(pt) anarkismo.net: O congresso do PT que nada decidiu a não ser manter os mesmos rumos sem rumo by BrunoL

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Sexta-Feira, 19 de Junho de 2015 - 09:50:48 CEST


Tendo como pano de fundo o 5º Congresso Nacional do PT, Bruno Lima Rocha, jornalista e 
cientista político, professor de Relaões Internacionais, afirma "o lulismo vai deixar uma 
sequela ideológica difícil de ser superada tanto nesta agrupação política como na 
sociedade brasileira". ---- Segundo ele, "superar o paradigma do pacto de classes e do 
minimalismo vai exigir profunda autocrítica e radicalidade através das bases sociais 
mobilizadas". ---- A solução dada pelo partido de governo para o governo de coalizão é 
guinar à direita e hipotecar a sua própria base restante. ---- Eis o artigo. ---- Vejo a 
chamada acima como algo que beira o absurdo embora seja mais do que previsível. O 5º 
Congresso Nacional do PT realizado em Salvador foi uma ampla vitória do lulismo e da luta 
pela sobrevivência política, abrindo mão de quase tudo para seguir fazendo quase nada. Os 
governos petistas da Bahia, além de recuperarem uma parte considerável dos carlistas 
(partidários e afilhados políticos de Antônio Carlos Magalhães, ACM ou "Toninho 
Malvadeza") também pouco ou nada fizeram no sentido de uma justiça histórica contra o 
racismo estrutural da terra de Marighella, Bimba e Pastinha. O local é exemplar para 
realizar um congresso, pois materializa um estado onde a ex-esquerda se coliga com parte 
da oligarquia local.

Voltando ao Planalto e observando a composição de gabinete do segundo mandato marcado pelo 
terceiro turno, a manobra de Dilma trazendo elementos de confiança da DS para sua 
assessoria direta freou a maior crítica na interna da legenda, cabendo aos ex-igrejeiros 
da Articulação de Esquerda espernear como minoria quase irredutível vinda do Rio Grande do 
Sul. Interessante é o reposicionamento de Tarso Genro, que a meu ver, mais opera como um 
protagonista de si mesmo do que como uma nova proposta partidária. Se levada às últimas 
consequências, a necessidade de superar o rentismo e vir a ter um maior vínculo militante 
levaria ou a uma fratura do partido de governo ou ao rompimento da coalizão que equilibra 
o segundo mandato de Dilma materializando a divina e triste música de João Bosco e Aldir 
Blanc, "O Bêbado e o Equilibrista".

Cabe, de fato, uma severa crítica ideológica ao abandono da ideia básica das esquerdas 
dentro do partido de governo. Se a autocrítica passa pelo comando de Tarso Genro, já é 
notável que o caminho não é de longo alcance. Quem se lembra da atuação de Tarso à frente 
do Piratini vai identificar como o mesmo perdeu o controle do aparelho policial e jogou 
calúnias sem fim contra a esquerda realmente existente no RS. Não é de espantar do 
congresso do equivalente ao PSOE brasileiro. Para os desavisados, ao comparar o PT com o 
PSOE não faço elogio algum; poderia compará-lo ao PASOK grego estaria na mesma vala comum. 
O PSOE é ex-partido social-democrata espanhol, responsável, dentre outros crimes 
históricos, pelo Pensionazo de 2011, o pacto social junto da Izquierda Unida para retirada 
de direitos de aposentados e desempregados no Estado Espanhol. Por mais sofisticada que 
seja, e ainda que contenha elementos interessantes de crítica ao capital financeiro, se a 
crítica vem de políticos como Tarso é difícil que esta resulte em quase nada além de 
continuísmo - atravessada por linguagem rebuscada - e mais derrota ideológica.

A tristeza que se abate - e reforço que esta é sincera e sem ironia -, é saber que as 
lideranças dos movimentos que interessam, os setores que ainda têm envergadura e poder de 
mobilização para alterar a correlação de forças neste país - como MST e MTST-, tendem a 
reproduzir o duplo discurso e a lenga-lenga do "apoio crítico". Assim, terminam por 
responsabilizar a equipe econômica isentando o padrão de alianças e a coalizão oligárquica 
motivada por um pacto de classes. O efeito perverso da leitura vulgar de Grasmci legitima 
as piores práticas em Brasília como "guerra de posições". Quando tudo é tática não há 
estratégia, só oportunismo e sem um amplo espaço político para acumular forças. Na 
ausência de projeto de longo prazo, só sobrevive à prática cotidiana e talvez as boas 
condutas.

