cosmovisões indígenas com as tradições libertárias de matriz europeia levou 
finalmente ao início de um necessário processo de descolonização destas. O comum se 
afastava da produção. A organização política se afastava da fábrica para encontrar-se com 
a vida. O materialismo ensinou ao anarquismo que a dominação não só acompanha o Estado, 
como também o seu espírito colonial.

O anarquismo descolonizado pelos movimentos indígenas pretende não somente a igualdade ou 
equidade, mas sim o desmantelamento dos estados coloniais, dos aparatos extrativistas. As 
lutas vivas que sacodem o Canadá, Alasca, que são vividas na Califórnia, em Sonora. Lutas 
que tem ecos e reverberações zapatistas demandam não somente o fim do privilégio racial, 
como também uma nova forma de compreender a sociedade muito além dos Estados, das nações, 
e indubitavelmente do capital.

4. Hoje em dia

Hoje em dia, vivemos uma situação crítica. O aparato colonial capitalista dominador 
patriarcal se rebuliça mais do que nunca em sua violência. As ruas do Brasil pobre foram 
militarizadas, são campos de guerra, territórios de exceção onde os jovens negros são 
massacrados sem discussão. O sistema carcerário estadunidense vigia os jovens negros que 
preda. Angela Davis apontou a clara continuidade do modelo escravista nas prisões onde 
milhões de seres, a maioria gente de cor, são submetidos ao domínio por toda a vida. 
Estigmatizados, os negros, os migrantes e os pobres morrem nas mãos da polícia nas cidades 
do norte global: Oakland, Ferguson. As Banlieues de Paris, Barcelona. Em todos estes 
lugares voltou a surgir a velha história: a que sinaliza o perigo dos negros e dos 
anarquistas.

Mas hoje em dia a semente está plantada. Em Oakland, a cidade negra berço dos Black 
Panthers, surgiram numerosos grupos anarquistas descoloniais, compostos de negros, árabes 
e brancos. Não se nutrem dos clássicos do anarquismo operário ocidental, suas referências 
são os cangaceiros, os palenques. Não é por acaso que muitos se encontram em um centro 
social denominado o “Quilombo”.

Porém as referências utópico-libertárias seguem lá. Em 2011, em um contexto de protestos 
generalizados, surgiu a Oakland Commune. As solidariedades tecidas nas lutas 
antirrepressivas, em protesto contra os assassinatos de jovens negros por policiais, se 
aglutinaram em firmes movimentos multirraciais, assemblearios e populares. A comuna de 
Oakland morreu, mas hoje em dia uma infinidade de grupos combate a gentrificação da área 
da Baía (de São Francisco). Estas mesmas solidariedades foram vistas nos protestos contra 
o mundial do Rio de Janeiro. Vimos o Brasil irredento, que não acredita na versão oficial 
da democracia racial, que questiona a aceitação sem limites aos governos chamados 
progressistas. Vemos isto no sindicato de manteros, vendedores ambulantes de Barcelona em 
sua maioria africanos que resistem a serem submissos, a serem vítimas.

Negros, selvagens e anarquistas, seguem sendo denominadores utilizados pelos meios de 
comunicação de massa para deslegitimar aqueles que questionam a hierarquização racial, o 
extrativismo e a dominação sem limite de nosso modelo global. Longe de lutar contra a 
marca, contra o estigma, é o momento de assumir essa tatuagem biopolítica que nos impõem e 
fazê-la bandeira contra suas proclamações.

Negros, selvagens e anarquistas, são os denominadores com os quais se qualifica o medo 
ocidental de perder o controle, de perder o domínio. Façamos de sua retorcida metáfora, de 
seus medos, de seus pesadelos uma realidade. Hoje mais do que nunca recordemos a 
“anarquia” de Dessalines, ainda que não o tenha sido, assim como a negritude de Durruti. 
Sejamos selvagens como as massas anônimas que sabotam as obras extrativistas do Canadá, as 
vias de trem de alta velocidade na Europa.

Juntas, Negras, selvagens e anarquistas, por toda a vida, contra o estado racista colonial 
patriarcal capitalista classista.

Juntas contra o privilégio racial, de classe, de gênero.

Fonte: 
https://www.diagonalperiodico.net/blogs/aitor-jimenez-y-pedro-jose-mariblanca/negro-salvaje-y-anarquista.html

Tradução > Anarcopunk.org, Renato Brando, PF


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