(pt) anarkismo.net: Síria: O que aconteceu com os curdos nas 'negociações' de Genebra? by José Antonio Gutiérrez D. (ca, fr)

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Sexta-Feira, 12 de Fevereiro de 2016 - 08:46:58 CET


Coletivo de tradutores Vila Vudu http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=17192
Na semana passada estava prevista uma reunião em Genebra, no marco das negociações 
indiretas entre o governo sírio e as facções da 'oposição' armada reunidas no grupo 
divulgado pelo nome tonitruante de Alto Comitê para as Negociações. O enviado da ONU para 
a crise síria, Staffan de Mistura, decidiu adiar a reunião para o dia 25 de fevereiro. 
Curiosamente porém, foi excluído daquela reunião o partido dos curdos, o PYD, o qual, 
dentre outras coisas, é ator político importantíssimo no futuro da Síria e a única força 
que combateu em solo contra o 'Estado Islâmico'. É paradoxal que se boicote a participação 
do PYD, quando a mídia-empresa ocidental tão frequentemente vendeu a imagem dos curdos 
como os "amigos" do ocidente, cuidando atentamente de esconder os reais objetivos 
políticos desse movimento, e limitando sua simpatia a uma imagem semierotizada de mulheres 
jovens armadas com fuzis.

Síria: O que aconteceu com os curdos nas 'negociações' de Genebra?

Na semana passada estava prevista uma reunião em Genebra, no marco das negociações 
indiretas entre o governo sírio e as facções da 'oposição' armada reunidas no grupo 
divulgado pelo nome tonitruante de Alto Comitê para as Negociações. Ninguém teria de ser 
adivinho para saber que as tais 'negociações' fracassariam, mas, dessa vez, elas nem 
começaram.

O enviado da ONU para a crise síria, Staffan de Mistura, decidiu adiar a reunião para o 
dia 25 de fevereiro.

Aquela espantosa coleção de grupos financiados com petrodólares por fundamentalistas 
sauditas e por patrocinadores ocidentais, alguns dos quais sequer se dão o trabalho de 
fingir que seriam democráticos e são declarados fundamentalistas islamistas, como Jaysh 
al-Islam (Exército do Islã), sente que sua aventura militar – aplaudida pelo ocidente, até 
que os refugiados converteram-se em problema –, está-se derretendo irremediavelmente, 
deixando atrás de si uma trilha de mortos, mutilados e multidões sem teto ou terra.

A facinorosa 'oposição' síria está negociando para ganhar tempo, porque está à beira do 
colapso, e é visível que não tem nem as mínimas condições para 'exigir' a imediata saída 
do presidente Assad.

Problema, aí, é que a única decisão que o ocidente, Turquia e as teocracias do Golfo 
considerariam aceitável é que Assad, de algum modo e em algum momento, 'declare' que 
deixará o governo –, e encontram nos EUA todo o apoio de que precisam no ocidente para 
continuar a insistir nessa sandice.

A discutir, para essa gente, só, o modo e o momento em que Assad deixará o governo para o 
qual foi eleito. Essa e só essa é a 'questão' que estará em discussão dia 25 de fevereiro.

Curiosamente porém, foi excluído daquela reunião o partido dos curdos, o PYD, o qual, 
dentre outras coisas, é ator político importantíssimo no futuro da Síria e a única força 
que combateu em solo contra o 'Estado Islâmico'. É paradoxal que se boicote a participação 
do PYD, quando a mídia-empresa ocidental tão frequentemente vendeu a imagem dos curdos 
como os "amigos" do ocidente, cuidando atentamente de esconder os reais objetivos 
políticos desse movimento, e limitando sua simpatia a uma imagem semierotizada de mulheres 
jovens armadas com fuzis. Essa visão é parte do modo característico como Hollywood 
compreende e ensina a compreender a realidade, como fazem também os veículos dominados 
economicamente e ideologicamente pelos EUA. Esses todos veem o mundo como se fosse filme 
de 'mocinho', no qual os bons distinguem-se facilmente dos maus, até pelas roupas. Assim 
também se pode dizer que o imperialismo não tem amigos nem inimigos, mas exclusivamente 
interesses.

