(pt) França, Entrevista com a Alternative Libertaire: Um olhar revolucionário contra a “Loi Travail” de François Hollande

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Domingo, 24 de Abril de 2016 - 12:11:09 CEST


Diante de numerosos protestos, sabotagens, confrontos e a Praça da República ocupada na 
França (com o sonâmbulo e às vezes revolucionário nome Nuit Debot), albergando milhares de 
habitantes das ruas parisienses fazendo assembleias horizontais para decifrar códigos 
organizacionais e novas formas de afrontar a reforma trabalhista de Hollande, o movimento 
libertário francês tem desempenhado um importante papel na oposição aos sindicatos de 
cunho reformistas e aos grupos cidadanistas, que nunca chamariam um verdadeiro confronto 
nacional para fazer uma ruptura com a crise da esquerda globalizada e traiçoeira para a 
dignificação do trabalho em todos os setores sociais. ---- Tivemos a alegria de 
entrevistar os companheiros da organização Alternative Libertaire para entender a partir 
de uma posição revolucionária os conflitos organizacionais, as causas e raízes dos 
protestos, o papel dos estudantes, os problemas da repressão e também as alternativas 
sociais sob os princípios libertários que hoje trabalham em conjunto com toda a sociedade 
francesa para derrubar a Loi travail [Lei trabalho].

Um agradecimento a todos os militantes do Alternative Libertarie e em especial ao 
companheiro Laurent Esquerre, que facilitou nossa comunicação com a Comissão Internacional 
da AL e se animou a realizar esta entrevista diretamente em espanhol, ao que apenas 
acrescentamos elementos de sintaxe e de ortografia para que seja mais compreensível.

Porque a luta contra a depredação do capital nas fábricas, centros de trabalho, campos e 
bairros é uma tática aniquiladora em todo o mundo! Solidariedade internacional com o povo 
francês!

1. Por que a França está envolvida em protestos diários e greves massivas?

Vou tentar comunicar as notícias e análises de um mês de luta. Desde o final de fevereiro 
na França se iniciou uma luta contra a destruição do Código do Trabalho pelo governo 
francês segundo a vontade patronal. Este projeto de lei proximamente debatido no 
parlamento faz com que seja mais fácil demitir os trabalhadores e trabalhadoras e, baixar 
seu salário se a empresa administra sua atividade por mais de dois meses consecutivos. 
Inverte a hierarquia das normas de direitos sociais (saúde, habitação, obrigações, etc.), 
tornando o acordo um privilégio para o empresariado dizer sim ou não, em vez do acordo 
jurídico e trabalhista sem importar o ramo da atividade econômica, incluso no mesmo setor 
profissional. A reforma prevê também a redução da liberdade de expressão dos sindicatos.

Em 19 de março se deu o primeiro dia de mobilizações, mais ou menos massivas, com meio 
milhão de pessoas nos atos e manifestações em mais de 200 cidades. Em 31 de março 
estávamos com 1,2 milhões de jovens e trabalhadores/as com 250 atos de protestos e 
manifestações. O 09 de março precede uma nova jornada de ação de um chamado impulsionado 
por várias pessoas do setor sindical, mas fora das principais organizações sindicais. Em 
um segundo momento de organização e coesão, vários sindicados decidiram se juntar ao 
movimento tomando as ruas. Nesse dia ocorreram paralisações em quase todo o país.

2. Qual é o papel da extrema-esquerda neste movimento? Como foram as formas de repressão 
do Estado Francês?

Ao final de março, mil sindicalistas publicaram um chamamento “Paremos tudo!”, dizendo que 
para vencer ao Estado francês haveríamos que parar a economia com uma greve geral 
ilimitada¹. O problema é que até o momento não conseguimos construir essa ação de 
bloqueio. Os sindicatos trataram de definir as ações até essa greve geral. Mas, é 
necessário saber que aConfederação Geral do Trabalho (CGT) francesa, a Força Obreira, e a 
Federação Sindical Unitária(ativa no setor público), ou seja, os três sindicatos mais 
importantes na luta atual, são de atuação reformistas e jamais chamaram para um movimento 
de greve ilimitada. Já a CNT(anarcossindicalista) e o Solidários (sindicato que conta com 
muitos militantes revolucionários) não são tão fortes para convencer a quantidade 
suficiente de trabalhadores/as sobre uma estratégia de ruptura nos modos de protesto.

