(pt) anarkismo.net: 20 anos a enraizar anarquismo by Federação Anarquista Gaúcha - FAGanarkismo.net: 20 anos a enraizar anarquismo by Federação Anarquista Gaúcha - FAG

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Domingo, 29 de Novembro de 2015 - 15:30:56 CET


Entre os dias 20, 21, 22 e 23 de novembro a FAG/CAB realizaram um conjunto de atividades 
programadas para as comemorações do 20° aniversario de vida militante desta organização 
política anarquista. Foram momentos de fraternidade libertária, de debates e cultura 
política, afirmação da concepção especifista para as lutas de classe e dos povos 
oprimidos. Onde o emotivo também fez sua presença. Brindaram gerações que não tem visto 
cansados seus esforços. Trocaram experiências, aportes e solidariedades delegações de 
distintas partes do Brasil, América Latina, Europa e Estados Unidos. ---- Um plenário 
sindical de militantes da CAB tomou lugar para fazer planos e afiar as ferramentas de luta 
no movimento dos trabalhadores. As companheiras fizeram seu debate no dia 22. Como 
contexto geral uma feira libertária em praça pública com charlas diversas, livros e 
materiais de propaganda, teatro e música popular. Dia 23 uma reunião internacional de 
delegações para firmar pactos de apoio mútuo, discutir elementos de concepção para um 
anarquismo forte politicamente e inserto nas lutas sociais, gerar internacionalismo desde 
as conjunturas concretas e as estruturas do poder que tocam nossos povos.

O Ato Público se fez num teatro cheio no coração do centro de Porto Alegre. Entre os 
oradores a FAU, a FAR, o cancioneiro popular libertário e "rompidiomas" de Chito de Melo. 
Por fim a palavra de CAB e FAG. Ambiente muito concentrado no que era exprimido pelos 
oradores e com uma emoção que não disfarçava as alegrias e as recordações do caminho 
percorrido até aqui. Cartas de adesões vindas de muitos lugares, sopros de generosa 
saudação a este momento tão especial. Saúdos em própria voz de Alternativa Libertária da 
França, Alternativa Libertária/FdCA da Itália, Federação Anarquista Rosa Negra dos Estados 
Unidos, Grupo Via Libre da Colômbia, núcleo sul do Congresso Comunista Libertário do 
Chile. No encerramento do Ato, um desfecho simbólico marcado de lenços vermelho e negros 
ao som de A Internacional.

Entre os dias 20, 21, 22 e 23 de novembro a FAG/CAB realizaram um conjunto de atividades 
programadas para as comemorações do 20° aniversario de vida militante desta organização 
política anarquista. Foram momentos de fraternidade libertária, de debates e cultura 
política, afirmação da concepção especifista para as lutas de classe e dos povos 
oprimidos. Onde o emotivo também fez sua presença. Brindaram gerações que não tem visto 
cansados seus esforços. Trocaram experiências, aportes e solidariedades delegações de 
distintas partes do Brasil, América Latina, Europa e Estados Unidos.

Um plenário sindical de militantes da CAB tomou lugar para fazer planos e afiar as 
ferramentas de luta no movimento dos trabalhadores. As companheiras fizeram seu debate no 
dia 22. Como contexto geral uma feira libertária em praça pública com charlas diversas, 
livros e materiais de propaganda, teatro e música popular. Dia 23 uma reunião 
internacional de delegações para firmar pactos de apoio mútuo, discutir elementos de 
concepção para um anarquismo forte politicamente e inserto nas lutas sociais, gerar 
internacionalismo desde as conjunturas concretas e as estruturas do poder que tocam nossos 
povos.

O Ato Público se fez num teatro cheio no coração do centro de Porto Alegre. Entre os 
oradores a FAU, a FAR, o cancioneiro popular libertário e "rompidiomas" de Chito de Melo. 
Por fim a palavra de CAB e FAG. Ambiente muito concentrado no que era exprimido pelos 
oradores e com uma emoção que não disfarçava as alegrias e as recordações do caminho 
percorrido até aqui. Cartas de adesões vindas de muitos lugares, sopros de generosa 
saudação a este momento tão especial. Saúdos em própria voz de Alternativa Libertária da 
França, Alternativa Libertária/FdCA da Itália, Federação Anarquista Rosa Negra dos Estados 
Unidos, Grupo Via Libre da Colômbia, núcleo sul do Congresso Comunista Libertário do 
Chile. No encerramento do Ato, um desfecho simbólico marcado de lenços vermelho e negros 
ao som de A Internacional.

Aqui reproduzimos os textos de apoio dos oradores do ATO:

DISCURSO DA COORDENAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA - CAB

ATO 20 ANOS DA FAG
Porto Alegre, 21 de novembro de 2015.

A CAB faz sua saudação a este Ato Público que se realiza quando cumpre 20 anos a nossa 
Federação Anarquista Gaúcha.

Não se trata de uma trajetória militante isolada num canto do país, digamos de passagem. 
São 20 anos percebidos dentro das coordenadas de uma construção nacional e de um vivo e 
incansável trabalho pra fortalecer a resistência libertária num marco regional 
latino-americano. Internacionalismo que se faz desde o pedaço de mundo que nos toca atuar, 
que não ignora, em nome de um cosmopolitismo de propaganda, o complexo e específico 
processo histórico-cultural que nos conforma como região. Projeto onde cooperaram muitas 
mãos, culturas e sotaques brasileiros, do qual a FAG é uma das expressões.

A Coordenação Anarquista Brasileira pretende ser uma ferramenta de união militante, escola 
de lutas e capacidade política para atuar em contextos históricos concretos. Nos 
reconhecemos como parte somada na caminhada das rebeldias que vem de baixo, das lutas 
insurgentes contra as relações de dominação, os dispositivos e estruturas opressivas que 
atravessam nossa formação social. O Anarquismo não é a "planta exótica" que sugeriu o 
discurso do poder quando se referia ao brasileiro como um povo dócil, estranho aos 
conflitos. Antes que um setor do movimento operário levantasse a ideologia anarquista como 
sua bandeira de combate anti-sistema, aqui deixaram seu caudal de resistência e liberdade 
as lutas indígenas, quilombolas e populares contra o escravismo-colonial.

A formação da ordem burguesa, do mercado capitalista, do Estado nacional e das ideias, 
valores e crenças que produzem a norma onde se reconhece o "povo brasileiro", foram 
construídos pela guerra social sancionada pelos vencedores. Tem o sangue rebelde que 
peleou batalhas contra o genocídio, a escravidão, o saque e a violência colonialista, a 
propriedade da terra, o racismo de estado até chegar nas formas da exploração do trabalho 
assalariado no regime das fábricas.

