(pt) estudios.cnt.es: Grécia, Organização versus grupo de afinidade: o processo de hiperautonomização e as fraquezas estruturais de um coletivo anarquista Por Antonis Drakonakis

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Quinta-Feira, 29 de Outubro de 2015 - 09:00:03 CET


Tomando como marco de experiência o complexo panorama do movimento anarquista grego, o 
autor analisa o funcionamento dos grupos de afinidade anarquista, que de maneira mais ou 
menos generalizada, funcionam como base do movimento libertário na Grécia. No texto se 
repassam as limitações práticas desse modelo organizacional, com especial destaque para o 
processo de hiperautonomização derivado do isolamento progressivo de muitos grupos de 
afinidade que operam neste país. Finalmente, o autor levanta a necessidade de melhorar a 
coordenação e integração das frentes de luta, através da consolidação gradual de uma 
organização libertária que contribua, em primeiro lugar, para a federação de grupos 
anarquistas e, por outro, para superar as fraquezas organizativas do movimento anarquista 
grego.

"Por nossa experiência até agora, acreditamos que a falta de acesso à sociedade é o que 
nos torna inofensivos para o poder do Estado. Porque a revolução social não a faz o nosso 
grupo de afinidade, mas todos os explorados, tornando realidade o sonho anarquista. Isso 
significa que quem não vê a necessidade de estruturar e organizar o nosso campo - com os 
correspondentes golpes selecionados contra o Estado - está colocando inconscientemente e 
com uma prática dogmática e míope, obstáculos ao desenvolvimento do movimento anarquista 
na Grécia e convertendo o sonho anarquista em um pesadelo diário". É verdade que, na 
maioria dos casos, e devido a pouca idade prevalecente no movimento anarquista grego, o 
processo pelo qual se forma um coletivo anarquista/antiautoritário é feita em termos de 
grupo de afinidade. Isso, a princípio, não se julga de fato como algo negativo: ninguém 
pode, por exemplo, considerar uma desgraça a criação de um coletivo a partir de um grupo 
de amigos politizados existente, seja em uma cidade provincial ou um bairro de Atenas. 
Estruturalmente, criar, assim, um grupo político inicialmente baseado na confiança e 
amizade não é algo negativo. O problema está em um estágio posterior na evolução e na 
forma que o grupo experimenta ao longo do tempo.

Uma vez formado, todo coletivo começa o processo de construção de um espaço comum entre os 
seus membros. Os membros vão tomando forma coletivamente, desenvolvendo o seu discurso 
político comum e construindo uma vida diária coletiva, que na maioria dos casos se torna 
"sua própria" realidade. Sobre este último ponto está, em nossa opinião, a fonte do 
problema. A falta de um controle externo (referimo-nos, obviamente, a um controle coletivo 
dentro de uma Organização ou Federação mais ampla), o grupo cria uma concepção totalmente 
sua sobre os eventos sociais e políticos, por não estar comprometidos com nenhum outro 
coletivo, torna-se mais real a cada momento e com cada ação, incorporada em uma 
experiência coletiva (o processo de hiperautonomização da assembleia). Essa concepção 
aparece como uma coordenação de vários fatores tais como as leituras comuns, do cotidiano 
comum, das experiências comuns do movimento e, finalmente, a influência de personalidades 
de destaque de cada assembleia, que por várias razões dão ao grupo e aos seus membros a 
terminologia, as fontes teóricas e a estruturação central de seu pensamento.

Os "capitães invisíveis" ou "combatentes influentes", de acordo com o termo mais 
condescendente são, a nosso ver, um fenômeno natural e inevitável, congênito aos 
princípios da organização coletiva e da evolução humana (idade, experiência, perspicácia, 
substrato cultural), muito perto da microfísica do poder de Foucault. Mas o problema não é 
o fenômeno em si, mas o ambiente informal em que se desenvolve e a dinâmica que adquire.

A hierarquia informal não se enfrenta resmungando, mas pelo controle coletivo, democrático 
epolítico que emana não apenas da vontade de alguns, mas da própria estrutura. O dirigismo 
político de algumas assembleias de certas pessoas não é problema exclusivo dessas pessoas, 
mas especialmente da própria assembleia, de seu próprio sistema operacional.

Uma personalidade ocupa o espaço deixado livre pelos outros; não é por acaso que há grupos 
que, privados de uma ou duas pessoas, vegetam. E é aí que chegamos à questão da acumulação 
de experiência e conhecimento (uma espécie de capital social ao nível pequeno de uma 
assembleia).

