(pt) CAB, PUBLICAÇÕES - [ORL] TODA MULHER NEGRA É UM QUILOMBO!

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Quarta-Feira, 27 de Julho de 2016 - 12:24:23 CEST


Retirado de: http://resistencialibertaria.org/2016/07/25/toda-mulher-negra-e-um-quilombo/ 
TODA MULHER NEGRA É UM QUILOMBO ---- ---- A voz de minha mãe ---- ecoou baixinho revolta 
---- no fundo das cozinhas alheias ---- debaixo das trouxas ---- roupagens sujas dos 
brancos ---- pelo caminho empoeirado rumo à favela. ---- ---- A minha voz ainda ---- ecoa 
versos perplexos ---- com rimas de sangue e fome. ---- ---- A voz de minha filha ---- 
recolhe todas as nossas vozes ---- recolhe em si ---- as vozes mudas caladas ---- 
engasgadas nas gargantas. ---- ---- Conceição Evaristo ---- Em julho de 1992, durante o I 
Encontro de Mulheres Latino-americanas e afro-caribenhas, instituiu-se o 25 de julho como 
o Dia da Mulher Negra da América Latina e do Caribe, em homenagem a Tereza de Benguela – 
uma mulher negra guerreira, líder do quilombo de Quariterê, em Mato Grosso. Enxergamos 
neste dia mais uma oportunidade de luta que se justifica pela realidade das mulheres 
negras na América Latina e no Caribe. Realidade expressa em indicadores socioeconômicos 
reveladores de desigualdade e decorrente de um longo período de subjugação, humilhação, 
extermínio, escravização do povo negro pela supremacia branca e patriarcal.

Violências de gênero, classe e raça.

O racismo brasileiro encontra na misoginia um mecanismo eficiente de opressão. A história 
do Brasil se construiu sobre alicerces de racismo e machismo, desde o estupro colonial – 
estupro de negras e indígenas escravizadas.

O racismo institucional nos atinge – mulheres negras – assustadoramente, tendo em vista 
que nós somos as mais afetadas pelas desigualdades socioeconômicas de um país ainda 
escravocrata. Nós, mulheres negras, somos as que menos terminam o Ensino Fundamental e 
Médio, tampouco o Ensino Superior.Somos as que mais trabalhamos, porém com rendimento 
mínimo e em condições de subemprego. Somos as que menos recebem assistência do SUS (como 
menor tempo de atendimento, maior mortalidade infantil e por doença falciforme etc.), em 
nossas comunidades não existe saneamento básico, fazendo com que sejamos as mais atingidas 
por doenças. E somos nós as que mais precisam abdicar de algum aspecto de nossas vidas 
para dar conta de todas as barreiras colocadas pela supremacia branca e patriarcal – seja 
o trabalho que se quer, o lazer que se gosta, a família unida, dentre tantos outros.

Nos centros penitenciários femininos, segundo o Levantamento Nacional de Informações 
Penitenciárias (Infopen) de 2014, duas a cada três detidas eram negras (68%). Das detidas, 
57% eram solteiras, 50% tinham o Ensino Fundamental Incompleto e 50% tinham entre 18 e 29 
anos.O Brasil é o 5º maior com população carcerária feminina. Esse é só um retrato do 
extermínio e da criminalização da população pobre, negra e periférica que tem suas vidas 
ceifadas através do braço armado do Estado – policia.Ainda de acordo com o Infopen, o 
tráfico de drogas é o crime que mais prende mulheres no Brasil.Esse número chega a 68%, 
seguido por roubo (10%) e furto (9%).

A guerra às drogas justifica a morte do povo negro nas favelas. E são as mulheres negras 
que mais sofrem com o extermínio de seus filhos/as, tendo em vista que os pais abandonam 
as crianças mesmo até antes de nascer.

A mídia contribui para a sensualização do corpo da mulher negra, o que é determinante para 
os casos de estupros. Como exemplo típico, é a mulher negra e jovem (e por que não dizer, 
nordestina no caso do Brasil?)que é a mais objetificada no Carnaval. Sem falar nas 
propagandas de cerveja, carro e outras mercadorias que, para serem vendidas, têm seu valor 
adjetivado pelo corpo feminino, na maioria, corpo de mulheres negras.

A existência da exploração sexual de crianças e adolescentes e prostituição (nesta última, 
o exercício é realizado, em grande maioria, por mulheres negras) também reforça e 
naturaliza a concepção de que “a carne mais barata do mercado é a negra” e serve para 
apreciação e uso pelo homem – embora não critiquemos as profissionais do sexo que recorrem 
a essa atividade como fonte de renda.

As mulheres negras também sofrem quando não podem proferir sua espiritualidade, cultura e 
religiosidade. São inúmeras as violências contra a umbanda e o candomblé –religiões de 
matriz africanas- além da criminalização. Em 2015, casos como o da menina Kaylane Campos, 
atingida com uma pedrada na cabeça, aos 11 anos, no bairro da Penha, na Zona Norte do Rio, 
quando voltava para casa de um culto e trajava vestimentas religiosas candomblecistas, e 
de um terreiro de candomblé que foi incendiado em Brasília nos mostra o quanto a 
intolerância aliada à supremacia branca e cristã produz racismo e violência, disseminando 
o ódio.

Resistências Pretas

Cada mulher negra que se mantém caminhando e enfrenta o racismo e o machismo em sua rotina 
diária é um ícone de força e celebração da negritude.

Desde o início da escravização no Brasil, nós – mulheres negras – permanecemos firmes em 
resistências. Quer por meio de ação direta, como faziam as nossas velhas nas cozinhas dos 
brancos, quer por meio da resistência organizada nos quilombos.

Atualmente, a organização em movimentos sociais mistos, auto-organizados por identidade de 
gênero ou racial, são nossas ferramentas de luta. Só a organização e a autodefesa das 
mulheres negras contra o machismo, a supremacia branca, o capitalismo e o Estado podem nos 
libertar. Temos ciência que a luta parlamentar não nos trará frutos de resistência, pelo 
contrário, fortalecerão as novas correntes de escravidão.

O silenciamento de Tereza de Benguela – mais uma mulher negra negligenciada pela história 
brasileira – representa uma forma de fazer história para a qual não podemos nos curvar. 
Uma história branca, machista e eurocêntrica, que entoa muitos feminismos, mas que não 
cabe nas nossas fileiras. Grita a necessidade de construirmos um feminismo nosso, não 
eurocêntrico, com nossas raízes indígenas e quilombolas.

Viva Dandara!

Viva Tereza de Benguela!

Viva Negra Bonifácia!

Organização Resistência Libertária (ORL/CAB)

25 de julho de 2016

https://anarquismopr.org/2016/07/25/orl-toda-mulher-negra-e-um-quilombo/


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