(pt) anarkismo.net: Grécia: Entre a democracia direta e a rendição diante da chantagem promovida pela delinquência financeira by BrunoL

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Segunda-Feira, 6 de Julho de 2015 - 11:34:52 CEST


"Neste momento e observando de longe, podemos ver um tabuleiro complexo onde aceitar a 
proposta absurda da Troika é vista como capitulação do gabinete de Tsipras e pode corroer 
a base de legitimidade da nova esquerda eleitoral europeia. Isto implica uma ampliação de 
espaço mais à direita e uma urgência organizativa da esquerda radicalizada grega, cuja 
capacidade de combate é muito elevada", escreve Bruno Lima Rocha, professor de ciência 
política e de relações internacionais. ---- A força dos gregos está nas ruas e não nas 
urnas. Se o Syriza é o reflexo eleitoral de uma pré-disposição de luta dos gregos após a 
ditadura de 1974, este caldo de cultura vem num crescente desde a rebelião popular de 
libertária de outubro de 2008. ---- Segundo ele, "a força dos gregos está nas ruas e não 
nas urnas. Se o Syriza é o reflexo eleitoral de uma pré-disposição de luta dos gregos após 
a ditadura de 1974, este caldo de cultura vem num crescente desde a rebelião popular de 
libertária de outubro de 2008. Nas ruas das maiores cidades gregas, as bandeiras negro e 
vermelhas ganham de lavada das bandeiras eleitorais".

"Os delinquentes financeiros - conclui - são a plutocracia de fato a governar as maiores 
economias do planeta, incluindo a brasileira. Qualquer revés que esta máfia planetária - 
plutocracia globalizada - sofra é uma significativa vitória para a cidadania em todo o 
planeta".

Eis o artigo.

O caso da Grécia é exemplar e cabe uma análise mais prolongada, cuja versão sintética 
trago neste texto. Dentre as manobras e chantagens institucionais da Troika europeia 
(Banco Central Europeu - BCE; Comissão Econômica Europeia - CEE e Fundo Monetário 
Internacional - FMI) e as vacilações do Syriza, precisamos começar por identificar o que é 
prioritário para emitir opinião à distância e interpretar o fenômeno que pode servir de 
base para os países que vivem diante da espoliação rentista.

Agora, o mais relevante é afirmar a soberania popular da cidadania grega acima dos 
desígnios ditatoriais da Troika europeia sob o governo dos especuladores de sempre. Este é 
o ponto mais importante, mesmo que a consequência seja sair da Zona Euro a aceitar o 
austericídio contra o próprio povo. O "detalhe" analítico nunca realçado pela cobertura 
midiática de sempre é a origem desta condição de defender a própria vontade.

A força dos gregos está nas ruas e não nas urnas. Se o Syriza é o reflexo eleitoral de uma 
pré-disposição de luta dos gregos após a ditadura de 1974, este caldo de cultura vem num 
crescente desde a rebelião popular de libertária de outubro de 2008. Nas ruas das maiores 
cidades gregas, as bandeiras negro e vermelhas ganham de lavada das bandeiras eleitorais. 
Nas urnas, o povo agora finalmente vai decidir o seu destino (dia 05 de julho, marcado, 
quase cancelado e mantido finalmente), indo a um referendo para dizer se aceita ou não os 
absurdos do Banco Central Europeu.

Parece quase inevitável afirmar o "risco" que tal consulta popular implica. O senso comum, 
mesmo quando assustado pela possibilidade de sair da Europa, é outro. É dito e repetido 
"que a dívida e a crise paguem os especuladores e delinquentes financeiros, a começar pelo 
próprio Mario Draghi, presidente do BCE e ele próprio um homem da Goldman Sachs Europa". O 
destino da democracia está lançado nas urnas deste bem vindo referendo.

