(pt) Brazil, União Popular Anarquista (UNIPA) - MEMÓRIA - Mulheres que não tiveram tempo para sentir medo: A comandante anarquista Maria Nikiforova

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Domingo, 4 de Outubro de 2015 - 10:47:20 CEST


história do anarquismo é repleta de lutadoras e lutadores dos quais suas vidas dariam 
centenas de filmes recheados de paixão e ação. A vida de Nikiforova não foge disso e, 
apesar de ter sido curta, daria um belo longa-metragem cheio de efeitos especiais e muita 
ação. Porém a história que hoje resgatamos é de uma mulher de carne e osso, que como 
qualquer outro ser humano teve erros e acertos em sua jornada, sendo assim não pintaremos 
aqui a Nikiforova heroína dos camponeses ou muito menos a Nikiforova assassina cruel e 
impiedosa pintada por seus adversários, iremos nos restringir em resgatar o legado da 
mulher, anarquista e comandante militar Maria Grigovena Nikiforova, a qual foi mais 
conhecida pelo codinome Mariucha.

Maria Nikiforava nasceu em Alexandrovsk, atual Zaporizhia, Ucrânia em 1885. Saiu de casa 
aos 16 anos de idade e para se sustentar trabalhou de babá, balconista e operária em uma 
fábrica de bebidas. Ao se tornar operária em uma região que passava por uma crescente 
industrialização ela passou a vivenciar os conflitos sociais que surgiam cotidianamente, 
foi nesse período de agitações políticas que Nikiforova se aproximou e ingressou em um 
grupo anarco-comunista de matriz kropotikiniana que pregava, assim como diversos outros 
grupos que lutavam contra o império russo, a necessidade de expropriações e atentados 
contra governantes e patrões como o caminho para uma ruptura revolucionária. Nikiforova 
então começou a participar de várias ações do grupo e acabou sendo presa em um ataque 
contra o escritório de uma fábrica de máquinas agrícolas em Aleksandrovsk que resultou na 
expropriação de 17.000 rublos e na morte de um guarda.

Em 1908 ela vai a juízo acusada de homicídio e de assalto a mão armada sendo condenada a 
pena de morte. No entanto, a sentença teve de ser alterada para vinte anos de trabalhos 
forçados devido a Mariucha na época ter apenas 20 anos e a maioridade penal no Império 
russo ser de 21 anos. Ela então foi mandada para cumprir sua pena na Sibéria de onde 
conseguiu fugir em 1910. Desse ponto em diante Mariucha roda o mundo passando pelo Japão, 
Estados Unidos, Espanha até que encontra seu paradeiro em Paris no ano de 1913. Na capital 
francesa ela passa a ter uma intensa vida intelectual e cultural, começando a ter aulas 
com o escultor Auguste Rodin. Também foi lá que construiu uma grande amizade com o futuro 
comandante bolchevique Vladimir Antonov-Ovseenko e é nesse mesmo período que ela se casou 
com o anarquista polonês Witold Brzostek.

A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa

Porém, logo essa vida razoavelmente tranquila de Mariucha chegou ao fim com o início da 
Primeira Guerra Mundial, pois ela optou por seguir o posicionamento de Kropotkin e se 
colocou a favor dos Aliados, enquanto Witold Brzostek se posicionou coerentemente contra 
guerra, assim como a maioria dos anarquistas. Porém Mariucha não se contentou em somente 
apoiar em propaganda os Aliados, ela abandonou seu companheiro e se alistou para a Escola 
Francesa de Formação de Oficiais, onde se formou, e em seguida foi enviada para frente de 
Salônica (atual Tessalônica), na Grécia, onde ficou até eclodir a revolução social na Rússia.

Em abril de 1917, chegou a Petrogrado junto com sua amiga e futura ministra bolchevique 
Alexandra Kollontai. No inicio de julho participa da tentativa de invasão do Palácio de 
Inverno que acabou em fracasso e Kollontai foi presa. Em seguida devido a política 
anti-anarquista do governo provisório, ela foi forçada a retornar para sua terra natal 
onde construiu em alguns meses um destacamento armado pró-sovietes que executou oficiais e 
proprietários que faziam resistência contra a revolução em marcha.

