(pt) Federação Anarquista do Rio de Janeiro FARJ (CAB) Libera #164 - MIKHAIL BAKUNIN E O ANARQUISMO

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Sábado, 18 de Julho de 2015 - 10:49:52 CEST


Nota biográfica: Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (1814-1876) foi um revolucionário russo 
que contribuiu, determinantemente, em teoria e prática, para o desenvolvimento do 
anarquismo na Europa ocidental e que teve influência significativa nos rumos do movimento 
de trabalhadores, em nível mundial. ---- Bakunin nasceu em uma família de nobres russos, 
foi educado em casa e seguiu aos 14 anos para a carreira no exército, abandonando-a em 
1835. Vai a Moscou, onde participa do círculo de Stankevitch, apaixonando-se pelo 
romantismo e pelo idealismo alemão, especialmente por Fichte e Hegel. Em 1840, vai a 
Berlim integrando-se à esquerda hegeliana e publicando artigos. Converte-se ao comunismo e 
toma contato com a causa dos eslavos, ingressando na luta contra o imperialismo. 
Influencia-se na relação com P.-J. Proudhon e tem contato com Marx. Participa, em 1848, 
dos levantes na França e da Insurreição de Praga, e, em 1849, prepara a insurreição da 
Boêmia e destaca-se como comandante militar do levante de Dresden. Preso, permanece na 
prisão e no exílio com trabalhos forçados de 1849 a 1861, quando foge, chegando a Londres.

Logo se integra à vida política, escrevendo
e atuando; vai, em 1864, para a Itália, onde
desenvolve intenso trabalho de propaganda e
organização e funda a Fraternidade Internacional,
uma organização política secreta. Participa
dos Congressos da Liga da Paz e da Liberdade,
em 1867 e 1868 e, quando a maioria dos membros
da Liga nega-se a aceitar o programa socialista,
federalista e antiteísta que propunha,
rompe, fundando a Aliança da
Democracia Socialista. É somente na
segunda metade dos anos 1860 que
Bakunin adere completamente ao
anarquismo, que se consolida com
sua entrada na Associação Internacional
dos Trabalhadores (AIT), ou
"Primeira Internacional". Produz,
nesse momento, diversos escritos
e envolve-se nas discussões de seu
tempo. Exerce ampla influência na
AIT, especialmente nos países latinos.
Ameaçando a hegemonia de Marx, é expulso
em 1872, quando funda, com o setor majoritário
da AIT, a Internacional "Antiautoritária".
Participa da insurreição da Bolonha em 1874
e, ao final da vida, afasta-se da atividade
política, falecendo na Suíça em 1876.

Os aspectos destacados neste texto enfocarão
com mais profundidade elementos da última fase de
Bakunin, já nos anos 1860, em cujo
período converteu-se ao anarquismo.

Os pontos de partida

Bakunin possui, como base de sua
teoria, uma série de concepções filosóficas
que foram sendo elaboradas
ao longo de sua vida, desde o perí-
odo de juventude, quando adere ao
hegelianismo de esquerda. Dentre
essas concepções, pode-se destacar:
a liberdade, a dialética, o materialismo,
a ciência e a doutrina/ideologia.

Toda a sua teoria está baseada no
conceito de liberdade, presente
ao longo de toda a sua obra. Polemizando
com os filósofos do liberalismo,
Bakunin nega que o indivíduo
venha livre à sociedade, no momento
de seu nascimento, tornando-se
oprimido pela coletividade ao longo
do tempo - ideias que serão desenvolvidas
por filósofos como Rousseau
e Mill. Para Bakunin, a liberdade
não é o ponto de partida, mas o
ponto de chegada. Desde sua mais
antiga existência, a luta dos homens
teria sido, primeiramente, uma luta
contra a natureza, em que eles buscaram
superar sua animalidade, negando-a
e chegando à humanidade.