A possível capitulação do Syriza através do gabinete de Alexis Tsipras

O dia 1º de julho vai ser um marco na história da política contemporânea, no período 
pós-pós Guerra Fria. O governo Tsipras retomou a possibilidade de simplesmente aceitar - 
ou aceitar voltar a negociar - a proposta de acordo vinda do BCE e da Comissão Econômica 
Europeia, a mesma que tanto seu gabinete, como Paul Krugman, Joseph Stiglitz e outros 
arrependidos da globalização corporativa e financeira disseram que era insuportável. 
Krugman afirmou que os fantasistas de sempre são os maiores adversários da macroeconomia 
defendida por aqueles que, para além dos modelos formais, defendem que a economia (mesmo a 
capitalista) também opere para prover os bens e serviços para as pessoas comuns. O impasse 
está lançado, pois até o último final de semana de junho, Tsipras e o Syriza apostaram no 
referendo, cuja vitória para o NÃO ao acordo maldito sairia vitorioso.

Em 1º de julho (de manhã no Brasil e tarde na Europa) o referendo estaria com 
possibilidade de suspensão e o FMI e a Comissão Europeia dizem que caso a Grécia acate o 
que dissera ser impossível de acatar no sábado, os termos e as condições do contrato 
seriam ainda mais draconianas. Obviamente que tanto a mídia corporativa eletrônica 
internacional como seus reprodutores brasileiros seguem a mesma cartilha tentando isolar a 
questão, tratando- a como técnica. Curiosamente, a vacilação de Tsipras tampouco foi 
comentada por seus apoiadores do Brasil. Para seguir no debate, algumas mentiras precisam 
ser desconstruídas:

- conforme comentou o professor Benedito Tadeu César, sim, há vida após a renegociação da 
dívida odiosa (este é um termo empregado para a auditagem da dívida, do 
super-endividamento), e assim foi a recuperação argentina após o calote ao FMI em 2003;

- não há governo iluminado ou qualquer tipo de pretensa "vanguarda responsável" que supere 
a soberania popular, portanto, em questões de fundo quem deve decidir é a cidadania e não 
os representantes transitórios;

- por mais que a composição de gabinete do Syriza seja um passo interessante, esta não 
substitui a capacidade das ruas gregas se manifestarem; a cultura política grega é de 
confronto e à esquerda do Syriza existem mais de 200.000 gregos dispostos a tudo (e isto 
falando somente de Atenas). É esta a garantia de uma governança popular para além dos 
governos de turno ou dos gabinetes transitórios;

- se à esquerda do Syriza existe um bloco difuso e libertário - hegemonizado pelo 
movimento AKAP - à sua direita há uma extrema-direita (Golden Dawn - Aurora Dourada) e 
também a ex-direita fascista ND (Nova Democracia). Se houver uma composição destas duas 
forças, a saída grega pode caminhar para um conflito de proporções absurdas, considerando 
que o Pasok ganhou as eleições de 2009 com 77% dos votos e traiu absolutamente a confiança 
dos votantes social-democratas, que migraram para o Syriza;

Neste momento e observando de longe, podemos ver um tabuleiro complexo onde aceitar a 
proposta absurda da Troika é vista como capitulação do gabinete de Tsipras (segundo as 
palavras da CNN, pronunciadas no exato momento em que escrevia esta nota) e pode corroer a 
base de legitimidade da nova esquerda eleitoral europeia. Isto implica uma ampliação de 
espaço mais à direita e uma urgência organizativa da esquerda radicalizada grega, cuja 
capacidade de combate é muito elevada.

Infelizmente, e temos de constatar isto, as formas de organização do tecido social pela 
base estão longe das necessidades de seu povo. Tampouco há um aliado organizado no campo 
político. Tal como a Esquerda Unida de Espanha (IU, frente política do Partido Comunista 
de Espanha e hegemônico na central sindical CCOO) nada se pode esperar do maior partido 
stalinista da Europa, o KKE grego, pois esta agremiação se vê "traída" por seu eleitorado 
e atropelada pelas urnas com o Syriza e nas ruas pelo bloco libertário.

