(pt) anarkismo.net: O pacto político rompido, o lulismo ladeira abaixo e a dimensão estratégica do golpe paraguaio em andamento by BrunoL

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Terça-Feira, 12 de Abril de 2016 - 14:55:20 CEST


"Não adianta o pensamento mágico de que o governo vai dar um giro à esquerda porque não 
vai. Ou a esquerda restante marca a pauta após derrotar o golpe ou veremos mais uma vez a 
agenda da legalidade atropelar a defesa dos interesses do povo. No dia seguinte, havendo 
golpe paraguaio, virá o rolo compressor do Congresso. Caso o governo sobreviva, as medidas 
anti-populares virão, mas a conta gotas, ainda na euforia da possível – mas hoje pouco 
provável – derrota do impeachment", constata Bruno Lima Rocha, professor de ciência 
política e de relações internacionais. ---- Eis o artigo. ---- Como projeto político o 
lulismo naufragou, tal como o varguismo. Todo pacto de classes é apenas mais uma etapa de 
morte anunciada com ventos iniciais de bonança.

Novamente inicio esta breve análise em um esforço concentrado de caracterização do momento 
atual. Este governo é de centro-direita e está negociando tudo desde novembro de 2014, 
começando pela indicação de um Chicago Boy - o ex-ministro Joaquim Levy - para a Fazenda, 
passando pela política anti-indígena e a lei antiterrorista. Caracterizar que há um golpe 
branco em andamento não isenta nem beatífica o governo, e sim demonstra que o pacto de 
classes ruiu. Ainda assim não há como concordar com um golpe motivado por manipulações de 
massa com ultra liberais, neo-conservadores e os grandes grupos de mídia (capitaneados 
pela Globo) abusando de sua condição de força, além de punição seletiva e exibição também 
seletiva.

O impeachment em si só está andando porque Eduardo Cunha não fechou o acerto com a base do 
PT na Câmara para evitar seu processo de cassação. Só por isso que o Blocão do baixo clero 
e das bancadas BBBB (Boi, Bola, Bíblia e Bala) partiu para a aventura política. Entendo 
que o suicídio do menor pior ampliou a margem de manobra da direita ideológica em todos os 
níveis. Isso porque eles (BBBB) estavam aprovando tudo, por dentro e com rubrica (com 
projetos lei anti-populares) e o silêncio cínico do Planalto e do comando lulista.

Mas, como diz o provérbio futebolístico, uma coisa é uma coisa e outra coisa outra coisa. 
Frear o golpe não significa alinhar com o governo e os arautos da moralidade seletiva se 
serviram do PT, mas não os querem mais.

Logo, fazer coro com a Fiesp é inadmissível assim como abrir mão de qualquer direito em 
nome sei lá de que tampouco. O momento é delicado mesmo e se o curto prazo é voltado para 
barrar o golpe, o reboquismo leva ao abismo como sempre levou.

Não adianta pensamento mágico de que o governo vai dar um giro à esquerda porque não vai. 
Ou a esquerda restante marca a pauta após derrotar o golpe ou veremos mais uma vez a 
agenda da legalidade atropelar a defesa dos interesses do povo. No dia seguinte, havendo 
golpe paraguaio, virá o rolo compressor do Congresso. Caso o governo sobreviva, as medidas 
anti-populares virão, mas a conta gotas, ainda na euforia da possível – mas hoje pouco 
provável – derrota do impeachment.

O fato é duro e de necessária constatação. Como projeto político o lulismo naufragou, tal 
como o varguismo. Todo pacto de classes é apenas mais uma etapa de morte anunciada com 
ventos iniciais de bonança. No médio e longo prazo, há que se combater permanentemente 
esta ideia estapafúrdia de um pacto de classes duradouro. Ou temos forças reais 
organizadas socialmente de modo a construir uma hegemonia de combate na esquerda e 
sequencialmente ampliar direitos coletivos através de luta direta, ou vamos assistir 
análises mirabolantes delirando sobre um comportamento político que visa o próprio 
interesse e tem como base uma elite que todos os dias pragueja ao destino por haver 
nascido no Brasil e na América Latina.

O acerto entre Eduardo Cunha e Michel Temer e possíveis consequências para a vida política 
no médio prazo

A semana também foi atravessada pelo fruto dos acertos dos oligarcas peemedebistas na 
Páscoa. A síntese do arranjo Cunha e Temer é a marca dos acórdãos entre oligarquias e os 
financiados das entidades neoconservadoras dos EUA. Agora, no desespero do toma lá dá cá, 
Eduardo Cunha se afastaria da Presidência da Câmara e teria a manutenção de foro 
privilegiado. Pela terceira vez a Presidência deve cair no colo dos oligarcas sem 
receberem um voto para isso. Temer, Renan e Cunha sintetiza a cleptocracia oligárquica 
brasileira. Não deixa de ser interessante para a crítica política. “Quem mandou se aliar a 
esta laia? Quem mandou se perder ideologicamente e imitar o estilo de vida do inimigo de 
classe?”