Caso houvesse mais democracia interna nestas bases, caso estas fossem menos controladas e 
mais politizadas - falo também no sentido autocrítico de quem conhece esta lida por dentro 
e como ex-organizador - dificilmente as famílias e os quadros médios seriam arregimentados 
para apoiar tamanha desfaçatez. O racha das mulheres do MST do RS, a gloriosa frente de 
mulheres com referentes históricos na luta de classes da Província de São Pedro, é o 
melhor exemplo dos efeitos maléficos deste reboquismo e excesso de manobra tática sem 
debate franco no nível estratégico. Sempre dá tempo de retomar o debate e oxigenar a 
militância, sempre e apesar das horrorosas práticas leninistas. Como analista, brasileiro 
e libertário afirmo sem nenhum tom professoral que é possível uma reorientação estratégica 
(basta observar o fenômeno PKK e sua democracia interna), mas é determinante uma - algumas 
- minoria(s) ativa(s) convicta da proposta.

O governo de coalizão que governa por direita

A solução dada pelo partido de governo para o governo de coalizão é guinar à direita e 
hipotecar a sua própria base restante. O mais recente pacote de bondades, com a ampliação 
de infra-estrutura e logística buscando concessões privadas para portos, aeroportos, 
hidrovias, e ferrovias se dá através do BNDES. O banco de fomento vai liberar uma quantia 
aproximada de R$ 150 bilhões, exatamente o dobro do cortado pela "tesoura de Levy", R$ 79 
bilhões. Na ponta do lápis trata-se de uma escolha ainda ancorada no pacto de classes, 
sendo que o jogo do "ganha-ganha" (o fundamento do pacto lulista) está esgotado. Temos no 
Brasil um déficit de R$ 8 milhões de moradias, algo que poderia ser solucionado com um 
investimento público de cerca de R$ 76 bilhões de reais ao ano, ao longo de quatro anos. 
Esta é a agenda de reivindicação direta dos movimentos do direito à moradia e direito à 
cidade, algo bem distante do próprio Ministério das Cidades, e longe do núcleo duro do 
governo. Agora, de pires na mão, o governo abre novamente a chave do cofre cortando nos 
direitos básicos da população, e depois o partido de governo reclama quando apanha por 
esquerda.

A constatação acima é observável com o aumento do custo de vida advindo do controle da 
mesma equipe econômica liberando os preços controlados no rumo inexorável do aumento 
inflacionário. Podemos citar dois exemplos: - a vergonhosa subida do preço das tarifas 
básicas de luz e telefonia, tudo para manter a margem das operadoras e concessionárias e 
assegurar as margens de lucros de suspeitíssimos concessionários de serviços públicos, 
como os conglomerados de telefonia e transferência de dados. Para quem duvidar convido a 
uma breve pesquisa a respeito da fusão da Brasil Telecom com a OI e a posterior saída da 
Portugal Telecom do negócio da Vivo Celular no Brasil. Não é razoável esperar um governo 
minimamente coerente quando ex-guerrilheiros e militantes de base convivem no mesmo 
gabinete com oligarcas fisiológicos, líderes empresariais e Chicago Boys de carteirinha. 
Quando as decisões de governo são analisadas sem preconceito, observamos o óbvio. As 
medidas mais contundentes evidenciam a pior faceta do Estado capitalista, quando este 
aparece como forma jurídico-política da dominação de classes. Esta, no caso brasileiro, é 
condicionada pela roubalheira institucionalizada do rentismo com a impagável e imoral 
dívida pública e seus operadores.

Para quem enxerga exagero nesta afirmação convido a leitura dos informes públicos tanto da 
Operação Lava-Jato como da Operação Zelotes, assim como as razões evidentes da retirada do 
HSBC do Brasil e suas operações criminalizadas em todo o mundo, incluindo a lista de 
depositários do HSBC na Suíça (Swissleaks) e o caso da agência central do mesmo banco em 
Nova York e a lavagem de dinheiro de cartéis mexicanos.

Nesta breve análise, tendo como pano de fundo o 5º Congresso Nacional do PT, concluo que o 
lulismo vai deixar uma sequela ideológica difícil de ser superada tanto nesta agrupação 
política como na sociedade brasileira. Superar o paradigma do pacto de classes e do 
minimalismo vai exigir profunda autocrítica e radicalidade através das bases sociais 
mobilizadas.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28270


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