(pt) anarkismo.net: O Brasil em transe reacionário: a luta das mulheres e os neoconservadores by BrunoL

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Sexta-Feira, 13 de Novembro de 2015 - 18:03:16 CET


Introdução ---- Neste texto, uma mescla de análise de conjuntura da crise política 
envolvendo o presidente da Câmara Eduardo Cunha (PDMB-RJ) e trazendo o tema da luta das 
mulheres como a massificada mobilização permanente das políticas de reconhecimento, trago 
uma proposta de análise relacional. Começo relatando de forma sintética aspectos da reação 
midiático-simbólica ao conteúdo do exame do ENEM de 2015 e culmino observando as pautas 
conservadoras e obscuras capitaneadas pela bancada neoconservadora em sua frente 
político-religiosa (cujos líderes são representantes neopentecostais). ---- Em São Paulo 
assim como em dezenas de outras cidades, repetem-se marchas de mulheres contra a reação 
neoconservadora e neopentecostal. ---- O país que está à direita do ENEM ---- No fim de 
semana de 20 e 21 de outubro, o país realizou o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

Nesta avaliação universal que pode dar acesso a universidades públicas e privadas, ao 
menos três questões chamaram a atenção da direita mais ideológica. Destas, a que mais 
chamara atenção da UDN pós-moderna e o novo obscurantismo na era da internet partiu de uma 
frase consagrada da existencialista Simone de Beauvoir: "a mulher não nasce mulher, se 
torna mulher". Outras duas questões tinham como base citações do maior geógrafo da 
história brasileira, Milton Santos, e outra, um poema do líder da libertação de Angola, 
Agostinho Neto. Atenderam ao ENEM mais de sete milhões de pessoas, a imensa maioria 
composta de jovens entre 15 e 20 anos. Assim, ao menos uma boa parcela de estudantes em 
idade formativa esteve exposta a temas políticos fundamentais para a compreensão de temas 
contemporâneos.

A reação não se fez por esperar. Na segunda feira dia 22 de outubro os comentaristas de 
sempre, em escala nacional e nos estados já gritavam acerca do caráter "bolivariano" do 
Exame. Sinceramente, não vi bolivarianismo algum, apenas a sintonia com temas do presente, 
considerando que estamos vivendo há mais de uma década onde há uma sincronia de duas 
tímidas políticas: as compensatórias e as do reconhecimento. Ideologicamente, o pacto do 
lulismo é conservador, e se formos observar em detalhe os dirigentes históricos do PT 
vinculados a este projeto temos uma enorme incidência de gente corrompida, vivendo de 
luxúrias e com estilo vida semelhante aos antigos adversários políticos e inimigos de 
classe quando o ex-sindicalista que segundo ele mesmo nunca foi de esquerda ainda agitava 
a luta dos trabalhadores. Ainda assim as tímidas políticas compensatórias e de 
reconhecimento atiçaram às elites brasileiras ecoando no conservadorismo de toda ordem, 
incluindo a legião de neopentecostais a professar a Teologia da Prosperidade e o 
Conservadorismo Moral. Não tardou para a luta das mulheres passar a ser alvo permanente 
das várias UDNs e TFPs pós-modernas recheando a internet brasileira.

No período logo após o Enem tivemos fatos midiáticos que resultaram em fatos políticos. No 
interior de São Paulo, um promotor chama "Simone de Beauvoir" de "baranga" e relaciona sua 
posição com o fato de ser - em tese e como se isso importasse - pouco atraente aos homens. 
Na mesma sequência, o eterno demente reacionário Danilo Gentili veicula em rede nacional e 
compartilha um de seus comandados fazendo uma verdadeira ode misógina simulando uma 
redação perfeita para tirar 10,0 no Enem. A semana culmina com a postagem de um admirador 
rio-grandense de Gentili fazendo bravatas na internet e agindo como provocador na 1ª Feira 
do Livro Feminista e Autônoma de Porto Alegre.

Esta última provocação fez parte de um enredo ainda mais agressivo que terminara com a 
Brigada Militar tentando retirar as militantes de uma praça que ocupavam para ensaiar 
esquete teatral a ser encenada na Feira do Livro de Porto Alegre no dia 02. Após a covarde 
agressão, a intervenção na Feira do Livro - no centro da capital gaúcha - foi uma marcha 
de resposta e repúdio, sendo que no dia seguinte, 03 de outubro, centenas de mulheres 
foram em marcha ao Palácio Piratini (sede do Poder Executivo estadual) repudiando a 
repressão da polícia militar. Definitivamente, o conflito de 4ª geração no ambiente 
interno de um país está marcado pela condição de postar e distribuir conteúdos de 
distintos formatos e alinhando-se com uma causa ou pela reação a esta causa.

