(pt) Federação Anarquista do Rio de Janeiro FARJ Libera #163 - Sectarismo e vanguardismo - Debatendo um problema na esquerda (en, it)

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Quarta-Feira, 21 de Janeiro de 2015 - 13:16:49 CET


O sectarismo é a intolerância com as posições, opiniões, ideologias ou práticas diferentes 
das suas ou de seu movimento, organização, grupo etc. Vem acompanhada da arrogância, 
vaidade e oportunismo, colocados acima da luta pela transformação social. Assim, uma 
prática sectária vai pautar a política pela diferença, afirmando-se pela negação e 
denuncismo do outro, buscando o conflito em vez do consenso coletivo e do debate fraterno. 
---- Quando se manifesta entre os setores da esquerda, o sectarismo é ainda mais danoso, 
pois muitas vezes a luta conjunta contra os inimigos de classe é prejudicada por uma visão 
de mundo inflexível, fanática e pouco atrativa que acaba mais por espantar o povo do que 
atraí-lo à causa revolucionária. O sectário preocupa-se mais com o que outros grupos 
políticos estão fazendo do que com os inimigos de classe dos trabalhadores.

As diferenças políticas, ideológicas e estratégicas de fato existem na esquerda, mas 
nenhum movimento social ou ideologia avançará sozinha no processo de transformação social. 
Faz parte da luta saber construir alianças, composições e articulações, com ética e sem 
que seja necessário deixar de lado os princípios e o programa estratégico, mas buscando o 
consenso coletivo pelos pontos e demandas que se tem em comum e que ajudem a fortalecer o 
povo e a alcançar os objetivos revolucionários. Uma prática política ética que respeite as 
diferenças políticas e procure sempre o fortalecimento da classe trabalhadora é o que 
diferencia uma proposta libertadora de um processo autoritário; uma meta democrática de um 
método impositivo. Práticas informais de articulação e grupos mal estruturados também 
prejudicam o caminho para o poder popular. Podem reproduzir por outras vias o 
vanguardismo, criando "lideranças ocultas" e desestimulando espaços de construção coletiva.

É preciso ter atenção, pois as relações de opressão também podem estar encarnadas na 
militância e essa prática deve ser combatida. Deve-se evitar todo doutrinamento, enfiando 
na cabeça do povo sistemas de ideias ou esquemas de ação já montados que não dialogam com 
sua realidade. O processo de construção do poder popular não é a doutrinação. Nem formas 
autoritárias de se fazer política que supõem que uma "vanguarda iluminada" saiba, fale e 
ensine, enquanto uma outra, o povo, ignore, escute, aprenda e obedeça.

Não são apenas belos discursos que convencerão o povo de sua força e capacidade de luta. 
Será sua participação concreta e efetiva na organização dos trabalhos de base, de uma 
greve, manifestação de rua, mutirão etc, em práticas coletivas que vão gerar acúmulos e 
poder popular. Tampouco é com uma bela retórica que iremos dar cabo das demandas 
populares, ao contrário, é por intermédio da participação política direta, com o povo 
organizado deliberando sobre seu cotidiano; no exercício prático com suporte de uma teoria 
voltada para a realidade e nutrida por esta. Trata-se assim de promover um avanço com o 
povo sem "idealizações" ou "ideologizações", ou simplesmente ficar soltando "programas 
máximos" de maneira a não estabelecer um diálogo com o cotidiano das pessoas. Mas sim 
traçar objetivos, construir um programa mínimo e planos de ação proporcionais às 
exigências da realidade e da prática.

Pois, quando há uma vontade de acelerar artificialmente este processo de organização, 
mesmo em nome das causas mais "revolucionárias", cria-se um descompasso perigoso que leva 
a formas estéreis de radicalismo. É querer mais do que o povo e "dar o passo maior que a 
perna". É projetar um ponto de vista ideológico sobre uma realidade, de cima para baixo, 
enxergando apenas o que se gostaria de ver e forçando o povo a fazer aquilo que se acha 
que ele deveria fazer. E muitas vezes isso vem acompanhado da exaltação de um "martírio 
militante" ou de uma "autoridade teórica revolucionária", promovendo determinadas 
vanguardas políticas.

Outra prática sectária é fazer uma ação descolada da realidade ou que não foi construída 
coletivamente e acusar de "reformistas", ou algo semelhante, os que dela não participaram. 
Ao fim, a ação visa fortalecer as vanguardas políticas e não a luta popular. Essa prática 
autoritária de forçar uma "radicalização" ou impor uma pauta externa que não foi 
construída coletivamente pode ser contraproducente e resultar em recuo. E o que parece 
"revolucionário" tem um efeito reacionário pois não tem sensibilidade com o povo e não 
quer caminhar junto com ele.

Contribui para isso a arrogância de não se analisar corretamente as possibilidades da 
conjuntura e as condições concretas da luta. Querer dogmaticamente "empurrar" o povo 
sempre para uma correlação de forças desigual é agir de forma irresponsável que causa 
prejuízos sempre para os setores menos privilegiados. Forçar o passo só leva a iniciativas 
sectárias e à divisão no meio das massas. Uma ação é revolucionária não por sua "estética 
radical", mas pelos objetivos que busca e pelo método com que foi construída e 
encaminhada. Querer que, de uma hora para outra, haja comprometimento imediato do povo em 
um processo político é colocar o trabalho de base a perder. "É melhor dar um passo com mil 
do que mil passos com um".

Todos os verdadeiros processos de poder popular começam com modéstia. Pois a luta dos de 
baixo cresce a partir dos pequenos problemas sentidos e nas possibilidades de solução, 
onde toda ação deve ser assumida pelo povo enquanto sujeito ativo. Assim, o lugar das 
organizações políticas não é atrás nem à frente, mas como são formadas pelo povo, estar em 
seu meio, para estimular, propor políticas e organicidade e colocar combustível na luta. É 
necessária uma grande sensibilidade para acompanhar e respeitar a dinâmica viva da ação 
popular no momento em que ela se processa no dia a dia, numa manifestação ou numa 
mobilização, por exemplo.

Vontade de lutar para a transformação social sim! Mas uma determinada concepção de 
trabalho e de prática política cotidiana são o diferencial que vão determinar o caráter do 
novo mundo que se busca construir. Existem outros métodos que ajudam a acelerar 
efetivamente e de maneira consequente essa caminhada do povo, como a avaliação da 
conjuntura, a promoção da articulação, o avanço na organização interna e contato com 
outros grupos e experiências, o estímulo à (auto)formação política, e a criação de um 
ambiente social e político ético e favorável a isso, com participação direta e respeito ao 
povo. Métodos e práticas dotados de princípios populares como a ação direta, autogestão, 
ética, apoio mútuo e classismo. Valores que devem estar presentes no agora para a 
construção do poder popular e da transformação social.

https://anarquismorj.wordpress.com/2015/01/17/sectarismo-e-vanguardismo-debatendo-um-problema-na-esquerda/


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