(pt) ait-sp: Porque é que os anarquistas não votam* -- Secção abstenção, anarquismo, eleições

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Quinta-Feira, 15 de Outubro de 2015 - 11:12:32 CEST


Em tempo de eleições, mostram-se inevitavelmente dois tipos de pessoas com pontos de vista 
opostos: os que se abstêm e os que votam. Tanto uns como os outros têm argumentos para as 
suas posições. Aquele que não vota afirma que o voto é inútil e incapaz de causar mudança 
real. O que vota afirma que votar é um dever de todos os cidadãos e que é devido à 
abstenção que não existe mudança. Dentro do grupo dos que não votam, estão os anarquistas. 
---- Mas porque é que os anarquistas não votam, afinal? "Certamente será porque o único 
desejo deles é causar o caos e a desordem. Eles não têm posições políticas para além 
disso!", dirá alguém. "Não votam, porque são egoístas e querem uma sociedade onde é cada 
um por si", dirá outro. Ambas as hipóteses estão muito longe da verdade.

Os anarquistas não votam, porque desejam uma sociedade que, através dos mecanismos 
democráticos actualmente existentes, é inalcançável. Pura e simplesmente, não existe 
qualquer partido que possa, através do poder estatal, construir uma sociedade sem estado 
nem capital. Isto confirma-se, porque, primeiro que tudo, dentro de uma democracia 
capitalista é impossível construir-se uma sociedade sem capital, sem que haja uma 
revolução, na qual os trabalhadores tomem controlo dos locais de trabalho e dos bairros. 
Qualquer governo que tentasse construir uma sociedade socialista (com este termo 
entende-se uma sociedade sem classes) dentro de uma democracia burguesa enfrentaria 
imensos obstáculos, e, caso conseguisse ultrapassá-los, teria depois de entregar o poder 
ao povo e auto-extinguir-se. No entanto, o que a história nos mostra é que os governos se 
recusam sempre a fazer isso, preferindo manter-se na sua posição de autoridade, e 
utilizá-la para benefício próprio.

Mas agora haverá alguém a dizer: "Eu bem sabia! Estes anarquistas são todos uns sonhadores 
utópicos! Todas as suas propostas são de coisas impossíveis ou inalcançáveis." Isto, 
novamente, é falso. A proposta de uma sociedade anarquista, sem classes e organizada pelo 
povo em conselhos e assembleias, é perfeitamente realizável. Os trabalhadores têm a força 
necessária para mudar tudo, e construir uma sociedade justa, livre e boa, mas esta força 
depende da sua organização e união. A sociedade que queremos não pode ser alcançada pelo 
voto, mas pode ser alcançada pelo desejo e acção de uma classe trabalhadora unida e ciente 
da sua força comum.

"Isso é tudo muito bom, mas parece-me que estamos muito longe de uma revolução desse 
género. Tendo isso visto, enquanto a revolução não vem, não faria sentido os anarquistas 
votarem no partido cujas posições mais se aproximem às suas?", perguntará alguém. À 
primeira, a resposta a isto será: sim, faz sentido. No entanto, reflectindo mais acerca do 
assunto, verifica-se que a conclusão permanece sendo: o voto é inútil. Existem vários 
factores que fazem com que este seja o caso. O primeiro desses factores é o facto de as 
campanhas eleitorais dos grandes partidos serem financiadas pelos grandes empresários e 
banqueiros - aqueles a que chamamos capitalistas ou burgueses. Estes partidos são grandes 
devido a esse financiamento, que os torna conhecidos e serve para aumentar a sua reputação 
com a população do país, e apenas são financiados porque têm posições que agradam aos 
capitalistas.

Existe uma relação de simbiose entre a classe política e a classe capitalista. A maior 
parte dos políticos, de facto, vem de famílias capitalistas. O grande empresário financia 
o político e ajuda-o a ganhar as eleições, e o político ajuda o empresário passando as 
leis que ele quer, e recapitalizando a sua empresa com largas somas monetárias quando essa 
declara falência. O capitalista não irá financiar ninguém que não o prometer ajudar. Por 
esse motivo, os partidos que não interessam à burguesia quase nunca vencem eleições. 
Muitos são, em vez disso, desconhecidos à vasta maioria dos votantes, e as suas posições 
raramente são vistas. Outros, têm uma base sólida de votantes, mas nunca passa de um 
determinado número, pois os meios de comunicação, que pertencem aos capitalistas, passam 
propaganda contra esses partidos, difamando-os ou tentando criar medo nas mentes das 
pessoas. No caso de um partido que não interesse à burguesia ganhar as eleições, depressa 
surgirão os grandes empresários, prometendo a esses políticos grandes riquezas em troca da 
sua obediência. Foi isso o que sucedeu com o Syriza da Grécia, que, verdade seja dita, nem 
sequer era muito radical. Os mesmos políticos que queriam, supostamente, renegociar a 
dívida de modo a que o pagamento dessa não se baseasse na miséria do trabalhador grego, 
mal chegaram às mesas de negociações, mudaram "misteriosamente" as suas posições, e 
acabaram por aceitar TODAS as exigências da Troika. As suas alegações de que simplesmente 
não era possível a renegociação não passam de mentiras para cobrir a sua colaboração com 
aqueles contra quem prometeram lutar.

