(pt) anarkismo.net: Direito à Cidade e Municipalismo Libertário by Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP) (ca, en, it)

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Sábado, 18 de Julho de 2015 - 10:49:10 CEST


A cidade que passou ao longo de sua existência a aglutinar o conjunto da população que 
antes ocupava em maior número o campo, e que buscava uma forma de organização societária 
de maneira a atender o bem coletivo, foi aos poucos sendo atravessada por uma relação de 
poder específica, denominada de domínio, que surgiu com a divisão em classes sociais e que 
implicava que a organização da vida atendia os interesses de uma minoria em detrimento da 
maioria. Isso permitiu o desenvolvimento do Estado, sendo um instrumento que sempre serviu 
aos interesses das classes dominantes, disfarçando sua política essencialmente opressora 
das mais variadas formas. ---- A construção da vida em sociedade implica em diferentes 
posições e ideias que serão disputadas por diferentes grupos e indivíduos - as relações de 
poder. A divergência e a disputa de ideias não é um problema a ser combatido, mas uma 
realidade do ser humano. Ocorre que em uma sociedade dividida em classes sociais, permeada 
por relações de domínio (tipo específico de relação de poder), os interesses das classes 
dominantes prevalecem contra o bem-estar coletivo, ainda que seja em nome deste.

Desde que as relações de domínio passaram a determinar a relação social e a forma de 
estruturar a cidade em que vivemos como uma das consequências também houve resistência das 
camadas que sofrem opressão. Mesmo considerando grupos melhor posicionados dentro da 
escala de acesso à produção material e cultural da humanidade, a maioria não constrói as 
políticas de gestão da cidade de maneira satisfatória. Quem tem influência decisiva nesse 
processo é a camada minoritária da sociedade, que confirma seu projeto de dominação com as 
políticas executadas pelo Estado, gestor das cidades.

Essa resistência, mesmo que não tenha saído do marco da dominação, garantiu alguns 
direitos dentro da organização da cidade. As necessidades mais imediatas pautaram a luta 
dos grupos dominados na disputa pela cidade. Se há exclusão da maioria de certos espaços 
da classe dominante, existem bloqueios de estradas que reivindicam as mais variadas coisas 
(saneamento básico, lazer, educação etc.), que podem travar toda a cidade.

Essas lutas imediatas constituem a possibilidade de construção de uma força social capaz 
de reivindicar a cidade para o conjunto de quem mora nela. Cada disputa de espaço na 
cidade pelos grupos dominados é um caminho trilhado na luta contra o Estado e por uma 
cidade para os trabalhadores.

No entanto, um desafio que se coloca é fazer o trabalhador - que está imerso no seu dia a 
dia, tragado pela rotina trabalho-casa-trabalho - pensar criticamente, para que se 
interrompa esse boom de projetos de exclusão social, que só geram lucros para o empresário.

Quando paramos e procuramos alternativas para ir de encontro aos problemas que todos 
sofremos no cotidiano, e se fizermos isso de maneira solidária aos outros setores que 
sofrem dos reverses provocados pela cidade capitalista, podemos ter uma chance de impedir 
o sucesso da classe dominante. Por mais difícil que seja, temos uma chance. Parar e 
aceitar é a certeza da derrota. Nós preferimos tentar. Cada derrota no projeto excludente, 
cada avanço em termos de mobilidade urbana, cada derrota da especulação imobiliária são 
vitória daqueles que concebem uma nova forma de se construir a cidade.

Não podemos esquecer que nossos espaços de convivência foram forjados numa sociedade 
profundamente desigual. Para termos êxito definitivo somente se aliarmos a luta do bairro 
com a luta por uma nova sociedade. Não esperemos uma nova sociedade para lutar pela 
melhoria de nosso bairro e de nossa cidade, mas não esquecemos que ela só ganha sentido se 
encararmos como degraus necessários para construção de outro patamar histórico.

Bookchin e o Municipalismo Libertário

O anarquista norte-americano Murray Bookchin defendia uma nova forma de sociedade baseada 
na reinvenção da construção dos espaços de convívio, de moradia e de construção de nossa 
sociabilidade. Chamava de Municipalismo Libertário sua proposta. Trata-se de uma proposta 
de organização política da cidade baseada na democracia direta em oposição à lógica 
representativa do Estado que tira da coletividade seu poder de decisão, sempre delegando a 
uma minoria aliada aos interesses capitalistas ou incapaz de ultrapassar estes interesses.

Na compreensão de Boockin, tornar os sujeitos ativos nas decisões, chamando para si a 
capacidade de planejar e executar as tarefas do dia a dia da cidade é formar sujeitos 
críticos que passam a ver que a sua vida depende do bem-estar do coletivo, que suas 
decisões têm que ir para além do egoísmo individualista para ela mesmo ter sentido. Isso 
não é possível numa sociedade desigual, por isso o municipalismo libertário concebe o fim 
das classes sociais e a gestão da cidade pelos seus próprios moradores.

Acreditamos que resgatar essas ideias do municipalismo libertário colabora bastante no 
atual debate das discussões do direito a cidade e colabora muito na tentativa de se aliar 
as lutas imediatas a luta por uma nova sociedade. Porém uma crítica ao pensamento de 
Bookchin é extremamente importante. Para ele a categoria do trabalho está ultrapassada. A 
luta por uma nova sociedade não passaria pela luta construída pelo local de trabalho, 
senão apenas pelo local de moradia.

