(pt) anarkismo.net: A política profissional é uma fábrica de traidores. Consumado o golpe paraguaio versão coxinha by BrunoL

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Sábado, 23 de Abril de 2016 - 08:23:08 CEST


Acabou o engodo, terminou a primeira fase da maior farsa jurídico-política-midiática da 
história do Brasil. A Câmara Federal votou com o seguinte placar, 367 (a favor) X 137 
(contra) X 7 (abstenções) X 2 (ausências), totalizando 511 deputados votantes, sendo que 
maioria absoluta conseguiu aprovar a autorização para o Senado julgar a presidente Dilma 
Rousseff a partir do pedido de impeachment escrito e encaminhado pelos juristas Miguel 
Reale Jr., Hélio Bicudo e Janaína Paschoal. Teríamos várias críticas e observações a 
fazer, mas de forma sucinta aponto ao comportamento da mídia e dos parlamentares neste dia 
para jamais esquecer e tampouco perdoar na história do Brasil. ---- A democracia liberal é 
um pato manco de pernas curtas e tortas, e o Brasil vem entrando na escalada de golpes 
brancos e institucionais na tarde-noite de domingo 17 de abril, ao vivo e a cores, com 
sensação de espetáculo midiático.

Crítica da Mídia Golpista

O trabalho da mídia e o clima de já ganhou manifesto ao longo do dia de domingo 17 de 
abril, data em que se completam 20 anos o massacre de Eldorado dos Carajás. Seria um 
exagero observarmos cada manobra e manipulação da família Marinho, em específico da 
Globonews. Mas, como o tema da política econômica impera no fundo das argumentações, listo 
três abaixo, a fundamentar a orientação dos golpistas. No dicionário político da Globonews 
e dos institutos neoliberais, temos o avesso da Economia Política Crítica. Vejamos:

Populismo Fiscal - quando o governo central mantém os gastos com o rentismo, torrando no 
mínimo 42% e chegando a 49% do orçamento federal com os juros da dívida e ainda assim 
tenta manter minimamente as políticas sociais e a política industrial;

Intervenção Política na Economia - quando o governo central toma um mínimo de vergonha na 
cara e orienta o Copom a baixar a taxa básica de juros e assim diminuir o peso do rentismo 
nas finanças da União, deixando de onerar mais de 25% do PIB brasileiro.

Austeridade e Fiel Cumprimento das Regras da Economia - quando o governo central cumpre 
apenas as funções básicas do Estado Capitalista alocando mais de dois terços dos recursos 
diretamente para financiar a acumulação privada, priorizando o capital financeiro e na 
sequência subsidiando os cartéis nacionais.

Além destas observações acima, a crítica da mídia não deve parar por aí. Muito se 
especulou e muito foi plantado ao longo dos últimos meses, especialmente nos últimos dias. 
O reforço que quero deixar aqui é o da crítica da economia política, quando a empresa de 
comunicação traveste de “observação técnica” a políticas de Estado e a política econômica 
de corte neoliberal.

A fábrica de salsichas e a linha de montagem de traidores

A transmissão ao vivo da sessão solene do Impeachment na Câmara é a demonstração viva de 
um conceito-chave para a análise política de corte libertário (não confundir com o termo 
incorporado da direita liberal dos EUA). A política profissional é uma fábrica de 
traidores, e a grande maioria da suposta base aliada veio sendo comprada - por dentro e 
com rubrica, através de acomodação de forças e alocação de recursos - pelo governo da 
ex-esquerda, incorrendo inclusive em ações que foram judicializadas, como a Ação Penal 470 
( ação conhecida como Mensalão). Vendo a base "aliada" que garantira a "tal da 
governabilidade" correr do apoio ao governo da ex-esquerda sem nenhum pudor é algo que 
alegra cientificamente - pela comprovação da tese - e nos deixa muito, muito irritados 
quando vemos o efeito societário.

A democracia liberal é um pato manco de pernas curtas e tortas, e o Brasil vem entrando na 
escalada de golpes brancos e institucionais na tarde-noite de domingo 17 de abril, ao vivo 
e a cores, com sensação de espetáculo midiático. Em 15 dias vai começar um rolo compressor 
contra nossos direitos constitucionais, direitos estes que a ex-esquerda negociou tudo o 
que deu, mas que agora vão ser atacados sem pudor pelos oligarcas de sempre, pela direita 
de sempre e por toda esta falsa maioria que garantiu a tal da governabilidade enquanto o 
jogo foi do Ganha-Ganha.