Porém, logo a contrarrevolução ganha força com o apoio militar do Exército Branco e a 
agrupação de Nikiforova acabou encurralada em Alexandrovsk que encontrava-se sitiada. 
Nesse período o Exército Vermelho estava invadido a Ucrânia e contava com apoio dos 
camponeses do sudoeste da Ucrânia que foram às armas liderados pelo anarquista 
revolucionário Nestor Makhno, que logo constituíram um grande exército, batizado de 
Exército Negro fazendo simbolismo direto a cor da bandeira negra do anarquismo. E foi 
graças a união militar entre os Exércitos Vermelho e Negro que em 15 de janeiro de 1918 a 
reação foi varrida de Alexandrovsk e Nikiforova se salva novamente junto com seu 
destacamento. É nesse episódio que Nikiforova e Makhno se encontram pela primeira vez e 
logo se aproximam motivados pelo entendimento comum do anarquismo.

Com a chegada da agrupação de Makhno os anarquistas ficam em vantagem numéricas em relação 
aos bolcheviques e ganham representação dentro do comitê revolucionário na cidade. Makhno 
como titular e Mariucha como adjunta. Porém, logo Makhno percebe o aparelhamento 
burocrático que os bolcheviques impuseram para evitar o controle popular da região e 
resolve abandonar o cargo. Nikiforova decide continuar junto aos bolcheviques e fala ao 
camarada Makhno que ele com esta postura ignorava os ideais anarquistas.

A realidade foi que quando Makhno e Mariucha se encontraram os dois estavam caminhando em 
rumos opostos no campo do anarquismo, Nikiforova nadava a favor da corrente estando 
plenamente de acordo com a teoria anarco-comunista de Kropotkin, que propunha que o papel 
dos anarquistas não era de estar junto ao povo na sua libertação, mas sim o de 
propagandear e de conscientizá-lo de que deveria se libertar. Já Nestor Makhno nadava 
contra a corrente do revisionismo, mesmo que inconsciente, pois fazia a critica as 
debilidades práticas geradas pela teoria anarco-comunista fazendo o resgate do anarquismo 
revolucionário proposto por Mikhail Bakunin. Afirmava que os anarquistas deveriam se 
colocar a frente do processo e disputar de igual pra igual os rumos da revolução. Enquanto 
Nikiforova afirmava que:

"Os anarquistas não estão prometendo nada a ninguém. Os anarquistas só desejam que as 
pessoas sejam conscientes de sua situação e de que são donos de si mesmos para aproveitar 
a liberdade."

Makhno afirmava:

"Sem disciplina a vanguarda revolucionária não pode existir, porque então ela se 
encontrará em completa desunião prática e será incapaz de formular as tarefas do momento, 
de cumprir o papel de iniciadora que dela esperam as massas."

O estranhamento inicial de Nikiforova ao posicionamento de Makhno e a confiança depositada 
nos bolcheviques reflete não só a desorientação pela qual passava o movimento anarquista 
na Rússia, mas também no mundo. No caso de Mariucha se justificava ainda mais pelo fato de 
em diversos momentos de sua vida ter atuado várias vezes em conjunto com os comunistas e 
por possuir relações fraternas com atuais lideranças do partido, como Alexandra Kollontai 
e Vladimir Antonov-Ovseenko. Essa experiência prática estabelecia um laço de confiança. 
Além de ter sido influenciada pela posição passiva de Kropotkin, ela também foi 
influenciada pelas ideias conciliadoras do anarquista polonês Apollon Karelin que 
incentivou a participação dos anarquistas em instituições do estado soviético com o plano 
de, a longo prazo, direcioná-lo para uma agenda anarquista.

As posições de Nikiforova e Makhno expressavam explicitamente duas posições antagônicas 
dentro do anarquismo: uma que dizia que os anarquistas deveriam atuar apenas como 
apoiadores de maneira a estimular a consciência popular rumo ao socialismo sem estado; e 
outra que dizia que os anarquistas deveriam atuar enquanto linha de frente do processo 
revolucionário disputando-o. A divergência dessas duas concepções esteve presente durante 
todo o processo da revolução russa e perdura até hoje.

Por um breve período Nikiforova comandou um destacamento armado operando sob a bandeira da 
autoridade soviética sendo abastecida militarmente pelo comando bolchevique. Por sua vez, 
Makhno se dedicou a expandir sua influência na região e aumentar o efetivo do exército 
negro que já contava com aproximadamente 20 mil combatentes nesse período. Ambos atuaram 
militarmente em conjunto na região no combate ao Exército Branco, pró-Czar e Ocidente, com 
a diferença de que o destacamento de Mariucha era subordinado ao alto comando dos Exército 
Vermelho.