Mais que comemorar os 20 anos de vida da FAG, o Anarquismo brasileiro comemora 20 anos de 
um projeto militante que faz luta e organização com as classes oprimidas e com as cores de 
nosso povo. História peleada que não começa com a gente e também não termina conosco. 
Jornada que tem seus passos, tropeços, provas e ajustes e que na modéstia e com firmeza 
afia ferramentas para um posto de combate libertário. Criar um mundo novo que tem que ser 
peleado hoje, com meios que se articulam ao cotidiano, inseparável das noções de um 
imaginário radical carregado de socialismo e liberdade.

Esse lugar no mundo, com tantas riquezas naturais e culturais, de formação mestiça, 
contrasta com desigualdades brutais que reservam os privilégios e o poder político e 
econômico para uma fração das classes dominantes associadas com a estrutura do 
imperialismo. Sociedade marcada por estruturas de dominação que operam pelas classes, pelo 
racismo e por toda sorte de violências que segregam e oprimem. Dispositivos de poder que 
classificam na vida cotidiana os sujeitos de direitos, selecionados pela competição 
perversa do mercado, e os sujeitos de exceção governados pelo Estado penal. Pesa forte na 
nossa formação social uma ideologia que normaliza tanta miséria e injustiça, dor e 
tragédia de setores populares jogados ao azar, convivendo ao lado de tanta ganância, 
soberba e impunidade ostentada pelos de cima.

***
Compas:

A narrativa triunfalista do crescimento econômico, do pacto social feito com os capitais 
com vocação "desenvolvimentista" pra fazer crescer o bolo nacional e ajeitar um lado pros 
mais pobres, veio abaixo. A locomotiva da desapropriação de bens e produção de commodities 
minerais e agrícolas para o mercado freiou com a desaceleração da China. Todo o frenesi 
das mega-obras e da especulação imobiliária foi desmanchado pós-copa pelo escândalos de 
propinas e os esquemas que sangraram a Petrobras para o benefício do empresariado e das 
campanhas eleitorais. O novo setor dos trabalhadores integrados, pela lógica financeira, 
no mercado de consumo, vê subitamente as dívidas, o aumento dos preços e o desemprego 
cobrarem caro pela fantasia de "nova classe média" que vendeu o governo. O que se chamou 
entre analistas de distintas lentes de neo-desenvolvimentismo foi um vôo de galinha que 
mal começou bater as asas e despencou.

O cenário recessivo mundial toca o país. Desde o começo do ano está em cena um ajuste 
violento contra o povo, representado por um pacote de medidas que corta direitos 
adquiridos dos trabalhadores, aumenta os preços administrados pelo Estado que atingem o 
custo de vida das massas e arrocha o orçamento público e do seguro social para pagar os 
juros dos agiotas da dívida pública.

O sistema financeiro reforça seus controles sobre os gastos públicos. Seus quadros ocupam 
setores privilegiados na máquina do Estado, constituindo uma equipe blindada junto a 
Joaquim Levy, formada nas idéias da escola de Chicago. O cassino global especula com a 
fome dos povos ao converter alimentos em commodities no mercado capitalista e ao torná-los 
derivados financeiros. Os juros adotados pelo COPOM causa um impacto bilionário na dívida 
pública, gerando lucros fantásticos ao capitalismo rentista e dando a essas corporações um 
poder privado sobre os recursos nacionais. As montadoras transnacionais usam de milhares 
de demissões e do expediente das férias coletivas para ajustar seus planos ao novo 
cenário. A patronal força por mais flexibilização do trabalho com a lei das 
terceirizações. O Programa de Proteção do Emprego ofusca uma bandeira histórica do 
movimento operário condicionando a redução de jornada com redução de salários, financiados 
com fundos do FAT- Fundo de Amparo ao Trabalhador.

Como dissemos: uma conjuntura de deterioração acelerada do modelo de pacto social e de 
políticas residuais de ajuda social dos setores populares integrados pelo mercado de 
crédito e pelo consumo e do modelo de geração de empregos precários vinculados ao regime 
flexível das obras e serviços.

O desfecho do segundo turno das eleições presidenciais de novembro de 2014 ligaram o 
alerta para um escandaloso estelionato eleitoral em curso manobrado pelo governo reeleito. 
Foram enterrados os votos do "menos pior" ou a esperança das regiões mais pobres de que os 
direitos, o trabalho e condições de vida não seriam castigados pela recessão. O segundo 
mandato de Dilma, ao longo do ano, afundou o modelo de controle social que vinha se 
corroendo pelo tempo junto com a calamidade da situação internacional e evoluiu, 
violentamente, para as pautas da austeridade, das barganhas da direita alugada e a 
precarização dos direitos trabalhistas reclamados pela ofensiva patronal.

Ao lado do desengano dos seus eleitores, agrega-se o impacto no imaginário social dos 
escândalos das redes de corrupção que as investigações da Policia Federal com a operação 
Lava Jato tem apurado. O espólio e o saque de recursos da Petrobrás pelas redes do poder 
político e econômico colocam em evidência conexões corruptas que capturam banqueiros, 
políticos de todas as cores e empresários que controlam os capitais que festejaram como 
ninguém o crescimento atribuído aos melhores anos da administração do PT. A rigor, estão 
todos de rabo preso. Esse é o sistema corrupto e criminal dos de cima, assim funciona suas 
estruturas fundamentais e assim agem seus operadores privilegiados. No entanto, é o PT em 
particular que recebe os holofotes por ser a autoridade máxima na gestão da máquina. A 
"corrupção" representada sob um viés moralista possibilita o oportunismo da direita 
opositora. Também é o artifício de pressão das oligarquias aliadas ao governismo. Por sua 
vez, os monopólios informativos tiram partido dessa situação para livrar uma luta 
ideológica implacável contra toda cultura de esquerda, atacando movimentos populares, 
direitos sociais, trabalhistas e bens públicos.

O discurso da estabilidade dos últimos vinte anos, produtor de sentido das relações do 
sujeito com o governo e as instituições e enquanto técnica de controle da vida das massas, 
sofre uma pressão desestabilizadora. Foi a prática do PT no governo de coalizão junto do 
PMDB que afundou este modelo. Em princípio foi o refresco, foi o fator político de um 
pacto de classes que desarmou o antagonismo social ao sistema. Agora é o fator detonador 
que frustrou as expectativas que vinham por esquerda, e ao se acomodar às estruturas de 
poder, jogou água no moinho da direita. Cooptou as utopias de parte da esquerda do Fora 
FHC e dos Fóruns Sociais Mundiais capturando pelas instituições de Estado a força social 
dos de baixo, desorganizou e fragmentou a classe trabalhadora e os setores oprimidos. Por 
correlação deu lugar, voz, gabinetes, verbas e lugar pro coro reacionário gritar em massa 
na ruas e jogar na confusão setores populares.