Esta se caracteriza pela capacidade
de reflexão, abstração e pela razão,
ou seja, pela capacidade de combinar
ideias em uma forma de pensamento
que possui, necessariamente,
relação com a ciência. Para forjar-se
como humanidade, uma das bases
dos homens foi a ideia de Deus. O
curso desta trajetória seria que humanidade
passasse à liberdade, pela
revolta contra as condições de escravidão
do homem - que se reproduziam
na economia, na política e na
religião. Bakunin coloca que o homem
"partiu da escravidão animal,
e atravessando a escravidão divina,
termo transitório entre sua animalidade
e sua humanidade, caminha
hoje rumo à conquista e à realização
da liberdade humana."[1]

A sociedade, a coletividade, neste
sentido, não seria um empecilho
para a liberdade, mas uma condição
de sua própria realização. A liberdade
individual, desse modo, só pode
existir dentro da liberdade coletiva,
já que "ser livre, para o homem, significa
ser reconhecido, considerado
e tratado como tal por um outro
homem, por todos os homens que
o circundam". Só é possível considerar-se
livre na presença e em relação
a outros homens; além disso, essa
perspectiva coletiva da liberdade impede
que uma pessoa seja livre sozinha:
"só sou verdadeiramente livre
quando todos os seres humanos que
me cercam, homens e mulheres, são
igualmente livres".[2] Finalmente, a
liberdade, para Bakunin, necessariamente
implica igualdade, e isso estabelece
um vínculo explícito entre
liberdade e socialismo; para ele, não
existe liberdade plena sob o capitalismo,
o Estado ou qualquer outro tipo
de dominação, e a igualdade, fundamentalmente
econômica, é condi-
ção prévia para o desenvolvimento
da liberdade. Ele enfatiza que embora
seja "partidário da liberdade, essa
condição primeira da humanidade,
[...] a igualdade deve estabelece-se
no mundo pela organização espontânea
do trabalho e da propriedade
coletiva, das associações produtoras
livremente organizadas e federalizadas
nas comunas, e pela federação
igualmente espontânea das comunas,
mas não pela ação suprema e
tutelar do Estado"[3].

Outra noção filosófica que norteia
toda a teoria de Bakunin é sua concepção
de dialética, cujos fundamentos
foram estabelecidos ainda
nos anos 1840, quando era um hegeliano
de esquerda, revolucionário,
mas ainda não anarquista. Para Bakunin,
a história - o desenvolvimento
social de maneira geral - seria determinada
a partir de um movimento
dialético para o qual a negação teria
um papel fundamental: ela seria uma
forma de recusar a realidade, permitindo
que surgissem novas ideias, capazes
de conceber a transformação
dessa realidade rumo à liberdade.
Essa dialética, ou seja, a contradição,
é, assim, a fonte do movimento e do
desenvolvimento histórico. Fundamentando-se
em Hegel, o artigo A
Reação na Alemanha, de 1842, apresenta
duas contribuições fundamentais para sua
concepção de dialética; a primeira, de
uma interpretação de Hegel que constitui
as bases de uma transformação
revolucionária; a segunda, de uma
dialética hegeliana que se diferencia
da dialética triádica clássica - representada
pelos elementos tese, antítese
e síntese. Bakunin propunha
uma dialética baseada em somente
dois elementos, um positivo e outro
negativo - naquele caso analisado, o
partido reacionário e o partido democrático,
respectivamente - cujo
resultado seria a criação de um novo
positivo, sem relação com o antigo.
Portanto, para Bakunin, não haveria
síntese ou conciliação possível entre
o positivo e o negativo. Seria pela
negação que se forjaria a afirmação,
ou seja, visando a destruição, se
construiria o novo.

Fundamental para seu sistema foi
também o materialismo como
método de análise da realidade. Partindo
daquilo que entendia como
material, ou seja, a realidade de maneira
geral, incluindo os seres vivos
na sua totalidade, Bakunin afirmava
que um método de análise coerente
precisaria ser materialista para
dar conta da realidade, e isso exigia
considerar o ser humano como um
ser completo, dotado de pensamento
e ação, cuja realidade dos fatos
seria determinada por essa relação
dialética entre o pensar e o fazer,
entre a teoria e a prática. Esse materialismo,
que se opõe ao idealismo
- considerando-o um sistema que
parte de Deus, do abstrato, do metafísico
- não significa, ainda assim,
determinismo econômico, mesmo
que a economia constitua uma esfera
social preponderante.
-----------------
[...] a igualdade deve estabelece-se
no mundo pela organização espon-
tânea do trabalho e da propriedade
coletiva, das associações produ-
toras livremente organizadas e
federalizadas nas comunas, e pela
federação igualmente espontânea
das comunas, mas não pela ação
suprema e tutelar do Estado"
--------------------
Bakunin considera ainda que há uma
diferença fundamental entre
ciência e doutrina/ideologia.
Como colocado, a ciência
é um elemento fundamental
para o desenvolvimento da
humanidade; no entanto, quando
se fala das ciências
humanas, elas nunca podem ser
absolutas, visto que não há simplesmente
o fato em si, mas a observa-
ção deste fato por um ser humano,
dotado de uma determinada carga
de valores. Como Bakunin colocou,
a vida é sempre mais complexa do
que a nossa capacidade de apreendê-la.
É possível buscar uma elaboração
teórica, com o maior rigor
científico, da história, e também dos
fatos presentes, mas deve-se levar
em conta que essa teoria não pode
afirmar-se como verdade ou ciência
absoluta. E, ainda que exista a possibilidade
de, por meio da ciência,
compreender a história e a realidade,
é impossível tentar extrair da história
regras gerais ou uma ciência de
seu funcionamento para a explicação
da realidade, e, fundamentalmente,
para prever o futuro. Assim, o socialismo
não pode ser ciência, mas uma
doutrina, ou uma ideologia, no sentido
de conjunto de ideias, valores,
aspirações que possuem uma intera-
ção prática com a realidade. Ele não
pode ser abarcado por um conjunto
científico de regras e possui elementos
que não podem ser comprovados
empiricamente.