O referido mostra que os "combatentes influentes" têm algum tipo de "expertise". 
Conhecimentos técnicos que, em vez de serem compartilhados com a assembleia, constituem um 
monopólio nas mãos de certas pessoas que conseguem dominar em uma relação de dependência. 
Esta experiência não vem exclusivamente de sua habilidade retórica, mas de um processo de 
acumulação de ganhos de capital intelectual: do capital experiencial acumulado de toda 
assembleia que, em sua redistribuição, sofre um curto-circuito. Para colocá-lo mais 
simplesmente, todo coletivo acumula através de suas ações e experiências um capital 
experiencial e de conhecimentos. Inicialmente, esse capital existe apenas como um produto 
coletivo, ou seja, existe como capital coletivo do grupo, sem ser individualizado. Mas a 
inércia de muitos membros, uma falta de objetividade e posições políticas concretas ao 
nível de grupo (atribuímos a responsabilidade as estruturas e não pessoas), em combinação 
com a capacidade natural do "lutador influente", levam este capital acumulado para as mãos 
de poucos, que, assim, se beneficiam (muitas vezes involuntariamente) das desigualdades 
estruturais do informalismo.

O que precisamos, então, não é expulsar esses poucos, mas criar um mecanismo para 
distribuir igualmente esse capital em questão a todos os membros da assembleia. O 
informalismo é o livre mercado do movimento, e onde há mercado livre, há aqueles que 
dominam o capital.

O processo de hiperautonomização descrito acima também não é interrompido pelos novos 
membros de um coletivo que, para um maior ou menor grau, se veem obrigados a serem 
absorvidos pela microrrealidade do grupo e a velar pela preservação da desejada autonomia.

Os novos membros têm de lidar com uma série de problemas: a partir de um sistema já 
estabelecido de comunicação interna no grupo (terminologia, frases feitas, humor interno, 
questões tabu, referencias políticas), até o respeito informal (espontâneo) a seus membros 
mais destacados/ativos e, definitivamente, a aceitação ou conflito com uma estruturada 
concepção de sua própria realidade, a "realidade" do referido grupo.

Sob o peso da obrigação de se adaptar a um novo microcosmo, estruturado sem eles, estes 
novos membros têm três opções básicas: (a) se adaptar ao quadro existente e acolher as 
regras, (b) tentar mudá-lo, em maior ou menor grau e, finalmente, c) rejeitá-lo e deixar o 
grupo. O problema é que existe entre as duas primeiras opções uma desigualdade inerente 
que, a nosso ver, também procede da falta de estrutura.

Numa análise mais aprofundada, vemos que, na grande maioria dos casos, a balança se 
inclina em favor da primeira opção (ignorarmos a terceira). Isto é, um novo membro se 
adapta antes ou depois da já configurada realidade do grupo, sem sequer tentar desafiar o 
quadro existente. Isto é principalmente devido à insegurança que experimenta, não apenas 
em relação se tem capacidade para fazê-lo, mas se entendeu o próprio quadro, se entendeu o 
que vai enfrentar. Esta desigualdade está na fraqueza estrutural dos novos membros para 
alterar o quadro existente. A fraqueza é devido a duas razões principais: (a) a diferença 
de idade entre os novos e os "veteranos" com tudo que isso implica, e (b) a relatividade 
do quadro político de cada coletivo.

De início, é bem sabido que a nossa "esfera" atrai novos membros quase exclusivamente de 
pouca idade, especialmente estudantes e jovens. Assim, para um menino, a diferença de 
idade, experiência e fundamentação teórica entre ele e os membros mais velhos, se percebe 
enormemente, sobretudo de sua parte. Além disso, na maioria dos casos, infelizmente, o 
novo membro não se encontrará com um marco de posições políticas coerentes, configurado 
por um conjunto mais amplo de pessoas que exceda os limites estreitos do coletivo. Pelo 
contrário, ele terá de enfrentar um conjunto de ideias e práticas que fazem, como 
mencionado, a realidade de um grupo de vinte pessoas. A relatividade do objeto, que 
poderia ser contestada, torna o questionamento sem sentido.

Para colocá-lo de forma mais clara, esta relatividade reside na falta de posições 
políticas formuladas expressamente e em irresponsabilidade (política) que campeia nos 
pequenos coletivos desconhecidos, na ausência de uma entidade política mais ampla 
conhecida e reconhecível. Como consequência dessa relatividade, toda crítica se choca com 
um funcionamento quase ritual de cada grupo, que na maioria dos casos, tem por 
consequência que não se pode resolver politicamente as diferenças. Ante a falta de 
posicionamentos políticos bem estabelecidos, estatutos, etc., toda crítica se produz 
exclusivamente sobre a "tática" de um coletivo, e não na correlação dessa tática com suas 
posições. Além disso, se tem que a necessidade de adotar esta ou aquela ação sempre se 
julga a partir da percepção ou da vontade das pessoas, que formam um coletivo, e não é 
determinada pela própria necessidade social ou pelo peso de uma decisão mais ampla para 
uma ação em nível de toda Grécia, a diferença vai surgir em termos de crítica pessoal 
dentro do grupo, e não em termos de coerência política e responsabilidade social. O que 
defendemos, então, é que as pressões externas (dentro de uma Organização) não "submetem" a 
um coletivo, mas, pelo contrário, ajudam a esclarecer o seu marco político, a tomar 
distância dos pontos ambíguos e politizar suas diferenças e conflitos internos.