A tragédia é que as decepções, os fracassos e as capitulações ao modus operandi do sistema 
ativaram um recalque coletivo que conduz a um rebaixamento das expectativas gerais da 
sociedade com a política. Deixa lastro ideológico para os discursos de ódio que fazem 
aparecer rebentos de fascismo na classe média ou de fundamentalismos religiosos entre os 
populares.

Mensalão, petrolão, cortes de direitos sociais, privatização de infraestrutura e reservas, 
"Plano de Desinvestimento da Petrobras", jogam definitivamente o PT na vala comum da 
política burguesa e produzem uma dilatação confusa e ambígua dos sentidos de esquerda e 
direita. A cena política privilegia as luzes e as sombras de um discurso polarizador que 
seleciona e narra os acontecimentos conforme uma lógica binária que exclui o desejo e os 
interesses das maiorias. Temos uma disputa mais feroz entre setores das elites dirigentes 
e as classes dominantes pela direção da máquina do Estado. Não é rigorosamente uma luta de 
classes, onde se enfrentam setores populares contra a burguesia e seus conexos. É uma luta 
de poder entre vizinhos do mesmo condomínio particular, que jogam seus efeitos de 
subjetivação no povo ao qual se reserva historicamente, quando muito, a área de serviços.

Os setores populares do país vêm sentindo cada vez mais os efeitos dessa conjuntura de 
aumento do custo de vida, de recortes nos benefícios sociais, falta de água e luz, 
desemprego, crise urbana e ambiental. A deterioração do governismo e do sistema político 
está agravando o desencanto com o modelo capitalista brasileiro. A insatisfação cresce por 
todos os lados e em alguns momentos chega a derramar pra fora dos velhos recipientes, das 
normas e das regras que o sistema reserva para sua canalização.

As jornadas de junho de 2013 puseram a insatisfação social e distintas e as vezes 
controversas demandas de setores populares e médios nas ruas. Abriram um espaço de 
indeterminação na política nacional ao fugir das regras dos conchavos oligárquicos, dos 
lobbies corporativos e os acordões entre partidos que formam o expediente normal da 
governabilidade. Por alguns momentos, correram por fora do jogo do poder capturado pelas 
instituições burguesas, formas sociais de protesto, de rechaço e saturação do sistema que 
escaparam do monopólio oficial da luta política, romperam o preto no branco e fizeram 
vazão de um imaginário social que é irredutível a polarização das elites.

Nos rastros do alegórico discurso de melhoria na condição de vida dos brasileiros 
apresentados nos programas de propaganda da gestão Petista vem à tona a dor dos povos 
desterrados, das mães que choram os filhos vítimas do racismo da cadeia e do extermínio, 
os moradores despejados de suas casas, os atingidos pela sanha predadora das empreiteiras 
e mineradoras, os trabalhadores estafados pelo regime de exploração, a juventude revoltada 
com seus horizontes negados.

Há poucos dias atrás fomos golpeados com a notícia da maior tragédia sócio-ambiental da 
história recente do Brasil. Ainda neste mês, 5 de novembro de 2015, o distrito de Bento 
Rodrigues em Mariana, interior de Minas Gerais, foi literalmente soterrado de lama tóxica 
depois do rompimento de duas barragens de rejeitos operada pela mineradora Samarco, 
propriedade das empresas Vale e BHP. As imagens são espantosas. Um povoado inteiro 
arrasado, dezenas de mortos e desaparecidos, entre elas crianças, cerca de 700 famílias 
desabrigadas, destruição da infraestrutura de bens e serviços públicos, contaminação 
irreparável do meio ambiente, e danos a toda a bacia do rio doce que abastecia a região, 
da terra cultivada pelos trabalhadores do campo. Afetando também cidades do Espirito Santo 
segundo estimativas de técnicos cerca de 3.000 km2 no litoral norte e uns 7.000 km2 no 
litoral ao sul, atingindo três Unidades de Conservação marinhas do território capixaba. Os 
estudos preliminares indicam alta concentração de metais pesados no meio ambiente, pois 
amostras de água coletada, por exemplo, apontam um índice de 1 milhão e trezentos mil por 
cento acima do tolerável.

Os rastros de morte que avançaram de Mariana ao Espírito Santo pra nada se referem a uma 
fatalidade natural. Tragédia que tem a marca tóxica e repugnante de seus proprietários. Do 
arranjo burocrático-corporativo que viola as licenças ambientais, que desrespeita a vida e 
os bens comuns para o deleite dos seus acionistas. O poder voraz e assassino do 
capitalismo extrativista escreve mais uma página da ação predadora e ecocida do sistema.

Em outro lugar do país, região centro oeste, estado do Mato Grosso do Sul, ao crescimento 
da produção da carne, da soja e da cana as cadeias do agronegócio fazem prospecção de 
negócios com a invasão violenta dos territórios indígenas Guarani e Kaiowá, Terena e 
Kadiwéu. O discurso de ódio das oligarquias se traduz em um repertório de ações atrozes 
sobre esses povos. Assassinatos e emboscadas, pulverização de veneno sobre as terras e 
águas da aldeia, cerco armado sobre os locais de conflito, mortes de crianças por fome e 
inanição. Em fins de agosto Semião Vilharva, kaiowá, foi assassinado com uma bala na 
cabeça de calibre 22 em mais um ataque de pistoleiros a soldo do ruralismo. A policia e a 
justiça são coniventes, aparelhos articulados na mesma estrutura do poder dominante.

Nos últimos 12 anos foram assassinados 390 indígenas no estado e 586 se suicidaram. 
Contabilidade sinistra do genocídio, produção de commodities para o mercado global com o 
sangue de um massacre covarde e implacável sobre os povos originários. Fatura da classe 
ruralista e da especulação financeira sobre a fome dos povos pelo modelo mortal e imundo 
do agronegócio.

No nordeste brasileiro, no último dia 12 de novembro, a chacina da Messejana, periferia de 
Fortaleza, deixou 11 mortos e vários feridos. Destes 10 jovens e metade menores de idade. 
Os moradores contam que policiais fardados agiram durante a madrugada, invadindo casas e 
arrastando as vítimas. Execução sumária da policia que dizem ter sido motivada por 
represália a morte de um soldado, durante assalto. No princípio do ano os policiais da 
Rondesp da Bahia, depois de executarem 12 jovens na chacina da Cabula em Salvador, foram 
estupidamente agraciados pelo governo estadual e ganharam a impunidade da justiça.