Negar a proposta da Troika e aprovar esta negação com a legitimidade do referendo seria a 
melhor saída para a Grécia, ainda que traumática no curto prazo. Parece que mais uma vez 
"nós" temos razão, e esta razão é afirmar que a política profissional é uma fábrica de 
traidores de classe e povo. Parece - e sinceramente espero estar errado - que o governo de 
Alexis Tsipras estaria entrando nesta lista maldita na primeira semana de julho de 2015. 
Não foi o que se sucedeu completamente, embora o duplo discurso realmente confunda a 
relevante parcela dos cidadãos gregos que estão dispostos a garantir a soberania popular 
por todos os meios necessários.

A tragédia grega em tempo real - a noite de 1º de julho

Ao que parece o gabinete de Tsipras deu-se conta de que ia perder em Bruxelas (pelas 
medidas impagáveis do austericídio) e nas ruas da Grécia. Após flertar com o aceite 
(renegociado) de um acordo que o próprio governo grego disse no sábado que era impossível 
de ser acatado, Tsipras mandou um comunicado oficial para a Comissão Econômica Europeia 
dizendo que aceitaria os termos "re"-negociados pelo FMI. Se cumprido fosse este acordo, 
as condições draconianas aumentariam o índice de desemprego da Grécia, que supera 25% da 
população com potencialidades laborais e atinge mais de 40% para os jovens e adultos com 
menos de 30 anos. No início da tarde-noite europeia, Tsipras afirmara novamente tudo ao 
contrário, garantindo a realização do referendo de domingo e convocando pelo NÃO ao aceite 
da indecorosa proposta do FMI que ele mesmo disse que era impossível de assinar e que 
horas atrás avisava da chance de assiná-la. De novo repito o óbvio:

- A Grécia foi roubada por dentro, no governo da Nova Democracia (2004-2009) quando 
contratou a Goldman Sachs Europa para uma assessoria econômica especial e teve seus 
balanços fraudados;

- Nos gastos para a realização dos Jogos Olímpicos de 2004, a Grécia ultrapassou os 
limites de gastos presumíveis e pendurou as finanças do país no céu, facilitando a vida 
dos especuladores imobiliários (incluindo uma série de incêndios florestais criminosos) e 
dos grandes contratistas do Poder Executivo;

- Depois a Grécia foi novamente roubada em 2010, quando assinou um contrato de 
endividamento através da compra de papéis podres, sendo coagida a privatizar empresas 
públicas, vendê-las a preço irrisório e contrair um endividamento impagável;

- Em fevereiro de 2010 a Grécia foi posta contra a parede com um ataque especulativo 
articulado por predadores do mercado financeiro de Wall St, ataque este publicado no 
próprio Wall Street Journal cujo repórter que compareceu à reunião dos predadores, postara 
a nota 18 dias após o ocorrido!;

Antes do Syriza ganhar no voto, as camadas sociais organizadas da Grécia ganharam a 
legitimidade nas ruas e asseguraram um estado de revolta permanente catapultado pela 
rebelião de 5 semanas ocorrida após o assassinato - em um outubro de 2008 - de um jovem de 
15 anos pela polícia anti-distúrbios (MAT). Esta corporação repressiva é totalmente 
infiltrada por setores fascistas ainda remanescentes da ditadura dos coronéis e base 
eleitoral do Golden Dwan, Aurora Dourada, partido neofascista da Grécia. A boa notícia é 
que o apoio da Aurora Dourada vem diminuindo - pela derrota nas urnas e por suas seguidas 
perdas de espaço de legitimidade e ação nas ruas - enquanto as propostas à esquerda se mantêm.

O epicentro da solução grega seria agora, mostrando ao mundo que não tem sentido algum em 
praticar a democracia indireta se as decisões fundamentais forem totalmente opostas ao 
interesse da maiora não passarem por escolha direta da maior parte da população.