Além disso, sua hiperautonomização o converte em um grupo de amigos que resolve suas 
diferenças com o único critério de sua coesão e sua correlação qualitativa entre as suas 
particulares aspirações políticas e o rendimento dos seus membros. De acordo com o marco 
atual, se um grupo consegue realizar suas aspirações políticas, independentemente do que 
as circunstâncias políticas impõem, está indo muito bem. Ou seja, o seu compromisso começa 
e termina nas coordenadas dos desejos e aspirações dos seus membros.

Em resumo

Por exemplo, cinco coletivos que às vezes se encontram em processos do movimento e 
colaboram em um marco político de zero responsabilidade com relação ao outro (que não vai 
mais além da solidariedade e do apoio mútuo) são, na verdade, cinco grupos diferentes, com 
um fundo ideológico comum, muito genericamente, que aportam em cada ocasião cinco 
diferentes realidades. Isso acontece, como dissemos no início, porque, no momento da sua 
formação não havia nenhum compromisso, nenhuma comunicação (política) essencial e qualquer 
controle coletivo por uma entidade política superior (organização, federação), com o 
resultado que a visão da realidade não é "filtrada" coletivamente e não está diretamente 
questionada por qualquer força que não seja o próprio coletivo.

O grupo de afinidade, crescendo assim em seu próprio mundo, à mercê das desigualdades 
naturais e sociais implícitas nas relações entre pessoas de diferentes idades, classe 
social, experiência, vivências, tendências, etc., está lutando a sós com os seus próprios 
demônios.

Sem o apoio de uma entidade política, o coletivo isolado em si não se percebe como parte 
de um organismo que constrói a revolução social, mas como um organismo independente, que 
colabora com os outros por prazer, em vez de necessidade. Como parte de um organismo, está 
compelido a trabalhar para que todo o corpo funcione em uma relação de interdependência, 
enquanto que como um organismo independente, basta desejar colaborar com outras pessoas em 
um dado momento, no âmbito e nos termos que ninguém sabe como se vão determinar.

O organismo/coletivo/grupo de afinidade autônomo é o rei de seu microcosmo. Ele tem seu 
próprio território, a sua sede, o seu exército, o seu ambiente e o entorno de achegados 
que, ocasionalmente, reforçam seus blocos e ações. Todos estes reis juntos conformam o 
âmbito antiautoritário grego; um mundo povoado de maneira dispersa com uma forte 
comunicação interna formal, estruturado sobre o estranho princípio: o informalismo e os 
conflitos internos que este implica na base de sua existência, um meio de coesão e 
harmonia interna.

Para dizer brevemente, o informalismo domina como um mal menor para evitar tempestuosos 
conflitos dentro da esfera anarquista. Ou seja, como uma troca para manter uma amizade e 
comunicação interna, com base na proximidade ideológica entre grupos que vivem juntos, 
estabelecendo uma solvência temporária abusiva não ideológica à custa da responsabilidade 
social e política de seu tempo.

A realidade do coletivo isolado, sua visão global das coisas, que às vezes é apenas a 
visão de um único indivíduo, a relatividade do seu marco político e sua hiperautonomização 
tomam, através do informalismo, elementos do absolutismo, alienação e heteronomia. Por 
outra parte, a organização em uma entidade política anarquista mais ampla cria os 
mecanismos de controle coletivos essenciais, com base em princípios e posições decididas 
coletivamente e publicamente por todos os coletivos que a compõem; desarmando assim 
estruturalmente as arbitrariedades e abusos e cimentando a verdadeira autonomia de cada 
parte desse corpo. Adotando, em poucas palavras, o marco político de um "anarquismo 
social, que busca a liberdade através de estruturas e responsabilidades mútuas (...)". 
Portanto, enquanto o informalismo segue a desempenhar o papel da metadona, o movimento 
anarquista grego seguirá parecendo a um corpo doente que conscientemente se esforça para 
manter suas dependências. E como a história, aparentemente devido à prática sustentada até 
agora, é transmitida mais oralmente do que de forma escrita para cada geração, a obsessão 
anti-organizacional traz o risco do anarquismo na Grécia acabe sendo uma palavra 
"inofensiva do ponto de vista político e social, um mero capricho que escandaliza de 
maneira divertida os pequeno-burgueses de todas as épocas". Nestes tempos em que o 
movimento anarquista, como a parte mais orgânica do mecanismo para transformar o 
estabelecido, está pagando um alto preço por sua atitude, a estrutura não é mais 
apresentada como uma mera possibilidade, mas como uma necessidade para que o anarquismo 
continue a ser uma palavra politicamente e socialmente perigosa.

Fonte:

http://estudios.cnt.es/revista-estudios-no-4-organizacion-accion/


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