Agora que veio o Perde-Ganha, a Fiesp vai passar a fatura para a massa na forma de bancar 
a aventura do golpe paraguaio versão coxinha. Eu insisto que o que está em jogo não é 
sequer um governo reformista e simplesmente uma troca de elite dirigente através de uma 
maquiagem legal para poder, aí sim, romper com o pacto de classes e retirar direitos 
coletivos através do pacote de 55 leis regressivas agora no Congresso e andando rápido.

Estou bem tranquilo na consciência, mas como analista, não deixa de ser apavorante ver o 
nível de sinceridade política, quando abunda a traição e a máscara de legalidade no 
momento. No caso da defesa dos direitos coletivos, a única garantia de impor bandeiras e 
pautas coletivas, é unificar as lutas possíveis e cerrar fileiras contra a restauração 
neoliberal que vem por aí. Já está vindo a onda regressiva e restauradora, é verdade, e 
assim o governo Dilma em seu segundo mandato perdera boa parte de sua abalada 
legitimidade; a diferença é que agora virá a um passo muito acelerado, marchando em nome 
do pato da Fiesp com passo de ganso e a versão pós-moderna de uma mescla de neoliberalismo 
com fascismo cibernético, como os de Olavo de Carvalho, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro.

O PT e o PC do B são responsáveis, pelo nosso fundamento de uma crítica à esquerda, por 
tudo o que está ocorrendo. Não há como governar pela e com a direita sem terminar 
chantageado pelas direitas econômicas, ideológicas e políticas. Governar junto da Arena, 
da UDR, da Força Sindical, da CNI, da CNA, da CNT, entregar as finanças nacionais para a 
Febraban e outras esferas de poder econômico e ideológico, isso sem falar nos permanentes 
agrados e relações de proximidade com os barões da mídia, a começar pela própria Globo e a 
família Marinho, não poderia dar em outra coisa.

Cabe também a esperança de que esta farsa de golpe com nome de impeachment enterre de vez, 
ao menos no que resta de esquerda política e esquerda social neste país, a farsa da 
democracia liberal e indireta. Também cabe desejar que a mesma farsa nos faça compreender, 
de uma vez por todas, que na América Latina, a democracia de procedimentos é a trégua com 
as elites burguesas e pós-coloniais e não a Paz Social, como é o pensamento do pelego e o 
amansador do povo.

Que a ópera bufa de hoje sirva de lição histórica e retroalimente de força e vontade de 
lutar aos militantes ainda sinceros de toda a Esquerda, que entenda de uma vez por todas 
que fora do Poder do Povo na forma de Democracia Direta tudo é ilusão e assim sendo, que 
todos os projetos políticos e reivindicativos acumulem para esta meta de longo prazo. Do 
contrário, o que hoje é o PT e o PC do B, amanhã será o PSOL e os demais partidos 
eleitorais, a próxima geração de 20 anos a ser auto-enganada pelas instituições do inimigo 
de classe a carregar de energia a roda do moinho dos outros.

Entendo a frustração dos milhares de militantes ainda sinceros que se dizem de esquerda 
embora estejam perfilados na ex-esquerda ou mesmo na centro-esquerda. O problema da 
frustração é apostar no caminho equivocado. Na me domingo o caminho apropriado foi 
ensaiado, quando na manhã de 17 de abril a Furacão 2000 no Rio de Janeiro ameaçou com o 
Morro Descer; mas chegou tarde, deveria ter ameaçado desde 1o de janeiro de 2003 e assim 
garantir o que restava de esquerda ainda neste governo de centro-direita.

Apontando conclusões e um tortuoso, mas verdadeiro caminho

Para concluir, o pacto de classes está rompido, e sei que nunca assinamos tal pacto. Há de 
se lembrar que todo pacto político é transitório, e assim sendo, o pacto sem espada afiada 
não passa de perigosa conversa fiada. Que tracemos alianças entre as bases à esquerda e 
deixe que a direita e seus aliados façam a parte deles. Nos conchavos e alianças de 
ocasião o pelego e o traidor crescem, já na luta popular, a esquerda combativa e classista 
amplia sua força. Resta escolher o caminho de longo prazo e dizer não para as ilusões 
transitórias.

O médio prazo é bastante sinistro e sim, é um golpe paraguaio versão coxinha, e não, não 
se trata de defender o governo que é indefensável, e sim afirmar que é uma fraude 
jurídico-político-midiática, para fazer a Operação Café Filho (Temer na Presidência), 
Operação Abafa (Cunha no STF e o fim da Lava Jato) e a agenda regressiva (a começar pelo 
PL 4330 e o PLS 131).

Tempos sombrios por um lado e tempos de luta por outro. A única democracia que resiste aos 
conchavos das elites é a democracia direta e mecanismos plebiscitários e de referendos. 
Porque fora do Poder do Povo tudo é uma perigosa ilusão.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29240


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