(pt) anarkismo.net: Ainda na reflexão do momento que vivemos - em busca de uma análise à esquerda do governismo by BrunoL

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Sexta-Feira, 20 de Março de 2015 - 16:07:27 CET


Na semana do 15 de março, a direita que não ganhou nas urnas vai tentar emparedar a 
aliança vitoriosa no segundo turno de 2014. Me parece um fato inegável que o 2o governo 
Dilma, ao menos em seu começo, se apresenta cada vez mais indefensável para aqueles e 
aquelas que ainda se posicionam à esquerda na política. Existe a possibilidade de estarmos 
vendo um conflito entre grupos empresariais com interesses estratégicos no Estado (como as 
empreiteiras flagradas na Lava Jato) e reprodutores da dominação internacional, 
favorecendo - em última instância - a quebra do modelo de exploração do Pré-Sal, arvorando 
que o Brasil não pode ter política industrial e revisando o papel do governo central no 
desenvolvimento capitalista. No meio desse tiroteio, entendo que as esquerdas restantes - 
que não estão no governo - não devem e nem podem baixar a guarda nem diante da tentativa 
de aumento da transnacionalização do sistema produtivo brasileiro e tampouco defendendo o 
governo Dilma e a relação umbilical com o capital brasileiro e com a maldita lógica 
rentista, que consome cerca de 40% ano do orçamento da União para torrar na rolagem da 
dívida pública. Estamos sim sob ataque especulativo, mas isso não implica em alinhamento 
com a direita que está no Planalto e menos ainda com a UDN pós-moderna que convoca a 
ocupação das ruas no 15 de março.
?
A guerrilheira que resistiu a selvageria da tortura a qual foi submetida durante a 
ditadura está anos luz de distância da chefe de Estado que opera o pacto de classes e 
agora comanda o vale-tudo pelo superávit primário.

Dando sequência na análise do tema que incendeia o país no auge do terceiro turno, e 
refletindo a respeito do momento político que o país vive, nos conta da simultaneidade dos 
tempos. Enquanto o capital transnacional mira no Pré-sal, a banca de especuladores quer 
penhorar ainda mais os recursos da 7a economia do mundo. Já a aposta aqui de quem joga 
para virar a mesa no terceiro turno é de que as vísceras do bismarckismo tropical não 
resistem à lupa do Ministério Público Federal. Sinceramente vejo que a UDN tem razão 
(dentro de sua intenção de tentar romper a continuidade do pleito), ainda mais porque sua 
caixa de ressonância é maior. Não houve a mesma sanha quando do propinoduto do metrô de SP 
e menos ainda na CPI do Banestado. Que sirva de lição aos arrependidos daquilo que não 
chegaram a ser. Tivessem liquidado com o legado anterior ao investigar a farra das 
privatizações e hoje estariam em um sistema político distinto. Mas como se dedicaram com 
afinco a tornarem se a versão latino-americana do PSOE (espanhol) acabou enredada como 
seus pares espanhóis. Os custos do governo de coalizão e de chamar a Arena para governar 
são muito elevados, literalmente.

Ainda na reflexão do momento que vivemos - em busca de uma análise à esquerda do 
governismo e bem longe da UDN pós-moderna

Entendo que a as Medidas Provisórias 663 e 664 formam o momento ideal para, em tese, 
travar a unidade sindical necessária no sentido de frear a política econômica que só 
beneficia os rentistas e entrega os recursos coletivos para a Banca. Mas, tal unidade 
sindical não é possível em função da falta de independência de classe das centrais 
governistas. Logo, aí cabe uma auto-crítica, por incapacidade da esquerda sindical 
(eleitoral ou não), não conseguimos o grau de unidade da força de trabalho para construir 
uma ferramenta reivindicável, como era a CUT (mesmo com todas as suas mazelas), nos anos '80.

Por outro lado, embora as centrais governistas, como CTB e a CUT, estejam na obrigação de 
lutarem por direitos fundamentais e a acertada bandeira da Convenção 158 da OIT (que na 
prática aumenta a estabilidade do emprego no setor privado), tudo soa como manobra 
diversionista, mais para atenuar o isolamento do 2o governo Dilma do que necessariamente 
se posicionar como organismo de defesa de classe, ou de classes assalariadas. O mesmo se 
dá, e aí com ainda maior tristeza, com o MST, Via Campesina e movimentos aliados. 
Infelizmente, a tese infeliz do governo em disputa continua.

Há disputa sim, mas entre o Agronegócio (representando pelo JBS-Friboi) e o latifúndio 
(representado por Kátia Abreu, ministra do Agro). Também há disputa - esta mais tênue - 
entre setores industriais e o capital financeiro, com o 2o governo Dilma atenuando a linha 
Bismarckista e fortalecendo a "opção preferencial pelos bancos e especuladores". Este país 
torou 45% do orçamento executado pela União em 2014 com a rolagem da eterna dívida 
pública. Ou seja, em termos materiais concretos, não há motivos para um golpe de 3o turno. 
Em termos ideológicos e de botim do capital transnacional, sim há. E, sendo este governo 
totalmente indefensável, é urgente uma aliança sindical-social de defesa dos direitos 
conquistados e ao menos garantia das políticas públicas estabelecidas. Março está sendo um 
mês bastante tenso, e, qualquer semelhança com o período anterior a agosto de 1954, não é 
nenhuma coincidência.

Análise final do país antes do ataque de nervos

Estamos diante de um período onde o imponderável pode atuar. E, como tal, atos políticos 
insignificantes como o "panelaço" de domingo pode ganhar um vulto superior ao fato em si. 
O problema do governo de coalizão por direita é que a direita que perdera nas urnas pode 
capitalizar mesmo na luta contra o arrocho e o pacotaço de Levy e cia. É uma condição 
inequívoca: os setores que não defenderem os interesses diretos atingidos pela meta de 
bater superávit a qualquer custo vão perder legitimidade (a que resta) e acabar por 
fortalecer a outra direita. A cancha está aberta.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28011


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