(pt) anarkismo.net: O Irã e o xadrez curdo by BrunoL

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Segunda-Feira, 25 de Maio de 2015 - 11:25:38 CEST


A cidade de Mahabad é conhecida como a capital do Curdistão iraniano, e hoje opera como o 
epicentro da rebelião popular dos curdos contra a autoridade xiita de Teerã. O Curdistão 
Leste (Rojhelat) viveu um momento de rebelião após o dia 7 de maio quando uma jovem curda 
se atirou do 4º andar de um hotel cinco estrelas onde trabalhava como camareira. O motivo 
do suicídio de Farinaz Xorowanî foi um ato de rebeldia contra agentes da inteligência 
iraniana (Itlaat) que, ao alegar querer interroga-la tentaram forçar um estupro. O 
sacrifício da trabalhadora resultou em rebelião franca e aberta, com as tropas 
anti-distúrbios da província e forças regulares da Guarda Revolucionária do Irã (Pasdaran) 
usando munição letal no meio da rua. Tal episódio, ao contrário de ser uma raridade, é a 
norma de convivência entre o regime dos Aiatolás e a esquerda curda. Nos dias posteriores, 
a polícia política dos aiatolás prendeu mais de 800 militantes sociais curdos, o que 
certamente irá aumentar a estatística regular de assassinados pelo Estado; cerca de cem 
ativistas por ano são enforcados pelas leis do fundamentalismo xiita.
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O suicídio de Farinaz Xorowanî marcou a elevação do conflito no Curdistão Leste e expõe a 
severa repressão que os agentes de Teerã exercem sobre a esquerda curda.

É difícil fazer uma critica contundente do Irã diante da esquerda ocidental. O regime 
fundado por Khomeini opera como um catalisador anti-imperialista, sendo criado para 
desafiar o alinhamento do ex-governante (o tirano pró-Ocidente, Xá Reza Pahlevi) derrubado 
em 1979 através de uma rebelião popular comandada pelos clérigos xiitas. A esquerda que 
restava no Irã passou a ser perseguida em 1981, quando foi expulsa das instâncias do novo 
governo e depois, equivocadamente, viu alguns de seus líderes posicionando-se ao lado de 
Saddam Hussein na guerra Irã-Iraque. Como o Irã vem desafiando tanto EUA como Israel e 
suas pretensões na região, sua imagem é bem recebida pelo progressismo ocidental, talvez 
por um amplo desconhecimento de sua política de controle interno. Assim, no ambiente 
doméstico, o governo de Teerã é tão autoritário quanto os demais da região, embora o 
xiismo seja- de fato - mais institucionalista e previsível do que o integrismo sunita e 
suas redes de terror indiscriminado.

Desde 1979, o governo integrista xiita de Teerã foi responsável pela vitória militar do 
Hezbollah sobre Israel e seus aliados da direita cristã no sul do Líbano e recentemente, 
opera como aliado estratégico do governo de Bashir Al-Assad e o que resta da Síria já sem 
integridade territorial. Uma linha de poder xiita pode ser construída caso a Síria como 
governo formal e não de fato, somado com o controle de Bagdá pelas forças xiitas e todos 
retro-alimentados por Teerã. Para evitar esta malha de influência direta, o sunismo conta 
com as monarquias recheadas de petro-dólares e seus canais de apoio para as duas maiores 
redes integristas a Al-Qaeda e o Daesh (Estado Islâmico). Já as forças à esquerda no 
Oriente Médio dependem totalmente do guarda-chuva de organizações 
políticas-sociais-feministas e militares do PKK. No Irã, a representação do Confederalismo 
Democrático se dá através do PJAK (Partido da Vida Livre no Curdistão), fundado em 2004, 
cuja frente militar é operada pelo HPG (Forças de Defesa Popular).

Os acampamentos do HPG nas montanhas do Curdistão com soberania do governo da direita 
curda (KRG) formam a reserva estratégica da revolução social curda e, uma vez destruídos, 
toda a estrutura sócio-política do PKK por de vir abaixo. No Irã, isto implicaria a 
subordinação definitiva de mais de 14 milhões de curdos, dentro de uma população de 77 
milhões de habitantes, com 50% de xiitas, sendo também relevantes os contingentes étnicos 
de árabes, azeris e turcomenos. Para os aiatolás, derrotar a rebelião curda é vital.

A vitória da esquerda curda em Kobanî (cantão central do Curdistão sírio) alertou para a 
possível necessidade de uma aliança tática no plano militar entre Irã e Turquia. Caso o 
HPG seja derrotado, Ankara e Teerã se livrariam do seu mais poderoso adversário doméstico 
e com influência direta na demarcação de suas fronteiras físicas.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28196


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