(pt) anarkismo.net: A dimensão estratégica internacional do “golpe” branco sendo aplicado no Brasil by BrunoL

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Quinta-Feira, 28 de Abril de 2016 - 08:42:05 CEST


Ao contrário dos argumentos baseados no senso comum, o processo brasileiro de impeachment 
da presidente Dilma Rousseff, e sua caracterização como um golpe institucional, não formam 
um fenômeno político essencialmente nacional ou doméstico. Como todas as mudanças de 
regime ou desestabilizações regionais na América Latina, há uma presença constante, direta 
ou indireta, de forças oficiais ou oficiosas dos Estados Unidos da América. O senso de 
humor político aplicado para os momentos mais trágicos nos faz lembrar que: “o risco de 
golpe de Estado é menor em território soberano dos Estados Unidos porque lá não tem 
embaixada dos EUA!”. ---- Desestabilizar um rival em potencial é a regra para manutenção 
da hegemonia dos EUA na América Latina e, por tabela, diminuir a capacidade de articulação 
de China, Rússia e Índia.

Para além das teorias conspiratórias, há evidências de sobra e suporte teórico e empírico 
para auxiliar nesta interpretação da existência de forças externas na atuação da nova 
direita em solo brasileiro e, consequentemente, para operar no acionar do impeachment ou 
golpe em andamento. Mesmo que, supostamente, não houvesse sequer a evidência já comprovada 
de financiamentos da Fundação dos Irmãos Koch — conhecido como o “maior partido político 
semissecreto do mundo” — e de entidades afins, como a Rede Atlas e sua “escola de 
líderes”, já teríamos abundante material de estudos estratégicos demonstrando o interesse 
e projeção de poder vindos dos EUA para atuar sobre e dentro do Brasil. Há evidência e 
quem tiver curiosidade em saber quais são as instituições “parceiras” da Rede Atlas no 
Brasil, acesse esta página disponível no link http://bit.ly/1W3ChfA.

Existem termos e conceitos-operacionais concomitantes para definir uma atitude hostil de 
um Estado, ou ao menos de um Estado-maior conspirativo, para com outra soberania na forma 
de um país independente. As guerras convencionais no Continente são cada vez mais raras, 
ainda que remanentes. Tivemos o conflito entre Peru e Equador em 1995 e em 1982 a Guerra 
das Malvinas com a prova cabal que nenhuma força reacionária é anti-imperialista. A 
vergonhosa rendição da ditadura argentina e o envio de recrutas contra forças 
profissionais britânicas demonstra a impossibilidade estratégica de confrontar as 
potências imperiais sem um câmbio profundo de mentalidade. Para a América Latina, o nível 
de conflito indireto é convencional, sendo sim, a guerra regular, uma exceção.

Desestabilização do país e conceitos de guerra não convencional

O que passa no Brasil desde outubro de 2014, antes denominado de “venezuelização”, corre 
neste sentido. Nosso país teve um segundo turno quase plebiscitário sendo que, 
definitivamente, a continuidade do governo Dilma Rousseff foi o oposto do prometido no 
palanque. Este fator já deu razões suficientes para retirar parte considerável de sua 
legitimidade frente ao próprio eleitorado. Mas, as operações de tipo “corações e mentes”, 
a exemplo da “greve dos caminhoneiros” de 2015, culminando com o primeiro dos atos 
massivos convocados pela nova direita ideológica — mobilizada por lideranças treinadas 
pelos canais de financiamento da Fundação Koch e da Atlas e retroalimentadas pelos grandes 
grupos de mídia —, pareciam cumprir um roteiro pré-traçado, a exemplo do desabastecimento 
que ocorre na Venezuela após a eleição de Maduro ou mesmo a ação de sabotagem econômica 
sofrida por Salvador Allende a partir do final de 1971.

Tais operações, em baixa escala de violência, refletem literalmente o Manual de Forças 
Especiais, obedecendo à proposta de política externa do governo de Barack Hussein Obama, 
com ênfase para o período de Hillary Clinton à frente do Departamento de Estado. O termo 
hoje empregado, Guerra Não-Convencional (UW na sigla em inglês), obedece à tradição pós 
Segunda Guerra, como guerra irregular (IW), contra insurrecional, assim como a 
terminologia mais contemporânea, de Guerra de 4ª Geração ou Guerra Híbrida. Em alguma 
medida, todos estes conceitos-operacionais — portanto, validados quando postos em prova, 
sendo que a empiria se dá em sociedades concretas — estão sendo aplicados no Brasil neste 
momento.

Como diz a teoria e nosso maior especialista civil, o jornalista Pepe Escobar, a Guerra 
Híbrida começa com uma revolução colorida, com um preparo no psicológico massivo (PsyOp, 
no termo em inglês), aproveitando as justas demandas da esquerda e extrema-esquerda 
ocorridas entre março e junho de 2013. O trabalho invisível através da nova direita, 
somada com as redes neopentecostais associadas com viúvas da ditadura (como na aliança 
entre Marco Feliciano, o pastor Everaldo e a família Bolsonaro) deixaram o tecido social 
intermediário se contaminar com antipetismo como sinônimo de, pasmem, antissocialismo. A 
Operação Lava Jato, cuja obtenção de bases documentais ainda não está totalmente 
justificada, aponta para formas de “colaboração entre agências amigas”, se não na forma 
vertical (acordos formais), ao menos de forma horizontal (como demonstrado pelo wikileaks).

Golpear o Brasil é uma necessidade estratégica do Império

Estrategicamente o Brasil é uma potência média, cuja camada superior é colonizada 
intelectualmente e não tem vocação de poder no Sistema Internacional. Assim, prefere 
ajudar a sabotar possibilidades de projeção do país através dos arranjos dos BRICS, 
jogando um papel soberano e independente na nova disputa de tipo Segunda Guerra Fria. A 
defesa do Pré-Sal, a detenção de tecnologia sensível através de desenvolvimento científico 
brasileiro — e arranjo empresa-Estado típicas do intento de gerar excedentes de poder, são 
o alvo permanente do acionar oficial e oficioso do Departamento de Estado e do Comando Sul 
dos EUA para nosso país.

Independente da posição política doméstica, qualquer analista internacional vai afirmar o 
mesmo descrito acima. Um país como o Brasil é líder “natural” do Continente e com projeção 
para o Atlântico Sul. Desestabilizar um rival em potencial é a regra para manutenção da 
hegemonia dos EUA na América Latina e, por tabela, diminuir a capacidade de articulação de 
China, Rússia e Índia. No que diz respeito a potenciais transformações estruturais 
brasileiras, seu efeito seria catalisador em nosso Continente, o que por obviedade 
contraria os interesses permanentes dos Estados Unidos. Assim, se “aonde for o Brasil irá 
a América Latina”, se nosso país ficar no mesmo lugar ou entrar em ciclo regressivo, 
amplia a influência da potência hegemônica em toda a região. Logo, o inverso também é 
verdadeiro, opondo estrategicamente os objetivos de longo prazo da maioria brasileira 
diante das projeções do Império sobre nós mesmos.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29251


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