A leitura da realidade

Considerando os elementos colocados
em seus pontos de partida,
vejamos como Bakunin elaborou
uma leitura da realidade de seu tempo,
cujos esforços empenharam-se,
dentre outras coisas, no sentido de
compreender o capitalismo. Para
ele, o fundamento do sistema capitalista
está na propriedade privada
e no capital, que significam "o
poder e o direito de viver à custa da
exploração do trabalho alheio, o direito
de explorar o trabalho daqueles
que não possuem propriedade
ou capital e que, portanto, são for-
çados a vender sua força produtiva
aos afortunados detentores de ambos".[4]
O capitalismo promove a
desigualdade e, consequentemente,
gera a pobreza dos explorados que,
sendo obrigados a viver do trabalho
assalariado, ainda que juridicamente
sejam iguais aos capitalistas, economicamente
estão subjugados e, na
concorrência do mercado, não têm
alternativa senão deixarem-se explorar
para não morrerem de fome.
A dinâmica do sistema capitalista cria
e sustenta uma divisão do trabalho
(manual e intelectual) e também das
classes sociais, separando a sociedade
em exploradores e explorados, e
colocando-os em contradição e em
luta.

Nas sociedades em que predomina a
dominação - e esse é o caso do capitalismo
-, Bakunin sustenta haver
classes sociais em permanente luta;
assim, acredita que há, na sociedade
capitalista, uma luta de classes. Esse
antagonismo entre as classes não poderia
ser negado com base na "ideia
de que [este] é um antagonismo
mais fictício do que real, ou de que é
impossível estabelecer uma linha de
demarcação entre as classes possuidoras
e as classes despossuídas"[5].

Todo um sistema político e ideológico
dá sustentação a este sistema de
exploração econômica, que é "protegido
por todos os Estados [...], religiões
e todas as leis jurídicas, tanto
criminais quanto civis, e todos os governos
políticos, monarquias e repú-
blicas - com seus imensos aparatos
judiciais e policiais e seus exércitos
permanentes"[6]. Os sistemas políticos
e ideológicos não têm outra missão
senão a de consagrar e proteger
as práticas da exploração capitalista,
constituindo-se, portanto, parte estrutural
do capitalismo.

O Estado, para Bakunin, é o instrumento
político das classes dominantes,
que estabelece sobre o povo uma
dominação, que, além de sustentar o
capitalismo, aliena os indivíduos da
política. Ele enfatiza: "quem diz Estado,
diz necessariamente dominação
e, em consequência, escravidão; um
Estado sem escravidão, declarada ou
disfarçada, é inconcebível; eis por
que somos inimigos do Estado."[7]

E isso se aplica a qualquer Estado,
seja ele mais ou menos democrá-
tico, já que "nenhum Estado, por
mais democráticas que sejam as suas
formas, mesmo a república política
mais vermelha, popular. Apenas no
sentido desta mentira conhecida sob
o nome de representação do povo,
está em condições de dar a este o
que ele precisa, isto é, a livre organização
de seus próprios interesses, de
baixo para cima, sem nenhuma ingerência,
tutela ou coerção de cima".
[8] Outras formas de dominação
estariam presentes na sociedade: o
imperialismo, a religião, o patriarcado.
A superação do capitalismo e do
Estado não deveria deixar de fora a
superação da dominação como um
todo, algumas com mais, e outras
com menos relação com o sistema
político e econômico.