Antes da debandada do PMDB, tivemos o golpe de cena da Ordem dos Advogados do Brasil 
(OAB). A Ordem embarcou na onda das três estrelas do mundo jurídico pró-impeachment; 
Sérgio Moro - juiz federal de 1a. Instância; José Dias Toffoli - ministro do STF, entrou 
pela janela através da indicação de José Dirceu e cia; e Cláudio Lamachia - presidente da 
OAB nacional - outrora campeão estadual no Rio Grande do Sul atuou como fonte de oposição 
da “sociedade civil” contra o governo Yeda Crusius (PSDB).

A onda conservadora destes últimos dias também implicou em ataques de tipo fascista a 
jornalistas de reconhecida trajetória de esquerda, como o jornalista esportivo Juca 
Kfouri. Também houve a ensandecida manifestação da Mackenzie em São Paulo. Os macaquinhos 
da direita republicana e em onda pró Trump, o pessoal da direita da Mackenzie relembra o 
CCC (Comando de Caça aos Comunistas) fez ato contra a "islamização" do Brasil! A tendência 
é os ânimos acirrarem e o conflito social também.

Após o anúncio do PMDB - em três minutos – de abandono do governo (a exceção da ministra e 
senadora da Agricultura Kátia Abreu e mais dois ministros, estes sem base parlamentar), o 
Planalto parte com tudo para tentar salvar os 171 votos mais um na Câmara e pode estar 
repetindo as práticas mais condenatórias. Para além do golpe paraguaio (institucional e 
pela via da legalidade aparente), é preciso vislumbrar a dimensão estratégica e o ambiente 
político com acirramento da repressão e das tensões internas do país.

No Brasil há um abismo entre a violência endêmica na sociedade e o tipo de acordo de 
cobertura, entre elites políticas e o que resta de classe dominante ainda nacional. A 
aproximação destes níveis de violência pode abrir uma importante e perigosa margem, dando 
espaço para o aumento do conflito político no país.

Insisto que o panorama, apesar de sombrio abre muitas possibilidades para quem opera à 
esquerda da política. Vejamos alguns itens:

- Necessariamente as bases sociais que hoje se mobilizam contra o golpe paraguaio não vão 
arrefecer de imediato. Haverá e já há movimento de controle, tanto das direções políticas 
constituídas - como o senador Humberto Costa (PT-PE) - mas algum nível de luta para além 
da superficialidade do discurso de defesa das "instituições" e obviamente, com algum nível 
de conflito, repressão formal e informal motivada por incitação ao ódio pela Internet.

- Na esfera política e em específico da política institucional a direita que saiu do 
governo não tem projeto e há uma enorme janela de oportunidades, o que pode levar a um 
acórdão entre oligarcas, mas também abre espaços para novos - velhos entrantes como Marina 
Silva (REDE) e Luciana Genro (PSOL, mas sem consolidar a posição da direção nacional) e 
também recursos de mobilização radicalizados por direita, como Jair Bolsonaro (PP-RJ) e o 
Movimento Brasil Livre (MBL, definitivamente o embrião politicamente operacional de grupos 
neoconservadores) e seus grupos concorrentes na mesma fatia de "mercado político".

- Na arena mais à esquerda agora é hora de resistir e realmente não aderir ao mal menor ou 
a "crítica construtiva ao PT" ou qualquer outro giro absurdo como de salvacionismo de um 
partido de massas estruturalmente perdido e baseado no pacto de classes que é uma tese 
furada - conforme comprovado empiricamente, novamente.

Esta desilusão vai seguir por mais dez anos até uma nova onda reformista perder a 
radicalidade e avançar para vias institucionais e novamente corromper-se em todos os 
sentidos. Ou então, se abrirmos uma nova etapa de hegemonia na esquerda brasileira onde o 
epicentro passa longe das urnas e da institucionalidade a qualquer preço.

No momento, não tem como não lutar contra o golpe e simplesmente querer surfar na onda do 
“Fora Todos”, ou qualquer outra palavra de ordem de tipo pensamento mágico ou irrealismo 
político.

- O próximo ciclo, ainda mais radicalizado caso se consuma o golpe paraguaio, vai depender 
de todas as forças sociais imagináveis e existentes para realmente conseguir resistir à 
perda de direitos e abrir uma via ideológica de resistência como forma de acumulação de 
forças para câmbio profundo.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.nef
facebook: blimarocha  gmail.com


http://www.anarkismo.net/article/29214


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