Em Osasco, mês de agosto, a chacina acabou com a vida de 19 pessoas. Noite de terror na 
periferia paulista acossada pela fúria sanguinária do grupo de extermínio da policia 
militar. Por regra geral, pobres e negros são o alvo.

Das mais de 56 mil mortes por homicídio no Brasil divulgada pelo Mapa da Violência de 2014 
mais da metade são de jovens e destes 77% são jovens negros. O sistema prisional tem cerca 
de 600 mil presos e destes maioria jovem e quase 70% são negros. A polícia militar do RJ 
responde por 15% dos assassinatos do estado. O extermínio da juventude negra volta a 
apontar o Estado como uma máquina de matar, arrebentar, punir e prender os de baixo.

Em fins de outubro uma mobilização de mais de 5 mil companheiras ganhou a Cinelândia no 
Rio de Janeiro para dar luta contra um projeto de lei que corre no congresso nacional para 
modificar o atendimento de mulheres vítimas de violência sexual. O projeto de autoria do 
presidente da câmara Eduardo Cunha ataca os direitos femininos e criminaliza o aborto da 
gestação que resulta do estupro. O protesto se espalhou em várias capitais do país. A 
violência contra mulheres em 2013 registrou uma média de 13 homicídios por dia. A cada 1 
hora e 50 minutos uma mulher é assassinada nesse país, a quinta posição do feminicídio 
mundial. Entre as negras um aumento de 54% dos homicídios em 10 anos. Números que 
certamente não podem mensurar todo o universo de violências sexuais e simbólicas a que 
estão sujeitas. Essas micro relações do poder reproduzem e conservam uma ordem 
sociocultural que oprime debaixo do patriarcado mais da metade da sociedade.

O capitalismo brasileiro tem avançado a passos largos para a terceirização e junto com ela 
o trabalho precário e mais vulnerável ao poder dos patrões, o aumento dos acidentes de 
trabalho. De cada 10 acidentes 8 são de terceirizados. Acrescenta-se jornadas esticadas 
por horas extras, salários baixos e repressão da organização de classe nos locais de 
trabalho. Violências de classe que estão codificadas nas técnicas e nos modos de gestão da 
força produtiva dos trabalhadores, poder que mata, mutila e invalida. O discurso da 
economia dominando como valor supremo, que faz da tragédia operária de todos os dias mola 
propulsora do crescimento capitalista.

Extrativismo depredador do meio ambiente, dos modos de vida e parasita dos bens comuns. 
Genocídio indígena. Encarceramento e extermínio da juventude e do povo negro. Violência 
estrutural sobre as mulheres. Regime de precarização dos trabalhadores. Ajustes que cortam 
fundo na carne do povo. Lei antiterrorismo que amordaça a ação direta popular e faz a 
"segurança jurídica" dos abutres do sistema capitalista. A formação social brasileira 
produz sujeitos historicamente (des)qualificados como bucha de canhão. Toda uma produção 
subjetiva que age nas relações sociais e que funciona pela rotina das instituições, 
naturaliza a tragédia social e sofrimento dos de baixo e faz dos privilégios e das 
posições de controle na hierarquia social um prêmio pra quem "merece". A democracia que 
promete o sistema é a verdade cruel e traçante de quem joga nas regras do seu mecanismo de 
seleção. Os direitos para quem tem o mérito de tê-los. Punição para quem não aceita, de 
uma ou outra forma, o jogo da injustiça e a brutalidade: os desajustados, os indesejáveis.

O Brasil não tem saída a curto prazo que não venha pela mão dos concertos que vem de cima, 
do palco do sistema corrupto da democracia burguesa, do golpe do ajuste na carne do povo 
que cobram as classes dominantes. Tampouco das velhas fórmulas de frente popular das 
burocracias do sindicalismo e dos movimentos sociais atados ao governismo. Mas a luta de 
classes e dos povos oprimidos terá vazão com ou sem o PT e qualquer especulação que 
possamos fazer sobre o futuro do governo da república. As estruturas do poder dominante o 
ajoelharam e o fizeram jogar nas suas regras, como um partido da ordem, um personagem que 
se equivale com todos os outros no balcão de negócios da moeda podre do sistema.

O ajuste do Governo Dilma tem previsão de um corte de 32 bilhões em 2016 que atinge a 
saúde, a educação, moradia, programas sociais e os trabalhadores dos setores públicos. No 
congresso nacional, avançam as pautas de restrição de direitos das mulheres e da livre 
orientação sexual, violação dos territórios indígenas e quilombolas, desmonte da 
legislação ambiental para as mineradoras, a infame Lei Anti-terrorismo cobrada pelo 
sistema financeiro. Estados e municípios sangram o orçamento dos serviços públicos para 
pagar a dívidas infames.

E o povo reage!!!! Os petroleiros pelejam com greve contra a venda de ativos da Petrobrás 
e o leilão de campos de exploração ao capital transnacional.
Em São paulo até o momento mais de 70 escolas foram ocupadas por estudantes e professores 
contra a reforma do ensino do governo do PSDB que fecha 94 escolas e atinge a educação de 
cerca de 300 mil alunos.

Os trabalhadores da Usiminas fazem luta pelas táticas de ação direta ao plano de 8 mil 
demissões anunciado pela empresa.
Em Cubatão a resistência operária e a disposição de não ceder os empregos e enfrentar a 
patronal pela greve foi severamente reprimida pela polícia e coagida a volta ao trabalho.

As marchas contra o genocídio do povo negro ganham expressão em várias partes do país.

Os sem teto ocupam terrenos e prédios.

Camponeses, indígenas e quilombolas lutam sem trégua pela terra e contra o complexo do 
agronegócio, das mineradoras e as mega-obras de infraestrutura e energia como o da Belo Monte.
Teimosos das famílias de pescadores tradicionais e dos pequenos agricultores do 5o 
distrito de São João da Barra no RJ que resistem as remoções que beneficiariam o complexo 
logístico do Porto do Açu terminal do maior mineroduto do mundo que rouba minério de ferro 
do solo da cidade Conceição do Mato Dentro MG, rasgando a vida de 33 municípios em 
mineiros e fluminenses desembocando matéria-prima pro capital transnacional.