Há que se somar que a juventude dos institutos e das universidades estão na cabeça das 
manifestações. Nesse caso também é uma parte significativa, mas minoritária da juventude 
do país. O governo reage de maneira muito repressiva contra toda ela. O poder se serve do 
Estado de Urgência Contra o Terrorismo do Estado Islâmico² para reprimir as lutas sociais.

3. Como se divide a opinião pública do povo francês em relação aos resultados das 
mobilizações? Estão de acordo ou não com os protestos radicais?

A situação está muito aberta a opinião pública. O governo está em um movimento de 
saciedade popular que não pode esmagar os protestos que se desenvolvem dia após dia. Está 
tão débil que retrocedeu e retirou seu projeto para modificar alguns artigos 
constitucionais para reforçar oEstado de Urgência e também institucionalizar a caducidade 
da nacionalidade para cidadãos com binacionalidade sob o pretexto de evitar atos de 
terrorismo (o que criaria dois tipos de cidadãos franceses, os de nascimento na França e 
os de binacionalidade), tudo isso com forte oposição em todos os setores.

Outra coisa, os protestos se radicalizam na rua ante a repressão e a política reacionária 
e ultraliberal de Hollande, Valls (seu primeiro ministro) e os patrões. Desde o dia 31 de 
março tem se desenvolvido um movimento de ocupação das maiores praças das metrópoles da 
França. Chama-se “Noite, levante-se” (Nuit Debout). São os mesmos que iniciaram em 09 de 
março. É muito similar ao movimento popular que nasceu na Espanha em 2011, o projeto nasce 
da ideia de convergir todas as lutas, mas também se trata de debater um projeto social e 
includente ante a crise do capitalismo mundial. Certas pessoas querem mudar e reformas as 
instituições, outros e outras difundem a autogestão.

4. Qual é o papel das organizações libertárias neste movimento político?

As libertárias e libertários estão muito ativos/as nas mobilizações. Participam nas 
manifestações, na construção de greves em distintos setores e no movimento de coordenação 
para a ocupação das praças públicas. Tratam de trabalharem todos juntos e sem 
separatismos. Pensamos que o protesto geral, desde uma posição libertária, supera o 
rechaço esporádico da destruição do código do trabalho e atua de maneira mais profunda 
contra o autoritarismo, a austeridade, o militarismo…

O movimento libertário tem a oportunidade de desenvolver uma política e um projeto de 
emancipação geral. A crise da esquerda está tão grande que temos espaço político real para 
incidir junto ao povo francês. Os militantes da Alternative Libertaire trabalham para 
construir a convergência das lutas, a greve geral, a autogestão e a auto-emancipação. 
Existe uma corrente de simpatia que se desenvolve neste momento e trabalhamos para mudar 
de escala e trazer as pessoas até uma estratégia libertária junto com todas e todos que 
evolucionam para a ruptura com a ordem capitalista.

Comissão Internacional da Alternative Libertaire

Laurent Esquerre

[1] O que se chama geralmente de greve política geral/nacional em países de língua 
espanhola. Não confundir com o termo greve selvagem, introduzido pela ideologia 
insurrecionalista que toma em conta os panoramas e contextos políticos para a execução de 
tal greve.

[2] Assim como vivemos a tragédia do Bataclán, em 13 de novembro do ano passado, é muito 
similar a um estado de exceção sob o argumento do terrorismo islâmico e a simples presença 
de minorias étnicas na França. Elementos dessas quadrilhas policiais e paramilitares se 
infiltram nas mobilizações para prender, golpear e gravar os manifestantes.

Fonte: 
http://rupturacolectiva.com/entrevista-con-alternative-libertaire-francia-una-mirada-revolucionaria-contra-la-loi-travail-de-francois-hollande/

Tradução > Liberto


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