(pt) Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares - BOLETIM CAZP #JUL 2015 - Bookchin e o Municipalismo Libertário

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Sexta-Feira, 17 de Julho de 2015 - 18:38:49 CEST


O anarquista norte-americano Murray Bookchin defendia uma nova forma de sociedade baseada 
na reinvenção da construção dos espaços de convívio, de moradia e de construção de nossa 
sociabilidade. Chamava de Municipalismo Libertário sua proposta. Trata-se de uma proposta 
de organização política da cidade baseada na democracia direta em oposição à lógica 
representativa do Estado que tira da coletividade seu poder de decisão, sempre delegando a 
uma minoria aliada aos interesses capitalistas ou incapaz de ultrapassar estes interesses. 
---- Na compreensão de Boockin, tornar os sujeitos ativos nas decisões, chamando para si a 
capacidade de planejar e executar as tarefas do dia a dia da cidade é formar sujeitos 
críticos que passam a ver que a sua vida depende do bem-estar do coletivo, que suas 
decisões têm que ir para além do egoísmo individualista para ela mesmo ter sentido. Isso 
não é possível numa sociedade desigual, por isso o municipalismo libertário concebe o fim 
das classes sociais e a gestão da cidade pelos seus próprios moradores.

Acreditamos que resgatar essas ideias do municipalismo libertário colabora bastante no 
atual debate das discussões do direito a cidade e colabora muito na tentativa de se aliar 
as lutas imediatas a luta por uma nova sociedade. Porém uma crítica ao pensamento de 
Bookchin é extremamente importante. Para ele a categoria do trabalho está ultrapassada. A 
luta por uma nova sociedade não passaria pela luta construída pelo local de trabalho, 
senão apenas pelo local de moradia.

Para nós, anarquistas, o anarquismo sempre esteve junto a organizar os trabalhadores a 
partir das contradições vivenciadas no local de trabalho. Inclusive foi na militância 
sindical que os anarquistas tiveram mais expressão social. A desigualdade da sociedade se 
dá, sobretudo, na distribuição desigual da riqueza material e imaterial produzida pela 
humanidade. Para reformulá-la de maneira a apontar para uma sociedade sem classe, é 
necessário mudar a maneira como se trabalha, acabando com a divisão de trabalho manual e 
trabalho intelectual, e mudando a lógica de como os produtos são produzidos e 
distribuídos. Isso só se dá no local de trabalho.

O mesmo sentido se dá ao trabalho voltado para a prestação de serviços, como saúde e 
educação. Para reorganizá-los numa perspectiva igualitária e livre, é preciso reformulá-lo 
dentro do próprio ambiente de trabalho. Tudo sendo planejado e executado pelo conjunto 
dos/ das trabalhadores/as. Obviamente que a reorganização desse trabalho deve ser feita em 
sintonia com as demandas do bairro e da cidade.

Bookchin prossegue, afirmando que a fábrica ao destruir o trabalho artesanal acabou a 
possibilidade de um trabalho mais positivo, mais próximo das ideias comunitárias. Virou 
uma padronização dos operários, uma nova fórmula de escravidão.

De fato, o ambiente fabril, estruturado numa sociedade de classes, reproduzirá a 
desigualdade e é extremamente opressor. No entanto, não podemos desprezar que a seria 
impossível para sociedade se manter hoje, mesmo em outra perspectiva societária, sem uma 
produção industrial. Se o capitalismo trouxe a degradação ambiental, desperdício de 
recursos e exclusão social, a produção fabril nos permite produzir para 7 bilhões de 
pessoas no mundo. Hoje a distribuição do que é produzido é desigual, mas o fato é que 
existe produção para todos, mesmo que os produtos não cheguem a atender a necessidade do 
conjunto, mas apenas de alguns. Não seria possível alcançar essa produção em escala 
artesanal. Tampouco podemos acreditar, como defende Bookchin, que a tecnologia permitiria 
livrar a humanidade totalmente do trabalho material.

Para nós, a luta por uma nova sociedade será feita no dia a dia do trabalho e da vida 
cotidiana. Pensamos uma sociedade federada em locais de moradia e de trabalho. Nisso 
Bookchin erra e deixa a desejar, não anulando sua belíssima contribuição com a discussão 
da cidade.

Ficamos nesse ponto com Bakunin, que fala que a humanidade se diferencia dos demais 
animais pela capacidade do trabalho inteligente e da fala. Somos homens e mulheres porque 
trabalhamos. Nenhuma mudança social será feita se desprezar esse espaço fundante da 
humanidade.

https://cazp.wordpress.com/2015/07/08/boletim-cazp-jul-2015/


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