Para nós, anarquistas, o anarquismo sempre esteve junto a organizar os trabalhadores a 
partir das contradições vivenciadas no local de trabalho. Inclusive foi na militância 
sindical que os anarquistas tiveram mais expressão social. A desigualdade da sociedade se 
dá, sobretudo, na distribuição desigual da riqueza material e imaterial produzida pela 
humanidade. Para reformulá-la de maneira a apontar para uma sociedade sem classe, é 
necessário mudar a maneira como se trabalha, acabando com a divisão de trabalho manual e 
trabalho intelectual, e mudando a lógica de como os produtos são produzidos e 
distribuídos. Isso só se dá no local de trabalho.

O mesmo sentido se dá ao trabalho voltado para a prestação de serviços, como saúde e 
educação. Para reorganizá-los numa perspectiva igualitária e livre, é preciso reformulá-lo 
dentro do próprio ambiente de trabalho. Tudo sendo planejado e executado pelo conjunto 
dos/ das trabalhadores/as. Obviamente que a reorganização desse trabalho deve ser feita em 
sintonia com as demandas do bairro e da cidade.

Bookchin prossegue, afirmando que a fábrica ao destruir o trabalho artesanal acabou a 
possibilidade de um trabalho mais positivo, mais próximo das ideias comunitárias. Virou 
uma padronização dos operários, uma nova fórmula de escravidão.

De fato, o ambiente fabril, estruturado numa sociedade de classes, reproduzirá a 
desigualdade e é extremamente opressor. No entanto, não podemos desprezar que a seria 
impossível para sociedade se manter hoje, mesmo em outra perspectiva societária, sem uma 
produção industrial. Se o capitalismo trouxe a degradação ambiental, desperdício de 
recursos e exclusão social, a produção fabril nos permite produzir para 7 bilhões de 
pessoas no mundo. Hoje a distribuição do que é produzido é desigual, mas o fato é que 
existe produção para todos, mesmo que os produtos não cheguem a atender a necessidade do 
conjunto, mas apenas de alguns. Não seria possível alcançar essa produção em escala 
artesanal. Tampouco podemos acreditar, como defende Bookchin, que a tecnologia permitiria 
livrar a humanidade totalmente do trabalho material.

Para nós, a luta por uma nova sociedade será feita no dia a dia do trabalho e da vida 
cotidiana. Pensamos uma sociedade federada em locais de moradia e de trabalho. Nisso 
Bookchin erra e deixa a desejar, não anulando sua belíssima contribuição com a discussão 
da cidade.

Ficamos nesse ponto com Bakunin, que fala que a humanidade se diferencia dos demais 
animais pela capacidade do trabalho inteligente e da fala. Somos homens e mulheres porque 
trabalhamos. Nenhuma mudança social será feita se desprezar esse espaço fundante da 
humanidade.

A Revolução de Rojava e o Municipalismo Libertário

Existe em uma parte do Oriente Médio uma população dispersa entre alguns países: a 
população curda. Tem seu direito de soberania popular negado há muito tempo. Durante a 
guerra civil na Síria e o recente avanço do Estado Islâmico, o povo curdo, que já luta por 
sua liberdade há décadas, se organizou de maneira inusitada na fronteira da Síria com a 
Turquia, numa região chamada Rojava. Milícias guerreiras da Unidade de Proteção Popular 
(YPG/YPJ) travaram combates ferrenhos contra a selvageria ignorante do Estado Islâmico e 
com seus próprios esforços conseguem o que Estados da região tiveram dificuldade de fazer: 
barraram o avanço do Estado Islâmico na cidade de Kobani.

Momento único na história recente da humanidade, não pela derrota imposta militarmente, 
mas, principalmente, por como foi feito isso e o que ocorreu depois. É o que queremos 
destacar. O protagonismo da mulher, nesse processo, tem sido uma força decisiva. 
Planejando, cuidando da cidade e participando dos combates aos facínoras do Estado 
Islâmico. Mulheres que sofrem bem mais com o avanço de ideias ultra machistas e 
totalitárias e que souberam dar a resposta.

Sobre a orientação do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) se vive uma nova forma 
de vida nessa localidade, com todas as dificuldades que uma realidade de guerra impõe. 
Incríveis semelhanças com Barcelona da Guerra Civil espanhola de 1936. O PKK deu uma 
guinada na sua orientação teórica ao adotar o Municipalismo Libertário como uma das suas 
orientações para reconstruir sua vida em sociedade. Tem conquistado a população de Kobani. 
Organização de assembleia por bairros, controle da própria população sobre suas vidas no 
que se é chamado de Confederalismo Democrático.

Auto declarados anti-estatistas e anti-capitalistas esse movimento tem uma dura tarefa 
pela frente: combater um inimigo feroz por um lado e reconstruir uma vida social sobre 
novos parâmetros. Suas ideias, obviamente, não agradam as fossas hegemônicas do Oriente 
Médio e nem ao sistema capitalista internacional. Nossa solidariedade às mulheres e homens 
curdos em luta. Eles mostram que um novo mundo é possível.
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http://www.anarkismo.net/article/28346


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