A CAB não faz aposta no quanto pior melhor da mesma forma que não cai na armadilha do 
menos pior. Nossa concepção anarquista parte das resistências que produz esse drama 
cotidiano, encontra seus modos de ser no antagonismo ao sistema, como ideologia que 
conjuga liberdade, justiça e apoio mútuo na experiência diária desses combates. Toma a 
ferramenta da organização política em articulação com as dinâmicas das lutas sociais, 
aprende, elabora e se une com elas. Não faz exercício diletante no alto da torre vigilante 
dos princípios puros e estáticos. Desafiado a arriscar suas críticas, propostas e ações no 
interior dos problemas que tocam os oprimidos, as classes trabalhadoras e os setores 
populares, a autodeterminação dos povos, os direitos étnicos-culturais, das mulheres e da 
diversidade sexual, a ecologia social e a defesa dos bens comuns.

Como já dissemos: somos partidários de um programa de lutas pra construir um povo forte, 
que não troque sua independência de classe por cargos, favores ou razões governistas. Como 
pequena mas resoluta forças de combate ao lado dos oprimidos continuaremos como sempre nas 
lutas que vem de baixo, fora do governo e da colaboração com os patrões. E vamos construir 
resistência junto com quem luta por soluções práticas, sem renunciar nossa intenção 
libertária e socialista, com o sentimento de que nada podemos esperar que não seja de nós 
mesmos.

Ir tecendo pelas práticas da democracia de base e o federalismo, por dentro do 
sindicalismo classista e dos movimentos populares, a rede de solidariedade que seja vetor 
de uma frente dos oprimidos. Desenvolver a musculatura de um povo forte pela ação direta 
popular. Gerar a cultura e os valores de um mundo novo pelo exercício das formas de poder 
popular que vem de baixo.

Contra o ajuste econômico e
a criminalização do protesto e da pobreza.
A rebeldia não se ajusta.
Sempre com os que lutam.
Lutar e criar Poder Popular.

DISCURSO DA FAG

Boa noite companheiros e companheiras

Estas últimas semanas têm sido muito especiais para nós anarquistas da FAG. Receber 
companheiros e companheiras de distintas partes do Brasil, da América Latina e do mundo 
para juntos celebrarmos um pedacinho dessa rica história do anarquismo, nos enche de 
alegria! Aqui encerramos um ciclo para começarmos um novo. Um ciclo de maior organização; 
de maior firmeza em nossos vínculos e em nossos laços de fraternidade e solidariedade; de 
reafirmar a luta, o protagonismo popular e a transformação revolucionária das nossas 
relações e da nossa sociedade como os únicos caminhos fecundos para romper definitivamente 
as amarras desse sistema sanguinário que nos oprime todos os dias.
São 20 anos de construção anarquista nacional. São 20 anos de FAG, de OSL, de FAO, de CAB, 
de FARPA, de Rusga Libertária, de CALC, de FARJ, de CABN, de ORL, de FACA, de OASL e de 
muitos outros que com seus esforços vem forjando anarquismo militante, classista, com 
raízes na história de combate do nosso povo. Duas décadas cultivando raízes anarquistas 
para que floresça bela e forte o poder do povo, o Poder Popular.

Na ocasião do Ato Público de 10 anos da FAG dizíamos:

"Nascemos porque morreram homens como Mikail Bakunin, Errico Malatesta, Nestor Makhno, 
Sepé Tiaraju, Zumbi dos Palmares. Nascemos porque morreram mulheres como Espertirina 
Martins, Malvina Tavares, Anastácia, Anita Garibaldi e tantos outros e outras anônimas ou 
não que morreram defendendo a justiça e a liberdade.

Nascemos pelas mesmas mãos que o anarquista Djalma Feterman usou para atirar uma bomba 
disfarçada de buquê de flores, que carregava a também anarquista Espertirina Martins com 
seus 15 anos de idade, na carga de cavalaria da Brigada Militar durante a Guerra dos 
Braços Cruzados em 1917.

Nascemos pelas mesmas mãos que pegaram em armas no Uruguai, enfrentaram a ditadura, foram 
torturados e presos, porém, não desistiram: já completaram meio século e foram decisivos 
para a formação da FAG neste canto do Brasil: assim foi o apoio generoso da FAU, presente 
conosco hoje e sempre.

Nascemos e renascemos todos os dias pelas mesmas mãos das pessoas simples, gente humilde, 
que nas suas mãos, carregam as marcas de ser parte dos de Baixo.

Dizem por ai que pobre vive de teimoso. Foi por teimosia que a FAG nasceu. É por teimosia 
que continuamos vivos e lutando e vamos completar mais dez anos insistindo em dizer que é 
somente o povo organizado e em luta que vai conseguir conquistar tudo o que precisa e quer."

E aqui estamos companheiros e companheiras, 10 anos depois, cumprindo e dando continuidade 
a um Compromisso, a uma Idéia, a uma Prática: O SOCIALISMO COM LIBERDADE!!!

Não tem sido tarefa fácil. Nossa busca tem sido sempre a de fazer do anarquismo uma 
ferramenta atual e à altura das diferentes conjunturas que nos toca viver e atuar. Uma 
ferramenta dinâmica, que nos permita ampliar coletivamente as forças que individualmente 
seriam muito limitadas; um anarquismo militante e organizado que construa junto, ao lado 
dos de baixo, propostas concretas contra os ataques dos de cima. Um anarquismo prático, 
dotado de táticas e de um programa mínimo e, ao mesmo tempo, uma anarquismo finalista, 
dotado de um programa estratégico e de longo prazo. No fim e ao cabo, um anarquismo 
político que contra e por fora do Estado solucione o problema do Poder, do que colocar no 
lugar das instituições burocráticas, centralistas e autoritárias do Sistema de Dominação 
Capitalista.

Um anarquismo Federalista, Autogestionário, que produza com suas práticas, métodos, 
críticas e experiências, uma ideologia de transformação. Sem vanguardismos, ditaduras 
ditas proletárias, vocação pra partido único. Pois não se trata de fazer da Política a 
tarefa de conduzir um Estado, seja ele qual for, em nome das classes oprimidas para daí 
impor a nossa vontade enquanto povo às classes dominantes. Trata-se de fazer da Política a 
tarefa de construir um Povo Forte, com seus instrumentos, instituições, ferramentas que 
vão gestando o novo na medida em que vão golpeando e destruindo o velho. Colocaremos no 
lugar do Estado e de seus aparatos as instituições das classes oprimidas, construídas 
desde baixo, articuladas e coordenadas entre si.