Eduardo Cunha caminha para o cadafalso, mas o transe reacionário continua

Está instaurada pelo Conselho de Ética da Câmara a investigação para apurar se Eduardo 
Cunha (PMDB-RJ) incorreu na quebra de decoro e logo, pode vir a ser cassado pelos pares. 
Tudo bem que o requerimento foi iniciativa das bancadas da REDE e do PSOL, o que de cara 
anuncia escassez de votos, mas isso pode ser usado para acuar ou o cardeal líder do baixo 
clero, ou fazer com que as avançadas pouco republicanas de Cunha coloquem o governo de 
Dilma (ou o que deste resta) contra a parede. Para Lula - agora alvo direto da Operação 
Zelotes através de sua família - tal como era da Lava-Jato - a mesma operação que pegara 
as contas de Cunha na Suíça - isto vem a calhar, obrigando a mídia de porte a tirá-lo um 
pouco da vitrine, apesar das recentes capas das revistas semanais Veja e Época.

Meu temor neste momento não é Cunha cair - se for, já vai tarde de onde nunca deveria 
haver estado - mas justamente esse requerimento operar como uma operação de bombeiro para 
os escândalos do governo. O maior dano já está feito, tanto da parte de Cunha como do 
pacto lulista. O primeiro anuncia em alto e bom som que é contra as políticas 
compensatórias e de reconhecimento promovidas, de forma tímida e por vezes envergonhada, 
pelo pacto do lulismo. Já o próprio pacto, é inclusivo, mas conservador, logo, opera como 
reforço dos valores do sistema, empurrando mais de 40 milhões de brasileiros para o justo 
mundo dos direitos mas também para o universo do capitalismo de consumo suntuoso. Isso sem 
estabelecer as bases de desenvolvimento necessário para alcançar o longo prazo. Resultado: 
agora que o modelo entrou em crise de fim de ciclo, o cinto aperta um pouco e todos nós 
estamos como mareados, mesmo para quem está à esquerda do governo como é o caso deste que 
aqui escreve.

De todas as maneiras, com ou sem o aproveitamento tático por parte do lulismo e de seus 
sócios mais diretos - a banca e as empreiteiras, sócios majoritários de quase todos os 
governos a primeira, e eleitos campeãs nacionais as segundas - somente e tão somente por 
um de seus vários projetos de lei já valeria a pena cassá-lo por oito longos anos e cortar 
a cabeça da serpente de quem tem cara e preparo para falar na Câmara pelo pior do Brasil, 
a Bancada conjunta BBBB (Bíblia-Boi-Bala-Bola). Eduardo Cunha é o autor do Projeto de Lei 
5069 de 2013, alterando a Lei 12,845, que na prática, autoriza a pílula do dia seguinte 
para o caso de estupro. Como a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou o 
andamento do PL de Eduardo Cunha, nós estamos diante de um elogio indireto à violência de 
gênero, autorizativo do aborto na prática.

Com essa e mais uma série de estripulias neoconservadoras - como o modelo de família, a 
campanha contra o que acusam ser a "ideologia de gênero", Eduardo Cunha consegue estar à 
frente de gente do quilate de Marco Feliciano (PSC-SP) e do viúvo da ditadura capitão Jair 
Bolsonaro (PP-RJ). Com esta capacidade de liderança, já tivemos o golpe da PEC da Redução 
da Maioridade Penal através de uma manobra parlamentar digna de um fabricante profissional 
de salsicha (na madrugada de 2 de julho de 2015), além da mesma Emenda haver tramitado já 
positivamente na CCJ do Senado. O mesmo ocorrera com o PL das terceirizações (PL 
4330/2004). Cunha botou para andar a pauta mais horrenda do Brasil e o trator continua 
devastando os direitos constitucionais. A última veio através do genocídio institucional, 
com a aprovação da Comissão Especial de Terras Indígenas a PEC de Omar Serraglio (PMDB-PR) 
que dá a potestade para o parlamento da última definição das terras ancestrais dos povos 
originários.

A atual Legislatura não para por aí. Na 4a dia 28 de outubro, o Senado aprovou o 
substitutivo do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que não exclui o protesto social 
do crime de "terrorismo". Como o texto veio da Câmara com essa especificação - na prática 
garantindo os direitos constitucionais ao protesto social - agora Cunha pode manobrar à 
vontade fortalecendo sua posição de barganha junto ao governo.

O transe reacionário vai continuar e a ex-esquerda já se perdeu pelo caminho

O transe reacionário e inflexão do governo à direita do que fora prometido no segundo 
turno da campanha presidencial de 2014 fez do país um celeiro do pior do conservadorismo 
somado a ataques neoliberais de todos os lados. Para uma política profissional como a 
nossa, Eduardo Cunha torna-se espelho de seus pares. Já o pacto lulista e seus operadores 
líderes, passaram dos limites da quebradeira ideológica, vivendo em propriedades de 
terceiros e com formas de vida nababescas para quem vem de origem assalariada. Nunca a 
esquerda brasileira foi tão refém de seus hábitos, havendo incorporado as malditas formas 
de vida dos antigos adversários e inimigos de classe. Temos um longo caminho pela frente 
para reconstruir a ideia de democracia por esquerda - direta obviamente - e uma luta 
tática importante para confrontar este reacionarismo crescente no país.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28707


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