(pt) EUA, Relato de Anarquistas de Pittsburgh Sobre os Confrontos no Comício de Trump (en)

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Terça-Feira, 26 de Abril de 2016 - 09:18:24 CEST


No dia 13 de abril, anarquistas de Pittsburgh participaram de um ataque a um comício da 
campanha de Donald Trump. Essa é uma mensagem de alguns dos organizadores desse 
contingente anarquista, trazendo reflexões sobre nossa atual situação. ---- No dia 11 de 
abril, a campanha de Trump anunciou planos para dois eventos num mesmo dia, em bairros 
diferentes de Pittsburgh. No início do dia, ele participaria de um town hall com Sean 
Hannity em Oakland, um bairro universitário da cidade, e à noite iria realizar um grande 
comício no centro da cidade. Quase imediatamente, diferentes setores da Esquerda lançaram 
chamadas para ações e começaram a planejar manifestações. Pouco depois, vieram as tão 
comuns ameaças da Direita de confronto armado com os manifestantes.

Ações contra o evento de Trump em Oakland foram convocadas por vários grupos ativistas 
estudantis no campus da Universidade de Pittsburgh, bem como pelo WHAT’S UP?!, um grupo 
local anti-racismo. O ANSWER, uma frente da seção de Pittsburgh do Partido pelo Socialismo 
e a Liberação, lançou um chamado para uma reunião e para a marcha ao evento principal da 
campanha de Trump no centro da cidade.

Anarquistas e antifascistas autônomos sabíamos desde o início que nosso objetivo principal 
era a perturbação total e o confronto tanto com Trump quanto com seus apoiadores. Nós 
sentimos que as organizações estabelecidas, como o WHATS UP?! e o ANSWER, poderiam ambas 
trabalhar para atrapalhar esse objetivo em favor de suas próprias visões do que 
consistiria numa ação anti-racista bem sucedida. Nós escolhemos organizar nosso 
contingente de um modo que maximizasse nossa autonomia e nosso controle de nossas ações e 
desejos.

As ações contra os eventos de Trump começaram no início da tarde em diferentes partes da 
cidade, mas, para os propósitos deste texto, focaremos nos eventos relacionados ao comício 
principal de sua campanha, no centro de Pittsburgh. Nós escolhemos esse foco porque foi 
aqui que se situaram as energias principais da organização antiautoritária, e também 
porque nós sentimos que ele oferece um roteiro para a luta contra a supremacia branca da 
Direita.

A aglomeração principal de anarquistas estava a algumas quadras do evento de Trump e 
estava programada para coincidir com a chegada de outras marchas de diferentes partes da 
cidade. Nós não estávamos cientes das intenções, número ou nível desejado de interferência 
dos outros grupos, mas imaginávamos que nossa melhor aposta era sincronizar nossa marcha 
para encontrar as outras aglomerações depois que já tivessem chegado ao centro de 
convenções. Isso nos permitiria levar uma onda de nossa energia e número, e ao mesmo 
tempo, fazer avançar com nossa força adentro na multidão de apoiadores de Trump para 
atingir nosso objetivo inicial de confrontação.

Fomos bem sucedidos com essa tática. Nosso contingente veio preparado com uma dúzia de 
bandeiras negras e bandeiras da Ação Antifascista, armadas sobre fortes mastros, e uma 
grande faixa preta. Ao chegarmos ao centro de convenções, marchamos e atravessamos uma 
aglomeração de apoiadores de Trump, afastamos barricadas e avançamos até a entrada 
principal do prédio. Muitos outros manifestantes já haviam chegado longe e estavam 
bloqueando as estradas; outros nos seguiam através do buraco que criamos na multidão. 
Quando o nosso contingente chegou à entrada, a confrontação física imedita irrompeu ao 
marcharmos diretamente para linha que leva para dentro do prédio. Apoiadores de Trump 
foram abordados, golpeados e atingidos com spray de pimenta à medida que tentávamos abrir 
caminho.

Durante esses combates, a polícia chegou, realizou algumas prisões aparentemente 
aleatórias daqueles não envolvidos nos combates e no uso dos sprays de pimenta e formou 
uma linha entre nós e o grupo de apoiadores de Trump. As pessoas então acenderam 
sinalizadores e começaram a arremessar objetos por cima da polícia na direção da linha de 
apoiadores, e repetidamente tentaram avançar. A esse ponto, estava claro que o comício lá 
dentro já havia começado e que as pessoas com as quais estávamos lutando eram aquelas 
presas do lado de fora, incapazes de entrar.