Como já escrevemos em outro momento,

É certo que o trânsito até uma sociedade distinta deve ser feito dentro deste sistema. Mas 
a experiência vivida indica que existem meios, orientações, uso de instrumentos, de 
instituições e formas de organização de atividades sociais que devem ser dispensados se 
queremos ir conformando forças sociais capazes de produzir verdadeiras mudanças nas formas 
da organização social. É imprescindível outro enfoque se queremos ir construindo uma 
sociedade distinta. Não parece ser boa estratégia escolher aquelas vias, aqueles lugares e 
trajetos que tem dono e o poder de imprimir seu selo ao que ali entra. Quantas 
organizações políticas, quantos lutadores cheios de ideais e sonhos terminaram pensando 
com a lógica do sistema e vendo como inimigos a seus queridos companheiros de ontem.

Outro sujeito histórico não virá do nada, não aparecerá como arte de magia, deve ser o 
fruto de práticas que internalizem outras questões que chocam com o dominante. A 
participação efetiva, a autogestão, a ação direta, a forma federal de funcionamento 
realmente democrático, a solidariedade e apoio mútuo, necessitam de mecanismos, 
organizações, práticas regulares para seu desenvolvimento. E só se produzida no povo é que 
a mudança se tornará uma realidade.

Uma estratégia que tenha em seu interior um mundo distinto que vai emergindo desde o seio 
de outro que lhe é antagônico. O famoso "usar todos os meios" pode ser uma maneira efetiva 
de assegurar que não se construa nenhuma estratégia antagônica portadora dos elementos de 
desestruturação do sistema vigente.

Relacionado a isso, está a necessidade de forjar um inconfundível estilo de trabalho.

Um estilo de trabalho também é elemento da produção ideológica, se define como um modo 
especial do fazer político-social em todos os seus atos, no discurso, no comportamento de 
grupo, nas relações entre companheiros e com a sociedade, nos planos de ação, etc.. A 
ideologia libertária se materializa, é produzida e reproduzida, entre outras coisas, nessa 
forma estimulada de representar seus valores, sua ética e aspirações nas práticas de todos 
os dias. Assim, o estilo de trabalho que marcamos nos processos de luta e organização, em 
uma boa medida, vai dizer quem somos pelo que fazemos, como fazemos, com que coerência 
ideológica estão formados nossos atos de organização militante.
Reconhecer entre iguais a dignidade do outro, como irmãos na luta e no projeto para mudar 
a sociedade, sempre será a base da estrutura e das normas jurídicas que constituem um 
pacto federativo. A fraternidade que permeia um projeto militante dá o vínculo moral 
fundamental para formação das relações de confiança. E a política, como apontam as 
investigações teóricas que temos estudado, tem suas razões e suas sem razões. Não é só 
feita de escolhas racionais, tem boas doses de conteúdo sensível, está atravessada pelas 
formações ideológicas que constituem o sujeito.

Está em jogo uma pedagogia do exemplo, a forja de referências a partir daquilo que 
fazemos, pelos valores que veiculamos em nossas práticas, e nas nossas ações diárias.

O estilo pra promover nessa perspectiva deve produzir: iniciativa pras tarefas, 
responsabilidade plena com os mandatos coletivos, resoluta solidariedade, pedagogia do 
exemplo, liderança moral, maturidade para crítica, exigência fraterna, preocupação formativa.

São esses alguns dos desafios a que nos propomos todos os dias ao participarmos do 
movimento sindical, do movimento estudantil, na militância nos bairros, vilas e favelas; 
nas lutas urbanas, contra as violências de gênero e raça; no campo e na floresta e em toda 
ação de solidariedade aos enfrentamentos da diversidade dos sujeitos que compõe as classes 
oprimidas. UNIR O DISPERSO, ORGANIZAR O DESORGANIZADO, SOLIDARIEDADE É MAIS DO QUE PALAVRA 
ESCRITA, RODEAR DE SOLIDARIEDADE OS QUE LUTAM, são algumas consignas que expressam bem de 
que transformação social estamos falando.

Porque é mais importante para nós CRIAR UM POVO FORTE do que UM PARTIDO FORTE. Uma nova 
articulação entre o POLÍTICO e o SOCIAL, como dois planos de ação simultânea e devidamente 
articulados. Mas cada um com sua independência relativa, com sua própria especificidade. 
Somos assim partidários de um trabalho simultâneo, dentro de um mesmo projeto: da 
organização política libertária e do trabalho em todo o campo social.

Esse é o nosso especifismo, essas são as bases da nossa construção.

E que Base precisamos para esses tempos difíceis em que estamos vivendo. Já vivemos épocas 
difíceis, pois quem não se lembra do ataque aos profesores, aos catadores e aos sem terra 
no governo Yeda do PSDB, em que o sempre presente Elton Brum da Silva foi assassinado com 
um tiro de calibre 12 pelas costas pela Brigada Militar? Ano em que tivemos nossa sede 
pública invadida e companheiros procesados. Quem não se lembra dos 10 mil gaseificados, 
das balas de borracha, das pauladas, da violência psicológica e da nova invasão de nossa 
sede pública assim como de casas de outros lutadores sociais na jornada de lutas de 2013 
durante e sob as ordens do governo Tarso Genro do PT? Ano em que companheiros foram 
procesados, presos e criminalizados em processos judiciais políticos e ideológicos.

2013 merece nossa consideração a parte, pois foi um ano intenso e atípico para nossa 
militância. Participamos desde o inicio das jornadas de luta por um transporte 100% 
público em Porto Alegre. Construímos juntos e em unidade com outros setores da esquerda o 
Bloco de Lutas pelo transporte público e fizemos días memoráveis lado a lado de milhares 
de lutadores. Não poderia ser diferente. Assim, Porto Alegre formou parte de um processo 
nacional de lutas que brindou novos elementos para nossa análise. Diziamos na ocasião de 
nosso 6º Congresso:

"O povo fez dias de luta no país que se fizeram irreprimíveis em junho. A luta por um 
transporte público coletivo, que é organizada por militantes de esquerda de um movimento 
social que leva anos, e a indignação com relação aos altos gastos na Copa das 
Confederações em detrimento de outras áreas como saúde, educação, etc.; deu vez a um 
turbilhão de demandas que latejavam na vida neurótica, precária e estafante dos setores 
médios e populares. Grande parte da geração jovem e combativa que forma as mobilizações de 
massa dessa hora cresceu nos últimos 10 anos de governos do PT e encarna a expressão 
conflitiva e saturada do seu modelo capitalista de crescimento econômico.