Nesse sentido, o conjunto de classes
despossuídas para Bakunin abarcaria
todos aqueles que estavam sofrendo
os efeitos do capitalismo e mesmo
dos sistemas pré-capitalistas que ainda
vigoravam em sua época. Dessa
forma, seu conceito de classe é
amplo e está mais fundamentado
na categoria dominação, do que na
exploração econômica, sendo que
a primeira abarca a segunda. Assim,
ele acredita que as "diferentes existências
políticas e sociais deixam-se
hoje reduzir a duas categorias principais,
diametralmente opostas uma
à outra, e inimigas naturais uma da
outra"; de um lado, o que se poderia
chamar de classes possuidoras,
burguesia, capitalistas ou classes políticas,
"compostas por todos os privilegiados,
tanto da terra quanto do
capital, ou mesmo somente da educação
burguesa", e de outro, o que
se poderia chamar de classes
despossuídas, proletariado,
povo, ou classes operárias,
"deserdadas tanto do capital
quanto da terra, e privadas de
qualquer educação ou de qualquer
instrução".

[9] Portanto, no conjunto dos
dominadores estão a nobreza,
a burguesia, os latifundiários, o clero,
e no conjunto de dominados, os
trabalhadores da cidade e do campo,
o campesinato e toda a massa de
excluídos (chamada de lumpemproletariado).
Além disso, vemos que a
definição de classe de Bakunin não
está totalmente vinculada aos meios
de produção econômicos: a instru-
ção, por exemplo, assim como a participação
na gestão do Estado, ajudariam
a compor este critério de classe
que explicaria a dominação em um
sentido amplo, englobando os campos
econômico, político e social.

A partir desta concepção, Bakunin
acredita que é esse conjunto de
despossuídos que será responsável
pela criação da nova sociedade.
Na luta contra o capitalismo,
o Estado e as outras formas de
dominação, os despossuídos devem
destruir a velha sociedade e construir
a nova. Nessa concepção, que
traz a tona novamente sua dialética,
ele acredita que o elemento negativo
da sociedade presente, ou seja,
aqueles que negam essa sociedade -
o povo em luta -, deve ter por objetivo
superar o positivo, ou seja, a sociedade
presente, criando um novo
positivo - a sociedade futura. Bakunin
não acreditava que essa sociedade
seria uma síntese; ela precisaria
romper com todos os aspectos da
sociedade presente, criando, de fato,
uma sociedade nova. Além disso, ele
pensava que aqueles que defendiam
essa nova sociedade como
sendo uma síntese corriam o
risco de cair no reformismo ao
tentar conciliar o inconciliável.

Nesse processo revolucionário de criação
do socialismo, o Estado deveria ser
imediatamente destruído, nunca
servindo como instituição que daria
suporte a qualquer período intermediário.
Bakunin acredita que é todo
o conjunto de despossuídos que tem
essa tarefa histórica de transforma-
ção social, e não somente um setor
dele. Assim, nega qualquer prioridade
no proletariado industrial e urbano
e acredita que outros setores
dominados deveriam, juntos com
esse proletariado, empreender a revolução
social.

Negando qualquer forma de "etapismo",
Bakunin não acredita em
um desenvolvimento histórico linear
ou previsível. Para ele, a vontade -
ou seja, "o poder de tomar partido
em favor de um ou vários motores
que nele trabalham num sentido
determinado, contra outros motores
igualmente interiores e determinados"[10]
- seria um elemento
fundamental, que levaria homens e
mulheres, a partir dos seus instintos
de busca pela liberdade, para uma
luta contra a realidade e para sua
superação. Não acreditava, portanto,
como outros socialistas, que há
obrigatoriamente uma necessidade
de desenvolvimento das forças produtivas
para que se chegue ao socialismo
- Bakunin não acreditava que
nas sociedades menos desenvolvidas
economicamente se deveria promover
o capitalismo, para depois se lutar
pelo socialismo. Acreditava que
tanto nas sociedades mais desenvolvidas,
quanto nas menos, os despossuídos
deveriam imediatamente empreender uma
luta pelo socialismo.