Após cerca de uma hora disso, o comício de Trump terminou e os presentes começaram a 
deixar o lugar pelas saídas. A multidão correu para as saídas, perseguindo-os, gritando 
com eles, empurrando-os e usando sprays de pimenta contra as pessoas enquanto saiam. As 
saídas foram bloqueadas e a polícia dentro do centro de convenções redirecionou os 
apoiadores para portas que estavam foram do nosso alcance. Apesar disso, retardatários 
continuaram a seguir caminho para dentro da nossa multidão e foram provocados e atacados. 
A polícia municipal e a polícia do condado finalmente vestiu o equipamento anti-motim e 
formou uma linha para limpar as ruas. Sem mais detenções, a multidão dispersou e o evento 
acabou.

Nossa situação:

Nós vemos o crescimento de Donald Trump como um aspecto importante da resposta direta da 
Direita ao movimento Black Lives Matter, à presidência de Barack Obama e àquilo eles vêem 
como uma ameaça existencial à supremacia branca nesse país. Essa reação da Direita tem 
assumido outras formas, como temos visto com o impasse armado do rancho Bundy, a ocupação 
do Malheur National Wildlife Refuge e o tiroteio sem vítimas fatais perpetrado por 
nacionalistas brancos contra manifestantes durante uma manifestação contra a violência 
policial em Minneapolis.

De acordo com The Atlantic, além dos marcadores demográficos de pertencimento às classes 
mais baixas, de branquidade e de baixo nível de escolaridade, o fator principal que une a 
base de Trump é o apoio ao autoritarismo e à supremacia branca. As principais questões 
políticas da campanha de Trump tem se enraizado na criminalização geral, detenção e 
expulsão de mulçumanxs, árabes, latinxs, negrxs e outrxs não-brancxs dos Estados Unidos.

O apoio a Donald Trump, e portanto também a esses objetivos, são o bastante para 
justificar-se como alvo de violência anti-racista.

Acreditamos que esses eventos recentes marcaram uma mudança na luta política desse país. 
Uma parte cada vez maior da população tem abandonado as forças políticas tradicionais em 
troca de “outsiders” vistos como estando nas margens, tais como Trump e Bernie Sanders. 
Nós vemos um desenvolvimento da demarcação entre a Esquerda e a Direita – entre aqueles 
que apoiam o controle corporativo de recursos, a expulsão de não-brancos e o aumento da 
militarização da polícia para a pacificação urbana, e aqueles que apoiam a autonomia 
individual, a propriedade coletiva dos recursos e a justiça racial e socioeconômica. A 
estrutura inerentemente bilateral do sistema americano de partidos políticos nos deixa com 
movimentos sociais e políticos corrompidos – a “Esquerda” deve abandonar suas tendências 
marxistas para adequar-se à narrativa Democrática, enquanto que a “Direita” deve se 
esforçar para encaixar sua ideologia supremacista branca judaico-cristã autoritária dentro 
do establishment Republicano.

Como pudemos ver no evento de campanha de Trump em Chicago, nas ruas de Minneapolis e no 
centro da cidade de Pittsburgh há algumas noites, o conflito físico entre militantes 
dessas duas forças – entre aqueles que querem manter a supremacia branca e aqueles que 
querem ver sua abolição – veio à tona e ao primeiro plano do discurso político americano. 
Nós vemos aqui uma oportunidade de atacar vigorosamente ambas as estruturas políticas 
americanas dominantes, e ao mesmo tempo contra-atacar as tendências de extrema-direita que 
observamos com a ascensão de Donald Trump à fama política.

Temos a esperança de que a ameaça colocada pela Direita supremacista branca, bem como o 
aproveitamento das oportunidades de que falamos, possam ajudar nossos movimentos a se 
situarem mais claramente na luta por libertação. A autodefesa combativa contra o 
autoritarismo pode ajudar a adquirir a autonomia individual e coletiva necessária em 
qualquer revolta libertadora que venha a ocorrer. Nós vemos este como um tempo para os 
anticapitalistas libertários aprenderem a levar a sério a ameaça colocada pela nova 
Direita e a dar os passos necessários para combater com força as estruturas da supremacia 
branca. Este não é um tempo para introspecção e auto-reflexão crítica sobre a práxis 
anti-racista popular, mas um tempo para a mútua autodefesa e a força coletiva contra o 
sistema americano de apartheid da supremacia branca.

Chegou o momento de Queimar a Colônia Americana.

De seus camaradas das colinas e vales de Pittsburgh, Pensilvânia.

Fonte: https://itsgoingdown.org/report-pittsburgh-anarchists-clashes-trump-rally/

Tradução > Jorge Holanda


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