Traz na bagagem a confusão e as incertezas que se gestam numa nova experiência com a 
política, com um imaginário nos protestos que sacodem o mundo, muito apoiada aos modos de 
interação e reconhecimento social que produzem as novas tecnologias de comunicação. O povo 
em conceito amplo não opõe classe contra classe e joga na cena dos acontecimentos uma 
disputa de ideias, de valores e projeto social para atuar criticamente, com uma concepção 
classista em dia com a formação social brasileira dos tempos que vivemos. Contudo, não 
temos dúvidas que o movimento que vem debaixo é o terreno mais fértil para fazer luta de 
classes, construir democracia direta e desenvolver músculos para uma estratégia de poder 
popular.

Na gestação dessa nova correlação de forças a luta contra o aumento das tarifas do 
transporte coletivo é a expressão mais articulada de uma avalanche de sentimentos e 
demandas reprimidas que extrapolam os controles dominantes da sociedade brasileira.

As chamadas jornadas de junho e julho foram, portanto, expressão do descontentamento com o 
quadro acima descrito. Indicam, por sua composição, magnitude e mesmo pelas formas com que 
foram convocadas em algumas cidades, mudanças e elementos a tomar em consideração na hora 
de concebermos uma estratégia própria daqui pra frente."

Levando em consideração estes e outros elementos, procuramos caracterizar o período (a 
etapa) em que estávamos entrando como uma ETAPA DE RESISTÊNCIA COM VIÉS COMBATIVO. Por 
este conceito, sem referência com velhos esquemas que sugerem um traçado reto e linear do 
processo social-histórico, quisemos representar um cenário político para os fatores de 
cambio social e os elementos característicos de uma correlação de forças na sociedade.

"A luta das classes oprimidas e do projeto socialista passa uma etapa de refluxo, de 
restruturação dos meios organizativos, de ações dispersas e fragmentárias que não alcançam 
formar um conjunto com elementos ideológicos e programáticos que façam um antagonismo 
forte ao sistema. Uma parte importante dos setores populares, das organizações e 
sindicatos, embarcam nas velhas promessas do crescimento econômico e se curvam para as 
ideias do neodesenvolvimentismo. Há uma crise de movimento social, de organizações de 
base, de forças acumuladas pela luta que superem atos espontâneos e alcancem a ação 
federada. Estão seriamente ajuizadas pela história recente as estratégias de esquerda que 
buscam mudanças sociais por dentro das instituições funcionais as relações do poder 
dominante. O tempo é de divisão de águas, ajuste de lentes para pensar as condições e 
possibilidades da relação de forças do momento. Exige capacidade de inserção de um projeto 
finalista revolucionário no interior dos problemas e conflitos deste presente histórico. 
Trabalho de base entre as demandas populares que não são absorvidas pelos controles do 
modelo capitalista, na direção de um povo forte, de práticas de ruptura que favoreçam a 
construção histórica de um sujeito antagonista as estruturas do capitalismo."

Neste sentido concreto e operativo que aplicamos esta categoria para fazer baliza de 
condições e possibilidades de nossa prática política. Contudo, tinham emergência na cena 
dos acontecimentos históricos, ventos novos que nos provocaram uma leitura mais matizada, 
elementos conflitivos com certo peso ideológico que indicavam abertura para um passo 
diferente. Percebíamos a possibilidade de uma acumulação de forças combativas que até 
então estava fora de nosso panorama.

Deriva daí nossa aposta estratégica expressa no conceito de intersetorial dos combativos:

"vamos operar nesta etapa com uma proposta militante para ligar o espectro das lutas 
sociais que confrontam com o modelo dominante do capitalismo brasileiro com um programa 
mínimo de soluções populares. Ajudar na forja de unidade de baixo pra cima, criar um povo 
forte que imponha na cena nacional uma nova correlação de forças pra aplicar um projeto de 
transformação social.

Nessa linha atravessa o trabalho metódico e determinado de radicar nossas posições 
libertárias em organizações de base, em sindicatos, coletivos e movimentos sociais que 
serão nosso vetor social. Mas vai além. Implica fazer uma costura com outros setores 
sociais e políticos que atuam também onde não alcançamos, não pisamos, pra formar um campo 
de alianças dentro de princípios e acordos que fortaleçam uma posição de força para a 
independência de classe. Que favoreça, concorra e apoie a gestação de uma nova estrutura 
de massas, catalizadora do poder social das classes oprimidas, articulada pelas bases, que 
não se integre nas vias burocráticas dos controles institucionais burgueses."
Desde então muita água rolou. Entramos no ano de 2015 e novos elementos se apresentaram na 
conjuntura do RS. O eleito ao governo estadual, o gringo José Ivo Sartori do PMDB, veio 
para aprofundar os ataques aos direitos e condições de vida dos de baixo. Aprovou um 
pacote de medidas que cortou fundo na carne do povo oprimido em benefício da manutenção 
dos privilégios e lucros de governos e patrões. Parcelou salários do funcionalismo 
estadual, quis extinguir orgãos públicos fundamentais à pesquisa e preservação ambientais 
e cortou verbas de áreas imprescindíveis aos trabalhadores como as de saúde e educação. 
Sem falar na sua brigada militar que segue matando a juventude negra e pobre nas periferias.

"Ao lado do ajuste que saca dinheiro dos hospitais e postos de saúde, das escolas, 
programas sociais, da ampliação do espaço comum e da rede de serviços públicos que 
aumentam bem estar e condições de vida do povo, é martelada diariamente, sobretudo pela 
voz do grupo RBS, a bandeira da segurança. O grupo de comunicação que é bom pagador de 
propina pra sonegação fiscal, dono de um patrimônio que figura na lista seleta das elites 
gaúchas, avaliza o ajuste e faz campanha de terror e medo pra reclamar mais segurança. Aí 
está! Segurança é um discurso que dá sentido e faz funcionar um poder de controle e 
vigilância que institui a paz para a vida normal do sistema e dos bem nascidos e que 
instala a guerra que pune e criminaliza a pobreza. A segurança que ecoa fundo nas 
preocupações das elites e da classe média é a que sempre reforça a violência policial 
sobre as "classes perigosas".

"Faltam recursos porque os capitalistas reservam os privilégios e os lucros para suas 
propriedades e estouram as contas públicas nas costas do povo. Todo um sistema de pilhagem 
que funciona pelo mecanismo da dívida pública, que espreme o patrimônio construído pelos 
trabalhadores, que desmonta e privatiza bens públicos e produz um discurso econômico 
liberalóide de déficit e responsabilidade fiscal. Os partidos de governo se sucedem sempre 
dentro desta ordem: uma camisa de forças do sistema que todos vestem. O PT subscreveu os 
contratos com o Banco Mundial durante o governo Yeda Crusius que ampliou o poder do 
sistema financeiro sobre o controle dos gastos públicos. Na sua vez no Piratini, Tarso 
Genro teve que amargar a pena de devedor do Piso Nacional do magistério."

