(pt) Violência e Resistência no Campo e na Floresta: toda solidariedade aos sem-terra e ao movimento indígena by Coordenação Anarquista Brasileira

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Sábado, 16 de Abril de 2016 - 08:50:41 CEST


As organizações anarquistas especifistas que compõe a Coordenação Anarquista Brasileira 
(CAB) vêm repudiar veementemente o ataque orquestrado pela Polícia Militar em conluio com 
jagunços e seguranças particulares da empresa madeireira Araupel contra um grupo de 
militantes sem-terra no dia 7 de abril de 2016, quinta-feira, que culminou na morte de 
dois sem-terra e outros tantos feridos. ---- Histórico de lutas dos sem-terra na região: 
---- Na região sudoeste do estado do Paraná, onde fica o município de Quedas do Iguaçu e o 
Acampamento Dom Tomás Balduíno, o agronegócio está fortemente presente com monoculturas de 
soja, pinus e eucalipto e indústrias madeireiras. Nessa mesma região existe um rico 
histórico de lutas populares pela terra, construído com muito suor e sangue. É uma área de 
muitos conflitos em que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) vem 
construindo uma história de peleia pela reforma agrária popular e também importante pelo 
seu valor simbólico: foi na cidade de Cascavel que o MST teve sua fundação formal em 1984.

Os conflitos que se agravam na região são de longa data, mas podemos perceber 
intensificação a partir de 2015, ano de surgimento de dois novos acampamentos do MST em 
terras paranaenses: Acampamento Dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu, com cerca de 2,5 
mil famílias e Acampamento Herdeiros da Terra de 1º de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu, com 
cerca de 1,5 mil famílias. Ambos os acampamentos ocuparam terras que tinham sido griladas 
pela mesma empresa madeireira, Araupel.

Em 8 de março 2015, para evidenciar que o Dia Internacional da Mulher é um dia de luta e 
não de comemoração, um grupo de Mulheres do MST, realizaram uma ação política no viveiro 
de mudas da empresa, ocupando e destruindo mais de 5 milhões de reais em mudas de pinus.

Ataque da PM, Araupel e jagunços

No período da tarde do dia 7 de abril, quinta-feira passada, um grupo de aproximadamente 
25 trabalhadores e trabalhadoras circulava em caminhonetes e motocicletas no acampamento 
Dom Tomás Balduíno; perímetro da área demarcada como pública pela Justiça Federal. O grupo 
de trabalhadores e trabalhadoras foi surpreendido por disparos de armas de fogo da PM e 
seguranças particulares da empresa Araupel contra os veículos, o que fez com que eles 
fugissem dos disparos para dentro das matas em direção ao acampamento que se encontrava a 
6 km de distância.

Os fatos demonstram ser falaciosa a ideia de “confronto” apontada pela grande mídia. Não 
houve confronto, pois não havia qualquer igualdade de condições. A própria Polícia Militar 
admite ter encontrado os corpos nas matas e que todos os tiros atingiram os trabalhadores 
pelas costas, o que faz cair por terra a nota pública da Secretaria de Segurança Pública 
do Paraná (SESP/PR) emitida sobre o assunto no mesmo dia. Nota-se que a relação dos 
monopólios e oligopólios da mídia paranaense e brasileira estão em enorme sintonia com os 
empresários da Madeireira Araupel e do agronegócio em geral.

Segundo a versão da SESP/PR, as equipes policiais tinham ido atender a ocorrência de um 
incêndio nas áreas do acampamento, porém estavam presentes grupos especiais da Polícia 
Militar, como o BOPE e a ROTAM, mas o Corpo de Bombeiros sequer tinha sido acionado.

No ataque ao grupo dos sem-terra, os trabalhadores Vilmar Bordim, 44 anos, pai de três 
filhos, e Leomar Bhorbak, 24 anos, com esposa grávida de 9 meses, tiveram suas vidas 
ceifadas, em nome da defesa do latifúndio, do agronegócio, do “desenvolvimento econômico” 
do Brasil. Além disso, mais dois trabalhadores rurais que foram detidos e após duas horas 
foram liberados.

A nota pública da SESP/PR é incisiva e deixa claro até que ponto eles estão dispostos a 
encobertar o ocorrido:

“Mais de 20 pessoas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) estavam no local 
e começaram a disparar contra as equipes da PM, que reagiram ao ataque.”

Com o titulo da nota, eles demonstram, apesar de tudo, querer ainda responsabilizar e 
criminalizar o movimento pelo acontecido:

“Policiais são alvo de emboscada em Quedas do Iguaçu”

Ainda, segundo a Polícia Militar,

“Com eles, a polícia apreendeu uma pistola 9 milímetros e uma espingarda calibre 12.”

Como é possível falar em confronto entre um grupo de trabalhadores rurais com uma 
espingarda e uma pistola (se é que realmente estavam) contra duas equipes da Polícia 
Militar, da ROTAM (Rondas Ostensivas Tático Móvel) e BOPE (Batalhão de Operações 
Especiais), além de um grupo de jagunços?

Nota da Secretária Estadual de Segurança Pública do Paraná: 
http://www.seguranca.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=9886&tit=Policiais-sao-alvo-de-emboscada-em-Quedas-do-Iguacu

Ainda há outros elementos que demonstram a barbárie ocorrida: parentes, amigos e imprensa 
foram impedidos de acessar o local por horas, não puderam socorrer os feridos do ataque, 
nem averiguar a situação do local. Os policias chegaram a retirar os corpos das vítimas 
sem a presença do IML – Instituto Médio Legal, como também os próprios objetos pessoais 
das vítimas. Todas as delegacias e hospitais da cidade de Quedas do Iguaçu para onde foram 
levados os sem-terra envolvidos no acontecimento foram cercadas pela Polícia Militar, que 
impediu qualquer acesso às vitimas, até mesmo de advogados.

