(pt) anarkismo.net: O golpe em andamento no Brasil e a incapacidade do poder de veto popular by BrunoL

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Quinta-Feira, 21 de Abril de 2016 - 13:10:18 CEST


Este texto é mais uma reflexão em conjunto do que necessariamente numa análise de 
conjuntura. Trago a proposta de que deixemos de lado os cânones da democracia liberal e de 
procedimentos e tampouco venhamos a cair na cegueira política de que o econômico determina 
ou qualquer outra forma de pensar a disputa de poder, recursos e legitimidade no Brasil 
que não seja de uma forma complexa. Ou seja, fazer política na sociedade brasileira ganhou 
maturidade no mecanismo democrático formal, mas em sendo no Brasil e na América Latina, e 
em sendo a limitada disputa de poder dentro de um marco de capitalismo liberal-periférico, 
como sociedade, temos limitações quanto a profundidade desta disputa. ---- Não se trata de 
manual de política ou radicalidade livresca, mas o fato inequívoco é que não se pode 
governar com a direita a não ser que este governo realmente faça a escolha do co-governo 
sob pressão das bases sociais.

Definitivamente não se pode “acusar” o atual governo e menos ainda o fenômeno já tão 
estudado do lulismo de haver acirrado a luta de classes, a luta popular ou qualquer tensão 
entre classes e povo no Brasil para com o andar de cima. Muito pelo contrário, insisto que 
se eu fosse de direita, seu eu fosse líder empresarial, só votaria em Lula, bancaria as 
campanhas do Campo Majoritário (o nome mudou, mas o conceito e o bloco de hegemonia 
interna no PT são os mesmos) e apoiaria o jogo do ganha-ganha do governo. O problema 
reside justamente aí. Após 14 anos à frente do Poder Executivo, sentado em cima de mais de 
40% do PIB do Brasil, ou seja, de quase a metade da 10ª economia do mundo (por cálculos de 
aproximação), os governos petistas aumentaram pouco ou nada o poder político das classes 
populares no Brasil.

Se por um lado melhorou – e em proporções consideráveis – nosso padrão de vida, por outro, 
o tipo de aliança desacumulou as forças políticas que levaram o PT ao governo e Lula à 
Presidência de uma maneira tão estrondosa que ele conseguiu indicar a sucessora e esta se 
reelegeu. Não se trata de manual de política ou radicalidade livresca, mas o fato 
inequívoco é que não se pode governar com a direita a não ser que este governo realmente 
faça a escolha do co-governo sob pressão das bases sociais, ameaçando ao andar de cima que 
toda a casa pode vir a cair caso o “líder carismático” use de seu poder de convocatória à 
frente do Estado Nacional para, em nome do povo, manipular as vontades das maiorias de 
modo a assegurar conquistas e colocar contra a parede os setores anti-nacionais, sejam 
eles chamados de entreguistas, vende pátria, coxinha, gorila ou vira-lata. Isso é 
literalmente o que o chavismo faz na Venezuela, com ou sem Chávez e o que Perón fez na 
Argentina, sendo que no país vizinho, o peronismo que é ainda reivindicável é sem Perón e 
talvez com Evita.

Assim o que houve de alguma ousadia no sentido de “desagradar” o andar de cima do Brasil e 
seus sócios majoritários no exterior, tal como desagradar a agenda da embaixada dos EUA 
para nossa política interna, se houve algo minimamente interessante foi a chamada Nova 
Matriz Econômica, levada a cabo pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega (execrado na 
virada do primeiro para o segundo governo de Dilma Rousseff) e antes na brevíssima 
passagem à frente do BNDES do professor Carlos Lessa. Ou seja, no Brasil, basta ser 
keynesiano que a estupidez da direita e o pânico da ex-esquerda já o tornam uma pessoa 
“perigosa” para o pacto de classes. Este pacto foi rompido porque, desconhecendo as regras 
mais simples da política, o lulismo (com Lula e agora Dilma à frente, incluindo os 
dirigentes de primeiro escalão do PT, com José Dirceu e Antônio Palocci incluídos), não 
havia nenhuma forma de coação ou poder de veto popular para as tentativas de golpe de uma 
direita brasileira cujo agente econômico nem sequer é ou consegue ser nacionalista.

Todo estudante de primeiro semestre de política sabe que qualquer contrato tem cláusula de 
rompimento; que acordo se cumpre e pacto se fia no fio da espada. “O pacto sem uma espada 
afiada não passa de perigosa conversa fiada.” Pois assim que, acreditando no próprio 
engodo, o lulismo, o trabalhismo e os ex-stalinistas, formatados em uma espécie híbrida de 
neo-varguismo do século XXI, fizeram tudo ao contrário do que deveriam no sentido de 
assegurar e ampliar o poder organizado do povo diante das elites de tipo colonial-burguês.

Não dá para admitir do ponto de vista lógico e menos ainda estratégico este tipo de falta 
de atenção. Isso só pode ser respondido interpretando ideologicamente o tipo de 
mentalidade de não conflito que nasce no reformismo mais brando e vai ganhando terreno no 
sentido de crença de uma ex-esquerda que precisa acreditar em algo infundado, como o pacto 
de classes com quem é classe dominante no Brasil, mas subserviente aos EUA e aos países 
anglo-saxões e europeus em escala mundo, e aqui no país não quer abrir mão de nada ou 
quase nada. Não adianta afirmar que eles – a direita econômica e ideológica – é irracional 
porque sua racionalidade é de outra ordem. O problema continua sendo, talvez, na 
subestimação da categoria ideologia como fator explicativo para o comportamento dos 
agentes (políticos e econômicos) e, dentro desta categoria, o papel das indústrias de 
mídia para gerar os polos de debate e marcar o senso comum. Pesquisa para isso não falta, 
o que falta é mentalidade estratégica mesmo.

Fico muito à vontade para fazer esta crítica, pois estou organizado em um setor bem mais à 
esquerda e pleno de democracia interna. Assim, não caímos nem na tentação conciliadora e 
tampouco na autoritária. Mas, ter razão política é pouco diante do desafio que está pela 
frente. A queda do lulismo vai implicar o aval para a ex-base aliada fazer sem pudor ou 
vergonha o que vinha executando a conta-gotas desde a reeleição de Dilma. Aplicava 
políticas regressivas até porque o austericídio vinha do Palácio do Planalto, governando 
com as políticas do adversário e sob a batuta do Chicago Boy do Bradesco (Joaquim Levy, 
ex-ministro da Fazenda, agora no Banco Mundial, um posto de premiação por seus serviços); 
uma vez consumado o golpe paraguaio, vão aplicar um rolo compressor para aprovar o pacote 
de leis regressivas que retiram nossos direitos em todos os níveis em plena “democracia” 
liberal de procedimentos.

Vale ao menos a lição de que não se pode confiar de forma alguma no inimigo de classe e 
menos ainda delegar a representação e a condução política para elites de dirigentes 
profissionais que viraram o fio da luta popular preferindo o pacto do mal menor a tentar 
exercer o poder para e em nome da maioria.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
facebook: blimarocha  gmail.com


http://www.anarkismo.net/article/29231


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