(pt) colectivo libertario evora: (MEMÓRIA LIBERTÁRIA) E A 18 DE JULHO ESTALOU A REVOLUÇÃO EM ESPANHA

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Sexta-Feira, 22 de Julho de 2016 - 08:54:28 CEST


Assinala-se por estes dias o 80º aniversário do levantamento popular contra o golpe de 
Estado que pretendia substituir, em Espanha, a República por um regime fascista. Face à 
sublevação das tropas, os trabalhadores, organizados, sobretudo na CNT anarco-sindicalista 
(mas também na socialista UGT), e com uma forte presença dos grupos anarquistas da FAI, 
opuseram-se ao golpe, assaltando os quartéis e os postos da polícia, detendo os militares 
sublevados e transferindo o poder para os sindicatos. Começou assim a Guerra Civil em 
Espanha, que depressa – também muito por acção dos anarquistas – se transformou numa 
autêntica Revolução Social. Embora numericamente numerosos, os libertários depressa 
ficaram encurralados: tinham de um lado as tropas fascistas, lideradas por Franco, e do 
outro a tenaz comunista, a soldo de Moscovo e de Stalin que a última coisa que queriam era 
uma vitória dos ideais libertários em Espanha. Logo em Maio de 1937, os comunistas viram 
as suas armas contra os anarquistas, em Barcelona (episódio descrito magistralmente por 
George Orwell no seu livro “Homenagem à Catalunha”), tentando destruir a influência 
libertária na região catalã.

Apesar destes confrontos, que enfraqueceram a capacidade de resposta às tropas fascistas, 
nos campos e nas cidades mantém-se a força colectivizadora do operariado e dos camponeses 
espanhóis que durará até ao fim da guerra, em 1939. A repressão franquista sobre o 
movimento operário e anarquista é cruel e marca o fim da influência do movimento 
libertário, durante muitos anos dominante no sul da Europa. Um movimento que tem vindo a 
renascer nas últimas décadas, a recompôr as suas fileiras e a integrar novos desafios. Por 
isso, ao celebrarmos os 80 anos da revolução espanhola estamos a falar do futuro, da 
construção de um mundo novo que continua a habitar os nossos corações, como dizia – há 80 
anos atrás –Buenaventura Durruti. Uma necessidade tão premente hoje como nessa altura. Ou 
talvez mais.

Para assinalar esta data traduzimos o artigo abaixo da autoria do historiador Julián 
Vadillo Muñoz e publicado no Diagonal Periódico (versão online)

80º ANIVERSÁRIO DO GOLPE DE ESTADO CONTRA A REPÚBLICA

E a 18 de Julho estalou a revolução em Espanha

Julián Vadillo Muñoz, historiador

“(…) a crença de que as causas que triunfam seriam as únicas a ter interesse para os 
historiadores conduz, como James Joll observou recentemente, ao desprezo por muitos 
aspectos do passado que são importantes e que têm interesse, e reduz a nossa visão do mundo”.

Esta é uma das frases com que Paul Avrich nos deleita na introdução do seu livro clássico 
“os Anarquistas Russos” publicado nos Estados Unidos em 1967 e editado em Espanha pela 
Alianza em 1974. E este exemplo que Avrich evidenciava para a história do anarquismo russo 
pode também ser aplicado relativamente ao que aconteceu em Espanha em Julho de 1936.

Nestes dias de aniversário, vemos e lemos enormes quantidade de artigos a este respeito. 
Alguns são muito sérios, trabalhados, produzidos por historiadores ou investigadores que 
nos oferecem uma visão aproximada do que foi aquele golpe de estado.

Outros menos objectivos, tendenciosos ou justificativos daquilo que foi um golpe contra a 
República que conduziu a espanha a uma guerra civil e à longa noite da ditadura.

