(pt) anarkismo.net: Análise de conjuntura abordando especificamente os interesses classistas para este 1º de maio de 2015 by BrunoL

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Quarta-Feira, 6 de Maio de 2015 - 11:19:24 CEST


Abertura - Na semana de 1º de maio de 2015, vivemos um momento ímpar. A classe 
trabalhadora pode estar diante da pior derrota na história recente do país desde a traição 
de João Goulart (quando este optou por não resistir) quando do golpe de 1º de abril de 
1964. O absurdo é estarmos vivendo esta circunstância em função de um governo frágil, que 
fez campanha por esquerda (em especial no 2º turno), ganhou raspando - acertadamente 
polarizando o país - e já entregara quase tudo ainda no ano de 2014. A conjuntura é tensa 
porque esta mudança vinda do Projeto Lei 4330 na prática altera - e para o bem da 
acumulação dos patrões e empregadores, além de rentistas que se beneficiam dos recursos 
coletivos da União - a estrutura das relações de trabalho no Brasil. Logo, quando uma 
conjuntura pode influir de modo estrutural e desestruturante, esta se torna estratégica. 
Eis a arena onde as maiorias brasileiras hoje se encontram.
?
era um racional estado de pânico para a massa assalariada brasileira; as condições de 
resistência estão prejudicadas pelo peleguismo histórico e a adesão governista da última 
década.

O 1o de maio nunca foi tão importante e, ao mesmo tempo, tão frágil

A data de 1o de Maio é o marco do classismo. Os mártires de Chicago enforcados em 1886 
eram operários e anarquistas, e caíram durante o combate pela jornada de 8 horas de 
trabalho diário. Se fossem vivos hoje, a geração pioneira nas Américas peleando em busca 
das jornadas de trabalho ficaria desesperada. Estamos diante de um momento ímpar. Em 2008 
a farsa chamada de crise da bolha imobiliária fez cair por terra os mitos do 
neoliberalismo. Atiraram o planeta em uma perigosa dimensão onde o capital fictício e suas 
condições políticas de existência fizeram valor-trabalho como algo secundário para a 
acumulação de poder na sociedade de massas.

As obrigações dos Estados de capitalismo central jogaram o planeta na vala-comum do 
"austericídio", e a soma de desamparo social com desemprego estrutural modificaram as 
relações de força na Europa. Lá, a velha social-democracia (de fato social-liberal) foi e 
é cúmplice da quebra de Bem-Estar Social; afundando junto com a burocracia dirigente suas 
respectivas bases sindicais. A incapacidade de organizar socialmente da extrema-esquerda 
europeia em organizar socialmente a resistência contra as medidas da Troika (e aí temos de 
cortar na carne ao incluirmos a esquerda libertária) aumentou o vazio de poder de modo a 
criar o espaço de uma social-democracia de fato revivida com instrumentos políticos 
derivados de um trotsquismo oxigenado. Tais exemplos seriam o do Podemos espanhol e o 
Syriza grego. A crise nestas legendas é questão de tempo.

No Brasil, podemos observar algo semelhante. As centrais sindicais governistas perderam o 
poder de bater duro, abstiveram da capacidade de organizar a reivindicação social de base 
classista. Isto se dá mesmo estando diante do que pode ser a maior derrota histórica da 
classe trabalhadora desde o golpe de 1o de abril de 1964. Para culminar o festival de 
absurdos, tal derrota pode vir em plena crise de modelo de crescimento através de política 
anti-cíclica e incentivo ao consumo e ao crédito, e com isso, a crise de legitimidade da 
ex-esquerda, levando a decadência do PT como legenda de centro-esquerda.

Também aqui cabe uma auto-crítica. A esquerda restante, eleitoral ou não, passara os 
últimos dez anos se engalfinhando pelas migalhas de base social não-atrelada ao lulismo ou 
aos pelegos históricos e hoje se mostra incapaz de uma unidade de médio prazo. Se no plano 
eleitoral, a lógica seria uma frente de esquerda, com alianças verticalizadas e repetindo 
a fórmula para poder ter crescimento na urna. Para aqueles setores não-eleitorais (onde me 
incluo), a lógica seria ao menos compartilhar com os setores reformistas radicais tanto 
uma central sindical como uma razoável coordenação de lutas. Tal espaço seria o Conlutas 
ou a Intersindical ou a fusão dos dois, o que jamais ocorreu. Agora o prejuízo é grande, 
enorme.

O momento atual é mais do que grave

Eis que a direita ideológica anda de braços dados com os oligarcas governistas e, também 
atrelada com a oposição da direita que não apoia o governo. Durante a gestão de Eduardo 
Cunha, as pautas reacionárias estão sendo desengavetadas e as maiorias do Brasil foram 
pegas de calças na mão. Ainda na ressaca do 3o turno, entre atos lacerdistas pós-modernos 
e viúvas do golpe, a linha chilena avança com a acumulação flexível e o retrocesso de 
direitos marcado pelo pós-fordismo. Os anos `60 nos EUA terminaram com a ressaca 
conservadora de Nixon e o início da quebra do pacto do New Deal keynesiano. Aqui, parecia 
que jamais teríamos um retrocesso do Bismarckismo tropical, pois 2013 aparentava indicar 
uma nova ascensão de luta direta, marcada à esquerda do lulismo e arrancando vitórias 
históricas pelo Direito à Cidade. O final de junho de 2013 assistiu ao sequestro da pauta 
pelos grupos empresariais de mídia e o Gramsci tão proclamado pelos ex-militantes, 
encarnara sua tese de hegemonia de novo tipo através do twitter dos conglomerados midiáticos.

Hoje vemos o efeito perverso daquela pauta sequestrada e a tentativa de manter os direitos 
adquiridos apesar do 3o turno e das traições sem fim de quem já compôs com o demônio em 
nome sabe-se lá de que incluindo a tal da governabilidade. Este 1o de Maio será realmente 
único, em todos os planos.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28140


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