Além disso, sua análise materialista
da realidade o fazia crer que no
passado e no presente, com uma
análise rigorosa da história e da conjuntura,
não podia ser verificada uma
determinação econômica sobre as
esferas política e cultural/ideológica.
Seu materialismo reconhece a
influência mútua das esferas
econômica, política e cultural/
ideológica; a econômica, por mais
que fosse realmente determinante
em muitos casos - e Bakunin assume
que, dentre as esferas, a econômica
é a que possui maior influência sobre
as outras -, em diversos outros casos,
seria determinada pelas esferas
política e cultural/ideológica, em um
movimento dialético que não estabeleceria
causas e consequências
fixas, determinadas a priori. Seu mé-
todo de análise, portanto, não pode
se resumir ao determinismo econô-
mico.

Para seu projeto de transformação
seria fundamental o desenvolvimento
de uma teoria, que se construiria
a partir de uma relação dialética com
a prática do povo, e também de
uma estratégia de luta, com o objetivo
de superar a sociedade capitalista,
estatista, religiosa, etc. e chegar
a uma nova - socialista, federalista,
antiteísta.

A estratégia

Para empreender uma luta rumo ao
socialismo, os despossuídos deveriam
conceber uma forma de tornar
sua força elementar, espontânea,
muito maior do que aquela das classes
possuidoras, uma força social
real. Portanto, "a primeira condição
da vitória do povo é a união ou a organização
das forças populares"[11].
Seriam os movimentos de massa,
para Bakunin, que conseguiriam
transformar-se nesta força social
real necessária para a revolução
social, já que "nenhuma revolução
pode triunfar senão exclusivamente
pela força do povo"[12].

Bakunin desenvolveu a maioria de
suas concepções organizativas
e estratégicas deste movimento
quando entrou na AIT. Segundo
acreditava, um movimento popular
precisava ser organizado internacionalmente,
reunindo o maior
número possível de elementos das
classes despossuídas, apoiando-se,
fundamentalmente, na "intensidade
sempre crescente das necessidades,
dos sofrimentos e das reivindicações
econômicas das massas".[13] Nisso,
haviam estado corretos os fundadores
da AIT, colocando, "de início,
como único fundamento, apenas a
luta exclusivamente econômica do
trabalho contra o capital"[14]. No
entanto, quando se trata de unir o
povo em um movimento que mobilize
em torno das necessidades econômicas,
as questões políticas (ideológicas)
e religiosas mais dividem do
que unem. Assim, Bakunin defendia
um modelo de organização de massas
que não excluísse trabalhadores
por suas posições político-ideológicas
ou por suas crenças religiosas,
ainda que se permitisse a discussão
aberta dessas questões.

Essa organização envolveria as associações
de trabalhadores, unindo-os
em torno de questões como a produção,
o consumo, o crédito; iniciativas
que habituariam os trabalhadores
a cuidar e gerir seus próprios assuntos,
algo fundamental na sociedade
futura. Mas essa não era a base do
movimento: este deveria se dar na
mobilização destas associações de
trabalhadores em torno das lutas de
curto prazo, que dariam consciência
de classe aos trabalhadores, permitindo
que eles se radicalizassem no
contexto dessas lutas, buscando,
cada vez mais, os objetivos de longo
prazo, ou seja, a revolução social e
o socialismo. Bakunin, portanto, não
defendia um "tudo ou nada" em que
ou se realizava a revolução ou o movimento
popular não tinha sentido;
para ele, era na construção cotidiana
e no contexto das lutas de curto prazo
que os caminhos de longo prazo
deveriam ser trilhados. Com a organização
e as lutas das associações, os
trabalhadores exercitariam sua capacidade
de autogestão, fundamental
para que eles próprios fossem responsáveis
por sua própria emancipação.
Além disso, no contexto das
lutas reivindicativas, os trabalhadores
conheceriam sua própria força
e a força coletiva dos trabalhadores,
compreenderiam a luta de classes,
tornando-se cada vez mais conscientes,
e buscariam, cada vez mais, a
transformação social revolucionária.

Bakunin acreditava que "a partir
do momento que um operário [...]
começa a lutar seriamente pela diminuição
de suas horas de trabalho
e pelo aumento de seu salário,
a partir do momento que começa
a interessar-se vivamente por essa
luta toda material" ele certamente
abandona suas crenças religiosas e,
na luta econômica, ele conhecerá a
força dos trabalhadores e seus verdadeiros
inimigos de classe. Termina
por "compreender o antagonismo
irreconciliável" da luta de classes,
aproximando-se do socialismo revolucionário.[15]

Para fortalecer e impulsionar esse
movimento de massas, Bakunin defendia
um modelo de organiza-
ção política (partido). Esse grupo
de revolucionários seria responsável
por atuar em meio às massas, servindo
de motor/fermento; por meio da
promoção de um programa determinado
- que, basicamente defendia
posições filosóficas, teóricas e estratégicas
- a organização política não
deveria se dedicar à participação nas
eleições, à tomada do Estado e nem
a fazer a revolução em nome das
massas. Ela teria por função estimular
e dirigir as massas, provocando a
revolução em seu seio sem subjugá-
-las; a função da organização política
seria dar protagonismo às massas.