Os curdos têm agenda própria, seu próprio projeto político, e estão trabalhando com a 
finalidade de torná-lo realidade. Estão sós, contando com a simpatia de setores populares 
em todo o mundo. Contam também com um arremedo de solidariedade que lhes vem das grandes 
potências as quais, na verdade, só se interessam pelos curdos como instrumentos dos quais 
elas possam servir-se. Nesse sentido, aconteceu, em dado momento, uma passageira 
convergência entre EUA, Europa e os curdos, na luta contra o 'Estado Islâmico'.

Mas os curdos serão a primeira vítima dos humores sempre mutáveis da política imperial dos 
EUA, na tentativa de encontrar solução para a crise síria, que não derrote completamente 
os interesses estratégicos dos EUA.

Da perspectiva dos EUA, os curdos são úteis como força de choque para enfrentar o 'Estado 
Islâmico'. Mas não como ator político autônomo e válido para construir solução política 
para a disputa pela Síria. Por quê? Porque, num sentido estratégico, os EUA precisam 
manter boas relações com a Turquia, membro-chave da OTAN. O governo islamista turco está 
obcecado com derrubar o presidente Assad, porque é governo secular-nacionalista, com 
excelentes relações e alianças com o Hizbullah no Líbano e com o Irã. Assim, a Síria de 
Assad impôs-se como bloco contra o projeto que aspira a ser hegemônico, das ditaduras 
teocráticas do Golfo, naturais aliados do regime de Ancara.

Mas a Turquia, que ambiciona a consolidar-se como ator regional de peso, tem também 
interesse estratégico em suprimir o movimento curdo dos dois lados da fronteira 
turco-síria. Erdogan assenta-se sobre o estado turco criado pelo secularismo autoritário 
de Kemal Ataturk, ao mesmo tempo em que sonha com a grandeza do califato otomano. Em algum 
sentido, Erdogan converteu-se em personagem que acredita que teria conseguido conectar o 
secularismo e o Islã político, entre o estado moderno e o califato. Com isso, recebe a 
oposição de todas as facções da elite turca.

Os curdos são terrível dor de cabeça para os projetos de Erdogan, seja o de se tornar 
hegemônico na região, seja o de manter o Estado autoritário turco fundado sobre a premissa 
suposta modernizante de “um povo, uma língua, uma bandeira". Essa premissa já foi 
utilizada para justificar o genocídio dos armênios em 1915 e também a "limpeza étnica" em 
curso em várias áreas da Turquia.

Os curdos têm projeto democrático-participativo, secular, socialista, têm visão 
confederalista, defendem direito de o povo curdo existir. Nada que agrade muito a Erdogan 
ou aos seus aliados teocráticos no Golfo.

Na Síria, o movimento curdo é democratizante e aspira a preservar a própria autonomia. O 
movimento já declarou que não vê a saída de Assad como meta prioritária; para eles 
prioridade é, isso sim, construir uma relação renovada entre a sociedade síria e o estado 
sírio.

Deixar que a experiência democrática curda mantenha-se e frutifique a partir do norte da 
Síria seria péssimo exemplo, do ponto de vista da Turquia de Erdogan, para a população de 
Bakur, o território cuja população é majoritariamente curda, hoje ocupado pelo estado 
turco. Bakur recebeu apoio e inspiração da região de Rojava, o território majoritariamente 
curdo no norte da Síria.

Mas os curdos são também inspiração democrática para todo o povo turco, que vive sob 
evidente déficit de democracia desde 2013, quando se ergueu no Parque Gezi uma onda de 
indignação popular que se alastrou por todo o país. O atual governo turco só consegue 
ainda se segurar no poder porque recorreu ao terror e a extrema violência nas eleições 
passadas.

Por isso também, é que Erdogan fez vista grossa ante a colusão evidente do (i) 'Estado 
Islâmico' – organização que também mantém vínculos orgânicos com as teocracias do Golfo e 
com a Arábia Saudita – com (ii) os aparelhos repressivos e o exército turco. Essa colusão 
tem importante serventia, na guerra que Erdogan move contra os curdos e suas milícias em 
território sírio (YPG). Por isso setores do establishment turco mantêm vínculos econômicos 
com o 'Estado Islâmico, fundamentalmente mediante o contrabando de petróleo.