Essa posição de subordinação começa a ser percebida e aos poucos a critica de Makhno 
passar a ter cada vez mais sentido. Neste período Mariucha percebe como sua atuação 
fortalecida a centralização da política bolchevique centrada no exército vermelho. Em 26 
de fevereiro de 1919 Mariúcha liderou uma ação conjunta com a guarda negra e um 
destacamento do Exército vermelho na tomada de Kamensk onde ela rendeu uma tropa alemã. 
Depois inesperadamente entregou todo armamento apreendido ao Exército Negro de Makhno como 
forma de reconciliação.

Por essa insubordinação ela acabou sendo presa por ordem do soviete local sendo 
transferida para Moscou sob a falsa acusação de motim e saques na cidade, ficando detida 
na prisão de Butyrki (onde Makhno tinha passado alguns anos). Logo ganhou o direito de 
responder em liberdade graças a intervenção do bolchevique Antonov Oyvseyenko e do 
anarco-comunista polonês Apollon Karelin (na época membro governo soviético) que se 
comprometeram em garantir o seu bom comportamento na condicional. Nikiforova foi julgada 
pelo governo soviético sob a acusação de insubordinação e motim, sendo absolvida no 
primeiro julgamento graças aos soldados vermelhos que testemunharam em sua defesa e também 
a intervenção de Antonov Oyvseyenko que telegrafou uma carta elogiando suas atividades 
revolucionárias a serviço do governo soviético. No entanto, foi imposto um novo julgamento 
sem dar direito de defesa legal e Mariucha foi proibida de ocupar um cargo político e 
militar durante um ano.

Então ela retorna para o sudoeste da Ucrânia que agora era uma região autônoma sob 
controle total do Exército Negro Makhnovista que a recebe de braços abertos. Makhno decide 
não desobedecer a sentença e não lhe nomeia para uma posição no Exército Negro para não 
pôr em risco a paz com os bolcheviques, e então ela passa a atuar sem "cargos formais", 
fazendo atividades de ação e propaganda. Em seu livro de memórias Makhno lembra do 
episódio do julgamento:

"Devemos dizer a verdade: os bolcheviques são bons na fabricação de mentiras e de toda 
sorte de vilania contra os outros(...) É por isso que as autoridades bolcheviques 
ucranianas apressaram-se em agir contra a anarquista Nikiforova, a fim de encontrara-la 
juntamente com seus destacamento no Exército vermelho."

Nesse período o clima já vinha tenso entre Makhnovistas e bolcheviques, pois em julho de 
1918 houve uma deserção em massa de 40 mil soldados do Exército Vermelho na Crimeia, 
devido uma campanha de agitação anarquista. Alguns membros do alto comando bolchevique 
haviam começado uma campanha ideológica acusando os anarquistas de serem bandidos e 
contrarrevolucionários. No entanto, a perda do efetivo militar liderado por Nikiforova, a 
grande agitação anarquista desmascarando o seu julgamento e a execução de sete 
Makhnovistas ordenada pelos bolcheviques foram os reais motivos para o Exército Vermelho 
iniciar uma ação militar com objetivo de eliminar os anarquistas da Rússia e continuar a 
centralização do poder em Moscou sob controle dos bolcheviques.

A intenção de aniquilação dos adversários políticos pode ser visto no seguinte telegrama 
emitido por Leon Trotsky:

"Presidente RVSR LD Trotsky Conselho Militar Revolucionário do segundo exército ucraniano

3 de junho de 1919

1. O objetivo primordial do 2º Exército ucraniano é a destruição da organização militar 
dos makhnovistas, sendo que este problema deverá ser resolvido no mais tardar até 15 de junho.

2. Para esse efeito, com a assistência do Conselho Militar 2º Exército ucraniano 
imediatamente abrimos ampla agitação contra a Makhnovshchina para preparar a opinião 
pública, do exército e das massas trabalhadoras para a eliminação completa do exército de 
Makhno.

3. Emissão de dinheiro, munições e de todo equipamento para Sede militar para Cessar 
Makhno imediatamente e completamente sob pena de responsabilidade direta da mesma.