Um contexto em que frente aos ataques dos de cima, houve luta e resistência dos de baixo.

"Uma série de setores sociais dão fôlego a seus processos de mobilização e indicam a 
disposição de luta para dar combate a lógica imposta pelos de cima que precariza a vida do 
povo. Diversas mobilizações e ações de rua que no nosso entendimento contribuem para o 
fortalecimento da organização, capacidade de enfrentamento e acúmulo de forças dos de 
baixo para o próximo período. Experiências como as greves em curso, os piquetes, as 
manifestações de rua, o diálogo com a população e os cortes da via pública em todo o 
Estado são ensaios de um processo que não termina aqui."

Infelizmente, as burocracias sindicais fizeram de tudo para frear os ânimos e conduzir as 
rebeldias populares para a arena institucional de seus partidos da ordem. O desespero e a 
indignação dos trabalhadores frente a essa política de austeridade não encontraram eco e 
canais adequados para a promoção de uma luta sem trégua que alterasse a correlação de 
forças em seu favor. Acelerar pisando no freio e manter o controle e a ordem das ações de 
base das categorias foram e são marcas de uma concepção sindical burocratizada e 
verticalizada que não se movimenta no sentido de organizar e dar impulso a disposição de 
luta da base.

A mobilização do funcionalismo público estadual, em especial os trabalhadores em educação 
gaúchos, é um exemplo emblemático dos resultados nefastos de tal concepção sindical. 
Deslegitimar e isolar as iniciativas combativas de setores de base; apostar numa greve 
unificada com setores da repressão; fazer da categoria base de apoio a politicagem de seus 
deputados na Assembléia Legislativa; promover fragmentadas paralisações para fingir que 
faz pressão nos políticos de turno ao invés de promover, organizar e favorecer uma greve 
por tempo indeterminado com a solidariedade e participação dos estudantes e das 
comunidades para dar uma resposta a altura dos desmandos do governo; são alguns dos feitos 
responsáveis pela desmobilização de uma categoria que há anos não se mobilizava como se 
mobilizou.

E como não seria diferente...

"Nessa conjuntura, a criminalização veio forte. Por lutar, rodoviários da Carris em 
solidariedade a paralisação estadual do dia 03/08 foram demitidos, e os servidores 
municipais da Assistência Social e da Saúde de São Leopoldo-RS sofreram processo de 
criminalização judicial. Esses são nítidos exemplos de perseguição política e sindical e é 
emblemático o caso da Carris em que os demitidos são militantes sindicais que tiveram seu 
direito ao trabalho anulado.

E ainda sobre o aparato repressivo

Duas prisões na capital durante uma Manifestação de trabalhadores da Educação vinculados 
ao Cpers. Além desse fato, cabe destacar a intimidação realizada pela "segurança" nos 
piquetes no Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF) e o assassinato, pelas costas, 
de um jovem negro no Morro Santa Tereza, em Porto Alegre. Esses são nítidos indícios de 
que a repressão nunca estará ao lado dos trabalhadores e dos de baixo e que seu papel é de 
repressão aos que lutam e de extermínio da juventude negra e pobre das periferias.
"Nem com os que mandam por cima, nem com os que reprimem por baixo!" diziamos.

Nacionalmente, uma conjuntura de intensificação nos ataques aos direitos dos 
trabalhadores, do golpe dos ajuste fiscal que corta na carne e no bolso dos de baixo para 
manter os privilégios e os lucros dos de cima, de aumento da violencia contra as mulheres, 
em especial as mulheres negras, de retrocesso nos processos de demarcação das terras 
indígenas e quilombolas; de aumento da criminalização da pobreza e do protesto; de cortes 
de verbas na educação e de forte investida de setores conservadores contra uma educação 
transformadora; de lei dita "anti-terrorista" mas que na verdade é uma lei contra os 
movimentos sociais. Tudo isso no marco de um lastro político e ideológico de desarme 
organizativo das classes oprimidas deixados por 12 anos de governo petista. Esses são 
alguns dos elementos atuais que precisamos ter em conta na hora de atuar.

Um novo ciclo também parece se abrir na politicagem e nas disputas entre vizinhos de um 
mesmo condominio, o dos de cima. Uma nova descontinuidade que vai reelaborar elementos 
gestados no pasado recente para manter a dominação político, económica e ideológica de 
sempre. Assim, afiar os nossos instrumentos para uma conjuntura e quem sabe uma etapa mais 
peleada para os de baixo é demanda permanente. Nossa FAG e nossa CAB estará ai! Assim como 
estarão ai nossa FAU, nossa FAR e todos os nossos companheiros e companheiras que de cima 
a baixo de nossa América Latina e de todos os outros continentes vem construindo processos 
de luta e organização.

São curdos, africanos, norte americanos, mapuches, kaingang, chilenos, uruguaios, 
argentinos, brasileiros, quechuas, palestinos, gregos, guaranis, espanhóis, zapatistas, 
entre tantos outros povos, os que lutam, se erguem contra as opressões, forjam exemplos, 
inscrevem pelas suas práticas, referências! É sobre todos que a criminalização se coloca. 
É assim, uma luta que deve ser feita em conjunto e a partir da diversidade de lutas, de 
combate as opressões e dominações que cada segmento dos de baixo levanta!

É porque não esquecemos os milhares de Eltons, de Claúdias, de Amarildos, de Zumbis, de 
Dandaras, de Elenas, de Pochos, de Idilios, de Espertirinas, de Hebers, de Louises, de 
Lucys, de Polidoros, de Domingos, de Emmas, de Marias Lacerdas e de tantos outros homens e 
mulheres inscritos em nossa memória com seus exemplos de luta e resistência que ESTAMOS AQUÍ!

E AQUÍ ESTAREMOS ATÉ O FIM DESSE SISTEMA DESUMANO E CRUEL CHAMADO CAPITALISMO!

QUE VENHAM MAIS 20, 30, 50, 100 ANOS A ENRAIZAR ANARQUISMO!!!

NÃO TÁ MORTO QUEM PELEIA!

VIVA A FAG, VIVA A CAB!

VIVA A ANARQUIA!!!

Related Link: http://www.facebook.com/FederacaoAnarquistaGaucha

http://www.anarkismo.net/article/28775


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