(pt) Declaração do Movimento Antiautoritário de Tessalônica sobre o referendo na Grécia

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Quarta-Feira, 8 de Julho de 2015 - 14:50:48 CEST


Nossa sociedade está chamada hoje a manejar uma situação excepcionalmente crítica. As 
instituições do governo já não podem apresentar soluções a uma crise que, como um câncer, 
está destruindo o tecido social, enquanto que está cada vez mais claro que a sobrevivência 
do sistema só pode ser conseguida sacrificando a própria sociedade. A situação criada pelo 
capital financeiro internacional e as instituições do Estado que o reforçam nos levam a um 
ritmo acelerado à imposição de um totalitarismo contínuo enquanto o estado de exceção se 
converteu no estado normal do novo governo. ---- Grécia está, claro, incluída neste 
experimento. Obedecendo as desdenhosas ofertas das instituições, o governo de Syriza 
decidiu realizar um referendo "como uma forma de continuar a negociação através de 
diferentes meios". Isto prova sem dúvida a incapacidade de alcançar "um compromisso de 
honra" que foi promovido ruidosamente como a melhor solução até pouco tempo. Seguindo os 
passos do dogma Thatcheriano "não há alternativa", esta imposição dos termos do "realismo" 
conduz à passividade social e a uma tentativa de escravizar a vida mesma. Este "realismo" 
de empobrecimento contínuo, de desemprego, de desesperança, do abandono definitivo de 
qualquer possibilidade de conseguir a felicidade, de guerra e de repressão, se distancia 
muito de nosso sentido da lógica. A sociedade não só necessita ver o que há detrás das 
portas fechadas da câmara de tomada de decisões, também necessita mover-se para rompê-las.

A dissolução das promessas do capitalismo, a incapacidade para criar uma narrativa que dê 
algumas perspectivas para o sistema, as guerras civis que começam com uma facilidade 
incrível e redesenham fronteiras e os acordos construídos em convenções internacionais 
após a guerra, levam a mesma conclusão: o estado não pode determinar durante mais tempo as 
regras que governam nossas vidas. Este é o estado que Syriza quer gestionar hoje. Syriza, 
no entanto, quer fazê-lo utilizando todas essas ideias de dominação que até pouco tempo 
levaram ao colapso o sistema que as nutriu. Syriza não tentou destruir a ideologia de 
progresso, conservou totalmente a ideia de crescimento, continua falando da reconstrução 
produtiva do país, levando-o a uma situação com duvidoso resultado.

O referendo proposto por Syriza não tem relação com os princípios de democracia direta, já 
que tentam usá-lo como instrumento para aplicar pressão ao diretório europeu. O referendo 
proposto não contempla o intercâmbio de opinião, a discussão e o debate com a participação 
da sociedade; pelo contrário, ao ser promulgado pelo poder governante, apresenta a questão 
de acordo com suas próprias ideias, buscando um novo acordo por um conteúdo no qual a 
sociedade não joga nenhum papel.

Hoje necessitamos uma renovação em nossa devoção aos valores de uma política diferente 
para uma construção social usando a democracia direta, a auto-organização e a contínua 
criação de instituições próprias que destruam o conceito "não há alternativa" e acabem com 
a obediência cega a uma ideia sem fim e sem sentido da economia. A nova reconstrução 
produtiva não pode estar baseada na ideia de crescimento senão na negação total e absoluta 
do modelo de reconstrução capitalista, na autogestão, nas estruturas cooperativas e na 
possibilidade das pessoas para decidir sobre suas próprias vidas. Não nos importa uma 
moeda que fará parte de um renascimento nacional e, claro, não podemos apoiar uma moeda 
que faça parte da intrusão financeira em todos os aspectos de nossas vidas. Preferimos 
pensar na moeda em sua dimensão normal, como um instrumento para o intercâmbio com uma 
função principal de servir às necessidades e serviços sociais.

Posto que somos parte do movimento para uma ruptura social real com a ditadura financeira 
internacional (movimento que nega qualquer ideia de uma política com o fim de por em seu 
lugar a gestão de quantidades monetárias como a principal relação social), nós devemos a 
nós mesmos o participar na busca de maneiras que conduzam até dita ruptura.

Hoje, sob as condições atuais e em tempo real, não podemos permanecer indiferentes ante a 
polarização que se está produzindo em vista do referendo.

Por um lado, o voto no SIM é cair definitivamente na armadilha das normas e regulamentos 
do diretório, que compõem uma escravidão a longo prazo para uma sociedade assombrada e 
derrotada, que será requerida para levar o peso de sua própria humilhação e estabelecê-la 
como a nova regularidade. Por outro lado, o voto no NÃO está limitado de toda maneira 
possível pelo governo aos termos e condições de um novo acordo, e exemplos dele estão já 
incluídos no documento de 47 páginas, aludindo ao mesmo tempo ao sentido de dever 
patriótico, facilmente digerível e utilizado em todas as ocasiões.

Esta polarização, no entanto, ultrapassou os cálculos e intenções do governo e, em 
consequência, a mesma pergunta do referendo. Este ataque total proveniente do diretório 
estrangeiro e do sistema dos que estão dispostos a utilizar os meios como ariete, 
radicalizou os termos da pergunta a SIM ou NÃO à UE e ao euro. Todas as ações que conduzem 
à asfixia econômica se fizeram com ameaças e ultimatos de ajuste econômico público.

O esforço do governo de Syriza de combinar as necessidades sociais com a grande força do 
dinheiro alcançou seus limites, mostrando claramente que "duas melancias não cabem em uma 
mesma axila", como dizemos em grego. Não se pode subir em dois barcos diferentes, como fez 
Syriza durante seus anos na oposição.

No domingo, sem importar o resultado e assumindo que a pergunta siga sendo a mesma, o voto 
do NÃO não é facilmente manejável para quem se comprometeu a apoiá-lo e pode superar 
facilmente os cálculos e as intenções do governo. O fato de usar o voto do NÃO e incluí-lo 
nos termos de sua negociação com o diretório mostra a grande dificuldade de gestionar este 
voto.

A polarização resultante abre caminhos de libertação e criação de uma dinâmica social que 
não foram previstos, mas que podem adiantar em múltiplas formas as possibilidades 
oferecidas pelos movimentos sociais nos últimos anos. Estes movimentos estavam asfixiados 
até agora, ou haviam dado um passo atrás frente à dinâmica da representação, o dever e a 
esperança. Esta é a oportunidade que se apresenta aos movimentos para tomar parte na 
batalha, não só simbolicamente, substancialmente, levando de maneira autônoma e sem chefes 
o peso e a responsabilidade da guerra contra o totalitarismo do dinheiro, que para esses 
chefes não só representa valor comercial: é considerado o equivalente às relações humanas 
e à vida mesma.

Não podemos permanecer a margem ou ser neutros frente a esta possibilidade oferecida aos 
movimentos e vinda da polarização já que estivemos, estamos e estaremos ali onde o que é 
livre, público e social vá contra o mercado e o estado.

Movimento Antiautoritário de Tessalônica

Fonte:

http://ak2003.gr/%CE%91%CE%BD%CE%B1%CE%BA%CE%BF%CE%B9%CE%BD%CF%8E%CF%83%CE%B5%CE%B9%CF%82/2015-07-02-18-29-10.html

Tradução > Sol de Abril

http://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2015/07/04/declaracao-do-movimento-antiautoritario-de-tessalonica-sobre-o-referendo-na-grecia/


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