Historicamente, Bakunin foi responsável
por impulsionar organizações
políticas sendo a mais destacada delas
conhecida pelo nome de Alian-
ça da Democracia Socialista (ADS).
Trabalhando de maneira pública e
secreta, fundamentalmente no seio
da AIT, a ADS visava dar a ela "uma
organização revolucionária, para a
transformar, a ela e a todas as massas
populares que estão fora dela,
numa força suficientemente organizada
para aniquilar a reação polí-
tico-clérico burguesa, para destruir
todas as instituições econômicas, jurídicas,
religiosas e políticas dos Estados".
Para isso, seriam fundamentais
as organizações políticas, compostas
"por membros mais seguros, mais
dedicados, mais inteligentes e mais
enérgicos" e possuindo um duplo
objetivo: "primeiro, a formação da
alma inspiradora e vivificante deste
grande corpo a que chamamos Associação
Internacional dos Trabalhadores"
e depois "se ocuparão dos
problemas que são impossíveis de se
tratar publicamente. Eles formarão a
ponte necessária entre a propaganda
das teorias socialistas e a prática
revolucionária."[16]

Esse modelo estratégico deveria
impulsionar a sociedade para uma
transformação social revolucionária
que, por meio da violência organizada
e protagonizada pelo povo, destruiria
os sistemas de dominação e
construiria o socialismo. Para Bakunin,
esse socialismo só poderia ser
construído "de baixo para cima", ou
seja, a partir das necessidades das
bases, com a propriedade coletiva e
fundamentado no trabalho coletivo.

Decisões econômicas e políticas deveriam
ser tomadas pelas bases, em
um sistema que desse força para a
participação política popular e que
se articulasse por meio da delega-
ção. Este socialismo federalista, acreditava
Bakunin, realizaria a liberdade
completamente.

Felipe Corrêa

Notas:

1. Mikhail Bakunin. Deus e o Estado. São
Paulo: Imaginário, 2000, p. 25. Todos os
textos citados são de autoria de Bakunin
e por isso suprimirei todas as referências
a seu nome nas notas a seguir.
2. "O Império Cnuto-Germânico". In: Daniel
Guérin (org.) Textos Anarquistas. Porto
Alegre: LP&M, 2002 p. 47.
3. "A Comuna de Paris e a Noção de Estado".
In: O Princípio do Estado e Outros
Ensaios. São Paulo: Hedra, 2008, pp. 115-
116.
4. O Sistema Capitalista. São Paulo: Faísca,
2007, p. 4.
5. Federalismo, Socialismo e Antiteologismo.
São Paulo: Cortez, 1988, pp. 15-16.
6. O Sistema Capitalista, p. 4.
7. Estatismo e Anarquia. São Paulo: Imaginário/Ícone,
2003, p. 212.
8. Ibidem, p. 47.
9. Federalismo, Socialismo e Antiteologismo,
p. 16.
10. "Consideraciones filosóficas sobre el
fantasma divino, sobre el mundo real y
sobre el hombre". In: Obras Completas.
Madrid, La Piqueta, 1979, p. 198.
11. A Ciência e a Questão Vital da Revolução.
São Paulo: Imaginário/Faísca, 2009,
p. 67.
12. A Política da Internacional. São Paulo:
Imaginário/Faísca, 2008, p. 67.
13. "La Organización de la Internacional".
In: Frank Mintz (org.). Bakunin: critica y acción.
Buenos Aires: Anarres, 2006, p. 102.
14. A Política da Internacional, p. 46.
15. Ibidem, pp. 53-54.
16. "Necessidade e Papel do Partido". In:
Conceito de Liberdade. Porto: Rés Editorial,
1975, p. 154.

* Texto originalmente publicado no
livro Filosofia: um panorama histórico-temático.
Constam nele algumas
mudanças em relação à versão original.


https://anarquismorj.files.wordpress.com/2015/07/libera_164_web.pdf


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