Um ataque com nome e assinatura

O embate entre Araupel x MST vem se arrastando há alguns anos, tanto na esfera jurídica 
quando na esfera da luta nas ruas. Recentemente o MST obteve algumas vitórias na justiça, 
um dos motivos que fez com que a Araupel, recorresse a meios “mais eficazes” para atingir 
seu objetivo: exterminar os sem-terra que ocuparam “suas” terras.

O Poder Judiciário tem um lado, e não é o das pessoas pobres. Mas quando os pobres se 
organizam em movimentos sociais para obter seus direitos, pressionam e conquistam seus 
objetivos. Os derrotados na esfera legal, que muitos momentos recorrem ao discurso da 
legalidade para validar seus objetivos, rasgam qualquer lei quando convém. Quando lhes 
interessa, recorrem aos meios mais violentos como a contratação de grupos para-militares, 
jagunços, pistoleiros, capangas de fazendeiros para o assassinato de lideranças camponesas 
ou quem quer que esteja lhes perturbando.

No dia primeiro de abril deste ano, o deputado federal Valdir Rossoni (PSDB-PR), agora 
ministro chefe da Casa-Civil do Paraná, foi a Quedas do Iguaçu participar de uma audiência 
que discutia a questão dos conflitos agrários na região. Segundo o MST, Rossoni se 
comprometeu com a Araupel – que foi quem financiou sua campanha eleitoral – teria que 
retribuir o “favor” e “resolver o problema com os sem-terra”. Para isso, foi solicitado o 
envio de mais de 80 soldados da PM para a região a fim de “combater a eminência da 
criminalidade” na região. Segundo ele os acampamentos seriam os maiores responsáveis pela 
criminalidade na região. Nota-se a clara tentativa de criminalizar o movimento social.

Questão Jurídica do território Rio das Cobras:

No ano de 2004, O INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) entrou com 
uma ação na Justiça contra a grilagem da Araupel, para que os títulos de propriedade da 
terra da empresa fossem declarados como nulos. Em maio de 2015, a juíza Lilia Côrtes de 
Carvalho de Martino, da 1ª Vara Federal de Cascavel, declarou nulo estes títulos de 
propriedade da fazenda Rio das Cobras (que até então estavam nas mãos da empresa), como 
também considerou ilegal toda a cadeia dominial das terras. Assim, elas pertenceriam à União.

O que aconteceu no dia 7 de abril foi uma tentativa desesperada da Araupel de retomar suas 
terras através da violência, ameaças e assassinatos.

A iminência de conflitos agrários no Paraná é cada vez mais nítida. Além desse caso, houve 
também a reintegração de posse na Terra Indígena Boa Vista, no início de março.  Pouco 
depois, a liderança Kaingang da comunidade, Claudio Rufino, foi presa e ainda hoje se 
encontra encarcerada pela Policia Federal em Curitiba, com acusações das mais variadas 
diversas, desde porte de armas à cárcere privado.

Conjuntura de repressão e criminalização dos que lutam:

Está em curso uma agenda de ataques severos aos povos do campo e florestas que lutam por 
seus territórios e direitos sociais. No último dia 6 de abril houve a reintegração de 
posse do Território Indígena Gravatá, no município de Ilhéus – Bahia, onde vive a tribo 
indígena Tupinambá. No dia anterior havia sido feita uma negociação entre os indígenas e a 
Polícia Militar para que não houvesse a reintegração, entretanto, como era de se esperar, 
a PM não cumpriu sua parte do acordo. E no fatídico dia 7 de abril o cacique Rosivaldo 
Ferreira da Silva, o Babau, foi preso por porte de arma.

O cacique Babau é uma liderança indígena com grande histórico de luta e perseguição. 
Existe, naquela região, grande interesse econômico na retirada de areia, entretanto, a 
comunidade Tupinambá sempre se posicionou contrária a pratica, impedindo a entrada e saída 
de veículos e caminhões.

Também neste caso o Estado assume seu lado na figura do juiz Lincoln Pinheiro da Costa, da 
Justiça Federal de Ilhéus, que vem atuando para defender a retirada de areia da terra 
indígena tupinambá, comprovando o seu caráter de classe.

20 anos do Massacre de Eldorados dos Carajás

Há 20 anos do Massacre de Eldorados dos Carajás o Estado continua mantendo e preservando 
ferozmente os interesses de quem explora e esmaga os pobres. Cumpre assim o papel de 
servir a uma minoria privilegiada, legitimando a exploração e opressão dos de baixo e se 
utilizando de todos os meios possíveis para manter o sistema de dominação.

O Massacre de Eldorados dos Carajás ocorreu em 1996 no Pará, em que a Policia Militar 
assassinou 19 trabalhadores rurais. Não será esquecido!

Assim, no período em que se marca os 20 anos do Massacre no Pará, vemos cada vez maior a 
intensificação das pautas da bancada ruralista contra os povos do campo, floresta e mar.

Viemos manifestar todo nosso apoio e solidariedade aos que lutam. É somente a partir da 
ação direta do povo, da autogestão e da autonomia dos movimentos sociais que conseguirmos 
avançar rumo a uma sociedade mais justa.

Toda solidariedade aos sem-terra!

Leomar Bhorbak e Vilmar Bordim vivem!

Solidariedade ao cacique Tupinambá Babau!

Lutar! Criar Poder Popular!

Coordenação Anarquista Brasileira – CAB

14 de abril de 2016



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