"Maria Lucia Fattorelli [1] - 28/06/2015

A Grécia está enfrentando um tremendo problema de dívida pública e uma crise humanitária. 
A situação atual é muitas vezes pior do que a de 2010, quando a Troika - FMI, Comissão 
Europeia e Banco Central Europeu - impôs seu "plano de resgate" ao país, justificado pela 
necessidade de apoiar a Grécia. Na realidade, tal plano tem sido um completo desastre para 
a Grécia, pois o país não tem obtido absolutamente nenhum benefício com os peculiares 
acordos de dívida implementados desde então.

O que quase ninguém comenta é que um outro exitoso plano de resgate foi efetivamente 
implementado naquela mesma época em 2010, não para a Grécia, mas para os bancos privados. 
Por trás da crise grega há um enorme e ilegal plano de resgate de bancos privados. E a 
forma pela qual tal plano está se dando representa um imenso risco para toda a Europa.

"Depois de cinco anos, os bancos conseguiram tudo o que queriam. Por outro lado, a Grécia 
mergulhou numa verdadeira tragédia: o país aprofundou gravemente seu problema de dívida 
pública; perdeu patrimônio estatal à medida em que acelerou o processo de privatizações, 
assim como encolheu drasticamente sua economia. Pior que tudo, tem amargado imensurável 
custo social representado pelas vidas de milhares pessoas desesperadas que tiveram seu 
sustento e seus sonhos cortados pelas severas medidas de austeridade impostas desde 2010. 
Saúde, educação, trabalho, assistência, pensões, salários e todos os demais serviços 
sociais têm sido afetados de forma destrutiva.

A distribuição do Orçamento Nacional da Grécia mostra a predominância dos gastos com a 
dívida sobre todos os demais gastos estatais. De fato, os gastos com o pagamento de 
empréstimos, outras obrigações de dívida, juros e outros custos absorvem 56% do orçamento 
estatal:" Maria Lúcia Fatorelli

Conclusão anterior ao resultado do referendo

É perfeita a observação de Maria Lúcia Fatorelli - coordenadora do excelente projeto 
Auditoria Cidadã da Dívida e convidada pelo governo grego a auditar esta dívida odiosa - 
já publicada no IHU.

Fatorelli afirma: "A Grécia é alvo de um ataque de uma década através de manipulação de 
fatos contábeis e compra forçada de papéis podres em 2010". Insisto na tese de que é a 
reação das ruas - e os setores assim organizados - que condiciona o comportamento tímido 
do governo da nova esquerda. Espero que esta mobilização garanta o referendo de domingo e 
o vença. Como nos expõe o gráfico publicado no portal já citado, a Grécia compromete 56% 
de seu orçamento com pagamentos de obrigações e juros de uma dívida impagável e mais que 
suspeita. É inviável apertar o garrote, a não ser que a proposta da União Europeia 
implique em uma espécie de ditadura constitucional.

Nesta primeira semana de julho tive a oportunidade de demonstrar estes dados e conceitos 
em programação radiofônica da emissora pública estadual. Afirmo novamente que a Grécia foi 
dilapidada em ao menos três ocasiões e a população reagiu com a rebelião de cinco semanas 
iniciada em dezembro de 2008 e através da pressão das ruas vem freando a sanha dos 
especuladores. Sinceramente, não há como confiar 100 por cento no governo Tsipras e o 
referendo é a melhor saída, não para manter o gabinete do Syriza, mas como garantia da 
soberania popular dos cidadãos gregos.

Espero também que os novos governantes não caiam no canto da sereia do acordo de última 
hora e mantenham a consulta deliberativa para o próximo domingo dia 5 de julho. Os 
delinquentes financeiros são a plutocracia de fato a governar as maiores economias do 
planeta, incluindo a brasileira. Qualquer revés que esta máfia planetária - plutocracia 
globalizada - sofra é uma significativa vitória para a cidadania em todo o planeta.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28313


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