Mas em poucos sítios se recorda que conjuntamente a essa resistência do povo espanhol 
contra um grupo de militares e as forças conservadoras, desenvolveu-se em muitos lugares 
da retaguarda republicana uma profunda transformação social na qual se pode comprovar a 
capacidade de realização que a classe operária tinha.

Porque em espanha naquele 18 de julho teve inicio uma Revolução Social. Uma revolução 
canalizada pelos anarquistas, mas em que participou a classe operária no seu conjunto.

A capacidade do movimento operário

Se houve um protagonista naquele processo revolucionário foi a classe operária. Desde que 
a Internacional chegou a Espanha em 1868 e se começaram a desenvolver as sociedades 
operárias, o movimento operário foi assumindo o papel de protagonista na política espanhola.

Um movimento operário dividido em escolas. Sendo sintéticos (e também reducionistas), 
pode-se falar duma escola de pensamento socialista, representada pelo Partido Socialista 
Operário Espanhol, fundado em 1879, e a União Geral de Trabalhadores, fundada em 1888, e 
uma escola de pensamento libertária ou anarquista que teve vários projectos no século XIX 
e que cristalizou com força em 1910 com a fundação da Confederação Nacional do Trabalho.

Rapidamente apareceram outras versões do marxismo mais ou menos ortodoxo, ou diferenets 
visões libertárias, mas quando a 14 de Abril de 1931 se proclamou a República eram nessas 
grandes organizações que se enquadrava a classe trabalhadora espanhola.

Esse movimento operário não só desenvolveu associações operárias e sindicatos que 
serviram, quer fossem a partir do reformismo ou da acção directa, para defender a classe 
operária. Houve a preocupação de instruir e formar a classe operária. Houve a preocupação 
de a qualificar, de mostrar-lhe através da formação a importância do que significava ser 
operário. De como os meios de produção e consumo estavam nas suas mãos, mas que ao mesmo 
tempo eram alienados por uma economia oposta aos seus interesses.

Este obreirismo formou uma cultura operária. Um modo de comportamento, de hábitos, de 
simbologia, etc., para se contrapôr á sociedade burguesa e capitalista. O movimento 
operário revolucionário acreditava firmemente numa alternativa à sociedade económica 
capitalista.

O operário instruiu-se em todos os sentidos: nas letras, nas artes, nas ciências, etc.. 
Criaram-se bibliotecas para combater a taberna. Criaram-se ateneus, centros culturais, 
escolas para combater o analfabetismo. A instrução e a educação.

O movimento operário estava consciente que tinha que acabar com o capitalismo e que tinha 
que ter capacidade para assumir as transformações sociais. Alguns acreditavam que isso se 
podia fazer conquistando as instituições do Estado e a partir daí iniciar a transformação. 
Outros em destruir o Estado e criando uma sociedade horizontal. A 18 de julho de 1936 o 
movimento operário passou de agente da resistência a protagonista de direcção.

…e estalou a Revolução

A sublevação militar foi travada na maioria dos pontos de Espanha. O anarquismo, que era 
um dos movimentos mais dinâmicos do país, tomou o controlo da situação em muitos locais.

Enquanto se organizavam milicias para combater os rebeldes nas frentes de batalha, os 
libertários espanhóis ocuparam posições nas zonas industriais e nos campos.

Muitos empresários, aliados dos rebeldes no complot contra a República, fugiram da Espanha 
republicana.

Os operários viram-se com o controlo da produção. As fábnricas tinham que produzir. Os 
campos tinham que ser cultivados. E os trabalhadores e as suas organizações, depois de 
décadas de formação, tomaram o controlo da situação.

Nas fábricas constituiram-se comités operários que geriram a produção. No campo 
desenvolveram-se colectividades agrárias que puseram a terra ao serviço de quem a trabalhava.

Ainda que tivessem existido individualistas que continuaram a cultivar a terra à sua 
maniera, trabalhar colectivamente trazia maiores beneficios para o andamento da sociedade. 
Produção ao serviço da guerra, mas também para mostrar que as coisas se podiam fazer de 
outra forma.