Essa é a razão da muito surpreendente total incapacidade que Erdogan tem mostrado em seus 
'ataques' sempre fracassados contra o 'Estado Islâmico', ao mesmo tempo em que se empenha 
furiosamente nos ataques contra os guerrilheiros curdos na Síria, no Iraque e na Turquia. 
Por essa razão também, Erdogan mostrou-se tão agressivamente desafiador no confronto 
contra a Rússia, ator que fez a balança pender decisivamente contra o 'Estado Islâmico'.

Não é acaso que a Rússia seja o país que mais insiste hoje em que, o destino de Assad tem 
de ser decidido pelo povo sírio, não por um grupúsculo de milícias financiadas por outros 
países. Mas a Rússia também insiste em que os curdos participem como atores 
fundamentalmente importantes, em qualquer cenário de negociação séria para superar a crise.

EUA e o chamado 'ocidente' estão em situação ambivalente. Querem controlar o 'Estado 
Islâmico', ao mesmo tempo em que querem satisfazer também seus sócios geoestratégicos. Por 
isso os EUA agem de modo tão claramente contraditório. Detestam a instabilidade regional 
que a presença do 'Estado Islâmico' implica; mas não conseguem enfrentá-los com firmeza, 
porque esse ataque molestaria os aliados dos EUA na região: as petroteocracias e a 
Turquia, membro da OTAN. Por isso os EUA precisam dos curdos como espécie de tropa de 
choque contra o 'Estado Islâmico'. Mas só isso, nada além disso.

Por isso é que, muito esquizofrenicamente, os EUA definem as guerrilhas curdas em 
território turco (PKK) como terroristas. Mas quando as guerrilhas curdas aparecem em 
território sírio (YPG), elas milagrosamente se convertem em "combatentes da liberdade" – 
por mais que todos os curdos compartilhem uma mesma ideologia, um mesmo projeto político, 
além de táticas, métodos, armamento, combatentes e comando militar.

Problema é que, mesmo que não definam alguns curdos como terroristas (por enquanto), mesmo 
assim os EUA não podem considerá-los como atores políticos. Por isso, precisamente, os EUA 
fingem que nada veem enquanto aumentam as agressões curdas contra curdos através da 
fronteira, e mesmo que já haja sinais muito graves de que a Turquia poderia invadir a 
região de Rojava, com toda sua força militar – o que significará verdadeira carnificina de 
curdos ('terroristas' e 'combatentes da liberdade', porque essa diferença absolutamente 
não existe no mundo real). E tudo isso se passa com o beneplácito da "comunidade 
internacional" regida, como rebanho, por Washington e Bruxelas.

Tudo isso considerado, não é acaso que a "comunidade internacional" regida como rebanho 
por Washington esteja agora dando as costas aos 'aliados' curdos, ao mesmo tempo em que 
garantem 'legitimidade' política a uma sórdida coalizão de fundamentalistas islamistas e 
mercenários oportunistas de último minuto – o que o ocidente chama de 'oposição 
democrática' síria –, que nem existiria se não fosse pelos petrodólares e 
petrometralhadoras fornecidas pelos xeiques autoritários do Golfo e pelo mini-califa de 
Ankara.

No momento que seria de se tomarem decisões de fundo, o futuro da Síria é disputado num 
escritório clandestino em Genebra, fora do alcance da vontade do povo curdo e do povo sírio.

Aos curdos, segundo Genebra, restaria compreender o lugar que lhes caberia no tabuleiro do 
Oriente Médio: bucha de canhão em tempos de guerra, e que baixassem a cabeça na hora de se 
decidirem os destinos do território onde vivem.

E em meio a tudo isso, mais uma vez a ONU comprova sua absoluta incapacidade para resolver 
coisa alguma, sempre se movendo conforme quem lhe grite mais forte e perpetuando crises, 
em vez de contribuir para superá-las.

O que se pode esperar das 'negociações' em Genebra, quando recomeçarem? Nada, como sempre.
José Antonio Gutiérrez D.
4 de fevereiro, 2016

http://www.anarkismo.net/article/29073


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