No nosso caso português, votar tanto no PS como no PSD/CDS não passa de uma perpetuação 
das mesmas políticas neo-liberais que nos governam - as políticas que já tanto nos 
tiraram, e que nos tencionam tirar ainda mais, para alimentar a ganância infindável do 
capital. Directamente antes das eleições vê-se sempre o mesmo: o actual governo age como 
se fosse afinal muito simpático, enquanto o partido da oposição age como se fosse o total 
oposto daquilo que o outro foi, e daquilo que esse mesmo já foi, antes de ter sido 
retirado do poder pelo outro. É um ciclo. Cada vez que um desses vence, o ciclo continua. 
"Mas então e os outros partidos?", exige alguém saber.

O BE é composto por uma camada da classe média que deseja uma espécie de social-democracia 
com ênfase especial em problemas sociais. Na realidade, se este partido fosse para o 
poder, faria exactamente o mesmo que o seu partido irmão grego, o Syriza, fez: ocupou o 
seu lugar no ciclo, e continuou as políticas dos grandes empresários e banqueiros.

O LIVRE, que promete um sistema democrático mais representativo, apenas faria continuar o 
ciclo, só que com primárias abertas. Já vimos o quão fácil é para o capitalista comprar 
alguém. Mesmo que o LIVRE tentasse implementar uma espécie de democracia directa, a 
existência dessa não seria permitida pelos capitalistas, que fariam tudo o que fosse 
necessário para impedir essa implementação. A coligação AGIR não passa de um grupo de 
políticos oportunistas que apenas desejam enriquecer-se a si mesmos.
O obscuro PNR ocuparia o seu lugar no ciclo, continuando as políticas dos burgueses, mas 
implementando políticas sociais da direita reaccionária.

Quanto à CDU, existem duas hipóteses: ou o partido não passará da actual ideologia 
social-democrata que propagandeia, ou agirá mesmo como um partido marxista-leninista. No 
primeiro caso, a CDU apenas ocuparia o seu lugar no ciclo, como fez o Syriza, só que com 
vocabulário e desculpas diferentes. No segundo caso, que é altamente improvável, a classe 
capitalista faria tudo para o impedir de governar, incluindo provocar uma guerra civil, ou 
provocar uma invasão por uma certa potência estrangeira bem conhecida por invadir países 
com governos marxistas-leninistas. Mesmo que o partido e os seus apoiantes conseguissem 
vencer essas duas ameaças (com o custo de muitas vidas e da devastação do país), o que 
acabaria por suceder seria o que sucedeu a todos os países que já estiveram nesta posição 
(a lista de exemplos é longa): a classe política iria solidificar o seu controlo, criar um 
regime ditatorial onde a riqueza flua em direcção dos altos oficiais do partido, acabar 
com todos os esforços de criar uma sociedade verdadeiramente comunista e, no final, deixar 
o capitalismo lentamente entrar. Assim, vemos que, independentemente de quem votarmos, o 
capital é quem vencerá.

"Então mas isso não quer dizer que estamos condenados? Não quer dizer que nunca irá haver 
mudança a sério? Então afinal o que os anarquistas dizem é que nos devemos resignar e 
submeter-nos voluntariamente e sem resistência à miséria que nos é imposta?" Não. Nunca 
estaremos condenados enquanto haja ar nos nossos pulmões e esperança nos nossos corações! 
"Mas então como é que fazemos?".

Organizamo-nos! Aprendamos que vivemos num sistema onde a classe capitalista vive da nossa 
miséria: é essa a natureza do capitalismo. Aprendamos que sempre será assim enquanto 
existam classes - mesmo num sistema social-democrata existe exploração, e esse estado 
social apenas existirá temporariamente para acalmar os ânimos dos trabalhadores, e que 
após essa tarefa ser cumprida, irá haver sempre uma transição para o neo-liberalismo: o 
sistema ideal da classe capitalista. E aprendamos sobretudo,que a nossa força está na 
união e na solidariedade. Se queremos viver bem, e dar um bom futuro aos nossos filhos e 
netos, temos de nos organizar agora: encontrando outras pessoas descontentes, aprendendo, 
ensinando, formando grupos, assembleias de bairro, sindicatos, associações de classe, 
colectivos de estudantes e lutando contra os avanços e investidas do capital contra nós, 
preparando as condições para a revolução onde iremos mudar a sociedade pela base.

Não votamos porque não temos fé nos políticos. Temos fé em nós mesmos, e na nossa força.

João Morais
*Artigo de opinião de um membro do Núcleo de Lisboa da AIT-SP

Publicado por AIT-SP Núcleo de Lisboa

http://www.ait-sp.blogspot.pt/2015/10/porque-e-que-os-anarquistas-nao-votam.html


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