4. Como força militar para eliminar a Makhnovshchina e consolidar a área de 
extrema-direita da frente sul, em primeiro lugar está prevista: regimentos de cavalaria, 
regimento de infantaria, um destacamento de cadetes em trem e um destacamento especial.

5. Para área de Makhno deve ser imediatamente enviados trabalhadores qualificados e 
experientes para exploração de um impacto correspondente na opinião dos soldados e 
camponeses, que hoje estão sujeitos à influência da Makhnovshchina.

6. A Eliminação da Makhnovshchina deve ser levada a cabo com determinação e firmeza e sem 
demora ou hesitação. "

A ordem de Trotsky deve-se ao fato de que boa parte dos soldados vermelhos e dirigentes 
bolcheviques da Ucrânia viam o território livre dos makhnovistas como exemplo de 
organização autônoma dos trabalhadores, do autogoverno das trabalhadoras e trabalhadores. 
Era, portanto, perigosa para intenções de centralização de poder a partir de Moscou por 
parte dos bolcheviques. Essa visão se confirma nos relatórios das fiscalizações realizadas 
por representantes do próprio governo soviético.

A ação de eliminação do exército negro ordenada pelo líder do Exército Vermelho foi 
colocada em prática traiçoeiramente. Os bolcheviques aproveitam uma nova ofensiva militar 
do Exército branco contra o território livre e forjaram falsas acusações contra os 
sovietes da região e lançam uma ofensiva militar com o objetivo de varrer o anarquismo da 
Ucrânia. Então os makhnoviastas são atacados de um lado pelos Brancos e do outro pelo 
Exército Vermelho. Para dar resposta ao cerco Mariucha recebeu 250 mil rubros para iniciar 
uma guerra clandestina nos territórios inimigos através de três células terroristas 
compostas por membros do setor de contraespionagem makhnovista e por anarquistas de Moscou 
trazidos por seu companheiro, Witold Bzhostek .

O primeiro grupo foi enviado à Sibéria para explodir o quartel-general dos Brancos e foram 
eliminados. O segundo grupo foi para o norte de Kharkov explodindo uma bomba na reunião do 
Comitê do Partido Bolchevique de Moscou matando 12 e ferindo 55 membros proeminentes do 
partido. O terceiro grupo (o qual pertencia Mariúcha e Bzhostek) foi para Crimeia com a 
intenção de explodir a sede do líder do exército nacionalista ucraniano do sul da Rússia.

Porém em 11 de agosto de 1919 Mariúcha e seu marido são capturados sendo fuzilados no dia 
16 de setembro de 1919. De acordo com repórteres durante o julgamento Mariúcha teve uma 
atitude desafiadora e só se emocionou momentaneamente quando disse adeus a seu companheiro 
Witold Bzhostek. Enquanto Mariucha tombava junto com Bzhostek, na Ucrânia seus camaradas 
realizavam uma façanha histórica ao expulsarem Brancos e vermelhos de seu território.

A saga dessa grande lutadora prossegue viva. Uma lenda camponesa diz: Mariucha se levanta 
de sua tumba para matar os tiranos e impor a justiça na terra. Essa tal lenda de uma 
guerreira imortal se justifica pelo fato de que em diversos conflitos armados na região, 
várias mulheres resgataram sua memória utilizando o codinome Mariucha. Porém, o legado de 
Nikiforova permanece obscuro na história da revolução russa e do anarquismo até hoje. 
Mesmo ela tendo uma atuação singular sendo a única mulher no comando de um exército dos 
mais ativos naquele período de defesa da revolução. São poucos os regastes feitos sobre 
sua vida. E desses poucos, uma boa parte se limita a explorar especulações desnecessárias 
sobre sua sexualidade ou até mesmo sobre sua sanidade mental.

Maria Nikiforova foi uma mulher que em pleno início do século XX lutou ombro a ombro com 
companheiras e companheiros enfrentando de igual pra igual os inimigos no campo de 
batalha. Mariucha foi uma mulher que não precisou nem de aval de marido, de espaços 
segregados ou do Estado. Sua história é maior que as calúnias e as especulações oportunistas.

Não Esquecemos, Não Perdoamos!
Mariucha Vive!

https://uniaoanarquista.wordpress.com/2015/09/30/memoria-mulheres-que-nao-tiveram-tempo-para-sentir-medo-a-comandante-anarquista-maria-nikiforova/


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