Na maioria dos casos os anarquistas foram seguidores entusiastas de um processo 
revolucionário que tinham reivindicado desde a sua origem. Em muitos outros, a UGT também 
participou nesse controlo operário e nessas colectividades. Houve sítios em que se chegou, 
inclusivamente, ao desaparecimento do dinheiro. Uma sociedade horizontal, antiautoritária 
e comunista plena.

Tudo na vida da retaguarda foi colectivizado. A CNT desenvolveu uma intensa propaganda a 
favor da socialização dos meios de produção e de consumo. Criaram-se Conselhos Económicos 
com o objectivo de tornar eficiente a produção. Criaram-se organismos como o CLUEA 
(Conselho Levantino Unificado de Exportação de Ágrios) para controlar a produção.

Todas as fábricas tiveram o seu comité de controlo ou conselho operário. Mas não houve 
mudanças apenas no âmbito económico. Na Catalunha, por exemplo, foi criado o CENU 
(Conselho da Escola Nova Unificado) para o desenvolvimento educativo. Algo que também 
aconteceu noutros pontos de Espanha.

O Sindicato Único da Indústria de Espectáculos Públicos da CNT tomou o controlo dos 
principais centros audiovisuais e criou todo um sistema de cinema. A propaganda e o cinema 
de ficção estiveram nas mãos dos trabalhadores do espectáculo. O celulóide tornou-se 
colectivo. As salas de cinema, teatro, lazer, estavam sob controlo operário. Também os 
transportes, a habitação, etc.

Todo o esforço revolucionário foi defendido com energia por muitos trabalhadores porque 
viam que havia algo tangível por que lutar.

No entanto, os anarquistas, que sempre foram os grandes esquecidos por serem sido 
derrotados em várias frentes, viram também que a realidade da guerra impunha sacrifícios. 
Os anarquistas eram antiestatistas e, contudo, forneceram cinco ministros, presidentes de 
Câmara, vereadores, conselheiros, etc.. Os anarquistas eram antimilitaristas e, contudo, 
forneceram dirigentes ao Exército popular da república, aos carabineiros, etc.. Impunha a 
vitória sobre o fascismo. Um esforço e um sacríficio que, também é certo, nem todos fizeram.

Houve quem viu toda esta intensidade revolucionária como lesiva e que tudo fez ao seu 
alcance para travá-la. Forças que eram tão antifascistas como os libertários, mas que 
diferiam nas estratégias e tácticas. Em certas ocasiões a sua forma de proceder foi criminosa.

A verdade é que dessas colectividades, esse controlo operário, foram um êxito em muitos 
lugares. Não se pode esquecer que se desenvolveram num contexto de guerra. E que embora a 
partir de 1937 a efervescência revolucionária estivesse em queda, a verdade é que até ao 
final da guerra as experiências comunistas libertárias desenvolveram-se em muitos pontos 
da Espanha republicana.

Esse sonho colectivo foi aniquilado quando a 1 de Abril de 1939 termina o confronto 
militar. E esse movimento operário que se tinha formado com abnegação durante décadas foi 
cruelmente reprimido. Tentaram o seu aniquilamento físico e ideológico.

E se o franquismo alguma coisa conseguiu, para além de sarjetas e valas comuns repletas de 
antifascistas, foi criar uma manto de esquecimento sobre esse processo revolucionário que 
também eclodiu em Julho de 1936.

Desde esse momento a história foi escrita pelos vencedores. Mas, como diz Avrich, às vezes 
é preciso aproveitar algumas fissuras para mostrar que houve um momento em que tudo foi 
possível.

aqui: 
https://www.diagonalperiodico.net/global/31003-y-18-julio-estallo-la-revolucion-espana.html

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2016/07/18/memoria-libertaria-e-a-18-de-julho-estalou-a-revolucao-em-espanha/#more-14996


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